saúde,

Transmitir no Silêncio

Daniela Filipe Bento Daniela Filipe Bento Seguir 3 de junho de 2021 · 4 mins read
Estátua em rotação, gritando
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No meu último artigo (Hoje eu pensei, queria um pouquinho de euforia…) escrevi sobre como se processam, em parte, as minhas crises eufóricas e referi, também, como a depressão depressa preenche todas as células do meu corpo. É importante enquadrar e situar aquilo que sentimos. De facto, o meu sentir está a ser devorado por incertezas e oscilações permanentes no meu humor, na minha capacidade de me relacionar, na minha capacidade de manter um foco. A dificuldade em me concentrar, a dificuldade em conseguir comunicar, a dificuldade em construir um raciocínio, de refletir estão muito presentes.

Hoje é, apesar de feriado nacional, o meu primeiro dia de férias do emprego, só volto dia 14 de Junho. Sentia e sinto que estou a precisar deste momento de pausa para voltar a carregar baterias e, também, conseguir explorar os porquês de estar como estou e possíveis soluções que me ajudem a alcançar uma certa estabilidade. O facto de estarmos num processo de saída do confinamento está a causar-me alguma inquietação. Estar cansada e desmotivada na maioria do tempo não me ajuda a procurar estar de alguma forma com as pessoas no meu entorno. Por isso é como se estivesse na mesma confinada.

Transmitir que estou a ter um humor oscilante, extenuante e potencialmente perigoso não é simples. Todas as pessoas em seus momentos oscilarão o seu humor, estão mais felizes ou mais tristes. Por outro lado, no meu caso, as minhas oscilações estão entre sentir uma tristeza profunda que me leva a ficar um dia na cama sem me mexer ou agarrar numa lista de tarefas e despachá-la em menos de uma manhã – quando tenho uma semana para as fazer. Transmitir não é fácil porque não há consciência e/ou entendimento de como, pelo menos para mim, estes processos evoluem. Se não tenho o acompanhamento certo eu sei o que vem a seguir e isso é assustador.

Por vezes, até as pessoas que julgamos mais próximas, pouco ou nada sabem. Não por sua culpa, talvez nunca tivessem questionado como é ter um determinado problema de saúde mental, principalmente quando é crónico e que pode manifestar-se sem haver grande controlo. Foram muito poucas as pessoas que na minha vida me perguntaram “Como posso fazer quando sentes que estás a ter determinados sinais?”, também foram poucas as que se mexeram do seu lugar. Transmitir é um problema, transmitir é ficar em silêncio pois as nossas dificuldades são sinais de fraqueza, são sinais de incapacidade – a nossa resiliência e resistência nunca aparecem na equação. Ficar em silêncio para que ninguém note que não estamos bem porque não queremos perder as pessoas que nos relacionamos, porque não sentimos um espaço seguro para o transmitir.

Nós não somos a doença, mas ela existe, é real, está presente nas nossas vidas. Não posso ignorar a doença e o transtorno. Posso trabalhar sobre eles para ter uma vida razoavelmente estável, mas não posso magicamente fazer com que desapareçam. Uma das razões porque escrevo muito é, para além do efeito terapêutico, uma forma de fazer entender que sendo a estabilidade boa para as relações, a dureza dos ciclos e dos estados destrutivos não pode ser silenciada. Pois isto só contribui para o contínuo isolamento e para o agravar da situação.

“Pensa positivo”, “Todas as pessoas têm dias maus”, “Esforça-te”, “Vai à rua”, … nunca serão boas manifestações de ajuda, por muito bem intencionadas que sejam (pelo menos em alguns dos meus estados). Na maioria das vezes sei o que preciso, alguém que sustente uma escuta sem dar a sua opinião, que respeite e receba os meus sentires. A opinião é para quando eu a peço, esta pode-se tornar um julgamento à minha vivência. Na realidade, muitas das vezes sei já o que fazer, largos anos a lidar com tudo isto ensinaram-me que a dor vai embora, pode demorar mais ou menos, mas vai embora.

Acho que hoje acabei a escrever em tom de desabafo, um texto que peca pelo seu valor, mas que me deixa de braços abertos para receber uma escuta ativa. Sinto que apesar de me sentir num outro lugar no meu processo de saúde, ainda padeço na qualidade das relações que estabeleço. Muitas vezes não me permitindo ser em pleno, mas ser só em funcionalidade e isto é um processo extenuante. Um processo que estou tentando desconstruir e melhorar.

Um humor oscilante, uma vitalidade questionável…

Dani

Imagem: Scream - Barry Crabtree

Daniela Filipe Bento

Escrito por Daniela Filipe Bento Seguir

escreve sobre género, sexualidade, saúde mental e justiça social, activista anarco/transfeminista radical, engenheira e estudante de astrofísica