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Hoje eu pensei, queria ter um pouquinho de euforia...

Daniela Filipe Bento Daniela Filipe Bento Seguir 8 de maio de 2021 · 7 mins read
Grande tempestade com relâmpagos
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Eram 7 da manhã quando acordei, 7h20 quando me levantei. É sábado, normalmente vou à rua comprar o jornal e tomar o pequeno almoço: uma rotina que já levo fazendo há alguns anos. O espaço das rotinas tornou-se importante para mandar alguma solidez na minha sanidade. Não que não as possa quebrar, mas que existam em primeiro lugar e que me ajudem a manter alguma estrutura mental. Chego a casa e pego no caderno para escrever, o meu pensamento está em círculo, penso em alguns pesadelos que me deixam aflita: voltar a entrar numa crise, seja ela eufórica, seja ela depressiva. Os dois pólos de uma existência extrema que me assaltam de tempos a tempos.

Porém, dei por mim a pensar que gostava de ter um pouquinho de euforia. Sei que não posso ter esse pouquinho, mas pensei nisso. De repente pensei nos últimos dias e como me tenho sentido cansada, desmotivada e desconcentrada. Oscilando entre períodos de melancolia e períodos um pouco mais alegres. Dei por mim a pensar que gostava de ter um pouquinho de euforia. Queria não sentir cansaço, queria não sentir desmotivação nem desconcentração. Queria ter ideias, queria ter mais energia e vitalidade. No entanto, os anos ensinaram-me: não posso ter esse pouquinho, ainda que pense nisso.

Há alguns anos atrás, entre o período em que não estava medicada nem com acompanhamento terapêutico e o período em que comecei a tomar uma medicação que me deixa relativamente estável, os meus sentires eram novelos de várias cores intrelaçados e sem ponta visível. O meu humor oscilava mais do que uma montanha russa e entrava em consecutivas crises que duravam imenso tempo. A euforia e a depressão eram sinónimo de “eu”. Eu era assim, não estava doente. Eu era assim. Eu era essa montanha russa e, sendo eu, também não detectava sinais nenhuns que se pudessem relacionar com doença… eu não sabia o que era essa doença.

Os estados de euforias são muito diversos e eu, hoje, tenho algumas ferramentas para entender quando o meu corpo começa a voar. Da mesma maneira, entendo quando o meu corpo fica de baixo da terra. Não quer dizer que consiga evitar todas as crises, mas consigo actuar mais depressa e procurar a ajuda necessária, seja na rede de proximidade, psicóloga ou psiquiatra. Foi e continua a ser um caminho de atenção permanente, onde nenhum detalhe do meu sentir pode ser ignorado. O pânico de entrar em algum destes momentos outra vez, atira-me para o limiar de voltar a ter um episódio.

A euforia, na minha experiência, passa sempre por uma destruição considerável do meu eu. No princípio, de uma forma mais lenta, o meu vício em trabalho fica muito mais notório, não consigo parar de executar, os dias deixam de ter 16 horas, mas passam a ter 22h… as duas horas que sobram servem para ir correr. O dormir e comer passam a ser bens não essenciais e por isso não existem. O meu discurso começa a ter um ritmo desproporcional, consigo falar de muitos assuntos num curto espaço de tempo, com ideias muito vividas e interessantes (na visão que tenho no momento). A minha mente está activa, sinto-me bem, realmente bem. Uma felicidade tão profunda quanto o céu profundo. O medo desaparece, o risco aumenta. Leio muito, decoro tudo… faço raciocínios que nunca faria de outro modo, escrevo imensas reflexões sobre o mundo. Sinto-me inteligênte, sinto-me capaz de resolver os mais difíceis problemas da matemática (e cheguei a tentar….), sinto que posso resolver crimes (também cheguei a tentar…), posso resolver o mundo. Eu tenho a solução para o mundo. Gosto de arriscar, andar mais rápido, conduzir mais rápido, desejo adrenalina a todo o momento. Estou a viver outro mundo. Um mundo onde eu sinto que existo, onde sinto que sou suficiente, onde sinto que faço parte. Fixo-me em todos os detalhes, nada me escapa, sentidos fortemente apurados. Sou a pessoa mais apaixonada do mundo e, principalmente, apaixonada por mim. Estas são apenas algumas das coisas que me acontecem quando começo a escalada eufórica… porém… ao fim de alguns meses de uma vitalidade muito acima do normal, o meu corpo começa a exigir mais… muito mais. Este estado não chega, esta vitalidade deixa de chegar, não é suficiente para alimentar a minha vida. Preciso de mais. Estou no topo do universo, mas não chega, o meu corpo exige ser o criador do universo e de todos os outros universos. É neste momento que a minha mente dá um salto e, como a realidade não chega, procura mais fora dela. Nesse momento o mundo transforma-se, consigo ler os pensamentos das pessoas, ouvir tudo o que elas dizem dentro da carroagem do metro ou na rua, sinto que posso falar com todo o mundo usando apenas o cérebro, enviar mensagens. Começo a ver coisas que não existem, começo a ouvir muitas vozes e a falar alto durante muito tempo com essas vozes. As pessoas passam todas a ser uma ameaça, todos os seus movimentos indicam que vão exercer violência sobre mim, que se vão juntar todas e me torturar. Estou hiper sensitiva. As minhas lógicas, os meus raciocínios ficam deturpados e contas de 1+1 (literalmente) passam a ser a solução para qualquer problema em matemática. A minha voz desaparece, deixo de conseguir falar e, aos poucos deixo de conseguir escrever e o meu corpo começa a deixar de funcionar. Deixo de saber estar no mundo e vivo noutra realiade. Fico louca. Estou psicótica.

Se estou no céu, no topo do universo, logo a seguir caio, a gravidade espalma-me contra o vazio. Passado meses de euforia e bem estar, só quero morrer. Só quero morrer sem deixar qualquer rasto de existência. Fico obsecada com a morte. A tristeza atinge-me com uma força imensa e fico paralisada… não mexo, não saio da cama, não como, não durmo. Escondo-me do mundo. A chama da vida apagou-se por completo. Posso andar mais de um mês com a mesma roupa, não limpo a casa, não tomo banho, não me consigo organizar, não consigo ler três palavras e lembrar-me da primeira… A vida deixou de valer a pena. Nada faz sentido, abandono tudo o que gosto. Até as amizades. Sinto-me terrível, sinto-me a pior pessoa do universo. Nada, mas nada é suficiente e eu nunca sou suficiente. A dor passa a ser o único sítio onde me sinto bem. Este salto é chocante, é como ter a luz ligada debaixo de um sol ardente e depois desligar a luz e o sol passar a ser um buraco negro que suga tudo o que se tem.

Hoje eu pensei, queria ter um pouquinho de euforia. Mas sei que não posso ter esse pouquinho. A medicação que tomo há alguns anos estabilizou-me, as minhas crises também são mais leves e mais espaçadas. A terapia tem-me ajudado a entender o funcionamento da minha mente e de como posso construir uma vida positiva sem me destruir. Têm sido factores determinantes na manutenção da minha sanidade, bem como, ter construído uma rede de proximidade mais sólida. Era-me difícil manter relações estáveis, hoje reconheço isso de uma forma muito clara.

Quero acreditar que são apenas uns dias menos bons, mas de todas as formas, para mim é significativo sentir que preciso de um pouco mais vitalidade. Faz-me indagar nos porquês, no como e no quando. Dá-me um espaço para aprender um pouco mais sobre mim e entender as minhas dinâmicas em momentos de estabilidade.

É um facto: quando se vive muitos anos em penhascos e escarpas, entender a planície demora o seu tempo.

Dani

Imagem: #storm - Lucas Sabena

Daniela Filipe Bento

Escrito por Daniela Filipe Bento Seguir

escreve sobre género, sexualidade, saúde mental e justiça social, activista anarco/transfeminista radical, engenheira e estudante de astrofísica