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Ano 2020, em revisão...

Daniela Filipe Bento Daniela Filipe Bento Seguir 16 de janeiro de 2021 · 4 mins read
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Já entramos em 2021, deixamos para trás um ano de imensas mudanças estruturais e imensas mudanças de hábitos. Nada em 2019 indicava vir a ter um ano assim.

Entrava em 2020 em recuperação de uma crise depressiva, um período no qual enchi folhas de textos.

“Hoje acordei de manhã com vontade de escrever, não aqui, mas nos meus cadernos. Uma vontade súbita de transcrever uma série de sentimentos que me atingiam a alma. Perguntas, respostas, incertezas, certezas e sentires.”

O ano seguia o seu início e senti-me mais forte, mais capaz de enfrentar os desafios que aí vinham. Era um período de mudanças estruturais internas profundas, queria continuar a melhorar, queria continuar a aprender sobre mim: mais e mais.

“É dia de retornar, mas também é dia de recomeçar. Novas propostas, novos fazeres, novos objectivos. É dia de retomar, mas também é dia de restaurar. Controlo, estabilidade, aprendizagem. É dia de me encontrar e de me reencontrar. É dia. É dia. É dia de viver de novo.”

Ao mesmo tempo, passava por períodos de reflexão interna sobre como a minha condição enquanto pessoa trans fazia-me gerir o mundo de forma diferente.

“Durante anos e anos, experimentei, experimentei sozinha para significar o que me estava a acontecer. Quis ter a certeza do que sentia, se era transponível na minha realidade ou se era algo mais. Ao mesmo tempo, as constantes crises e oscilações entre períodos maníacos, hipomaníacos e depressivos não me deixava tirar grandes conclusões sobre os meus sentires. Tudo se misturava, as crises identitárias levavam-me a crises de saúde e vice-versa. Até aos 28 anos a instabilidade era enorme.”

Chegou o 8 de Março e a violência que se sente por, muitas vezes, como mulheres trans não sermos incluídas e respeitadas em alguns espaços feministas, negando-nos a nossa natureza, negando a nossa existência. Foi a última manifestação a que fui em vários meses: chegava a pandemia.

“Porém, quando falamos em sororidade, de quem falamos? Numa batalha que se tem vindo a verificar dura, mulheres trans e outras identidades dissidentes continuam na penumbra, invisibilizadas por um movimento que as exclui, segrega. É num contexto de grande perigosidade que vemos aparecerem cada vez mais movimentos trans-excludentes, manifestando-se publicamente contra pessoas trans, deturpando acontecimentos e argumentos. Usando falácias e populismos para incentivar o ódio e perpetuar a discriminação de um grupo que já é bastante ostracizado pela sociedade em geral.”

Com o tempo de quarentena, vêm também as reflexões sobre as diferenças sociais e as dificuldades que muitas pessoas têm sentido durante estes meses e que eu não tenho sentido por ter um trabalho estável que me permite estar em casa.

“Para que eu possa estar em casa, no meu processo de quarentena, muitas pessoas estão a manter a cidade nos seus mínimos. Continuo a poder ir à loja comprar o que me falta em casa, continuo a poder ir buscar comida para os meus gatos, continuo a poder arranjar, se necessário, o meu microondas, continuo a ter Internet, televisão, água, gás, luz. Todos serviços que estão a ser assegurados por alguém. Muitas vezes esse alguém em condições não dignas de trabalho, em condições desumanas, em condições de risco elevado.”

O ano continua e nada de extraordinário acontece. Continuo em casa em períodos de reflexão, de arranjar estratégias para me aguentar à falta de socialização.

“É no limiar entre o sonho e a realidade, num precipício enjaulado, num abismo condicionado que procuro viver entre fissuras e brechas, entre acontecimentos e não acontecimentos, um percurso parado, um caminho desfeito, um andar atabalhoado e penoso.”

Sentia como os últimos meses foram impulsionados por uma tentativa de me encontrar em algum lugar.

“Os processos limítrofes são realidades também eles fronteiriços, são realidades que nos remetem a perda de identidade, ao lugar algum de lugar nenhum. Uma fronteira intransponível pelo exterior, mas conectada internamente pelo núcleo da minha existência.”

Tudo corria relativamente bem, até chocar novamente com os médicos, via-me impossibilitada de avançar nas minhas necessidades, via-me novamente ser confrontada com a realidade cruel que é a normalização dos corpos.

“Ser monstra é um direito, ser monstra é um caminho, ser monstra é transformar os meus monstros interiores, os meus medos, as minhas dúvidas e as minhas incertezas. Para ser monstra é preciso visibilidade, é preciso existir, é preciso viver… por fim, é preciso realizar.”

Apesar de tudo, considero que tive um ano 2020 bastante rico, bastante importante do ponto de vista pessoal. Um momento de crescimento enorme. Espero agora um futuro 2021 com mais vida, mais socialização e mais compromisso.

Artigos de 2020:

Feliz Ano 2021 e continuação de boas leituras,

Dani

Daniela Filipe Bento

Escrito por Daniela Filipe Bento Seguir

escreve sobre género, sexualidade, saúde mental e justiça social, activista anarco/transfeminista radical, engenheira e estudante de astrofísica