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Empoderamento

Daniela Filipe Bento Daniela Filipe Bento Seguir 9 de abril de 2022 · 1 min read
Pessoa caminhando no meio de uma estrada na natureza durante um dia de nevoeiro
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Nasço, cresço e entendo-me. Nasço num mundo destinado, cresço num mundo corrompido e entendo-me num mundo irreal. A vivência e as experiências que me atravessam o corpo corroem-me a alma até aos seus limites. Alma essa desprendida do mundo, entendida como uma alma livre num corpo preso. Corpo que limita a cadeia da liberdade e promove a ruptura.

Compreender-me enquanto pessoa trans num mundo cis é como entender-me como uma reclusa da minha própria vida. Numa realidade que permeia a violência através de uma construção sócio-económico-bio-política que antevê a minha eliminação antes da minha própria existência. É neste contexto que falar em empoderamento da minha identidade é falar em revolução. É afirmar-me da margem e gritar pelo meu posicionamento no mundo.

Uma sociedade construída em torno do privilégio e das relações de poder. O referencial patriarcal, capitalista, colonial, sexista, misógino, lgbtifóbico, racista, capacitista, … que estimula e perpetua a estigmatização para com os corpos que são entendidos como abjectos. Uma sociedade que decide que corpos merecem a vida e que corpos não a merecem, uma sociedade que decide que corpos podem e não podem…

Construir-me num mundo de apagamento e invisibilidade é como construir-me na escuridão, no frio e no silêncio. Os músculos congelados, na impossibilidade de ver e ouvir o que me rodeia, construo-me através daquilo em que acredito sentir. Construo-me através das barreiras intransponíveis de um mundo cis-heter-mono-centrado. O meu empoderamento é, neste caso, como criar luz, calor e som onde nada havia. É criar a minha luz, o meu calor e o meu som. É estimular a nossa margem a contorcer-se e a propagar-se no espaço e no tempo. É invadir as rédeas do cistema, não querendo ocupar o seu espaço, mas criando um novo. Revolucionando o mundo para a sua calamidade.

Porque… só seremos livres quando o cistema estiver em declínio sistémico e estrutural.
Porque… só seremos livres quando o cistema nos pedir perdão e clemência.
Porque… só seremos livres quando o cistema for destruído.

Dani

Imagem: Onward, Love - Jeremy

Daniela Filipe Bento

Escrito por Daniela Filipe Bento Seguir

escreve sobre género, sexualidade, saúde mental e justiça social, activista anarco/transfeminista radical, engenheira e estudante de astrofísica