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Do caos à organização – baixando a entropia

Daniela Filipe Bento Daniela Filipe Bento Seguir 13 de setembro de 2021 · 6 mins read
Pedaços de madeira espalhados no chão de forma caótica
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Caos, organização e entropia, poderia estar a falar de um artigo de Física Teórica, Termodinâmica ou outra disciplina que trate estes conceitos. Porém, estou a referir-me a estados subjetivos, pessoais e espelhados num mundo material através da minha atuação dia a dia, processo a processo, descoberta a descoberta. Do caos à organização retrata um período, uma imersão psicológica no meu eu, na minha identidade e nas minhas fronteiras. Baixando a entropia subsequentemente se liga ao meu estado emocional e sentimental durante este período.

Passaram mais de dezasseis anos do meu primeiro internamento, o tempo passa mas as memórias e o peso desse passado continuam aos meus ombros, agora e sempre. Um passado que quebrou um dos meus maiores veículos de sustentabilidade emocional. A minha capacidade de me manter na realidade e no mundo dos vivos, a minha habilidade de me manter à superfície, respirando algum ar e não sentir o coração preso nas mãos e os pulmões obstruídos pela poluição emocional. Neste primeiro internamento, o meu estado era catastrófico, bloqueada, sem conseguir comunicar (falar, escrever ou ter qualquer tipo de expressão emocional), caí na amargura de um mundo alternativo. Um mundo onde a minha existência mesclava com formas de vida inconcebíveis no nosso mundo, bem com formas de morrer para além da imaginação a que alguma vez podia ter alcance. Sou primariamente diagnosticada com uma depressão grave, psicose grave, risco de suicídio alto, entre outros mais detalhes. O mundo tinha desaparecido para mim.

Passado pouco mais de um ano, volto a outro internamento, quatro meses. Sem ter passado primeiro por um acompanhamento próximo por alguém que respeitava e ainda respeito muito. Mas o internamento não foi possível de evitar. Ali fiquei, num regime de hospital de dia - que não me resolveu problema nenhum. Já em Lisboa, 3 anos depois, procurei um novo acompanhamento terapêutico e um novo seguimento psiquiátrico – onde recebi o meu diagnóstico de bipolaridade Tipo I, psicose grave, risco de suicídio alto e perturbação de personalidade borderline. Nesse momento, depois de uma revisão completa na medicação que tomava e na forma de acompanhamento terapêutico que tinha, foram visíveis as melhorias – nunca mais tive um internamento desde então. O diagnóstico ajudou-me a entender melhor os meus comportamentos e o que me acontecia até então. Os altos e baixos, as euforias e as depressões gravíssimas, as alucinações, os delírios… tudo tinha, naquele momento, um nexo lógico na minha cabeça.

Porém, a minha vida continuou a ser caótica. Crises mais leves, mas ainda assim crises, não me permitiam ter controlo sobre grande parte das coisas que fazia na minha vida. As minhas relações um caos, a minha casa um caos, a minha mente um caos… as minhas emoções um caos. Todas as ações que tomava tinham o seu quê de impulsivo e não ponderação. Comia mal, dormia mal, tratava-me mal, não conseguia procurar qualquer harmonia no espaço que habitava. Desde que estou em Lisboa, vivi muito desse período sozinha e o caos era visível. Viver com outras pessoas sempre foi um desafio para mim porque me obrigava a viver na culpa da minha imprevisibilidade. Não conseguia suster-me. Durante alguns anos este caos reinou, com tudo a ser atirado para todo o lado constantemente.

Ao longo dos anos, tenho tido um processo de amadurecimento enorme e, principalmente nos últimos anos, tenho conseguido ter algumas rédeas na minha vivência. Um novo acompanhamento terapêutico e psiquiátrico vieram potenciar relações mais saudáveis, menos caóticas, de bom trato. Automaticamente essas relações mostraram-me que o meu mundo não tinha de ser o caos, ainda que indiretamente, fizeram-no. Senti-me na capacidade de finalmente acreditar em mim e começar a procurar harmonizar tudo o que me rodeia internamente e externamente. As casas por onde passei começaram a ter outro cuidado, comecei a fazer refeições dignas de alimento, comecei a dar-me espaço para descansar e tratar de mim. Acima de tudo o auto-cuidado começou a fazer parte de uma conduta, não automática, mas treinada para que funcione de uma forma relativamente estável.

Antigamente, as emoções eram intensas, muito intensas, mas de um modo destrutivo. Não aquelas emoções que te trazem alegria e cuidam do teu estar. Eram emoções que mexiam com os meus pilares basilares mal construídos durante o meu percurso de crescimento, deixando-me em progressivos e intensos saltos quânticos a cada momento. Podia estar aqui, mas também ali. A emoção era volátil de uma forma descontrolada e desordeira. Hoje, continuo a ter emoções muito intensas, sou uma pessoa sensível, reconheço isso. Mas não me sinto destruída. Sinto-me construir trajetórias saudáveis para a manutenção do meu eu. Pelos caminho tive crises que me obrigaram a estar em casa, incapaz de trabalhar ou estudar, mas consegui vencer esses momentos e aprender com as suas façanhas.

Do caos à organização não passa só pelo processo exterior que mudou, mas a minha conceção de quem eu sou, de como sou e das minhas fronteiras. É lógico e claro, que também “aconteceu” pelo caminho assumir uma série de identidades dissidentes que mexeram com este processo. No entanto, tiveram de existir para que hoje sim, sinta que estou mais próxima de uma espaço harmónico entre a minha mente, o meu ser e a minha existência. A minha presença no mundo material tornou-se objeto da minha própria experimentação. Decidir o que que quero e para que quero e como quero. É certo que tenho tido algumas barreiras que se demonstram intransponíveis, mas estou continuamente lá, porque vou conseguir ultrapassá-las. Hoje acredito que vou conseguir passar todas as minhas barreiras. Antigamente não era algo que iria acreditar.

Do caos à organização passa pelo meu crescimento, pelo meu contacto com um mundo que me trata melhor e que, também, acredita em mim. Não estou mais só a viver as minhas dificuldades e para além de eu não estar só, gostava que outras pessoas possam sentir-se acompanhadas por estas palavras, por mim mesma, pela minha experiência que me permitiu chegar onde estou hoje. Um processo contínuo de aprendizagem onde caminho em dois sentidos, do crescimento e do repensamento, da reestruturação das peças que compõem a minha vida. Cada elemento é fundamental, não posso ignorar ponto algum.

Com isto, não acredito que estou curada e que tenho todas as respostas, mas acredito que pelo menos consigo passar algum tempo da minha vida com alguma qualidade e com algum desfrute por ser quem sou. Pois sou um ser mutável no tempo, todos os dias sou alguém diferente, porque nós mudamos todos os dias. Por isso, é lógico que posso voltar ao caos, porem agora estou num momento em que a entropia da minha vida está ao seu nível mais baixo.

Do caos à organização – baixando a entropia, é uma visão global, superficial, mas vivencial, daquele que foram os meus últimos 16 anos de vida.

Dani

Imagem: Chaos - Gerard Stolk

Daniela Filipe Bento

Escrito por Daniela Filipe Bento Seguir

escreve sobre género, sexualidade, saúde mental e justiça social, activista anarco/transfeminista radical, engenheira e estudante de astrofísica