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O convite

Daniela Filipe Bento (Dani Bento) Daniela Filipe Bento (Dani Bento) Seguir 27 de setembro de 2026 · 4 mins read
Fotografia de uma régua

O convite ao debate sobre identidade de género e autodeterminação dá-se num momento de clivagem política, não é inocente. Mascarando reais problemas das pessoas, atrás de fictícias pretensões benignas, há uma coerência: a demagogia e o populismo de quem está de fora e de quem não conhece, por diversas razões uma determinada realidade.

Sou uma pessoa trans. Não é difícil perceber isso.

Muitas pessoas o dizem: ativista. Porém, ser-se em ação é uma necessidade: crucial à sobrevivência, crucial para navegar na falsa moralidade da sociedade onde estou. Numa sociedade cheia de réguas e medidas, as normatividades assumem o seu papel. Um papel tão grande quanto a vontade de nos limitar nas nossas vivências.

Numa sociedade como a nossa, as leis são construídas à semelhança das suas pessoas e dos seus ciclos, por isso, é tão importante zelar pela estabilidade das gerações vindouras. Mas mais do que estabilidade é também entender o posicionamento de quem nos rodeia e da história do nosso próprio movimento… não podemos, de forma alguma, atirar ao desconhecido aquilo que ainda menos sabemos.

É difícil haver uma lei progressista em contra ciclo, porém uma rescisão de um contrato social é possível em qualquer instante, infelizmente. É nestes revéses que existimos e que a resistência predomina, é nestes lugares de conflito que se sobrevive e se planeia o próximo movimento. Porém, até quando aguentar o desafio seguinte?

Sinto que ser-se em ação, diga-se ativista, ganhou uma dimensão prosaica e, ao mesmo tempo, inóspita. Se sabemos que muito do que conseguimos até hoje deve-se a esse movimento cívico, também sabemos que somos um alvo fácil de dimensionar e de interceptar. Mexemo-nos com convicção e de coração porque acreditamos naquilo que fazemos, acreditamos genuinamente num mundo melhor e justo para todas as pessoas.

Há quem não o entenda assim, há quem retire as réguas e goste de mudar o jogo à sua e plena vontade e imagem. Torna-se necessário recalcular a nossa lógica de funcionamento, as nossas alianças e os nossos desejos. A crença que todos nos devemos medir pelos mesmos centímetros é real e apodera-se dos daqueles que, entre as realidades, apenas uma vida desejam.

É, no vazio e na pretensão das causas humanitárias que movimentos se agregam, dizendo-se o que não são, colocando-se num lugar de superioridade moral: a minha vida vale mais do que a tua. É neste contexto que nos resta ser-se em ação, procurando pontes, ideias e convergências, muitas vezes difíceis de obter. É uma limitação do momento: a informação peca pela demasia e pelo constante arremessamento ideológico.

Ser-se trans é estar num lugar político. Ser-se trans é inerentemente político, não há outra forma de o ser. E como identidade política é preciso compreender, ter uma visão crítica e, sobretudo, entender as lacunas da nossa própria existência. Posso esperar ser quem sou, a minha realidade é sempre material de mim para com as outras pessoas e das outras pessoas para comigo. Não estou imune a isso, não estou desconectada desse sítio.

À luz da manutenção do status quo de muitas pessoas, não podemos despojar outras da sua autonomia e da sua vontade. Não podemos aceitar ser remetidas para a invisibilidade em detrimento de uma falsa normalidade, num enganador entendimento daquilo que é aceitável ou não existir. Medimo-nos pela mesma régua, numa realidade subjacente a que somos: multiplicamo-nos e continuamos a ocupar o mundo e como tal todas as outras pessoas, temos espaço de existência concreta e material.

Desacreditar-nos é parte da estratégia, cansar-nos é parte do movimento, magoar-nos é parte da conduta. Sempre, uma estratégia, movimento e conduta questionáveis, muito. Porque quando se trata de pessoas concretas, em realidades materiais concretas, há um princípio basilar: não são as leis e boas práticas que ditam a nossa existência, mas é a nossa existência que justifica a existência de leis e boas práticas. Existimos no pré-discurso, antes de pensar na nossa existência, já existíamos.

Ainda que assim não fosse, o nosso direito era pleno na mesma, pleno. Medir o mundo é difícil, principalmente se temos demasiadas escalas, porém temos mesmo de o medir? Ou pelo menos medir desta forma? Como se fosse necessário ter um mínimo múltiplo comum constante, algo que cole.

Novamente, ser-se em ação é acreditar num mundo melhor, é acreditar num mundo mais justo: mas não a minha justiça, não a minha particular justiça, mas a justiça de que todas as pessoas merecem de acordo com quem são.

Deixemo-nos de falsas benevolências, de falsas premissas, mas sim dignemo-nos a perguntar às pessoas qual a sua escala, ou como que diz, a sua métrica.

Sou trans, não é difícil perceber isso. Porém quero ser quem sou por quem sou, na minha própria escala, na minha régua, mesmo que esta… seja curva, mesmo que esta não seja igual à vossa, mesmo que esta… seja apenas a minha.

Só isto.

Dani

Imagem: measure - Mad House Photography

Daniela Filipe Bento (Dani Bento)

Escrito por Daniela Filipe Bento (Dani Bento) Seguir

escreve sobre género, sexualidade, saúde mental e justiça social, activista anarco/transfeminista radical, engenheira de software e astrofísica e astronoma