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Dias

Daniela Filipe Bento Daniela Filipe Bento Seguir 1 de maio de 2022 · 4 mins read
Auto retrato mostrando um olha direto para a câmara
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A minha imagem sem cor, espelhada num vidro fosco e escuro. A minha imagem sem cor delimitada pela luz que atravessa a sala - nenhuma. Hoje acordo com este espelho na mão, falta de cor, falta de luz, falta de brilho. No fundo – falta de existência. Ainda no anterior 25 abril falava da força de existir e ultrapassar obstáculos. Referia como estou melhor e como as minhas reflexões têm me ajudado a não ser a mesma pessoa de há 10 anos. Muito mudou. E também mudou o fato de que agora as minhas emoções mais negativas são abraçadas com amor e carinho.

Talvez diga isto porque os meus olhos estão a fechar. Acredito que o conhecimento da emoção passa por vivê-la e vivenciá-la. Só assim aprenderei como abraçar as emoções dentro de mim e reduzir o impacto negativo que determinadas provocam. Eu sei o que é medo, mas não sei caracterizar a emoção se não a experimentar, se o meu corpo não a reconhecer.

Passa um dia desde que comecei este texto. Ontem os meus olhos fechavam a cada tecla que pressionava, mas a vontade de avançar era maior, ou tanto maior que acabei por ter de me deixar levar pelo sono, pois a minha cabeça já girava em torno das mesmas letras. Porém, não foi um dia fácil, hoje um pouco melhor. Mas não foi um dia fácil. O cansaço que comecei a manhã propagou-se no decorrer do dia e os sentimentos de tristeza começaram a dominar o meu espaço das emoções. Uma tristeza vazia, sem causa ou sentido, simplesmente uma tristeza vazia. Não quis aqui procurar as suas razões, mas apenas deixar o sentimento correr e abraçá-lo.

Abraçar as tristezas, as dúvidas e os medos é conquistar um território, é conquistar o território do desconforto, mas é também encontrar-me num mundo diferente. Num mundo onde me dou ao direito de estar triste, duvidosa e com medo. Não é uma posição necessariamente má, mas sim reflecte-se de alguma dureza. Uma dureza que se encosta a mim pela minha auto-exigência e pela culpabilização pelos meus sentimentos. A culpa faz parte, constantemente, do meu repositório de estados. E, sem desacreditá-lo, é um dos mecanismos que mais me traz algemas à minha vida.

Os processos e mecanismos internos a que a minha vivência se predispõe surgem de vários conflitos e lógicas de funcionamento gravadas na minha memória corporal. Consequentemente, a minha minha capacidade de transformar essas memórias e ressignificá-las é um processo longo e duro que se sustenta no topo de reflexões contínuas sobre os meus estares, os meus sentires e o meu comportamento a cada momento e cada segundo/minuto/hora/dia/semana/mês… Estas etapas duram longos tempos e por isso, determinados pontos tenho de esclarecer comigo até onde quero ir mais. Até onde é importante para mim ir mais. Até que ponto estou a magoar-me com as minhas próprias descrenças em mim?

Penso, volto a pensar e repensar, mas não tenho muitas respostas para as minhas próprias perguntas. Tal como em muitas áreas da minha vida, a solução não ótima (porque óptima não existe) vai passar por tentar e voltar a tentar, errar e voltar a errar. Acredito que para eu ser feliz, preciso passar por estes processos. Acredito que para que o amanhã seja uma continuidade do “eu” atual é necessário ir convergindo para movimentos pequenos, mas erráticos… convergindo para um momento de estabilidade mais coerente.

É com o objetivo de continuar a explorar o que sinto e o que penso, e como sinto e como penso, que escrevo e continuo a escrever. Uma folha branca é tudo o que preciso. As folhas brancas são, talvez, os únicos momentos da minha vida atual que não sinto um único grau de culpa… posso sentir incompetência, dificuldade e rotação no pensamento, mas não culpa.

Passaram quase 24 horas desde que comecei este texto, muitas coisas pelo caminho aconteceram, mas sobretudo friso as minhas escaladas de cansaço que derivaram em mal estar, tristeza e desespero. É preciso estar com atenção e saber escutar o meu corpo. Saber quando é melhor para ele parar e, quando digo parar, é parar mesmo, não é ficar no sofá a pensar no que se tem de fazer daqui a uma hora.

Um dia depois digo, hoje estou melhor, muito melhor.
Um dia depois digo, a cada dia mais segurança.
Um dia depois digo, a cada dia menos medo.
Um dia depois digo, hoje estou melhor…

Dani

Imagem: fear - Francisco Sánchez

Daniela Filipe Bento

Escrito por Daniela Filipe Bento Seguir

escreve sobre género, sexualidade, saúde mental e justiça social, activista anarco/transfeminista radical, engenheira e estudante de astrofísica