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Caminho

Daniela Filipe Bento Daniela Filipe Bento Seguir 12 de junho de 2022 · 5 mins read
Caminho de terra que curva para um destino incerto
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Já passaram vários dias desde a última entrada “Cansaço”. Desde o dia em que escrevi esse texto aconteceram algumas mudanças estruturais no meu dia a dia. Nas semanas anteriores a esse artigo, dormia em média duas horas por noite (quando não, menos). A acompanhar vinham imensos pesadelos vívidos que me enchiam o corpo de dores e mal estar quando me levantava. O cansaço a acumular-se e a dificuldade em manter-me concentrada aumentava a cada instante. Felizmente entre artigos, conversas, reflexões e acompanhamento terapêutico, consegui pedir ajuda a tempo de não cair mais e mais depressa.

Passadas duas semanas o meu sono melhorou bastante, para um nível razoável para a minha estabilidade (não suficiente, mas melhor). Deixei de ter memória dos sonhos (se os tenho ou não, não consigo saber) mas, pelo menos, não acordo cheia de dores e memórias pesadas. Acordo menos cansada e, pelo menos, mais capaz de fazer as coisas básicas do dia a dia. É um processo lento, mas vai acontecendo. Vou notando melhorias de momento para momento e resta-me ter paciência para que tudo se estabilize. Ainda que, muitas vezes, a vontade de estar melhor ultrapassa a paciência, atrapalhando o próprio processo de recuperação.

Porém, neste momento, tenho alguns efeitos colaterais que espero serem resolvidos no futuro. A minha memória de curto prazo está bastante afectada (estou com imensas dificuldades em escrever este texto) e tenho falhas a relembrar de palavras e expressões quando falo. Tenho dificuldade em manter uma linha condutora ao expressar um pensamento, porque me perco no mesmo.

Este foi mais um texto escrito em dias diferentes. Já voltei ao trabalho e aos poucos a recuperar o ritmo. Preciso levar com calma e contenção, pois não quero estragar as melhorias que tive nestas últimas semanas. Sei, é um facto, que tenho dificuldade em não acelerar e, tendencialmente, a ocupar todas as horas do meu dia. Aprender a descansar e a gozar momentos de lazer é bastante importante e necessário. Ter a capacidade de me desligar das tarefas que tenho é-me bastante difícil, não consigo ter um descanso efectivo porque não consigo desconectar do trabalho (não necessariamente coisas do emprego).

Neste preciso momento penso e volto a pensar nas dificuldades que encontro no meu caminho. E ao mesmo tempo, na intensidade dos meus sentimentos e emoções. Fortes o suficiente para mexer com as minhas estruturas basilares, com o meu chão e com os meus pilares. Isso leva-me até aos textos que vou escrevendo e que vou publicando. São pequenos trechos de momentos da minha vida, microsegundos de sentir que se depositam em cada tecla, em cada dedo. Trechos que surgem sobre a forma de desabafos ou reflexões sobre o meu próprio estar. Para mim é um exercício, também, de vulnerabilidade. Podia escolher não o fazer, podia-me conter nos meus diários e escritos aleatórios. Mas acredito na vulnerabilidade e na fragilidade como um elemento motriz muito forte na construção do nosso eu. Protegemo-nos para não falar em estar vulnerável e frágil. Principalmente numa sociedade com as características como a nossa, onde o ser vulnerável e frágil é mau. Estar vulnerável e frágil não interessa ao sistema, não interessa a um modelo de produção de capital em que vivemos. Não há tempo, nem disponibilidade, para se ser vulnerável e frágil – é preciso sobreviver.

Pessoalmente, quero afastar-me desse caminho. Acredito em mudanças estruturais. E para que aconteçam é necessária a voz da diversidade. É importante que haja visibilidade das variadas experiências de vida de diferentes pessoas. Numa sociedade dominada pelo capitalismo onde há resposta para tudo o que nos faça produzir mais e mais, mas que não dá resposta às verdadeiras necessidades de cada pessoa. No meu caso, como ciclo entre alguns estados intensos, estar estável é produzir e estar instável é não produzir, estar vulnerável e frágil. O sistema coopta todos os mecanismos necessários para que o nosso bem corresponda a cumprir uma lista de critérios e de caminhos que definem o que é estar bem e/ou mal.

Creio, ainda que tenha dificuldade em o fazer, mostrar a minha vulnerabilidade pode ser uma forma poderosa de me reconhecer nas outras pessoas, na empatia e no respeito e na compreensão. Sinto que este é um trabalho que não pode ser feito apenas e só apenas a nível individual, mas sim um trabalho coletivo, de comunidade e partilha. A minha vida está sustentada numa sociedade injusta a vários níveis, o que me leva a colocar a coletividade como ponto de começo dos nossos processos. Não que não tenhamos de entendermo-nos enquanto pessoas individuais, mas porque é necessário entendermo-nos num contexto sócio-económico-político– com tudo o que isto pressupõe e significa.

Até que ponto é que estamos realmente capazes de crescer em comunidade e em coletividade? Até que ponto abraçamos a vulnerabilidade e fragilidade de quem nos rodeia (ou não)? Até que ponto deixamos levar-nos pela ideia de que cada pessoa por si? Até que ponto entendemos que não há apenas uma única via de se estar em congruência consigo?

A congruência também implica entender que temos estados diferentes, que mutamos no tempo e que somos suscetíveis ao que o mundo nos devolve. A congruência também não é só estar num estado de felicidade ou de energia. Às vezes também passa pela infelicidade e inatividade.

Numa sociedade capital não há tempo para a tristeza e apatia. Não temos espaço para nos exprimir, sem precisar de resposta, de indicações ou recomendações. Por vezes é só isso, exprimir. Com uma escuta ativa/leitura ativa do nosso sentir, procura-se empatia, não instruções.

Numa sociedade capital não há espaço para dizer “hoje não consigo”.

Dani

Imagem: Caminhos - Cícero R. C. Omena

Daniela Filipe Bento

Escrito por Daniela Filipe Bento Seguir

escreve sobre género, sexualidade, saúde mental e justiça social, activista anarco/transfeminista radical, engenheira e estudante de astrofísica