geral,

H*, Bi, Pansexualidade

Daniela Filipe Bento (Dani Bento) Daniela Filipe Bento (Dani Bento) Seguir 25 de fevereiro de 2015 · 3 mins read

Eu gosto. Eu sinto. Estas são duas frases que emprego frequentemente. Na minha visão são fortes e contêm um significado bastante profundo. Gostar ou sentir é emocional e, como tal, para mim é difícil racionalizar, ainda que possa tentar explicar, ainda que possa tentar exprimir. Sentir é interior a mim, gostar extende o sentir. É algo primário, antevem qualquer espécie de pensamento racional, construído. Ainda que seja básico.

Uma das dúvidas que frequentemente surge em conversas sobre mim relaciona-se com os meus gostos, com as pessoas de quem gosto e de quem posso vir a gostar. Entendo que, se no passado já me era complicado explicar, hoje essa dificuldade aumentou devido ao processo pelo qual estou a passar.

A língua com que nos expressamos dificulta-nos quando, muitas vezes, se tenta colocar significados que podem não ser tangíveis por todos. Torna-se um obstáculo. Assim, quando retratamos emoções e sentimentos, estas definições tornam-se redutoras e simplistas. Permitem-nos comunicar, mas torna-se necessário mais do que isso.

Pansexual

Após um período de adolescência, no qual coloquei uma série de dúvidas em relação ao que sentia pelos outros, tornou-se claro para mim que não conseguia distinguir aquilo que sentia pelas raparigas que me rodeavam e pelos rapazes que tinha próximo. Era claro para mim que, do ponto de vista interior, sentia-me capaz de ter uma paixão com ambos. Sentia-me capaz de perspectivar um futuro, uma relação duradoura. Este sentimento não era coerente com a muitas das pessoas que conhecia. Maioritariamente, as raparigas só sentiam isto em relação a rapazes e/ou vice-versa. Sentir não me era confuso, saber que os outros não conseguiam sentir o que eu sentia é que me era estranho. Arranjei um termo, o mais próximo que consegui. Bissexual. Foi assim que me assumi muitos anos.

Com o tempo, com o conhecimento, com o entendimento do mundo que me rodeia, percebi que este termo era redutor em relação ao que eu sentia, bastante redutor. Passei a usar esta definição apenas para conseguir comunicar com o mundo. É um termo simples e que supõe a generalidade dos casos de acordo com a formação essencial que as pessoas têm.

Descobri, há já algum tempo, o termo pansexualidade. Na sua completude, é menos limitante. No entanto tem uma complicação, a fraca difusão deste conceito conduz a perguntas sem sentido… isto inclui, por exemplo, perguntarem-me se “pansexualidade está relacionada com animais”… o que é falso. A pansexualidade está relacionada com a descontrução do género, do binarismo Homem, Mulher. A minha capacidade de gostar, de sentir e de me apaixonar não se aprisiona na definição clássica do género, mas sim na generalização do termo Pessoa. Eu apaixono-me por pessoas, sinto-me atraída por pessoas. Por pessoas defino todo o conjunto de características que as constituem, desde o género biológico, à identidade de género, à expressão de género, à orientação sexual ou a qualquer outro traço intrínseco. Escrevi (aqui) sobre as novas Teorias Queer, a pansexualidade dá uma resposta simples quando se junta a identidade de género, a orientação e a expressão.

No fundo, e essencial a reter, gosto de Pessoas. Como em qualquer outra questão, existem preferências, existem particularidades que mexem mais comigo do que outras. No entanto, permito-me. Não me sinto reduzida pela paixão que me atinge, pois é essa paixão que sinto viver e é com quem me apaixono que tenciono sentir. As suas partes são importantes para mim na medida em que me transmitem o conjunto, a unidade. Porém, características particulares (como, por exemplo, a aparência ser feminina ou masculina) não me limitam, nem circunscrevem o modo como essa pessoa é potencialmente atraente. Ela é, para mim, ela é.

Eu gosto de pessoas.

Dani

Daniela Filipe Bento (Dani Bento)

Escrito por Daniela Filipe Bento (Dani Bento) Seguir

escreve sobre género, sexualidade, saúde mental e justiça social, activista anarco/transfeminista radical, engenheira de software e astrofísica e astronoma