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Ano 2025, em revisão...

Daniela Filipe Bento Daniela Filipe Bento Seguir 1 de janeiro de 2026 · 7 mins read
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Mais um ano, mais um ano. Passou 2025 e já estamos em 2026. Acabava 2025 a escrever que queria um 2025 mais rico em diferentes dinâmicas de autocuidado e autopreservação. Chegado o primeiro dia do novo ano, sinto que cumpri. Cumpri a visão de futuro a que me comprometi e que, adianto: quero continuar a me comprometer.

Foi um ano de decisões importantes, algumas mais estruturais que outras, assim como com níveis de profundidade diferentes. Por quanto, acabei o ano sorridente, acabei o ano com a certeza que fiz o melhor que podia. Entre tudo, a nostalgia, os quase 40 anos e a felicidade dão lugar a um espaço próprio de celebração, que quero deixar escrito.

Como sempre, escrevo este pequeno resumo do que foi o meu ano 2025 em artigos que escrevi.

Começo o ano do blogue apenas em março de 2025, com um artigo intitulado “Adeus Meta, X e companhia…”, uma das minhas primeiras grandes decisões do ano: abandonar as redes sociais associadas à Meta e iniciar um processo de De-Googling - ainda não acabei este processo, mas vai avançando:

“Pergunto-me como será o futuro? Estarei eu mais excluída dos espaços? Acho que no princípio estarei, porém penso que é um preço justo a pagar por estar a deixar espaços de violência. Mas em consequência do que tem acontecido, é um passo que me é natural fazer.”

Em Abril volto a escrever, sobre uns dias que me vi cair na tristeza, um momento chave para as decisões que tomei nos meses seguintes… era o início de uma viragem no meu amor próprio.

“Amor, não o amor romântico, mas o amor pelas coisas, pelas pessoas e pela vida. Perdi. Perdi esse amor, perdi essa vontade, perdi essa dinâmica e, tudo isto, deu lugar a medo, preocupação, isolamento, quebra de capacidade de fazer tarefas que normalmente gosto, perdi a vontade de estar com quem quer que seja em que registo for. Perdi amor. Amor de viver. Preciso de me apaixonar novamente, preciso apaixonar-me por mim, e novamente pelas pessoas. Preciso sair deste registo.”

Foi em Maio que tive de parar uns dias. A vésperas de eleições legislativas, a minha mente viajava de um lado para o outro, dúvidas, medos, incertezas e preocupações, escrevia:

“Porém, a nossa dor, a nossa dúvida e medo é o avultado produto de uma sociedade doente, podre, desvinculada da realidade. Uma sociedade apolítica que cospe a sua realidade em prol de fantasias como a ordem e o poder. As mesmas pessoas que violentam mulheres trans, que as matam de uma forma direta e/ou indireta, mas que são as primeiras a exotizar e a fetichizar o corpo trans-feminino, as primeiras a “nudar-nos” no mundo - por favor não.”

Em Junho escrevo sobre a melancolia que existia pós eleições, atento aos meus viés de pensamento e procuro ser crítica à informação que vou recebendo:

“Atento ao que as pessoas dizem e interpreto as entrelinhas. Porque sim, também interpreto as minhas entrelinhas, o que verdadeiramente queria dizer ou o que verdadeiramente estou a sentir - nem por sorte, na televisão do comboio fala-se dos dados em viés que as próprias redes sociais e a inteligência artificial nos trazem. Também entendo os meus próprios viés e sei que os tenho. Não sou nem estou imune a esses processos. Porém não ser imune não pode servir como desculpa para não ter uma atitude crítica e questionar aquilo que se diz.”

No mesmo mês, desabafo sobre a violência que me é dirigida por ser uma pessoa trans-feminina. Escrevia, de forma contundente sobre determinados momentos:

“Em várias entrevistas que já dei em jornais públicos, já tive a minha morte desejada, já tive ameaças de morte, já tive pessoas a acusarem-me por ter uma saúde mental atípica… poderia continuar, mas é escusado… porém, também tenho a minha fotografia numa lista de terroristas LGBTI+… a visibilidade às vezes custa. E custa caro. Ontem quando saí à rua e ouvi aquelas gargalhadas “É homem!”, perguntei-me se aquelas pessoas me reconhecem de alguma imagem, se quero mesmo ter de passar por isto todos os dias e/ou se quero mesmo estar constantemente num lugar de ameaça, de exclusão e de violência.”

Em Julho, sorria e era com um sorriso que escrevia. Parada, na praia, tranquila. Sorria. Tinha decidido avançar com o meu processo cirúrgico, tinha decidido mudar de abordagem terapêutica, tinha decidido dar-me valor…

“Parar é importante. Sobretudo, parar sem sentir culpa por se parar. Parar sem estar a pensar nas mil e uma coisas que deveriam estar em curso, mas isso não é vida, é pedir exaustão ao futuro e eu sei o que é estar nesses lugares. Mas não quero mais estar aí… não quero e não posso. Há mudanças positivas na minha vida e é isso que é importante celebrar… e é isso que me permite sorrir. Olho para trás e vejo de onde vim e para onde vou, e não quero esquecer isso.”

A 5 de Agosto faço a minha cirurgia, foi um momento chave de viragem na minha auto percepção e no entendimento que tenho de mim. Três dias depois, escrevia, feliz:

“Estes dias têm sido calmos e tranquilos, a fazer a recuperação em casa, deixando-me descansar, dado que não posso fazer muitos esforços. Ainda tenho inchaços e ainda tenho algumas restrições de movimentos, mas no geral, penso que estou a recuperar bem. Bastante bem até, mas eu conheço-me e começo logo a querer fazer imensa coisa sem dar tempo de sarar bem o meu corpo, mas não poderá ser assim desta vez, tenho de deixar o meu corpo repousar, descansar e preparar-se para os próximos meses. Vai demorar um pouco até tudo ir ao sítio, mas faz parte.”

Em Setembro ao ter estado em duas conferências sobre diversidade e sexualidade, escrevo sobre quem neste mundo procura lutar por uma sociedade mais justa:

“Nestes eventos fala-se de liberdade, fala-se de ser e existir, fala-se de medos, dúvidas e incertezas. Fala-se de dificuldades, de lutas e partilhas, fala-se de conhecimento e sobretudo, fala-se de pessoas e das suas individualidades, das suas necessidades e dos seus sonhos. Sobretudo, dos seus sonhos. Quando saio destes lugares, há sempre uma espécie de ressaca emocional, preciso estar sozinha, preciso absorver tudo o que aprendi e tudo o que vivencio desde o meu lugar. Desde o meu lugar pequeno, desde a minha própria realidade, das minhas dificuldades e também, dos meus sonhos.”

Por último, já só em Dezembro volto a escrever… a escrever sobre a imaginação, sobre o Universo e como o vejo

“O Universo segue o seu caminho, seguirá sempre o seu caminho, independentemente de tudo. Não há nada que possa dizer a uma estrela para parar de brilhar senão o seu próprio tempo de existir. Por outro lado, nós seguimos caminhos de entre encruzilhadas, podemos decidir parar, podemos decidir mudar o rumo da nossa (particular e pequena) vida neste planeta. Podemos decidir não destruir a humanidade (enquanto espécie e enquanto valor).”

Entre ter acabado uma Pós Graduação em Sexualidade Humana pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, feito um curso de Liderança Transformadora e Inclusiva pela Universidade de Ottawa, ter feito - finalmente - o Certificado de Competências Pedagógicas (CCP), ter concorrido para a Psicologia na Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa, voltado a estar mais presente nas saídas de astronomia, voltar a ir à Astrofesta, fazer uma cirurgia, conhecer muitas pessoas interessantes, rever pessoas que não via há muito tempo, entre muitas outras coisas… foi um ano muito, mas muito rico.

Neste sentido, espero que em 2026 se prometa com mais surpresas positivas, mais conquistas e boas decisões. Estarei aqui para navegar nos pilares da minha própria construção, na minha própria vida…

Por um ano, por mais um ano saboroso, sorridente e carinhoso.

Artigos de 2025:

Feliz Ano 2026 e continuação de boas leituras,

Dani

Daniela Filipe Bento

Escrito por Daniela Filipe Bento Seguir

escreve sobre género, sexualidade, saúde mental e justiça social, activista anarco/transfeminista radical, engenheira de software e astrofísica e astronoma