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A Luz da Noite

Daniela Filipe Bento Daniela Filipe Bento Seguir 13 de abril de 2026 · 4 mins read
Vista durante o café da manhã versus Natureza tatuada
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A noite cai, mas o dia começa cedo. É primavera. O calor começa a chegar aos poucos e começa a preparação para o verão. Esta luz desperta em mim um bem estar diferente. Muito diferente daquele que me desperta a noite, talvez porque nesta a luz que procuro seja outra - a luz estelar, a luz da Lua, dos planetas, das nebulosas, das estrelas, … Não diria que prefiro o verão/primavera ao inverno/outono, são diferentes, com as suas características próprias, mesmo num mundo que está cada vez mais incerto.

E mesmo num mundo que está cada vez mais incerto e, de certa forma, difícil, consegui fazer o inesperado: mudar de casa. Finalmente cumpri um sonho de muitos anos que era voltar a viver numa zona de campo, mas desta vez, relativamente próximo da praia. Vou sair de Lisboa, para uma casa térrea, com um imenso espaço externo. E, das melhores partes, um bom céu (dentro do que é razoável) para voltar às observações astronómicas em casa e, talvez, um dia, um observatório fixo - Bortle 5 (suburbano). Será este o meu ninho durante vários anos, espero.

Noutro plano, durante o princípio do ano, fiz a tatuagem que queria fazer há já vários anos e que contem com ela vários significados. Uma tatuagem que agora me acompanha nas costas, um misto entre tecnologia steampunk, natureza e céu. Era um projeto já antigo e que estava à procura de alguém que conseguisse espelhar num desenho as minhas ideias. Encontrei a Maria Sirian que me fez um trabalho soberbo em aquarela.

Estou, também, neste momento a preparar a minha candidatura à Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa. Um processo que envolve estudar uma cadeira que nunca estudei no secundário: Psicologia, e reavivar alguns conhecimentos de Estatística. Quero adquirir mais conhecimentos nesta área, em prática clínica e quem sabe, um dia, também fazer investigação. Um mestrado em Astronomia e Astrofísica ainda não está esquecido, bem como, acabar a licenciatura de Matemática Aplicada e Computação. Na realidade, gostaria de continuar a estudar enquanto posso.

Vou participar no 2º Festival de Tecnologia Popular (9 e 10 de maio) com um projeto de observação solar via rádio-astronomia, algo que pretendo continuar a apostar como hobbie. A rádio astronomia sempre foi uma área de grande interesse meu, tendo sido o tema do meu projeto de final de Licenciatura em Astronomia e Astrofísica a construção de um simulador de rádio-interferometria. Acho que é uma hobbie com bastante potencial para o meu novo ninho.

Com várias coisas a acontecer simultaneamente, vale a pena olhar para o meu estado emocional e para como, no fundo, me sinto. Os últimos meses têm sido bastante corridos, bastantes emoções, bastantes sensações e sentimentos. Se em Abril do ano passado cheguei com uma sessão de incompletude gritante, este ano encontro-me de forma oposta. Há pouco menos de um mês tive alta da minha cirurgia, felizmente tudo correu de forma impecável e devo agradecer pelo cuidado que tive durante todo o processo. Foi algo que desejei durante muitos anos até ser concretizado e, numa altura em que se questiona um SNS (Sistema Nacional de Saúde) moribundo e que não dá resposta digna a cuidados de afirmação de género a pessoas trans, a minha resposta esteve na Clínica Juno - com a Dra. Tatiana Gigante.

Mais do que isto, estou a sentir-me profundamente estável e a conseguir gerir uma série de situações que podem ser mais ou menos difíceis. Sinto que os meus problemas atuais já não são tanto de uma má relação comigo própria, mas de fatores externos que me podem provocar algum cansaço. Porém, sinto-me sintónica comigo, sinto-me alinhada em princípios, sinto-me com vontade e motivação. Sinto e sei.

Sei porque digo não.
Sei porque digo que não consigo.
Sei porque digo agora não dá.

Sei quando quero dizer sim.
Sei quando quero dizer que sim, consigo.
Sei quando quero dizer agora sim, dá.

Completo este ano 40 anos. Daqui a pouco menos de quatro meses. É um ano que quero viver, experienciar e saudar. E para comemorar os meus 40 anos, tenho vontade de começar projetos novos, procurar novas dinâmicas de me colocar no mundo e, sobretudo, aprender e continuar a crescer.

Somos corpos políticos, resistir está no seio da nossa existência. A ideia preconcebida de que não existimos é tão má quanto ignorar toda a história e todas as vivências que vieram antes de nós. Não serei a primeira nem a última no quer que seja, sou simplesmente quem sou, no máximo do que consigo ser. Nem mais nem menos, apenas eu. E a mais nada posso ser exigida.

Por isso, digo: não diria que prefiro o verão/primavera ao inverno/outono, são diferentes, com as suas características próprias. São apenas isso, diferentes.

Dani

Imagem: Vista durante o café da manhã versus Natureza tatuada - Dani Bento

Daniela Filipe Bento

Escrito por Daniela Filipe Bento Seguir

escreve sobre género, sexualidade, saúde mental e justiça social, activista anarco/transfeminista radical, engenheira de software e astrofísica e astronoma