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      "title": "Retrocesso e (Des)informação",
      "content"	 : "Gostaria de pensar que iria começar a escrever de outra forma, falando de outras razões e de outros momentos. Mas urge-me escrever sobre o que me entristece neste momento e não sobre aquilo que me colocava no lugar oposto há três ou quatro semanas atrás. Não é que o tenha deixado de sentir, é porque acho mais urgente este texto e estas palavras.Nos últimos dias foram a discussão e votação 4 projetos de lei propostos pelo CHEGA, CDS-PP, PSD e BE com vista a mexer na Lei nº38/2018, que garante a autodeterminação da identidade e expressão de género e protecção das características sexuais das pessoas. Os 3 primeiros projetos endereçam a revogação da lei, o último aplica um reforço à lei existente. A premissa basilar dos projetos do CHEGA, CDS-PP e PSD é que a autodeterminação não existe e que só existe na cultura woke, na ideologia de género e no radicalismo da chamada extrema esquerda.Estive no parlamento nos dias 19 e 20 de março, onde a tristeza e ansiedade imperou durante todo o dia - a que lugar nós fomos chegar em 2026. Foram dois dias, entre muitos outros, muito fortes e emocionalmente carregados.Estes projetos de lei, que foram criados sem qualquer consulta a associações que trabalhem no terreno com pessoas trans ou intersexo - ou mesmo até ouvir as próprias pessoas trans e intersexo, são propostas que vão causar um dano nefasto a todas as pessoas que, com a lei atual, estão protegidas. Só se consegue chamar a isto retrocesso e ofensa contra todas as pessoas (trans e intersexo).Nunca em Portugal isto aconteceu: assistir retrocessos nos direitos humanos.Em entrevista para a TSF, que juntou os vários proponentes dos 4 projetos de lei, foi dito que os pareceres científicos enviados (Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica, Ordem dos Psicólogos Portugueses, Equipa Multidisciplinar Especializada em Acompanhamento Afirmativo de pessoas trans, entre outros e comunicados, como o da Associação para o Planeamento Familiar e conjunto de associações A nossa autonomia não é debatível) não têm qualquer validade científica. E mais, em pleno debate foi afirmado que todos estes pareceres (e os que entretanto chegaram) eram de qualidade baixa ou muito baixa.O Polígrafo SIC, inclusive, desmentiu o estudo que o CHEGA usava como referência para falar de pessoas que se arrependiam (um alegado estudo que falava em 90% das crianças).Os pareceres são muitos, e muitas pessoas têm-se mostrado contra estes projetos de lei, a mobilização da opinião pública tem sido grande, o que é positivo. Porém, continuam a haver lacunas graves na comunicação que se faz sobre a lei atual. A contra mobilização também o é, mas sem qualquer conhecimento de causa sobre os projetos de lei e/ou sobre o que acontece com a lei atual (ainda em vigor).Tudo começa com a frase “adolescentes e crianças mudam de sexo antes dos 16/18 anos”. Na realidade, a lei atual não permite mudança de sexo, permite reconhecimento legal da identidade de género e nome no registo civil, a partir dos 16 anos - com consentimento dos responsáveis legais e relatório que comprove capacidade de decisão da pessoa adolescente. Para menores de 16, nas mesmas condições, mas é impossível mudar no registo civil, logo existe aquilo a que chamamos nome social, que também pode ser utilizado por pessoas migrantes que não possam ver o seu género e nome reconhecido no país de origem. A autodeterminação plena só acontece depois dos 18 anos. Cirurgias não são permitidas a menores e qualquer intervenção médica irreversível só a partir dos 18 anos (e com todo o acompanhamento clínico necessário).Pergunto-me, nestas condições, o que é que estes projetos de lei vêm fazer? Revogar esta lei, é revogar uma conquista de anos de trabalho de associações, colectivas e pessoas individuais. É colocar em questão todo o trabalho que se tem feito diariamente para salvaguardar os nossos direitos. Se nós não podemos falar sobre nós, nem temos credibilidade para falar sobre nós, quem o vai fazer? Pessoas cis sem qualquer experiência nesta temática? Pessoas cis que não conhecem nenhuma pessoa trans ou intersexo?Ir contra o consenso científico nacional e internacional é em si um problema estrutural grave. Durante anos o Estado legislou sobre os corpos das pessoas (trans, intersexo, mas não só), legislou sobre a sua autonomia e vontade própria, legislou contra as próprias pessoas. A mesma ciência que nos patologizou durante anos e que serviu de respaldo para a violência do Estado, e que reconhece agora que foram cometidos erros graves na história no que toca aos direitos sexuais e reprodutivos, à sexualidade e identidade. Mas neste momento, já o Estado não confia na ciência para justificar, fazendo o injustificável. Isto demonstra, de forma evidente, que a ciência apenas serve ao Estado, no sentido em que o legislador a perceciona, se vai ou não com a sua linha de pensamento e ideológica. Como neste caso, a ciência nos defende, a ciência agora passou a ser woke e de ideológica à esquerda.Lamento tudo o que está a acontecer, mas nós, enquanto comunidade, temos força, muita força. Durante anos e anos, fomos uma comunidade criativa em arranjar soluções e procurar formas de luta e cuidado mútuo. Vamos continuar a fazê-lo porque, verdade seja dita, até haver uma decisão que passe pela presidência, a lei atual continua em vigor. E é esta lei, com  tudo o que lhe ainda falta permitir, que temos de defender com toda a nossa energia.Aqui estaremos de mão dada, porque estamos, estamos em força contra este avanço evidente que mete em risco qualquer direito humano.Vale a pena perguntar. O que mete tanto medo para que nos tentem sempre silenciar?O que mete tanto medo que nos tentam sempre controlar? Vale a pena perguntar.DaniImagem: Parlamento Português - Dani Bento",
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      "categories": "Geral, Trans, Política"
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      "title": "Ano 2025, em revisão...",
      "content"	 : "Mais um ano, mais um ano. Passou 2025 e já estamos em 2026. Acabava 2025 a escrever que queria um 2025 mais rico em diferentes dinâmicas de autocuidado e autopreservação. Chegado o primeiro dia do novo ano, sinto que cumpri. Cumpri a visão de futuro a que me comprometi e que, adianto: quero continuar a me comprometer.Foi um ano de decisões importantes, algumas mais estruturais que outras, assim como com níveis de profundidade diferentes. Por quanto, acabei o ano sorridente, acabei o ano com a certeza que fiz o melhor que podia. Entre tudo, a nostalgia, os quase 40 anos e a felicidade dão lugar a um espaço próprio de celebração, que quero deixar escrito.Como sempre, escrevo este pequeno resumo do que foi o meu ano 2025 em artigos que escrevi.Começo o ano do blogue apenas em março de 2025, com um artigo intitulado “Adeus Meta, X e companhia…”, uma das minhas primeiras grandes decisões do ano: abandonar as redes sociais associadas à Meta e iniciar um processo de De-Googling - ainda não acabei este processo, mas vai avançando:  “Pergunto-me como será o futuro? Estarei eu mais excluída dos espaços? Acho que no princípio estarei, porém penso que é um preço justo a pagar por estar a deixar espaços de violência. Mas em consequência do que tem acontecido, é um passo que me é natural fazer.”Em Abril volto a escrever, sobre uns dias que me vi cair na tristeza, um momento chave para as decisões que tomei nos meses seguintes… era o início de uma viragem no meu amor próprio.  “Amor, não o amor romântico, mas o amor pelas coisas, pelas pessoas e pela vida. Perdi. Perdi esse amor, perdi essa vontade, perdi essa dinâmica e, tudo isto, deu lugar a medo, preocupação, isolamento, quebra de capacidade de fazer tarefas que normalmente gosto, perdi a vontade de estar com quem quer que seja em que registo for. Perdi amor. Amor de viver. Preciso de me apaixonar novamente, preciso apaixonar-me por mim, e novamente pelas pessoas. Preciso sair deste registo.”Foi em Maio que tive de parar uns dias. A vésperas de eleições legislativas, a minha mente viajava de um lado para o outro, dúvidas, medos, incertezas e preocupações, escrevia:  “Porém, a nossa dor, a nossa dúvida e medo é o avultado produto de uma sociedade doente, podre, desvinculada da realidade. Uma sociedade apolítica que cospe a sua realidade em prol de fantasias como a ordem e o poder. As mesmas pessoas que violentam mulheres trans, que as matam de uma forma direta e/ou indireta, mas que são as primeiras a exotizar e a fetichizar o corpo trans-feminino, as primeiras a “nudar-nos” no mundo - por favor não.”Em Junho escrevo sobre a melancolia que existia pós eleições, atento aos meus viés de pensamento e procuro ser crítica à informação que vou recebendo:  “Atento ao que as pessoas dizem e interpreto as entrelinhas. Porque sim, também interpreto as minhas entrelinhas, o que verdadeiramente queria dizer ou o que verdadeiramente estou a sentir - nem por sorte, na televisão do comboio fala-se dos dados em viés que as próprias redes sociais e a inteligência artificial nos trazem. Também entendo os meus próprios viés e sei que os tenho. Não sou nem estou imune a esses processos. Porém não ser imune não pode servir como desculpa para não ter uma atitude crítica e questionar aquilo que se diz.”No mesmo mês, desabafo sobre a violência que me é dirigida por ser uma pessoa trans-feminina. Escrevia, de forma contundente sobre determinados momentos:  “Em várias entrevistas que já dei em jornais públicos, já tive a minha morte desejada, já tive ameaças de morte, já tive pessoas a acusarem-me por ter uma saúde mental atípica… poderia continuar, mas é escusado… porém, também tenho a minha fotografia numa lista de terroristas LGBTI+… a visibilidade às vezes custa. E custa caro. Ontem quando saí à rua e ouvi aquelas gargalhadas “É homem!”, perguntei-me se aquelas pessoas me reconhecem de alguma imagem, se quero mesmo ter de passar por isto todos os dias e/ou se quero mesmo estar constantemente num lugar de ameaça, de exclusão e de violência.”Em Julho, sorria e era com um sorriso que escrevia. Parada, na praia, tranquila. Sorria. Tinha decidido avançar com o meu processo cirúrgico, tinha decidido mudar de abordagem terapêutica, tinha decidido dar-me valor…  “Parar é importante. Sobretudo, parar sem sentir culpa por se parar. Parar sem estar a pensar nas mil e uma coisas que deveriam estar em curso, mas isso não é vida, é pedir exaustão ao futuro e eu sei o que é estar nesses lugares. Mas não quero mais estar aí… não quero e não posso. Há mudanças positivas na minha vida e é isso que é importante celebrar… e é isso que me permite sorrir. Olho para trás e vejo de onde vim e para onde vou, e não quero esquecer isso.”A 5 de Agosto faço a minha cirurgia, foi um momento chave de viragem na minha auto percepção e no entendimento que tenho de mim. Três dias depois, escrevia, feliz:  “Estes dias têm sido calmos e tranquilos, a fazer a recuperação em casa, deixando-me descansar, dado que não posso fazer muitos esforços. Ainda tenho inchaços e ainda tenho algumas restrições de movimentos, mas no geral, penso que estou a recuperar bem. Bastante bem até, mas eu conheço-me e começo logo a querer fazer imensa coisa sem dar tempo de sarar bem o meu corpo, mas não poderá ser assim desta vez, tenho de deixar o meu corpo repousar, descansar e preparar-se para os próximos meses. Vai demorar um pouco até tudo ir ao sítio, mas faz parte.”Em Setembro ao ter estado em duas conferências sobre diversidade e sexualidade, escrevo sobre quem neste mundo procura lutar por uma sociedade mais justa:  “Nestes eventos fala-se de liberdade, fala-se de ser e existir, fala-se de medos, dúvidas e incertezas. Fala-se de dificuldades, de lutas e partilhas, fala-se de conhecimento e sobretudo, fala-se de pessoas e das suas individualidades, das suas necessidades e dos seus sonhos. Sobretudo, dos seus sonhos. Quando saio destes lugares, há sempre uma espécie de ressaca emocional, preciso estar sozinha, preciso absorver tudo o que aprendi e tudo o que vivencio desde o meu lugar. Desde o meu lugar pequeno, desde a minha própria realidade, das minhas dificuldades e também, dos meus sonhos.”Por último, já só em Dezembro volto a escrever… a escrever sobre a imaginação, sobre o Universo e como o vejo…  “O Universo segue o seu caminho, seguirá sempre o seu caminho, independentemente de tudo. Não há nada que possa dizer a uma estrela para parar de brilhar senão o seu próprio tempo de existir. Por outro lado, nós seguimos caminhos de entre encruzilhadas, podemos decidir parar, podemos decidir mudar o rumo da nossa (particular e pequena) vida neste planeta. Podemos decidir não destruir a humanidade (enquanto espécie e enquanto valor).”Entre ter acabado uma Pós Graduação em Sexualidade Humana pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, feito um curso de Liderança Transformadora e Inclusiva pela Universidade de Ottawa, ter feito - finalmente - o Certificado de Competências Pedagógicas (CCP), ter concorrido para a Psicologia na Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa, voltado a estar mais presente nas saídas de astronomia, voltar a ir à Astrofesta, fazer uma cirurgia, conhecer muitas pessoas interessantes, rever pessoas que não via há muito tempo, entre muitas outras coisas… foi um ano muito, mas muito rico.Neste sentido, espero que em 2026 se prometa com mais surpresas positivas, mais conquistas e boas decisões. Estarei aqui para navegar nos pilares da minha própria construção, na minha própria vida…Por um ano, por mais um ano saboroso, sorridente e carinhoso.Artigos de 2025:  E se os aviões não voassem?  Aprender e Recusar!  10 anos e 10 horas  O Sol e a Árvore  É um homem!  Partidas e chegadas, caminhos e paragens  Porque o discurso também fere…  Um primeiro trimestre, para não haver outro…  Adeus Meta, X e companhia…Feliz Ano 2026 e continuação de boas leituras,Dani",
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      "title": "E se os aviões não voassem?",
      "content"	 : "E se os aviões não voassem?E se os carros não andassem ou os barcos flutuassem?Como seria o mundo?Não é uma situação muito difícil de imaginar, dado que nem foi assim à tanto tempo que se inventaram os barcos, os carros ou os aviões. Todos em épocas muito diferentes e a corresponder a necessidades muito diversas. Talvez o mundo hoje fosse muito diferente, ou não. Como seria o mundo quando o Sol era a única fonte de luz que nos iluminava? Como seria o céu estrelado, das noites frias, das noites quentes? Como seriam os sons da noite? Não sei, é-me difícil recuar a um momento em que nada humano existia. Porém, consigo imaginar uma coisa, um céu sem rastos de avião, um horizonte sem casas e uma noite sem luzes apontadas para o céu.Imaginar não é conhecer, mas apenas e só… imaginar. Porém, foi a imaginação de muitas pessoas que, para o bem ou para o mal, nos trouxe até aqui. Hoje a vida não é como era. Não é como era há um ano, dez, cem, mil ou dez mil anos. Em pouco mais cinco potências de dez, chegamos facilmente ao início daquilo que foi uma viragem histórica, o nosso aparecimento. O Universo tem bastantes mais potências de dez, o que implica muito tempo, uma escala de outra natureza. Não há aviões para o Universo, muito menos carros ou barcos. Porém, podemos imaginar… podemos imaginar uma realidade onde viajamos pelo Universo de avião, pela Via Láctea de carro e pelo Grupo Local de barco. A nossa imaginação é poderosa, muito poderosa.Foi por gostar de imaginar, de pensar e de conectar mundos que segui Matemática Aplicada e, só depois, Astronomia e Astrofísica. A física do mundo sempre me suscitou curiosidade, mas a física daquilo que nos é inacessível ainda me provoca mais interesse. Porém, sinto que num mundo tão desigual, desproporcional, injusto e precário, o meu interesse por esta ciência se tem desvanecido. Não porque deixou de ser interessante, mas porque a minha ingenuidade para com o mundo perdeu-se e em consequência, não consigo olhar para o progresso da ciência da mesma maneira. Não que não acredite no que ciência nos tem permitido (como os aviões, os carros ou barcos), mas não consigo deixar de pensar naquilo que me é, neste momento, mais fundamental: contribuir para garantir um mundo mais equitativo, igualitário, justo e equilibrado.Enquanto vivo num mundo que está viciado no capital, na desinformação e no pânico moral, não deixo de sentir uma certa vontade de parar de viajar pela mente e de apenas imaginar - viajar leva-me a lugares difíceis, complexos e duros. Pergunto-me muitas vezes se a minha ingenuidade em ter interesse no inalcançável não seria só uma forma de fugir de um mundo que me era muito particular, concreto, sentido e pesado. A Astronomia sempre me ajudou a colocar a realidade em perspectiva: a nossa existência versus a do Universo - incluindo a minha própria vivência - a vida versus a morte. Custa-me continuar a assistir à proliferação da desinformação, do incentivo ao ódio, da divisão para conquistar. Custa-me sentir impotência para combater tal mundo. Vou fazendo pouco, mas pouco não deixa de ser pouco. Pouco continuará a ser pouco.O Universo segue o seu caminho, seguirá sempre o seu caminho, independentemente de tudo. Não há nada que possa dizer a uma estrela para parar de brilhar senão o seu próprio tempo de existir. Por outro lado, nós seguimos caminhos de entre encruzilhadas, podemos decidir parar, podemos decidir mudar o rumo da nossa (particular e pequena) vida neste planeta. Podemos decidir não destruir a humanidade (enquanto espécie e enquanto valor).Neste processo de reflexão, penso muitas vezes na nossa herança histórica e coletiva. Desde que existimos, nas cinco potências de dez anos passadas… o que resta hoje do que era? Nos dias que correm, tentam, tentam a todo o custo retirar-nos dessa diversidade, dessa diferença e desse potencial. Fazem-nos esquecer da nossa memória coletiva, fazem-nos esquecer daquilo que já fomos, fazem-nos esquecer do futuro que ambicionamos.  Não há sentimento que não tenha sido já sentido e simultaneamente há todos os sentimentos por sentir. Somos pó das estrelas, mas também somos pó da nossa própria vida, somos pó das nossas histórias, somos pó da nossa imaginação. Somos, apenas isso, somos, somos, somos - diferentes, diversos, potenciais em permanência.Sim.Com muito carinho,DaniImagem: In a cosmic wonderland - European Southern Observatory",
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      "title": "Aprender e Recusar!",
      "content"	 : "Sentada num autocarro penso como quero começar este texto e até mesmo como continuá-lo. E pergunto-me se sei também como continuar. Hoje passei o dia no Porto, estive no Encontro Nacional da Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica. Há pouco mais de duas semanas estive em Hamburgo na sexta conferência da EPATH (European Professional Association for Trans Health). Foram dois momentos importantes que marcaram o meu regresso às aprendizagens após um mês parada depois de uma cirurgia. Estes encontros, apesar de positivos, deixam-me sempre com uma sensação agridoce difícil de explicar. Não porque não seja importante  o que aprendo, as conexões que faço e com quem estou, mas sobretudo porque sinto uma colisão muito grande com o mundo quando chego a casa.Nestes eventos fala-se de liberdade, fala-se de ser e existir, fala-se de medos, dúvidas e incertezas. Fala-se de dificuldades, de lutas e partilhas, fala-se de conhecimento e sobretudo, fala-se de pessoas e das suas individualidades, das suas necessidades e dos seus sonhos. Sobretudo, dos seus sonhos. Quando saio destes lugares, há sempre uma espécie de ressaca emocional, preciso estar sozinha, preciso absorver tudo o que aprendi e tudo o que vivencio desde o meu lugar. Desde o meu lugar pequeno, desde a minha própria realidade, das minhas dificuldades e também, dos meus sonhos. Falar de realidades dissidentes toca-me, toca-me porque faço parte delas e estou com elas. A minha vida, nos últimos anos, tem-se guiado por isso. Felizmente ou infelizmente, é um percurso em que me coloquei e em que me colocaram.O autocarro vai cheio, ouço música, mas ouve-se as pessoas à minha volta… está escuro e por isso é difícil perceber quem é quem. Porém, somos plenas desconhecidas, somos distantes, tão distantes como as cadeiras que nos separam, mas também como o mundo que nos separa. Talvez eu não saiba se estas pessoas estiveram no mesmo encontro que eu hoje, se não. Também não sei que outras interseccionalidades vivenciam, apenas sei-me colocar a mim, neste banco de autocarro, com um ecrã à frente em que escrevo… uma escrita sem parar e sem distar do meu momento de reflexão interna.Vi durante o dia (e dos dias passados), pessoas que vivem a sua vida a existir e a resistir. Abordar temas da sexualidade é um exercício difícil, sempre foi, numa cultura com tanto viés como a nossa. Estamos em 2025 e sinto que é hoje mais difícil do que há dois ou três anos. Em parte, sabemos o porquê. O discurso de ódio é uma realidade concreta do nosso dia a dia, é uma realidade concreta do meu dia a dia. Já participei em muitas conferências onde falei, onde expus, onde contrapus. Já participei em muitos momentos de debate, de troca e sobretudo, também, de violência. Porquê? Porque não é o mesmo estar num debate a defender a minha própria existência do que estar num debate onde a vida que defendemos e/ou questionamos, não é a nossa. Infelizmente este é o lugar da maioria das pessoas LGBTI+fóbicas - falam de um lugar externo a si e à sua vivência. Gostaria, muitas vezes, de que as coisas fossem diferentes, de por vezes não me sentir alvo.Mas sinto, às vezes sinto.Mas sinto e muitas vezes sinto.Não consigo ficar indiferente às notícias e aos comentários que se fazem. Não consigo estar nesse não lugar. Não desejo esse não lugar, e não o desejo a ninguém. O lugar da indiferença e da falta de humanidade para com a outra pessoa. O ataque cerrado que se tem feito a pessoas trans tem-me afetado, principalmente quando falamos, especificamente, em pessoas trans femininas. Não posso dizer que às vezes não tenho medo. Pois eu sou e não quero parecer que não sou. E por isso compreendo quando outras pessoas também se sentem afetadas de acordo com as suas realidades e os seus lugares de fala. O mundo é interseccional e não somos um ser isolado do mundo, somos muitas coisas, muitas representações de diversas realidades. Compreender isto parece fundamentalmente simples, mas, infelizmente, temos o resultado à vista.Aqui há uns dias, estava a ver alguns vídeos de conversas onde participei, têm sido várias ao longo dos anos. Mas infelizmente evito sempre de as ver e/ou ouvir e/ou ler. É rara a vez, sendo material que fica público, que não tenho uma parede de ódio destilado e refinado. É duro. Diriam-me “não ligues“, mas não é fácil. Isto causa efeitos nefastos na  nossa saúde mental e na nossa percepção do mundo. Obriga-me a estar na defensiva a maioria do tempo, sem pausa, sem descanso, sem piedade. Mas a verdade é que me recuso a voltar para o armário, me recuso a estar nesse lugar, mas talvez porque até hoje tenha conseguido - se calhar num futuro próximo ou longínquo não sei.Porém, apesar do discurso de ódio que vejo por aí destilado na maioria dos artigos sobre temáticas LGBTI+, estes momentos dão-me esperança num mundo melhor, saber que há mais pessoas a lutar nesta guerra contra a desinformação e contra o ódio. Saber que há mais pessoas atentas a este fato, atentas a esta manipulação dos media. Já lá vai o tempo em que achava que era só ignorância, hoje, com alguma clareza acho que há imensas pessoas que se recusam a aprender e que continuam a proliferar discurso de ódio sem saberem sequer do que estão a falar.Com o advento das redes sociais, toda a gente tem opinião sobre tudo, toda a gente é perita sobre tudo. Mesmo que isso vá contra efetivamente quem é especialista na área ou contra as pessoas que têm voz própria no assunto. É assim que a desinformação cresce, cresce e cresce. Seria muito ingénua se acreditasse que tudo isto é fruto de ignorância. Sim, há pessoas que não entendem, nem nunca vão entender por mais que expliquemos…. não porque não sejam capazes, mas porque efetivamente não querem e preferem viver no seu mundo de abalroamento de outras pessoas.Digo isto com alguma dificuldade, pois sempre quis acreditar nas pessoas. Porém acreditar tem limites, limites que ainda que extensos, acabam. Não percebo como os canais de comunicação não atuam contra este atentado aos direitos humanos… se calhar até percebo, click bait, manter as audiências, ser destrutivo e controlado por uma camada política anti direitos humanos é verdadeiramente a razão. Por isso, só me resta afirmar com toda a certeza que me sinto optimista, mas o mundo precisa de uma revolução, precisamos ir para a rua, precisamos continuar a ocupar espaços que nos foram sempre negados.Deixo um abraço a todas as pessoas que se vêem a braços com discursos de ódio, para todas as vítimas de violência simbólica e física, para todas as pessoas que continuam a lutar, ainda assim por um mundo melhor e mais justo. Um abraço também para as nossas pessoas aliadas que acima de tudo também estão ao nosso lado e que também querem um mundo mais justo e  que querem estar do lado dos direitos humanos.Por outro lado, um sentimento de pena por todas aquelas pessoas que destilam ódio, por todas aquelas que enchem as caixas de comentários com violência e desinformação, por todas aquelas que não tem a menor intenção de entender ou ter um discurso sincero e receptivo. Por todas aquelas que acham que nós estamos a causar o declínio de sociedade, por todas aquelas e mais algumas que me nomearam numa lista de terroristas e que procuram perturbar a vida de outras pessoas. Pena por saber que estas pessoas não conseguem ir mais longe do que isto, nem vão conseguir. Pena porque o mundo evolui e há pessoas que evoluem com ele, há outras que ficam para trás….Um sincero agradecimento a todas aquelas pessoas que fazem o mundo andar para a frente, que procuram um diálogo construtivo. Por todas aquelas que se mostram no aqui e agora, num discurso de inclusão e honestidade. Para todas essas pessoas, o meu profundo respeito. São essas as pessoas que quero manter na minha vida, apenas e só.Porque o discurso de ódio, a desinformação e as políticas e retóricas anti direitos humanos não podem continuar a ocupar o espaço mediático, temos de nos juntar e procurar soluções comuns, procurar comunidade e retornar a coletividade.Com muito amor,DaniImagem: Bandeira Anarco Queer",
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      "title": "10 anos e 10 horas",
      "content"	 : "Era 5 de Agosto. Eram 6h30 da manhã. Dormi pouco e pouco dormi. Não estava ansiosa, muito pelo contrário… calma, decidida, feliz. Sorria para mim, sorria sem medo e sem receio. Olhava-me e gostava um pouco mais de mim, estava a oferecer-me uma das melhores prendas de aniversário que poderia dar a mim mesma nos últimos 10 anos. Foram 10 anos,  10 anos a lutar por este momento… foi preciso desistir e procurar outras soluções. Foi preciso abandonar o Sistema Nacional de Saúde (SNS) e procurar uma solução para mim: apenas por mim. Eram 7h30 da manhã, estava no hospital. Tudo se passou devagar, mas simultaneamente muito rápido. Talvez, talvez o sorriso que transmitia não me permitia sentir o tempo da mesma forma. Mas assim foi.Fez no dia 22 de Julho, 10 anos que recebi o relatório médico que me permitia aceder à lei de identidade de género que existia na altura (de 2011), foi também nesse momento que tive o primeiro relatório para poder iniciar hormonoterapia de reposição. Durante anos fui assistindo a mudanças no meu corpo das quais me faziam sentir mais identificada comigo, uma sensação de ir ficando mais sintónica com o meu corpo e aos poucos ir reconstruindo a minha realidade e a minha vida em cima destas novas mudanças. Reconhecer-me em quem eu sou, mudou completamente a minha vida e principalmente o rumo que ela estava a tomar. Olhos de alegria, sorrisos de presença e uma maior estabilidade emocional - foram elementos chave no meu processo. Ia-me encontrando e esse era um processo bonito, bastante bonito de sentir e de internamente assistir.Mais tarde, após alguns anos de reposição hormonal, quis avançar para aquilo que já desejava há muitos anos: fazer um ajuste suplementar aos efeitos da hormonização no meu corpo. Era algo que sonhava desde criança, que sempre desejei e que com as alterações corporais devido às hormonas acentuou-se a confirmação de que queria fazer cirurgicamente um ajuste ao meu peito, materializando um sonho de décadas de uma vida.No dia 16 de setembro 2020 vou a uma consulta no Hospital de Coimbra, na Unidade Reconstrutiva Génito-Urinária e Sexual (URGUS) (à altura, a unidade de referência no SNS para cirurgias a pessoas trans), mas acabei a sair de lá bastante desiludida, frustrada e triste… foi como nasceu este texto “Quando a estranheza te impede de ser Monstra”. Durante o ano seguinte fiz queixa, voltei à mesma consulta para ter o mesmo resultado - um mau trato da parte da URGUS que me deixou bastante desapontada. Sigo as consultas de endocrinologia no Hospital Santa Maria (HSM), em Lisboa, e tento aceder uma mamoplastia de aumento noutro hospital do SNS, mas durante anos foi-me barrado esse acesso, com múltiplos argumentos: desde a não necessidade, a eficácia das hormonas, os custos e até mesmo por injustiça com pessoas cis. Falou-se de tudo, menos no essencial.Desde essa altura, apesar das minhas tentativas falhadas no HSM, continuei a exercer pressão, enquanto simultaneamente fazia todo um outro conjunto de trabalhos, dada a chegada da lei que assegurava a autodeterminação, em 2018. Coloquei-me em segundo plano, e investi tudo o que podia em luta política e social. Depois de vários anos, já com 38, era raro o ano que não tinha quedas abruptas de desconexão e desinvestimento no meu corpo… não me sentia na totalidade bem com ele… nunca o detestei ou odiei, mas sentia precisar de alguns ajustes. Não era como me via e sentia. Foi já com quase 39 anos que acabei a desistir do SNS e a procurar uma solução no privado. Contra todos os meus princípios e valores políticos de quem defende um SNS para todas as pessoas, foi no privado que consegui ver uma solução para conseguir esta desejada estabilidade que não tinha. Infelizmente foi assim, felizmente encontrei pessoas que me acompanharam de uma forma muito positiva e cuidada.Eram aproximadamente 9h e estava a entrar para o bloco, calma e tranquila. Bastante calma e tranquila. Repito: tudo foi lento, mas bastante rápido em simultâneo. Num momento estava a vestir a roupinha do hospital, como noutro já estava na maca para me ligarem todos os instrumentos e, logo noutro momento na sala de operações com uma série de pessoas a falar comigo, a falar entre si e a acabar de ligar o que faltava. Nunca tinha sido submetida a uma cirurgia, nunca soube o que era uma anestesia, mas não esqueço, a última frase que ouvi foi “vou-te dar uma dose de caipirinha e ficas bem mais relaxada” em 2 minutos adormeci, sem sonhos e só acordei já às 11h30 no recobro de uma cirurgia que correu bem. Estava tão feliz que nem dei pelas dores, por mim já saía dali a andar para todo o lado, mas não podia. Ainda fui para o quarto e lá fiquei umas horas até ter alta. Terça ao fim da tarde já estava em casa, cerca de 10 horas depois de ter chegado ao hospital.Estes dias têm sido calmos e tranquilos, a fazer a recuperação em casa, deixando-me descansar, dado que não posso fazer muitos esforços. Ainda tenho inchaços e ainda tenho algumas restrições de movimentos, mas no geral, penso que estou a recuperar bem. Bastante bem até, mas eu conheço-me e começo logo a querer fazer imensa coisa sem dar tempo de sarar bem o meu corpo, mas não poderá ser assim desta vez, tenho de deixar o meu corpo repousar, descansar e preparar-se para os próximos meses. Vai demorar um pouco até tudo ir ao sítio, mas faz parte.Estou feliz e sorridente. Acho que isso foi muito evidente nestas últimas semanas. Repito: tudo foi rápido, mas tudo demorou uma eternidade. Foram 10 anos de luta para chegar aqui. A um lugar onde consigo me projetar no futuro, onde consigo me imaginar e sonhar. Porém, vou continuar a lutar, a fazer incidência política… aceder a uma cirurgia que nos trás tanto valor na nossa vida não pode ser restrito a quem pode pagar, não é justo, não é humano. Sempre acreditei num SNS que existisse para todas as pessoas e será para isso que continuarei a lutar, que continuarei a estar presente. Pois quero acreditar que estas mudanças estruturais vão ser possíveis, tão possíveis quanto são necessárias.Porque o direito e acesso ao corpo é um um princípio fundamental,Porque a autodeterminação é um direito essencial,Porque existir é basilar na nossa vida.DaniImagem: Daniela Bento - Pulseira de Ambulatório",
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      "content"	 : "O dia está nublado, faz uma brisa fresca e o Sol espreita de vez… a vez. Tímido. Talvez a timidez seja parte deste processo estranho e complexo que é a Natureza. Um mundo de diversidade, de diferenças e unicidades. Talvez ser uma pessoa humana na sua individualidade é das coisas mais singulares que conheço, mas também,  das mais belas. Penso que a nossa diversidade, faz bem ao mundo. Tratar o mundo de forma contrária a isto: hegemonias e generalizações, são passos dados para irmos contra o nosso próprio e autêntico self.Hoje estava na praia e deixei-me ficar, singularmente, sentada na areia, a olhar para o oceano. Sorria, sorria porque acredito fazer parte dessa parte que se orgulha da diversidade. Sorria, porque acredito que as pessoas existem todas em potencial e em diversidade, para onde isto tende, já são outras reflexões - mais complicadas até. Porém, não gosto de deixar de acreditar que um dia, poderemos usufruir em sociedade de um mundo melhor e mais rico, justo e transversalmente mais representativo. Acredito e vou continuar a acreditar. Ingenuidade ou não, acho que  devo seguir os meus princípios.Sorrio. E cada vez que sorrio, menos me lembro do que quero escrever nestas linhas. Fico apenas concentrada no meu… sorriso. Olho os pequenos, dormem, cada um no seu sítio. Olho a janela, o sol vai-se pondo e a luz vai escasseando. Olho para dentro de mim própria, há um sentir em silêncio que estou a gostar, que estou a abraçar e que estou a deixar existir. Faz-me bem, faz-me muito bem. Eu preciso de momentos de retirada, de introspecção e silenciosos depois de estar em espaços com muitas pessoas e muitos estímulos. Preciso, mas já aprendi que posso dar-me o que preciso, não tem mal e nem é problemático… é só isso: reduzir a carga sensorial antes de voltar a trabalhar. Por isso escolhi o Domingo como dia de pausa, como o dia em que o trabalho é palavra banida do meu léxico e do meu dicionário.Parar é importante. Sobretudo, parar sem sentir culpa por se parar. Parar sem estar a pensar nas mil e uma coisas que deveriam estar em curso, mas isso não é vida, é pedir exaustão ao futuro e eu sei o que é estar nesses lugares. Mas não quero mais estar aí… não quero e não posso. Há mudanças positivas na minha vida e é isso que é importante celebrar…  e é isso que me permite sorrir. Olho para trás e vejo de onde vim e para onde vou, e não quero esquecer isso.Estou calma e tranquila. Respiro fundo, suspiro.Fecho os olhos e adormeço.Volto a acordar no dia seguinte e sento-me novamente com o som das teclas a serem pressionadas. Procuro encontrar-me no texto que deixei para trás. Textos a dois dias são comuns no meu dia a dia, entre escrever e descansar, o tempo flutua entre o real e o sonho.O tempo continua com nuvens, mas o céu hoje desperta mais algum Sol. Reencontrei-me e agora recrio-me no texto que comecei a escrever ontem ao fim do dia.Os últimos meses foram cheios de alterações de humor, mudanças de energia, afastamento social e dificuldades em executar quaisquer tarefas. Hoje, hoje mesmo, estou noutro lugar. O meu humor está mais estável, a minha energia subiu, tenho socializado um pouco mais e tenho conseguido executar algumas tarefas. Ter oscilações de humor acutilantes não é fácil, mexe com a minha interação social e capacidade de me exprimir, mexe com a minha capacidade de execução e de sentir. Por quanto, acrescenta a isso falta de energia por diversos fatores, físicos e psicológicos.Estou calma e tranquila. Respiro fundo, suspiro.Semicerro os olhos e observo as árvores que brotam para a minha varanda.Claramente é Verão, o Sol até tarde, as folhas verdes e as flores amarelas. As nuvens vão-se dissipando. Um pouco como as nuvens que vão circulando na minha mente, dissipando. A cada dia, tudo um pouco mais azul céu. Acredito que, de certa forma, as minhas características todas conferem-me alguma complexidade, não no sentido de ser especial, mas no sentido de ter formas de estar que em si, são complexas, limítrofes e difíceis. Não sinto que seja de todo uma pessoa de percurso fácil, mas também é esse percurso, essa história (ou pelo menos a narrativa que tenho) e essa complexidade que me trouxeram até onde estou hoje. Há uns anos não acreditaria estar neste lugar, há uns anos não acreditaria que poderia vir a poder acreditar em mim ou ter a possibilidade de ser menos crítica comigo mesma. Hoje em dia, ainda o sou, mas de uma forma diferente. Mais saudável, mais segura e mais positiva. Há momentos e momentos, mas no geral, penso que estou neste lugar de menos conflito interior.Há umas semanas o meu corpo estava desconectado de mim, não estava sintónica com ele… o meu corpo e o meu self estavam de costas viradas, zangados um com o outro. O meu corpo a expressar as suas palavras, as suas vivências, o seu estar… por outro lado, o meu self, a fazer-me caminhar sem ele, o corpo, puxando-me pela autocrítica, sabotando as minhas próprias vivências. A estabilidade para mim é o caos e o caos a estabilidade. E é essa estabilidade, que tanto saboto, que me leva ao caos e a reafirmar a minha própria sabotagem. Mas não deixa de ser um processo contínuo, lento e trabalhoso. Diminuir este conflito, diminuir este estar fora de páginas do papel.A semana passada falei de insultos e outras violências. Hoje, quero falar do “desinsulto”. O “desinsulto” como peça fundamental da revolução, o “desinsulto” como resistência e como forma de contrariar o propósito do próprio insulto. O “desinsulto” é como uma entidade abstrata que, tal como a apropriação do insulto, nos dá ferramentas. O “desinsulto” é falar no vazio de ideias pré-concebidas, no vazio de assunções. O “desinsulto” é permitir às pessoas serem aquilo que elas são, pelo que são e pelo que querem ser. O “desinsulto” é o curso da autodeterminação. É sem margem de dúvidas a capacidade de estar no mundo como uma árvore e o Sol, numa dança diária, contínua, lírica e tranquila… O “desinsulto” é assim a minha arma, a minha forma de desfazer o insulto - deixando as pessoas serem, simplesmente.Quero acreditar que com os dias, o Sol vai continuar a dançar e a árvore também, numa simbiose perfeita entre a luz e a terra.  Os dias começam agora a ficar mais pequenos, mas o Sol estará lá sempre… até que um dia, se esgote. Porém, apesar da história e da complexidade, o Sol nunca ficará de costas com a vida, o Sol “desinsulta” a vida e a vida “desinsulta” o Sol harmoniosamente.Porque o sol é o Sol e eu, apenas eu,Aqui deixo,Aqui pertenço,Aqui sinto.DaniPS: Artigo escrito a 22 de Junho, 2025Imagem: Daniela Bento - Praia do Meco",
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      "content"	 : "Eram 23h30, saía de casa para me divertir, dançar e ouvir um pouco de música alternativa - já não saía à noite há algum tempo. Não tenho tido disponibilidade de tempo nem mental para estar em aglomerados de pessoas, para socializar e para conseguir ter iniciativa para colocar um pé fora de casa à noite. Mas ontem decidi que haveria de sair. E como decidi que haveria de sair, decidi também, ao fim de longos meses, arranjar os meus corpetes que estavam à espera de atilhos novos à imenso tempo. Tinha um vestido dentro do estilo Steampunk e decidi que era o ideal para esta noite - metal, folk, … era a combinação ideal. E assim foi. Preparei-me e saí. Quando atravessava a estrada, passa um camião com uma série de indivíduos que leio como homens cis, que olharam para mim e gritaram “É um homem!” e ouviu-se uma grande gargalhada de todos dentro do camião. Não foi uma boa maneira de começar a noite.Confesso que tem sido cada vez mais raro ser misgendered no meu dia a dia, mas quando isso acontece e, principalmente quando acontece desta maneira (e dado o nosso contexto político atual), dá-me alguns frios na coluna. Nunca sei o que esperar destes momentos. O medo não me assalta, mas atinge-me um sentimento de desilusão pela sociedade em que vivemos agora.Na História já passamos vários momentos difíceis, muito difíceis. Onde outras pessoas antes de mim, estiveram no mesmo lugar de crítica que tenho hoje, mas submetidas a condições ainda piores. Porém, parece que não aprendemos nada com o tempo. Estamos em 2025, e ainda é divertido insultar alguém pela janela de um camião com gritos na via pública. Estamos em 2025 e ainda é comum seguirmos o script da vida sem questionar, sem criticar e sem subverter. Dá-me pena (e pena de uma forma negativa), que estas pessoas percam mais tempo a fazer um grito de ofensa, que a aprender sobre diversidade. Dá-me pena falar-se da liberdade de expressão quando convenientemente convém (faço o pleonasmo), quando tomam por alvo pessoas que já são socialmente vulnerabilizadas.Estamos em 2025.Estamos em 2025 e a informação abunda.Estamos em 2025 e a visibilidade cresce.Estamos em 2025 e vemos cada vez mais jovens a deixar-se levar por discursos a-críticos, dogmáticos e falaciosos.Estamos em 2025 e assistimos a uma sociedade que se torna mais miserável a cada decisão que toma.A sociedade performa, eu também performo. Todas as pessoas performam regras e contra-regras na sociedade em que vivem. Todas as pessoas de alguma forma subvertem alguma regra social. No entanto, há idiotas e há pessoas que vêm na subversão da outra pessoa potencialidade para desfazer e desconstruir ideias pré feitas e preconceitos. As regras sociais não são ditadas por elementos biológicos e/ou da natureza per si, mas por normalização de comportamentos, códigos e condutas sociais. Aprender em comum é um bem subaproveitado nos dias de hoje.Há uns anos escrevi sobre como fui vítima de assédio no trabalho (A violência que nos impregna), sobre as perguntas que me faziam, sobre o lugar em que me colocaram muitas vezes. Tenho escrito sobre algumas violências (Dias contra o estigma e pela visibilidade) a que tenho sido sujeita nos últimos anos, principalmente depois de me afirmar enquanto mulher e enquanto pessoa não-binária. Pergunto-me, é mesmo necessário ter de viver violência para se existir na nossa forma mais completa? Porque não é a nossa descoberta pessoal, o nosso entendimento sobre o nosso eu, a nossa subversão, a nossa crítica e posicionamento uma forma de estimular a sociedade a contestar regras seculares que em nada beneficia alguém? Porque não simplesmente… viver. Porque temos de fazer com que a vida seja um ato de resistência e de sobrevivência diária?Conseguimos ir ao espaço, conseguimos explorar planetas, conseguimos prever acontecimentos astronómicos, conseguimos curar muitas doenças por mais complicadas que sejam, conseguimos explorar o fundo do oceano e conseguimos comunicar a velocidades que nunca pensamos. Porque continua a ser tão difícil quebrar uma ideia tão errónea como caixas estanques onde se colocam as pessoas e onde se lhes colocam amarras para nunca saírem?Questiono-me muitas vezes…O alerta constante passou a fazer parte da minha vida, como estou, como me apresento, como falo, como escrevo, onde saio, por onde saio, com quem saio, de que forma vivo as minhas relações… pois tudo pode se pretexto para uma dose de violência indesejada, uma dose de violência que não merecemos… e não, a violência não existe só de forma física. A violência toma muitas formas, desde a invisibilidade, ao insulto, à recusa em poder arrendar casa, à recusa em poder ter um trabalho, ao abandono da família e das amizades próximas,… poderia continuar a escrever, mas enfim…Em várias entrevistas que já dei em jornais públicos, já tive a minha morte desejada, já tive ameaças de morte, já tive pessoas a acusarem-me por ter uma saúde mental atípica… poderia continuar, mas é escusado… porém, também tenho a minha fotografia numa lista de terroristas LGBTI+… a visibilidade às vezes custa. E custa caro. Ontem quando saí à rua e ouvi aquelas gargalhadas “É homem!”, perguntei-me se aquelas pessoas me reconhecem de alguma imagem, se quero mesmo ter de passar por isto todos os dias e/ou se quero mesmo estar constantemente num lugar de ameaça, de exclusão e de violência.O mundo não deveria ser assim.Contudo, para finalizar numa nota positiva, cheguei ao bar e as pessoas que me conhecem receberam-me calorosamente. Com um sorriso e muitos cumprimentos, felizes de eu estar de volta ao espaço. Puxando pela minha autoestima que vinha abalada, puxando pelas minhas qualidades e pelo meu sorriso em estar viva e ter conseguido enfrentar mais um dia.No fim, é por estas pessoas que continuo a lutar e é por estas pessoas que vale a pena lutar. Aquelas que mesmo não vivenciando o mesmo que eu, sabem estar, sabem empoderar, sabem fazer o dia mais feliz a alguém. São estas pessoas que vale a pena acolher na nossa rede e sorrir de volta. É por isto, que a minha noite, apesar de ter começado em questionamento, acabou com um fortalecimento de quem eu sou e do caminho que estou a fazer.É por estas pessoas que vale.É por estas pessoas que vale o meu amor e carinho.Num mês tão importante quanto este, o orgulho opõe-se à vergonha de estar no silêncio, de não ser visível e de nos faltar constantemente pares.DaniImagem: Daniela Bento - Relógio Steampunk",
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      "title": "Partidas e chegadas, caminhos e paragens",
      "content"	 : "Vou no comboio, são 21h, saí há pouco tempo do Porto. Olho a janela e vejo o sol a pôr-se de um lado, vejo as luzes das cidades do outro. Ainda é dia, mas a noite está a chegar. Sigo o caminho, acelero e desacelero, percorro quilómetros até que paro… para voltar a arrancar outra vez. Mas vou, vou sempre, de encontro ao meu destino, parto para chegar. Os carros vão passando e nós com mais velocidade do que eles. Caminhamos. Não paramos. As luzes das casas cintilam como estrelas no céu, mas na terra. A minha voz ecoa por entre estas palavras. Foram dois dias de socialização intensa, a bateria social está quase descarregada. Mas ainda dá. Ainda resta e ainda vai sobrar.Hoje é terça, dois dias depois de umas eleições que tomaram conta da minha viagem de vinda para o Porto. Depois de ter votado pela manhã, só me restava esperar pela noite, não podíamos fazer mais nada… os dados foram lançados, só precisávamos de esperar pararem, onde pararam. Confesso, apesar do meu normal optimismo, nesta situação em particular, esperava este resultado. Disse para mim várias vezes, vai ser mau, só falta saber o quanto mau vai ser. E assim se cumpriu. E não, não sou eu que tenho uma habilidade especial para adivinhar estas coisas. É a sociedade, é esta sociedade que tem uma habilidade de se mostrar cada vez mais num fosso, contaminada e dilacerada por quem quer aquilo que não é bom, para quem é bom. Há pessoas questionáveis em todos os sectores da sociedade, mas o que aconteceu não é questionável, é deplorável.Sinto, sinto que caminho. E como nestes dias tenho melhorado o meu estado, também a minha capacidade de resposta está muito diferente. Não me sinto totalmente apática, não me sinto totalmente desconectada, senão seriam mais alguns dias a comer com sabor a papel. Mas como não estou já nesse lugar de apatia total, nem de desconexão total, há sabores que vou conseguindo distinguir e nesse sentido, também a interação social está noutro lugar. Um lugar que não posso esquecer e que, pessoalmente, não posso abandonar. Durante os últimos dias, talvez por estar em contextos mais específicos, o tom era o mesmo. Um tom melancólico, um tom de quem vai em frente, mesmo no cansaço, mas que na realidade, só queria um período de pausa. É nessa ambiguidade que sinto as pessoas com quem estive durante os últimos dias.Atento ao que as pessoas dizem e interpreto as entrelinhas. Porque sim, também interpreto as minhas entrelinhas, o que verdadeiramente queria dizer ou o que verdadeiramente estou a sentir - nem por sorte, na televisão do comboio fala-se dos dados em viés que as próprias redes sociais e a inteligência artificial nos trazem. Também entendo os meus próprios viés e sei que os tenho. Não sou nem estou imune a esses processos. Porém não ser imune não pode servir como desculpa para não ter uma atitude crítica e questionar aquilo que se diz.Sinto, sinto.E não é fácil sentir.Mas é necessário.O nosso modo de estar no mundo mudou. Mudou mesmo muito em poucos anos.A nossa disponibilidade emocional mudou. Também mudou muito, mesmo muito em poucos anos.A nossa sociedade abandonou-se, abandonou-se a si mesma. Entregou-se à violência de forma gratuita, entregou-se à ignorância de forma gratuita - literalmente. Hoje em dia é demasiado fácil chegar a este lugar, mas é bastante difícil sair dele. Infelizmente. No entanto, ainda que seja difícil, não é impossível e todas as pessoas têm a sua responsabilidade, todas as pessoas têm algo a acrescentar. Da mesma maneira que nos colocam nesta situação, são também as pessoas que nos vão permitir sair daqui, deste caminho e fazer uma nova partida.Acredito nisto. Acredito na organização e na construção de base. Acredito em mudanças estruturais e sistémicas. Acredito em revolução, quando as reformas não são possíveis. A ideia revolucionária de existir, não tem espaço numa reforma social, mas sim numa transformação radical dos nossos atos e das nossas formas de estar no mundo. Acredito na pessoa que está à minha frente, mas também nas que estão ao meu lado. Acredito e vou continuar a acreditar. Mas, ainda assim, não deixa de ser decepcionante, que o meu acreditar tenha como resposta, a imposição de valores que nada têm a ver com a realidade, com propósitos que nada têm a ver com o que a História nos tem ensinado, com atribuições que em nada são naturais. Um acreditar que é transcrito numa movimentação anti-humana, anti-ser e anti-existir.Que as interpretações sejam apenas isso, interpretações. E com isto, não podemos fazer das interpretações a verdade absoluta. Não podemos fazer das interpretações o mal menor, e muito menos o mal maior. Vivemos numa sociedade de interpretações, mas não questionamos as premissas iniciais, nem sequer questionamos os resultados. Enquanto for assim… será difícil avançar.E sim, digo avançar, sem medo de dizer avançar, porque o que vivemos hoje em dia é retrocesso. Uma falsa pretensão de sociedade mais justa, mas no fundo, uma pretensão de uma sociedade virada para as mesmas pessoas, para os mesmos processos e para as mesmas circunstâncias.Com isto, não perdoo. Não perdoo quem escolheu que tivéssemos neste momento, esta perspectiva (ou não perspectiva) de futuro. Não perdoo, nem vou perdoar nunca, mas também não vou abandonar. Pois há uma diferença entre nós… eu vejo-te, tu não me vês. Porque dentro das minhas incertezas, entre linhas e dificuldades, eu vejo-te… tu não me vês.O teu sorriso seguro não deixa dúvidas,porque tu não me vês.PS: Este artigo foi escrito dois dias depois das Eleições Legislativas 2025 em PortugalDaniImagem: Ryusei - trains",
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      "author": "danifbento",
      "categories": "Geral, Política"
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      "title": "Porque o discurso também fere...",
      "content"	 : "Já estamos no princípio de Maio, o tempo voa… e eu fico. O tempo vai… e eu fico. O tempo segue… e eu fico. Num artigo anterior (Um primeiro trimestre, para não haver outro…), escrevi sobre os meus primeiros três meses do ano 2025, em que vivi com alguma instabilidade, algum medo de ruptura e, ou até mesmo, vergonha por ser quem sou e, como sou. Tudo isto culminou em duas semanas de pausa forçada. Não conseguir orientar o pensamento de forma estruturada, não me permitia trabalhar em condições, somando o cansaço atroz e a falta de conexão sintónica entre o meu self e o meu corpo. Uma conexão desconexa que me estava a provocar ansiedade, mau estar, fazendo-me colapsar nas minhas próprias dúvidas e incertezas.Confesso que a situação política e social em que vivemos está-me a causar bastante perplexidade e instabilidade. Uma instabilidade física, emocional e mental que vem mexer com a minha integridade pessoal (física e psicológica). Ler/ouvir as notícias do dia tem sido muito difícil (e sim, larguei todas as redes sociais mainstream), principalmente quando nós, mulheres trans (dentro da binariedade ou não), estamos sempre no centro do debate, mas nunca no centro das políticas de inclusão positivas. Estamos num período histórico em que, novamente, muitos setores reacionários anti Direitos Humanos, afirmam que nem somos mulheres, nem somos pessoas com emoções, dignidade ou íntegras. Somos apenas fabricadas pela sociedade capital, somos um produto não biológico (porque existem as mulheres biológicas e nós, que devemos ser de outra constituição que não biológica). Somos vistas como as agressoras e as ladras do sistema, como as enganadoras e as causadoras do pânico moral.Porém, a nossa dor, a nossa dúvida e medo é o avultado produto de uma sociedade doente, podre, desvinculada da realidade. Uma sociedade apolítica que cospe a sua realidade em prol de fantasias como a ordem e o poder. As mesmas pessoas que violentam mulheres trans, que as matam de uma forma direta e/ou indireta, mas que são as primeiras a exotizar e a fetichizar o corpo trans-feminino, as primeiras a “nudar-nos” no mundo - por favor não.Uma sociedade que a cada dia me tem trazido mais dúvidas, mais incertezas, não porque não sei quem sou, mas porque me pergunto continuamente: Até que momento a minha vida vai ser como é? Até que dia vou acordar e sentir que sou capaz de enfrentar a violência de que sou alvo consecutivamente? Até que momento vou sair à rua sem olhar para trás ou por cima do ombro, implorando que não me reconheçam enquanto uma mulher trans? Enquanto uma pessoa com género dissidente? O mundo está a assustar-me. O mundo está a colocar-me numa caixa novamente. O mundo evoca a sua liberdade de expressão em nome do sofrimento das demais pessoas que, como eu, lutam todos os dias para se sentirem vivas.Não é fácil.Não é fácil e este clima está a mexer comigo.Sei que vou enfrentá-lo, sei que o vou ultrapassar - não há outra solução possível.Mas fica o desabafo, o sentir a vida a fugir entre os dedos, o sentir o corpo deixar de ser meu novamente - o sentir deixar de ser eu, novamente. Enquanto puder, vou estar na luta, enquanto puder vou estar aqui. Mas sinto horrores nos dias de hoje, sinto medo e sinto tristeza.As estações do ano provocam-me sempre fases de crise de saúde, entre a euforia e a depressão. Porém, acho que se estavam controladas, agora há alguns sintomas que são exacerbados pela instabilidade sócio-política. Uma pressão constante que recai sobre nós, sobre quem somos e como nos expressamos. Não é uma crise como outra qualquer. É uma crise político-identitária, pois sinto pressão em reverter todos os meus alinhamentos políticos para conseguir ter uma vida, para conseguir estar em sociedade e para conseguir não morrer (mesmo que simbolicamente). E a pior morte que posso ter é não conseguir ser eu, mas ser eu… começa a ser uma nuvem pesada de emoções que se contrastam continuamente no tempo e no espaço.Pessoas dentro do campo da mono-cis-heteronormatividade nunca poderão entender este sentir em profundidade, ainda que possam empatizar. Mas nunca terão a vida em questionamento por serem monogâmicas, cis e hetero, podem por outras razões, mas não por estas. Acho que até há pouco tempo não queria aceitar que este contexto me estava a provocar estas oscilações nos meus ciclos, tenho procurado outros gatilhos para a minha situação instável de saúde - mas não é preciso ir longe: connosco, mulheres trans a ser alvo da violência institucional e política contínua é compreensível que eu oscile mais, que tenha de despender mais energia para estar bem e que o meu dia passe a ser despendido a procurar ferramentas de sobrevivência emocional.Lembro-me da minha primeira consulta na Psiquiatria - Sexologia Clínica, quando procurei o médico para mudar o meu nome (porque àquela data, ainda era necessário um aval médico): eu estava bastante à vontade com quem era, com o que queria - 2 anos depois estava doente, estava cansada por ter sido posta à prova consulta após consulta até duvidar de mim, como uma prova de endurance que ninguém tem de passar quando se reconhece a si mesma. Foram dos anos em que tudo o que sabia de mim foi questionado e foi patologizado - até perguntas sobre quando deixei as fraldas foram necessárias, testes motores, de memória, de personalidade, até de QI, tudo… Hoje, 10 anos depois, estou a sentir o mesmo, mas de uma forma mais transversal, mais sistémica e profunda, pois tem origens muito mais estruturais do que apenas as minhas consultas - a minha relação pessoa-médico - mas todas as minhas relações pessoa-pessoas.Custa-me. Custa-me bastante. A minha trans feminilidade está sempre a ser colocada à prova. Porque sou, ou não sou, ou porque não sou o suficiente, ou porque algo… sempre. Se sei que é preciso continuar a lutar? Sei. Se sei que é preciso ter força e continuar? Sei.Não preciso que me digam, lembro-me disso a cada momento do dia e da noite. Mas neste momento só me apetece desligar de toda esta realidade e isso tem sido paradoxal, pelo menos para quem sempre amou a vida. De poder acordar um dia e sentir que não sou parte de uma das comunidades que mais serve a culpa dos problemas da moral social, da decadência desta sociedade em que vivemos.Mas não, não somos nós que apodrecemos este canto da sociedade, foi a inação de quem tem responsabilidade social e política. Foi a inação de uma população perante o crescimento do discurso de ódio, do discurso anti Direitos Humanos, por ser permissiva e por ser complacente ao mesmo.A minha saúde mental agrava-se com esta conjuntura.Se tenho medo? Tenho. Se continuo aqui? Continuo. Se é possível ser indiferente? Para mim não é. A indiferença foi o que nos levou até onde estamos hoje. Essa indiferença, essa mesmo.Quero pensar que o mundo pode melhorar, que pode ser mais justo para com todas as pessoas, mas até lá, ainda há muito caminho para percorrer e, para já, enrijecer para não andar para trás. Enrijecer pela manutenção do que demoramos anos a conquistar e a tomar como um direito.As minhas dificuldades estão cá e socializar tem sido um desafio cada vez mais difícil para mim… a minha introversão tem tomado conta do meu estar, pois é mais seguro o meu silêncio. É mais seguro estar neste lugar.Respiro fundo, respiro fundo, pois quero ser capaz de sobreviver.Respiro fundo, respiro fundo, pois quero ser capaz de estar.Respiro fundo, expiro… pois a minha voz não sai, apenas ecoa um som frágil e vulnerável.Respiro fundo, inspiro…pois o ar da sociedade fede, e eu apenas tenho esse para respirar.DaniImagem: Pedro Gomes Almeida - Dani Bento ",
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      "title": "Um primeiro trimestre, para não haver outro...",
      "content"	 : "Este último trimestre não foi fácil. Foi um início de ano conturbado e com bastantes oscilações, entre o cansaço, a apatia e a melancolia. As dificuldades em cumprir os meus objetivos foram evidentes, bem como cumprir com o que quer que me pedissem. No emprego senti que tudo se complicou, não porque o trabalho mudou, mas porque a minha capacidade de dar resposta decresceu bastante. Simultaneamente, na vida pessoal e no ativismo, paralisei. Consecutivamente deixei de cumprir obrigações que tinha, bem como deixei passar o meu próprio autocuidado para um lugar que não chega há bastante tempo.Sei que senti a minha energia ir para valores muito baixos, e não só a energia, mas o meu próprio estado anímico. A tristeza acompanhou-me grande parte do tempo, uma tristeza profunda, uma melancolia de deixar os meus pequenos (o Misako e o Emi) quase ao abandono. A dificuldade em gerir emoções e expectativas estava em saldo negativo. Tive de fazer um esforço muito grande para conseguir manter alguma funcionalidade e alguma vontade de viver.Não foi fácil acordar sem vontade de me levantar e adormecer sem vontade de acordar. Os dias podiam ter 24 horas, a maioria do tempo… usado para dormir, dormir, dormir. Pausas eram usadas para dormir, refeições usadas para dormir e viagens usadas para dormir. Tudo era uma desculpa para dormir e não sentir o mundo. Tudo era uma forma de me desligar e desconectar de mim. Pois eu não estava a conseguir viver conectada comigo. Não me encontrava. Não me achava. Não me localizava.Felizmente agora estou melhor, a tomar decisões mais saudáveis, a tomar iniciativas mais cuidadoras de mim. Aos poucos, aos poucos as coisas vão mudando. Porém fica a tristeza do que poderia ter sido feito e não foi, a culpa por não ter feito e a frustração por não conseguir me colocar em mais lugares que gostaria de estar. Compreendo o meu estar e é por isso que o aceito e deixo-me vivênciá-lo como deve ser e permitir-me refletir nos passos seguintes. Aos poucos começo a fazer coisas que gosto, a organizar-me melhor, a ter a capacidade de interagir… mas isto teve e tem custos. Tem custos sociais, o afastamento de pessoas, a dificuldade de comunicar as minhas necessidades, o meu fechamento em mim mesma. Toda uma dinâmica de perder sensibilidade à vida.Amor, não o amor romântico, mas o amor pelas coisas, pelas pessoas e pela vida. Perdi. Perdi esse amor, perdi essa vontade, perdi essa dinâmica e, tudo isto, deu lugar a medo, preocupação, isolamento, quebra de capacidade de fazer tarefas que normalmente gosto, perdi a vontade de estar com quem quer que seja em que registo for. Perdi amor. Amor de viver.  Preciso de me apaixonar novamente, preciso apaixonar-me por mim, e novamente pelas pessoas. Preciso sair deste registo.Acordo de manhã com um peso na consciência por tudo o eu deixei para trás, porém também acordo com algum alívio por me sentir sair deste registo, ainda que devagar e devagarinho. Mas vou sair. Ter consciência das minhas oscilações é um passo gigante para a minha estabilidade. Saber com o que conto e com que conto. Apesar deste saber ser difícil, é a prática que dita a nossa capacidade de escolha e seleção. Estou neste momento a procurar encontrar-me e penso que aos poucos já me vou vendo e me reconhecendo. É difícil, é… mas é possível e eu vou conseguir, só preciso de tempo e espaço. Só preciso ganhar paixão novamente. Só preciso de me amar novamente e sem medo de gostar de mim, sem medo de aceitar que sim, até posso ser uma boa pessoa, que sim até pode ser bom estar comigo, que sim, até pode ser bom viver um projeto de vida comigo mesma. Neste sentido quero amar, quero amar chegar a casa, mas também amar sair de casa. Quero amar os meus pequenos, quero amar as pessoas que me rodeiam e quero amar as coisas que faço. Quero amor. E isso é um processo de autocuidado revolucionário, muito revolucionário. Saber o que queremos para nós e como queremos e com quem queremos é fazer a revolução, é amar na vida e não amar na expectativa. É verdadeiramente amar.Por isso eu quero um segundo trimestre do ano melhor, mais rico, menos triste e com crescimento pessoal, com paixão e muito cuidado, com muito amor.Por isso eu quero um segundo trimestre do ano melhor, mais sorridente e cheio de emoções e cheio de vontades, com direito à vida.Por isso eu quero um segundo trimestre do ano melhor, sem culpa, sem frustração desnecessária, sem… sentir-me morta para tudo.Por isso eu quero…DaniImagem: Suparerg Suksai - Thailand ",
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      "author": "danifbento",
      "categories": "Geral, Saúde"
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      "title": "Adeus Meta, X e companhia...",
      "content"	 : "Redes sociais como o X, Facebook, Instagram, e agora o Threads fizeram parte de uma longa história de partilhas de conteúdo online que produzia ou que partilhava com outras pessoas. Há vários anos que tenho um blog onde escrevo textos diversos e normalmente acabava por ser nestas redes que divulgava o que escrevia. Era assim que muitas vezes as pessoas achavam o meu conteúdo. Porém, acho que importa dar um basta. Sei que, infelizmente, estas redes são, desde o seu início, uma forma de capitalizar a nossa informação e de a vender “se não pagas o produto, é porque és o produto”. No entanto, com o seu crescimento, mais e mais pessoas aderiram a estes produtos, sendo que hoje em dia torna-se difícil sair sem ter um custo associado.Podemos fazer com esta linha de pensamento uma crítica à presença nestas redes, mas não é o objetivo desta entrada.Com as recentes mudanças na empresa X (ex-Twitter), a empresa de Elon Musk e a Meta, empresa que detém o Facebook, Instagram, Threads e o WhatsApp, tornou-se claro que deveria deixá-las seguir o seu rumo e eu o meu. O X, deixou de ter o espírito do Twitter, e neste momento é apenas um local onde se destila ódio sem qualquer barreira e sem qualquer ética. A Meta seguiu o mesmo caminho e deixou de verificar a veracidade dos dados, em detrimento da sua própria definição de liberdade de expressão.Resta-me assim procurar alternativas pagas, ou não, que me permitam continuar a obter a informação que preciso e quero, bem como poder partilhar o meu conteúdo. Há uns meses comecei um processo de de-Googling, agora vou iniciar um processo de de-X, de-Meta, que inclui abandonar estas redes em detrimento de outras ou nenhuma.Existem dificuldades, dado que a nossa vida está “literalmente” espelhada nestas redes, mas é um passo necessário que se fará com o seu tempo. Alternativas como o BlueSky para substituir o X, o Mastodon para substituir o Facebook, o PixelFed para substituir o Instagram, o Telegram ou Signal para substituir o WhastApp. Entre outras soluções que existem.De facto, é preciso ir mais longe. É preciso questionar a própria utilização destas plataformas. Há ganhos? Não há? Chegamos a quem queremos? Estamos de facto a proliferar boa informação? Há um custo associado de sair destas redes, um custo social e económico. Por um lado, é necessário fazer valer a nossa posição enquanto ativistas pelo direito fundamental a uma vida digna e sem ser alvo de violência gratuita. Por outro lado, perder acesso a uma série de informação vai-me obrigar a procurar alternativas. Quem sabe, alternativas melhores!Ao mesmo tempo que executo este processo de de-Googling, de-X, de-Meta, também quero transportar grande parte do meu conteúdo para infraestruturas dentro da Europa, retirando-me da dependência de empresas dos EUA. Por exemplo, este site deixou de estar num Virtual Private Server (VPS) na DigitalOcean, para estar num servidor da Hetzner (empresa alemã). Neste mesmo sentido, muitas outras mudanças vão acontecer, depois escreverei uma entrada a falar de todas as migrações que fiz e que irei fazer.Pergunto-me como será o futuro? Estarei eu mais excluída dos espaços? Acho que no princípio estarei, porém penso que é um preço justo a pagar por estar a deixar espaços de violência. Mas em consequência do que tem acontecido, é um passo que me é natural fazer.Deixo aqui os meus perfis nas redes sociais novas que estou, aos poucos, a migrar a minha informação.  Mastodon  PixelFed  BlueSkyDaniImagem: Daniela Bento",
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      "categories": "Geral, Tecnologia, Redes Sociais"
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      "title": "Ano 2024, em revisão...",
      "content"	 : "Primeiro dia de 2025. Foi um ano longo e ao mesmo tempo, muito rápido. Um ano cheio de oscilações mais intensas ou mais graduais, mas com muitas oscilações. Não foi um ano fácil, de todo. Porém, aprendemos e aprendemos sempre, é esse o grande desafio da vida: aprender.Este não foi um ano muito rico em artigos neste blogue, apesar do que tinha intenções no início do ano. Infelizmente os altos e baixos do dia a dia não me permitiram colocar em ação o que queria para este espaço, mas chegaremos lá, mais cedo ou mais tarde, chegaremos.Porém, fica aqui uma visão do que foi o meu caminho de 2024 apresentado nos artigos que consegui escrever durante o ano.O meu primeiro artigo foi só depois do início de Abril, intitulado “Uma parede branca” e usa a tela branca como uma metáfora para a construção da vida em diversos aspectos:  “E talvez isso seja o mais importante de sentir-me uma parede branca. É deixar-me e permitir-me sentir todo o espectro de emoções que existem e não questionar a minha saúde por estar feliz ou estar triste. Durante anos, esse foi um critério para gerir as emoções, não me permitia simplesmente vivê-las, porque significavam algo mais aterrador, mais provocador, mais mortífero… na realidade.”Em Junho escrevo sobre como eu consegui ressignificar o mundo, a minha vida e ao mesmo tempo sobre o cansaço da coerência:  “Estou cansada de racionalizar o que sinto, de dar resposta a um sistema feito para manter o controlo, manter a eficiência laboral e para produzir para o capital. Eu não quero ter de racionalizar constantemente, quero ser uma pessoa que vive as suas emoções e as suas contradições com o que têm de bom ou mau. Racionalizar foi a minha arma de combate durante anos, criava-me uma distância segura onde me podia proteger. Hoje não quero essa distância, não quero essa barreira.“Já só volto a escrever em Outubro, sobre o medo, a insegurança e a memória:  “Escrevo na expectativa de poder recordar, de poder mais tarde olhar para trás e voltar a ler-me. Escrevo porque os meus dedos assim o dizem para fazer, sem medos e sem vergonha. Neste momento de paz que encontro comigo mesma, com tudo o que faz parte da minha vida, e com tudo o que não faz parte, também. Sou um conjunto de partes, que se cruzam e partes que se estilhaçam no Universo. Sou parte de um todo, de mim.”É Novembro e estou em deslize para mais uma crise depressiva, o mundo tornara-se difícil, muito difícil, deslizei, mas não caí:  “Há umas semanas que não me venho a sentir bem, tendo-se tornado mais difícil nas últimas duas. O esforço imenso que faço diariamente para sobreviver mais um pouquinho é tremendo, é duro e é angustiante. Respiro fundo…, mas respirar fundo não é suficiente. Fecho os olhos e procuro o silêncio…, mas o silêncio não é suficiente. Deito-me e tento dormir…, mas dormir também não é suficiente. A vontade de viver acabou e a vitalidade desapareceu deste mundo. Custa-me, tudo me pesa, tudo me é difícil e requer imensa energia que não tenho.”Já em Dezembro, estou noutro lugar, mais optimista, mais segura de mim, mais proativa em criar momentos de autocuidado:  “Era preciso voltar a agarrar-me a algo palpável, material e forte para me sustentar, mesmo que fosse mais uns dias. Era um dia de cada vez, um momento de cada vez, um acontecimento de cada vez, que somados ao cansaço me tornavam mais sensível e muito menos capaz de responder às expectativas: ainda hoje me custa, estou melhor, mas ainda me custa.”Não foi um ano rico em artigos por aqui, mas aconteceram também algumas coisas interessantes: consegui entrar na Pós Graduação de Sexualidade Humana na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e finalmente consegui começar a ter alguns momentos de descanso sem sentir culpa, tudo se tornou um pouco mais fácil de viver no dia a dia. No entanto, foi um ano de várias ressignificações, vários momentos difíceis que ainda preciso continuar a trabalhar e a colocar na minha agenda de trabalho pessoal.A partir daqui, espero conseguir tornar um 2025 mais rico em diferentes dinâmicas de autocuidado e autopreservação. Continuar a lutar para erradicar amarras que me prendem, continuar a viver para viver e não só sobreviver.Por um ano de 2025 com mudanças estruturais importantes e de fundo para o meu dia a dia.Artigos de 2024:  Estendida no sofá, acho-me…  Na corda bamba com as estações do ano…  Pelos céus… de encontro a mim mesma…  Reconduzir, ressignificar, repensar…  Uma parede branca…Feliz Ano 2025 e continuação de boas leituras,Dani",
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      "title": "Estendida no sofá, acho-me...",
      "content"	 : "Estou no sofá, olhos fechados, pernas esticadas, sorriso. O Emi preenche os espaços entre as minhas pernas e o sofá, o Misako dorme no seu local preferido: a cadeira. Estou no sofá, respiro, respiro profundamente e saúdo a minha travessia, o meu caminho ou o meu trajeto. Sorrio. Escorreguei e quase caí, escorreguei e quase passei o limite, escorreguei e quase, quase, quase entrava noutro período de maior complexidade. Escapei por entre as gotas da chuva de uma crise maior, escapei e sobrevivi. Fica aqui o registo para quando precisar voltar.Escapei e sobrevivi.Há umas semanas lutava contra um abanão profundo, contra mais uma maré de ataques de pânico, contra mais uma angústia do tamanho do universo, contra a vontade de desistir de tudo e principalmente, contra a vontade de me abandonar a mim mesma no vazio. Contra tudo isto e mais, lutei e caminhei. Mesmo quando era impossível acreditar que haveria mais vida para além daquilo que estava a sentir. Vai ciclicamente acontecer, mas quando acontece dói, e dói muito. Porém, felizmente, já vou conhecendo os meus altos e baixos - ainda que às vezes a dor é tão grande que fica difícil conseguir ver com base neste conhecimento. Mas tenho as ferramentas, construí as ferramentas ao longo de vários anos. Tenho.Atravessei um período difícil, dissociada do meu corpo, dissociada de quem eu era e sou, dissociada da minha capacidade de viver. Era o fim da linha.Era preciso voltar a agarrar-me a algo palpável, material e forte para me sustentar, mesmo que fosse mais uns dias. Era um dia de cada vez, um momento de cada vez, um acontecimento de cada vez, que somados ao cansaço me tornavam mais sensível e muito menos capaz de responder às expectativas: ainda hoje me custa, estou melhor, mas ainda me custa.A conselho e sobre autonomia. Percebi que precisava forçar-me a mudar rotinas, a aproximar-me mais de mim, do meu corpo, dos meus desejos e daquilo que me fazia sentido na pele. O trauma que emana das minhas células corporais complexifica a obtenção de sensações boas ou agradáveis, são contínuas metamorfoses de uma realidade que oscila entre o aqui e o antes.A conselho e sobre autonomia. Precisava ganhar novamente controle sobre o meu corpo e sobre o que sentia. Precisava transformar estas memórias em algo do presente. Precisava recuperar a minha auto-estima, o meu bem-estar, o meu desejo e a minha auto-percepção enquanto pessoa merecedora de felicidade e de bom trato. Precisava tomar decisões autónomas e emergentes para me conciliar com o meu corpo, para me reconectar e afirmar-me.A ferros, mas com mais segurança a cada dia, comecei a fazer exercício todos os dias pela manhã ao acordar: algo simples, uns alongamentos, 15 minutos. Decidi que era tempo de largar os fatos de treino ainda que esteja a trabalhar de casa a maioria do tempo: estava a deixar-me ficar distante do meu autocuidado e do meu auto-carinho. Por isso, todos os dias, agora, visto algo mais complexo que não um fato de treino: voltei a usar saias e vestidos, voltei a ter mais algum cuidado com o corpo e com a forma como o trato.A cuidado decidi que seria uma ideia promissora e que podia resultar positivo fazer uma sessão de fotografia de boudoir, desta vez, sendo eu fotografada, sendo eu a cara da imagem e do resultado final. Dada a complexidade da minha relação com o corpo, senti que podia ser um desafio bastante interessante e que poderia resultar em dois extremos: ou iria odiar por não me conseguir ver, ou iria gostar por entender as limitações de cada corpo em cada momento. Foi neste sentido que numa pesquisa no Google por pessoas fotógrafas que faziam este tipo de sessão em Lisboa, encontrei a Romana Preto. Falamos ao telefone e fiquei super entusiasmada com a possibilidade do trabalho, com a sessão e os resultados. Senti-me segura e confiante na primeira conversa que tivemos ao telefone. Fizemos a sessão uns dias depois.No fim, quando recebi as fotos, emocionei-me. A sessão foi bastante agradável, inclusiva e cuidada. Mas tinha medo das fotografias, do que eu iria sentir ao ver-me. Porém, fiquei surpreendida por ficar surpreendida pela positiva com o resultado. Senti-me bem na sessão e senti-me feliz com o resultado, emocionei-me, pois era a primeira vez que tinha um conjunto de fotografias destas, deste estilo.Através destes pequenos atos tenho-me aproximado de mim novamente, estou mais agarrada à vida e à possibilidade das coisas que ela nos pode trazer. Porém ainda não sinto que esteja totalmente recuperada, mas estou num caminho de ascensão ao meu bem estar e à minha auto-preservação.Respiro novamente, olho para o Emi, olho para o Misako, nunca duvidaram, nunca questionaram quem eu era, sempre fui, para eles sempre fui, sou e serei. Agora que vou ganhando hábitos e que tenho um momento registado de como me senti conectada comigo, será mais fácil, será mais revolucionário e potente. Agora será para continuar, será para investir, será para amar-me com paciência e carinho, com ternura e cuidado.Pois eu mereço,Pois eu quero,Pois eu…DaniImagem: Daniela Bento - Romana Preto",
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      "title": "Na corda bamba com as estações do ano...",
      "content"	 : "É novembro, meio de novembro. Estamos a meio da estação de outono, mais perto do inverno e cada vez mais longe do verão… aproxima-se o solstício de inverno, que nos dá o dia mais pequeno do ano. Num espaço temporal em que as estações eram bem demarcadas, começaria o frio, começariam as chuvas e diminuiria o tempo de luz solar. No entanto o tempo está mais instável e consequentemente estes acontecimentos de outono também. Para alguém com crises sazonais este período revela-se agora mais desafiante: se por um lado a incerteza das mudanças de tempo também trazem a incerteza da crise, por outro lado, também a sua instabilidade traz a incerteza de como nos vai afetar naquele momento. Muito, pouco? Assim, assim? Não sei…Há umas semanas que não me venho a sentir bem, tendo-se tornado mais difícil nas últimas duas. O esforço imenso que faço diariamente para sobreviver mais um pouquinho é tremendo, é duro e é angustiante. Respiro fundo…, mas respirar fundo não é suficiente. Fecho os olhos e procuro o silêncio…, mas o silêncio não é suficiente. Deito-me e tento dormir…, mas dormir também não é suficiente. A vontade de viver acabou e a vitalidade desapareceu deste mundo. Custa-me, tudo me pesa, tudo me é difícil e requer imensa energia que não tenho. Quero acreditar que é só uma crise sazonal, que vou ficar melhor e que vou sair deste lugar escuro, sem luz - enquanto tiver a esperança de que vou sair é positivo, piores são os momentos em que não consigo ter essa consciência, que tudo me parece longínquo, distante e frio.A minha capacidade de sociabilização está reduzida a nada, custa-me falar, custa-me estar presente, custa-me viver o momento. Tudo se torna um peso, uma dificuldade sem medida possível. Os meus gatos bem se aproximam de mim, procuram-me e eu não lhes consigo dar a resposta que sempre dou. Um gesto, um mimo ou uma festa, mas não consigo. Não consigo. Procuro escrever para me ajudar, procuro colocar em papel os pensamentos que me chegam e que me atravessam, mas até isso é um exercício difícil, muito difícil - a vontade não é muita, a dificuldade é demasiada. Olho lá para fora e só quero ficar cá dentro, escondida dentro de um cobertor, sem que ninguém me veja, sem que ninguém me procure e sem que ninguém dê por mim.Às vezes assusta-me a quantidade de vezes que irei passar (e já passei) por estes ciclos na vida, quantas vezes ficarei assim, quantas vezes quebrarei sem motivo aparente, sem causa e consequência. Quantas vezes acordarei sem vontade de acordar, sem vitalidade ou vontade de estar no mundo. Assusta-me porque é duro, muito duro. Não é impossível de viver, mas não deixa de ser duro. A medicação certa ajuda, a terapia certa ajuda, mas há sempre momentos em que vamos ao engano da própria vida. Vamos ao engano do que conhecemos ser certo para nós. Dói-me. Tudo me dói. Tudo me deixa bloqueada e sem energia. Saboto o meu dia, as minhas relações, o meu trabalho, a minha vida social. Saboto porque o lugar da dor é-me confortável, é-me conhecido, é-me próximo.Quando se tem um diagnóstico de Bipolaridade que, também, se desenvolve sob uma PSPT-C (Perturbação de Stress Pós-Traumático Complexo), o pesadelo existe no passado, no presente e no futuro. As crises ficam incrivelmente mais vividas, mais presentes, mais corporais. O corpo fala e o corpo diz. O corpo fala muito e o corpo diz muito. O corpo fala dor e fala sofrimento. O corpo dói e o corpo sofre. A minha mente navega entre o trauma e a realidade, deixo de saber onde estou: não sei onde estou. Tudo me parece igual, tudo me parece uma fita riscada, um rolo desmedido com a mesma imagem sempre e sempre, sempre e sempre. O mesmo símbolo, o mesmo significado, a mesma representação. O simbólico que é também real e o real que é também simbólico. Tremo, tremo muito. Espasmos, dor.Resta-me ter paciência, mesmo muita paciência comigo mesma. Entender e respeitar o meu próprio espaço, cultivar a empatia por mim, semear o cuidado e o carinho que mereço. Resta-me esperar, esperar e esperar. Organizar as ideias e repetir várias vezes que isto será só uma fase, nada mais, nada menos. Repetir até acreditar, repetir até ter a certeza, repetir até sair deste lugar. As várias etapas da minha vida são marcadas por momentos assim, descidas e também subidas abrutas, mas com o tempo têm-se dissipado, têm tido menor escala. No entanto não desaparecem… porque há marcas que nunca vão desaparecer.Preciso sentir o meu próprio amor… preciso sentir-me, voltar a montar todos os pedacinhos em que me desfiz, em que me parti, em que me dissociei. Preciso de voltar a mim, a não olhar para o meu corpo como um estranho pedaço vivo sem alma, preciso de o reconquistar, ser meu… ser agente dele.Preciso.Simplesmente preciso.DaniImagem: Depression. - Mary Lock",
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      "author": "danifbento",
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      "title": "Pelos céus... de encontro a mim mesma...",
      "content"	 : "Sobrevoo os céus de Portugal e vou a caminho de Bucareste, Roménia. Estou a umas escassas horas de distância de começar a conferência da ILGA-Europe, que irá acontecer nos próximos dias, até precisamente sábado, dia 19 de outubro. Volto dia 20 de outubro. Volto, a Lisboa, dia 20 de outubro. Em viagem, penso e repenso no meu lugar, reflexiono e volto a reflectir neste lugar que ocupo. Onde estou? E para onde vou?Tudo isto aquando de ter para a semana, dia 26 de outubro, a primeira aula da Pós-Graduação em Sexualidade Humana, na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. Esta Pós-Graduação vai na IV edição… concorri na I edição, mas sem sucesso - tinha Mecânica Quântica por fazer na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.São estes tempos que se avizinham cheios, cheios e ricos, ricos e desafiantes, desafiantes e… não sei descrever. Quero fazer o meu melhor. Quero e preciso, preciso e necessito, necessito e irei conseguir. Mas tenho medo. O medo atingiu-me nestes dias que têm passado. Algum medo, alguma insegurança… serei eu capaz de levar tudo isto? Serei eu capaz de enfrentar os meus próprios medos internos, romper com as minhas próprias metodologias tóxicas e inexperientes? Faço perguntas, faço muitas perguntas. Pergunto-me e volto a perguntar, sou eu capaz?Sou eu capaz? A minha grande dúvida, o meu grande receio, o meu grande medo.Na semana passada assinalou-se o Dia da Saúde Mental (10 de outubro). Partilho este artigo (Dia Mundial da Saúde Mental - A doença invisível) que escrevi, em 2019, num momento difícil da minha vida. Um existir e viver em depressão profunda, custou-me 4 a 5 meses numa recuperação árdua e intensiva. Agora passaram 5 anos e estou neste lugar simbólico, a vários milhares de quilómetros do chão.Também, se assinalou o dia do Coming Out (11 de outubro), um dia que marca um marco importante para muitas pessoas LGBTQIA+. Um dia que me lembra vários dos meus processos durante os últimos anos, onde me afirmei, re-afirmei e, por força das circunstâncias, continuo a reafirmar em várias identidades. Durante anos tive medo desse processo, mas segui em frente, porque sabia que era importante seguir em frente. Não ficar parada no próprio ódio, no próprio desgosto, no próprio medo de avançar no dia a dia. Porque falo em ódio? Em desgosto e medo? Porque durante anos e anos acreditei que eu estaria errada. O mundo ao meu redor, e não só, fez-me crer que sim, que estava errada e alimentou o meu medo.Um medo profundo de sentir ódio de mim, sentir desgosto por quem eu era e sou.Sinto hoje que fiz um caminho… longo, mas fiz um caminho. Foram diversos os obstáculos que existiram e que ainda continuam a existir, mas sigo um desejo, um desejo de ser, estar feliz: essa emoção relativa e difícil de mensurar. Não deixa de ser uma medida de cada pessoa e para cada realidade. Passei por momentos bons, maus. Passei por momentos excelentes, péssimos. Passei por momentos de que não me lembro, de todo. Hoje estou num lugar que nunca sonhei estar, nunca fez parte dos meus planos e que, sobretudo, nunca me achei capaz de tal. Hoje estou num outro lugar, onde me apetece sorrir - apesar do medo, apesar da insegurança. Um lugar de experiência, de provocação, de contestação. Um lugar na margem, mas no centro da mudança. Porque é na margem que a mudança acontece, é na margem que erguemos as nossas energias, é na margem que questionamos a centralidade do mundo ou, pelo menos, da nossa sociedade.Escrevo, escrevo porque sinto e porque vivo.Escrevo na expectativa de poder recordar, de poder mais tarde olhar para trás e voltar a ler-me. Escrevo porque os meus dedos assim o dizem para fazer, sem medos e sem vergonha. Neste momento de paz que encontro comigo mesma, com tudo o que faz parte da minha vida, e com tudo o que não faz parte, também. Sou um conjunto de partes, que se cruzam e partes que se estilhaçam no Universo. Sou parte de um todo, de mim.Sou eu, apenas eu.Sou eu, apenas o desejo.Sou eu, apenas a vontade.Sou eu, apenas a estadia.Sou eu, apenas vida.DaniPS: Este texto foi escrito no dia 16 de outubro.Imagem: fear - duncan cumming",
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      "author": "danifbento",
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      "slug": "reconduzir-ressignificar-repensar",
      "title": "Reconduzir, ressignificar, repensar...",
      "content"	 : "Sento-me. Ajusto os phones nos ouvidos. Puxo o tabuleiro do teclado e abro um documento em branco. Oiço a banda sonora que me acompanhou durante a execução e escrita do meu projeto final de curso – Projeto em Astronomia, intitulado Rádio-Interferometria – Simulação e Optimização. Uma música de Ricardo Villalobos, chamada Lugom-IX – minimal techno. Não sei porquê, hoje deu-me para escrever a ouvir eletrónica. Não é muito habitual, mas por vezes acontece.Vale a pena respirar e deixar-me levar pelos tons e pela melodia. Uma melodia que acompanha um fim de semana de 4 dias, depois de uma semana bastante pequena dado que na segunda também foi feriado. Marcada em geral por altos e baixos emocionais, felicidades e tristezas. No fundo, caminho e apenas, mais caminho.Olho em meu redor, os pequenos dormem, dormem o seu “profundo sono de gato”. Um sono profundo, mas sensível ao meu estar, sensível ao meu sentir e ao meu sorriso. Sorrio. Sorrio e olho para ambos. Cada um no seu lugar. Tenho a certeza que me sentem, tenho a certeza que sabem o meu lugar.No meu último texto, “Uma parede branca…” escrevia:  “Respiro fundo, preciso respirar fundo neste momento. As palavras começam a bloquear o meu pensamento e começo a ter dificuldade em escrever, mas continuo, vou continuar. Fecho os olhos e escrevo dessa maneira, sem medo, sem medo do que vai sair no teclado, confio nos meus dedos, confio na minha memória corporal.”Hoje estou noutro lugar, não quero fechar os olhos, mas também não confio nos meus dedos. Apenas respiro fundo. Um respirar fundo que atenta com a minha tranquilidade, sinto-me tranquila, neste momento sinto-me tranquila. Apesar de tudo… tranquila.A nossa sociedade (euro centrada) ensina-nos que devemos ser coerentes, produtivistas, capazes, implacáveis na nossa forma de estar no mundo. Não temos espaço para o erro, para a dúvida, para o medo, para a incorência, para o mal estar. Estas são coisas de quem não consegue, de quem não aguenta, de quem não tem capacidade emocional ou de quem não tem resposta para os desafios do dia a dia. A pressão a que nos sujeitamos é tremenda por tantas definições de uma sociedade que vive uma felicidade aparente, no topo de um conjunto de injustiças perpetradas de forma continuada.Vivemos à custa de pensos rápidos sobre as nossas próprias emoções. Sem um trabalho de continuidade. Sem um trabalho de coletivização dos sentires. Não sou imune a este ponto, a dissonância que sinto entre o que acredito e aquilo que retiro do mundo deixa-me cansada.E neste momento sinto cansaço. Sinto cansaço do certo e do correto. Da segurança, do domínio e do controlo. Nem sempre faço o mais correto, nem sempre faço o mais certo. Nem sempre estou segura ou capaz de dominar os meus estados. Faço e sinto. Sinto e faço. E muitas vezes A não liga com B, mas B também não liga com A. Estou cansada. Acima de tudo, estou muito cansada.Escrevia, no mesmo artigo:  “São muitas dúvidas as que tenho por falta de referenciais.”Estou cansada de racionalizar o que sinto, de dar resposta a um sistema feito para manter o controlo, manter a eficiência laboral e para produzir para o capital. Eu não quero ter de racionalizar constantemente, quero ser uma pessoa que vive as suas emoções e as suas contradições com o que têm de bom ou mau. Racionalizar foi a minha arma de combate durante anos, criava-me uma distância segura onde me podia proteger. Hoje não quero essa distância, não quero essa barreira.Hoje quero sentir algo diferente, quero viver.Pego neste artigo, já passaram alguns dias. Não o consegui acabar no seu tempo, não o consegui publicar no seu tempo… não consegui. Mas na mesma linha do que pensava há uma semana atrás, porque tenho de conseguir? Porque tenho de sempre conseguir? Ou, de aparentemente mostrar que consigo? É um lugar perigoso, esse, onde me coloco. É por isso que sinto que preciso de coletivizar mais os meus sentimentos e emoções, sentir e falar mais delas.Não o faço muitas vezes por não me sentir compreendida, ou sentir-me minorada nos meus sentimentos. Sei que muitas vezes a dificuldade está do meu lado, mas sinto que preciso de espaços seguros de fala e deitar fora.Sinto que preciso ocupar tempo. Sinto que preciso ocupar espaço.Sinto que preciso deitar fora muito lixo, de uma forma saudável, mas deitar fora.Sinto que preciso de estar com experiências semelhantes.Sinto que preciso de apenas de ser escutada…. pois sei, em parte, o que tenho de fazer.Sinto e quero libertar. Não quero opiniões, quero libertar.Sinto e quero chorar. Não quero instruções, quero chorar.Porque poder sentir e deixar-me sentir é das coisas mais maravilhosas que aprendi nos últimos anos.Porque sim, quero.DaniImagem: Abandoned Farmstead Mailbox 3182 C - Jim Choate",
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      "categories": "Geral"
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      "title": "Uma parede branca...",
      "content"	 : "Ligo o computador, sento-me na cadeira e olho em frente. Olho para a parede, ainda que tenha quadros e fotografias só consigo sentir a sua cor branca. Só vejo esse reflexo, talvez porque seja isso que sinto neste momento, uma parede branca onde não consigo desenhar nenhuma emoção ou sentido de estar. Quero aproveitar esta energia, meio melancólica, meio que tranquila, meio que sorridente para escrever. Escrever sobre uma parede branca sem nada, apenas o frio branco de inverno que consome um mar gélido de inverno.Pergunto-me consecutivamente, o que estou eu a sentir agora? Não sei. A verdade é que não sei. O reflexo branco é uma combinação de todas as cores, e talvez seja por isso que só consigo sentir branco. Sou atingida pelas emoções mais fortes de alegria, mas também as mais fortes de tristeza. Estou eu alegre ou triste? Não sei. Ambas as emoções estão presentes de uma forma difusa. Muito difusa, porque se misturam com todas as outras emoções básicas do ser. É assim, sentir-me uma parede branca.Porém, há uma coisa que sei: não estou em crise. E posso sentir sem estar em crise. E talvez isso seja o mais importante de sentir-me uma parede branca. É deixar-me e permitir-me sentir todo o espectro de emoções que existem e não questionar a minha saúde por estar feliz ou estar triste. Durante anos, esse foi um critério para gerir as emoções, não me permitia simplesmente vivê-las, porque significavam algo mais aterrador, mais provocador, mais mortífero… na realidade.Hoje é diferente.Hoje permito-me sentir em determinadas dimensões, permito-me viver. Permito-me ter emoções fortes simultâneas, permito-me não saber o que sinto. Permito-me, sem destruir a minha vida e tudo o que me rodeia.Comecei este artigo sem saber o que iria escrever, apenas por vontade de colocar umas palavras num texto, sem significado ou significante, apenas umas palavras. Só isso. Agora sigo por um caminho diferente e toco na minha saúde, não consigo não tocar na minha saúde quando falo de emoções.Ter um problema de saúde que se relaciona com as emoções e com o humor é um exercício diário e contínuo e muitas vezes invisibilizado. Sentir-me uma parede branca é permitir que até os sintomas das doenças sejam eles projetados, sejam eles questionados e colocados sob escrutínio. Porém, refletem-se em paredes brancas, sem cor ou forma, sem desenho ou pintura… são invisíveis. Essa invisibilidade dá-me apertos no coração e dificulta-me a partilha, dificulta-me expressar. Acabam por ser estes textos, a forma que tenho de o fazer.Respiro fundo, preciso respirar fundo neste momento. As palavras começam a bloquear o meu pensamento e começo a ter dificuldade em escrever, mas continuo, vou continuar. Fecho os olhos e escrevo dessa maneira, sem medo, sem medo do que vai sair no teclado, confio nos meus dedos, confio na minha memória corporal. O mesmo confiar na mecânica dos meus dedos, também me traz memórias corporais difíceis. Memórias corporais que me acompanham uma vida e que preciso desfazer, por isso tão importante para mim o acesso ao meu corpo e ao que faço com ele (a minha autonomia e espontaneidade).Durante anos, o fato de ter bipolaridade e borderline escondeu a minha relação com o meu género. Escondeu quem eu era, mascarando-me de uma masculinidade que não era minha, um lugar que não era o meu. O medo de não sentir amor e não me sentir amada estava muito presente.Hoje é diferente.Hoje percorro outro caminho. A minha relação com o meu género é agora livre, fluída e verdadeira. Encaixar-me na não-binariedade sem sair da mulheridade foi para mim um salto enorme na interpretação da minha vida e do que sentia.Por outro lado, a minha relação com a sexualidade também era difícil e também de um bloqueio enorme. A minha afirmação enquanto pessoa trans, desbloqueou a minha própria sexualidade e a forma como a sentia no meu dia a dia. Deixou-me mais livre, deixou-me mais capaz e, acima de tudo, permitiu-me começar a reescrever partes da minha história de vida que estavam num profundo silêncio.A parede branca para mim é simbólica. E irá continuar a ser.Gostava de um dia, ter a liberdade de dar cores a esta parede, simboliza-la das emoções fortes de que se compõem, sem destruir nada… sem destruir a minha vida durante meses, sem destruir relações e responsabilidades. Sem deixar de ser eu. A radicalidade das emoções que compõem o meu dia a dia são, muitas vezes, avassaladoras. Gasto, sem sombra de dúvida, muita energia para as conter, para que a parede não se desmorone com a sua força.Em artigos anteriores, como aqui e aqui, referi como muitas das minhas crises foram de uma violência brutal contra mim mesma. Como eu passava de um pólo ao outro de uma forma rápida, quase instantânea, sem eu própria perceber porquê. Hoje entendo. Porém, entender não cura, alivia, mas não cura. É por isso que a troca de experiências é tão importante para mim… como é que as pessoas que vivem com bipolaridade e borderline sentem? Como são as suas emoções, como se expandem ou recolhem?São muitas dúvidas as que tenho por falta de referenciais.Só conheço o meu próprio caso e pouco mais.É por isto que para mim escrever também é importante, partilhar, politizar as minhas emoções e dificuldades. Politizar quem eu sou na minha íntegra.Não me estou a sentir em fase de crise, mas sinto-me reflexiva em relação às minhas emoções, sinto que estou a tentar localizar-me algures no mundo. Num mundo onde as minhas emoções têm lugar expressivo, mesmo quando fortes. Num mundo onde falar de mim e do que verdadeiramente sinto, não seja relativizado à luz da normatividade e do espectro emoção-racionalização-fisicalidade normativo.Hoje é diferente.Sei quem sou.DaniImagem: Finish Line - Hans-Jörg Aleff",
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      "title": "Ano 2023, em revisão...",
      "content"	 : "Já estamos em 2024 e queria, antes de mais, felicitar-me pelas conquistas que consegui este ano. Um ano de muitas mudanças, mas também de muitas conquistas. Mais difíceis ou mais fáceis, o fato é que há mudanças muito significativas no meu dia a dia.Este blogue ficou um pouco ao abandono em 2023, sendo que me foi difícil escrever artigos, não por falta de tempo, mas por falta de disponibilidade mental. Vou continuar o objetivo que tracei a ano passado: cuidar melhor este espaço e abrir as portas para novos tipos de conteúdo.Ainda assim, queria deixar um resumo deste caminho que foi 2023.O meu primeiro artigo foi só no Dia Internacional da Visibilidade Trans e fala sobre a minha frustração em relação à promoção destes dias:  Apesar das muitas conversas, reuniões, marchas e atividades em geral, é sempre um dia que me deixa melancólica e com vontade de me recolher no meu espaço individual. É um dia que me faz trazer à memória o meu percurso e aquilo que tenho conseguido (e não) construir, mas também, aquilo que se tem conquistado (ou não), enquanto comunidade e coletividade.”Em Abril, escrevo sobre como a minha loucura me tem moldado ao longo dos anos e, principalmente, no entendimento que tenho sobre mim mesma:  Num momento da minha vida em que me sinto bem, positivamente bem, estável, estruturada e capaz de gerir várias das minhas emoções de forma tranquila e de forma construtiva, procuro chegar a reflexões mais profundas sobre mim, sobre quem eu sou, sobre o caminho que quero percorrer.”Em Maio, volto a escrever sobre a angústia e como sentia que potencialmente podia estar a regredir no meu processo:  Nem sempre é sobre andar para trás.” Não. Porque não estou a dar passos para trás, nem terei de fazer uma viragem de 180º neste caminho. Simplesmente não se trata de andar para trás nesta estrada. É, na realidade, a confrontação comigo própria, com o de mais impiedoso e traiçoeiro que há na minha racionalidade e emocionalidade. É o conflito entre as minhas emoções, vivências e memórias corporais que surgem ambíguas e ambivalentes. Procuro assim, neste momento, acreditar que estou numa posição em que o trajeto é para continuar, deixando fluir e permitir-me sentir todas estas sensações da forma mais clara possível para poder, com isso, saber pedir a ajuda necessária para atravessar este momento.”Por fim, em Outubro, escrevo após a conferência da ILGA-Europe e como foi importante para mim:  Senti-me feliz com o apoio das pessoas que encontrei, nas felicitações, nas vontades de construir para a frente e não para trás. Para mim foi um passo importante, mas ainda preciso processá-lo, talvez por isto esteja a escrever isto num avião enquanto viajo de Belgrado para Lisboa com mais 3 horas de viagem pela frente.”Apesar de ter escrito pouco, este ano foi um ano de conquistas várias em campos diversos. Consegui, finalmente, acabar a minha licenciatura em Astronomia e Astrofísica, passei a 5º Kyu no Aikidô (cinturão amarelo) e fui eleita presidenta da Associação ILGA Portugal. A minha rede de apoio e afetos cresceu e tornou-se mais estável. Estou mais disponível a sentir felicidade sem sentir culpa associada. Estou mais disponível a sentir a presença das pessoas na minha vida.Desde este ponto, espero conseguir um 2024 com diferentes dinâmicas e libertar-me de correntes que às vezes coloco em mim mesma.Espero assim, um ano 2024 com muitos desafios, mudanças e reflexões sobre o futuro.Artigos de 2023:  Porque acreditar  Nem sempre é sobre andar para trás  A loucura, am minha loucura  Mais um dia de Visibilidade TransFeliz Ano 2024 e continuação de boas leituras,Dani",
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      "title": "Porque acreditar...",
      "content"	 : "É outubro. É fim de outubro. Tenho escrito pouco, muito pouco e manifestamente pouco neste sítio. No entanto muitas coisas têm acontecido no entretanto. Uma prova de que o mundo não para, não espera por nós. O mundo vive, o mundo segue o seu ciclo físico natural, independentemente de nós. O mundo cicla, sobrevive e reconstrói-se a cada momento. Também nós nos reconstruimos a cada momento. E, agora, já não sou a mesma pessoa que escreveu “É outubro”, estou num lugar físico diferente (a algumas centenas de km/h de avião), estou num lugar temporal diferente e efetivamente estou num lugar emocional diferente na transversalidade de todas as áreas que me tocam no dia a dia.Estou a regressar da conferência da ILGA-Europe, na Eslovénia, Liubliana. Foram quatro dias de muitas emoções, sentires e trabalho, mas também socializar – criar rede, criar pontes e antever estratégias de luta. Felizmente, também rever muitas pessoas que só encontro nestes contextos e não no meu dia  dia. Venho com o coração cheio de ter contacto com um grupo de pessoas que luta, procura soluções, critíca o sistema e cria diariamente oportunidades para outras pessoas, que as autonomiza e que as empodera. Se há coisas que podem melhorar? Claro, sempre.Este foi o primeiro momento internacional enquanto presidenta da Associação ILGA Portugal, tendo sido eleita no sábado 21 de Outubro a lista que encabecei. Confesso que ainda não estou nada habituada a tratarem-me como presidenta. É um momento, mas também o que contará para mim serão as ações que nos propomos a fazer e não o título per si. Senti-me feliz com o apoio das pessoas que encontrei, nas felicitações, nas vontades de construir para a frente e não para trás. Para mim foi um passo importante, mas ainda preciso processá-lo, talvez por isto esteja a escrever isto num avião enquanto viajo de Belgrado para Lisboa com mais 3 horas de viagem pela frente.Parece que estou a inverter o tempo e caminho para trás… estou a contrariar o ciclo do tempo. Faço-o porque me relembro e revivo. Procuro. Procuro uma razão em mim para estar e existir.  Este momento?E porque para mim é importante?E porque para mim é tão significativo?É, porque nunca acreditei. E ainda continuo a ter, muitas vezes, a incapacidade de acreditar. Construí-me através de vários processos mais ou menos complicados, mais ou menos complexos, mais ou menos difíceis. Mas construí-me. Se com 18 anos não acreditava que era capaz de ter uma vida relativamente independente, aos 24 não acreditava que podia ser quem eu quisesse ser, aos 27 não acreditava que era possível construir-me de um outro lugar, aos 30 não acreditava que podia vir a ter um trabalho e habitação estável, aos 36 não acreditava que alguma vez podia estar no papel de presidenta de uma associação como esta.  O meu problema sempre foi … não acreditar. … não me permitir. … não me libertar daquilo que eu própria defendo.Hoje estou diferente, não que esses pensamentos já não me dominem, mas estou diferente. Estou mais segura, mais responsável com a minha saúde e bem estar, mais comprometida com os meus próprios objetivos.Hoje estou diferente por mim, estou crente por mim e estou feliz por mim.Mas hoje também estou diferente por todas as maravilhosas pesssoas que me rodeiam com quem tenho contado com o apoio incondicional, com espaços de fala, de discussão, de riso, de silêncio, de estar.Porque hoje sinto, que acreditando mais em mim… eu vivo e não apenas sobrevivo.DaniImagem: Believe… - @BK",
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      "title": "Nem sempre é sobre andar para trás.",
      "content"	 : "“Nem sempre é sobre andar para trás.” Nos últimos dias tenho-me dito imensas vezes esta frase. No último artigo (A loucura, a minha loucura) falava sobre a loucura, do modo como me apropriei desta palavra para descrever certos estados em que encontrei imensas vezes. Referi também o medo que se me entranha ao estar num período de bem estar. Com estes momentos vem também a vontade de ir mais longe no meu auto-conhecimento, mais profundo e a recordar momentos mais difíceis. É parte do meu processo chegar a esses momentos e conseguir assegurar que irei viver com eles da melhor forma possível.Sou invadida pela angústia, pelo medo, pela falta de força para viver e estar no mundo. Depressa revejo-me em determinadas épocas da minha vida e isso reforça ainda mais a minha angústia e medo. Entro num ciclo perverso, um circuito que não me deixa sair, entro numa espiral em queda para o fundo dos meus pensamentos mais intoleráveis. A luta torna-se imperativa e sair desta estrada torna-se um desafio de outro mundo. É uma estrada sem fim. A  batalha é, neste momento, comigo mesma. Sem fatores externos que me deixem particularmente vulnerável, é neste momento, a minha vulnerabilidade que entra neste processo.“Nem sempre é sobre andar para trás.” Não. Porque não estou a dar passos para trás, nem terei de fazer uma viragem de 180º neste caminho. Simplesmente não se trata de andar para trás nesta estrada. É, na realidade, a confrontação comigo própria, com o de mais impiedoso e traiçoeiro que há na minha racionalidade e emocionalidade. É o conflito entre as minhas emoções, vivências e memórias corporais que surgem ambíguas e ambivalentes. Procuro assim, neste momento, acreditar que estou numa posição em que o trajeto é para continuar, deixando fluir e permitir-me sentir todas estas sensações da forma mais clara possível para poder, com isso, saber pedir a ajuda necessária para atravessar este momento.Confesso que não tem sido fácil, nada fácil. Nesta última semana fui a duas sessões de curtas metragens no Festival Mental, em Lisboa, e foi positivo para mim ver e ouvir testemunhos de pessoas com sentires e percursos parecidos com os meus. Sentir-me não sozinha neste mundo, não incapaz e não menos. Reconhecia em cada palavra e em cada imagem o seu significado, a sua repercussão na vida do dia a dia, nos ciclos, nas barreiras e fantasmas contínuos. Naquilo que é um sentir-me numa zona de medo, numa zona de solidão e vivências transversais a muitas pessoas, infelizmente.Gostaria de poder dizer que este processo é linear, mas não o é. Dá-se muitas curvas, dá-se muitos saltos, contorna-se muitos obstáculos e por vezes vai-se contra eles, esmagando-os com custos para ambas as partes. Este curso é sinuoso e não faz mal admitir que o é. Por vezes esqueço-me disso e nego-me essa realidade. Quero dizer, entender-me na loucura é também perceber-me como um agente desconexo da minha própria realidade, sem nunca a deixar. Não são simplesmente estados de felicidade e/ou tristeza. São estados de uma felicidade eufórica e destrutiva, de um temperamento vil para comigo mesma, de um arrasamento emocional e da saída do concreto. São estados de uma tristeza profunda e infinita, de um cansaço acima do esgotamento, do derrame energético e da saída do presente. Ou por vezes, uma mistura de ambos os estados.As flutuações que tenho hoje em dia já não se comparam às que tinha há 10 ou 15 anos, mas mesmo com o acompanhamento adequado que tenho, podem acontecer com mais ou menos intensidade. Ser consciente das minhas limitações nestes períodos é aprender a amar-me mais. Ser tolerante para comigo própria, ser amiga de mim mesma. Entender que não vou ter tanta energia emocional, que não vou conseguir socializar da mesma maneira, que me vou cansar fisicamente mais rápido, que vou ter um raciocínio adulterado pelos meus próprios vícios. No fundo, vou estar um pouco diferente sem deixar de ser a mesma pessoa.Não há cura para doença Bipolar, nem mudanças definitivas que me façam escapar à Perturbação de Personalidade Borderline, porém há caminho que posso fazer. Interior e exterior. Posso aprender, acima de tudo… posso aprender. Posso escutar-me, posso empatizar comigo e compreender-me. Nada disto é uma tábua de salvação, mas é a forma mais segura que tenho de viver comigo.Porque no meio da guerra emocional em que estou, eu vivo e existo.DaniImagem: espiral - Enric Vidal i Famadas",
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      "title": "A loucura, a minha loucura",
      "content"	 : "A loucura, a minha loucura. Este pareceu-me um bom título para um artigo. Não tenho a certeza se será o título final, mas era na loucura que reflectia há umas horas no meu diário (Diários). Num momento da minha vida em que me sinto bem, positivamente bem, estável, estruturada e capaz de gerir várias das minhas emoções de forma tranquila e de forma construtiva, procuro chegar a reflexões mais profundas sobre mim, sobre quem eu sou, sobre o caminho que quero percorrer.Em muitos artigos anteriores escrevi de forma ativa sobre os meus estados emocionais ao longo de processos internos difíceis e que me obrigavam a permear-me entre emoções e sentimentos difíceis, pesados e cruéis. Não nego que, estando neste período de bem estar, o medo está aí. O medo de ver novamente a minha saúde sabotar a minha vivência (Quando a saúde sabota a minha felicidade), quando acordar pela manhã e a depressão estiver aí (Acordo pela manhã…) e o mundo parar (Quando a apatia te rouba o prazer…). Por isso resta-me, de forma ativa, cuidar dos meus estares, escutar o meu corpo e compreender o meu lugar do aqui e do agora – não sou a mesma pessoa que ontem, nem que há um ano, dois ou 10 anos.Hoje escrevia e pensava sobre a loucura. Sobre a minha loucura. Sobre como habitei e habito esse lugar, de uma forma mais ou menos intensa e mais ou menos descontextualizada de uma realidade considerada válida. Durante muitos anos esse era um lugar de choque para mim, onde as minhas vivências deixavam de fazer sentido, onde o meu mundo passava a ser outro e onde a minha realidade era outra. Entender-me na loucura foi um processo de procura interna, de perceber e reclamar esta palavra para mim, para a minha subjetividade e para equacionar e entender cada momento da minha vida. Penso e volto a pensar, é a loucura também identitária? É a loucura também parte do meu eu como todas as minhas outras identidades? Em que lugar habita no meu corpo? Qual a linha que separa a minha loucura da minha vivência? São questões que ainda não tenho respostas, nem sei se as vou ter em tempo útil.Lembro e relembro esses momentos de forma clara. As memórias (também corporais) não se perderam e continuam conectadas comigo e com a minha história. Durante muitos momentos na minha vida, não acreditei que fosse capaz de sair de tais estados, não acreditei que era possível sentir uma felicidade pacífica e rica em momentos positivos. Não acreditei que era possível refazer as minhas memórias corporais e psíquicas. Porém, em momentos como estou agora, sinto que a minha subjetividade permitiu-me fazê-lo. Permitiu-me chegar a lugares onde sentia que não tinha possibilidade de chegar, permitiu-me ser quem sou hoje. Permitiu-me ser eu.Poderia escrever sobre estes momentos, sobre estes estados, sobre o que sentia e o que vivia. Poderia ser descritiva. Poderia ser explicativa. Poderia ser concreta. Mas é mesmo necessário? Reviver estes processos é também um momento de intimidade com a minha mente, com os seus momentos mais horrorosos, mas também os seus momentos mais caóticos e transformadores. Por quanto, quero preservar essa intimidade.Não vou nem irei esquecer. Mas acima de tudo, faz-me acreditar que posso viver e posso estar em paz com consciência da minha loucura, da minha subjectiva loucura. As memórias farão sempre parte da minha existência, no entanto, sei o lugar que ocupam, sei de onde vêm e como vêm. Não domino o meu sub-consciente, porém, posso conscientemente cuidar da minha felicidade e dos meus estados de estabilidade. Posso conscientemente cuidar das minhas emoções, recebê-las e vivê-las como devem ser vividas, sem medo, sem rejeitamento, sem tabu.Sentir-me bem, positivamente bem, estável e estruturada não é não sentir tristeza, não é não querer chorar, não é não sentir dificuldades. É sim, a tristeza, o chorar, as dificuldades, as facilidades, o riso e a alegria. É poder viver o espetro das emoções de forma completa, entendendo que fazem parte das nossas vivências e dos nossos momentos.Ainda que o medo ocupe um lugar no meu pensamento e no meu sub-consciente, quero viver o que estou a viver agora, de forma honesta comigo e com quem eu sou. Porque, se há uns anos a minha loucura era um alvo preferido da minha racionalidade, hoje em dia, é a minha emocionalidade que conduz quem eu sou.DaniImagem: the lightning and the moon - CLAUDIA DEA",
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      "title": "Mais um dia de Visibilidade Trans",
      "content"	 : "Hoje celebra-se mais um Dia Internacional da Visibilidade Trans.Para mim, este foi, é e será sempre um dia de reflexão, entendimento e referenciação do meu lugar no pessoal e do meu lugar na comunidade. Não posso falar por outras pessoas, mas posso falar sobre a minha experiência e sobre aquilo que sinto relativamente a este dia.  Apesar das muitas conversas, reuniões, marchas e atividades em geral, é sempre um dia que me deixa melancólica e com vontade de me recolher no meu espaço individual. É um dia que me faz trazer à memória o meu percurso e aquilo que tenho conseguido (e não) construir, mas também, aquilo que se tem conquistado (ou não), enquanto comunidade e colectividade.Penso e volto a pensar.As memórias corporais são intensas e quero deixar-me à possibilidade de as sentir, de sentir as marcas que tenho no corpo e de sentir as minhas próprias marcas identitárias. Não foi, não é, nem será um percurso fácil, mas estamos aqui em vida. Para existir, resistir e fazer a revolução. Atualmente, sinto que um dia de visibilidade implica mais do que ter um espaço-tempo para conquistar a esfera pública e estar visíveis nesses lugares. Implica um processo de reconhecimento interior sobre quem somos, o que podemos fazer, ou não e de questionamento sobre os nossos privilégios e lugares na sociedade – o que esta no nosso controlo e o que não está. Infelizmente muitas coisas saem da nossa esfera de controlo e isso tem implicações no dia a dia da comunidade.Um dia de visibilidade, no meu ponto de vista, não deveria ser o objetivo, mas sim um efeito da constante resistência, resiliência e expressividade que vamos tendo ao longo de todo(s) o(s) ano(s). É por isso que acredito que este dia deveria resultar de um processo de construção coletiva ao longo do(s) tempo(s). As políticas mudam, as pessoas  intervenientes mudam e o público alvo das nossas ações também muda. É por isto e por muito mais que também sinto uma solidão imensa neste dia, uma solidão pesada e cheia de ideias em tornado. Esta decantação dos meus processos internos  resultam de uma falta de espaços de construção política coletiva que não tenham marchas e/ou eventos concretos como finalidade, mas como construção de uma comunidade mais resiliente e mais una. Não acredito, nem quero acreditar, na unicidade política. Porém, acredito que, dentro das divergências é possível criar pontes de criação e de desenvolvimento coletivo.Neste contexto, para mim, assumir este meu trajecto implica, de certa forma, lidar com dúvidas e incertezas. Escutar, aprender e situar-me. Um percurso que muitas vezes gera desconfortos e incomodidades. Gera contradições e incoêrencias. Caminhar ao longo do(s) ano(s) neste percorrido tem sido um processo enriquecedor, mas avassalador. Desta forma, sinto, e aqui vem das emoções e das entranhas, que o dia da visibilidade é mais do que um dia, é um efeito colateral de movimentações mais complexas, maiores e mais ricas. Precisamos de nos encher de experiências, vivências e sobrevivências. Precisamos de nos nutrir das dúvidas e construir pensamento e política desse esse lugar.Nós, pessoas trans, não-bináries, de género diverso e/ou em questionamento identitário temos um papel fundamental na nossa sociedade. Acredito que será possível fazer mais e melhor e será possível libertar-nos das amarras de uma sociedade cis-centrada e opressora. Acredito que será possível criarmos mais conhecimento que seja desenvolvido por nós. Sim. Porque precisamos criar história, conhecimento e pensamento. Precisamos estar nas academias, mas precisamos, também, da experiência vivida, as emoções, das dores e das felicidades.Precisamos.Precisamos, porque acredito que podemos ser (e já somos) um movimento revolucionário. Questionar os pilares basilares da nossa construção social euro-centrada é o princípio da decadência da centralidade institucionalizada. Questionar quem nós somos não é só um processo de resistência, é um processo libertador dos nossos mais profundos sentires.Feliz dia, com um traço de amargura, da Visibilidade Trans.DaniImagem: Dani Bento",
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      "author": "danifbento",
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      "title": "Ano 2022, em revisão...",
      "content"	 : "Já em 2023 e um ano depois de ter iniciado todo um novo processo interno, de descoberta e redescoberta. O ano 2022 foi um ano de sensações e emoções, assim como, um ano de muitas viragens, curvas e adaptações.Infelizmente, um tempo muito pouco activo por aqui (blogue) o que me leva para um objectivo do próximo ano: cuidar melhor este espaço e abrir as portas para novos tipos de conteúdo.Porém, neste caminho, comecei um ano reflexionando, olhando para trás para me localizar no presente.  “Teria de fazer imensos lutos porque morri e vivi imensas vezes, porque desconstruí-me e reconstruí-me imensas vezes. O luto torna-se um significante de uma vida nova. Eu não sinto que procurei uma vida nova, sinto que estou em processo constante de mutação, de desenvolvimento e crescimento.”Acredito que processos reflexivos nos levam a novas ideias e no caminho, surgiram-me algumas. Poucos dias depois publico um primeiro resumo de um conjunto de textos maiores que gostaria de escrever.  “Compreender-me enquanto pessoa trans num mundo cis é como entender-me como uma reclusa da minha própria vida. Numa realidade que permeia a violência através de uma construção sócio-económico-bio-política que antevê a minha eliminação antes da minha própria existência. É neste contexto que falar em empoderamento da minha identidade é falar em revolução. É afirmar-me da margem e gritar pelo meu posicionamento no mundo.”No dia 25 de Abril, Dia da Liberdade, reivindico  “Eu morri e vivi. Mas hoje já não morro, hoje estou solidificada. Hoje é o cistema que vai morrer. Hoje, e cada dia, hoje e a cada momento, sou eu que o vou consumir, consumir até não lhe restar nada. Até que este, o cistema, caia e não tenha energias para consumir. Não consiga mais alimentar-se da felicidade e consumir a diversidade, mas que se alimente apenas de tristeza e que consuma apenas padrões repetitivos, como se um pedaço de pedra passa-se a ser o seu alimento contínuo. O cistema morre e nós vivemos.”e concluo que as reflexões me ajudam a progredir e a conquistar o futuro  “Referia como estou melhor e como as minhas reflexões têm me ajudado a não ser a mesma pessoa de há 10 anos. Muito mudou. E também mudou o fato de que agora as minhas emoções mais negativas são abraçadas com amor e carinho.”Em Maio entrava novamente num período de maior dificuldade, mas sabia que não me poderia deixar levar ainda mais pelo meu estar  “O cansaço dominou-me os dias, dominou-me o corpo e a minha saúde mental. Um ciclo que fecha em si mesmo, o cansaço físico gera-me incapacidade emocional e incapacidade emocional gera-me cansaço físico. Pelo meio ficam todas as coisas que cá estão a tocar-me e não consigo ainda decifrar. Pelo meio ficam os milhares de comboios de alta velocidade que neste momento passam à minha frente, cada janela uma ideia, um pensamento.”Procurei ajuda e entendi que estava a estabilizar  “Passadas duas semanas o meu sono melhorou bastante, para um nível razoável para a minha estabilidade (não suficiente, mas melhor). Deixei de ter memória dos sonhos (se os tenho ou não, não consigo saber) mas, pelo menos, não acordo cheia de dores e memórias pesadas. Acordo menos cansada e, pelo menos, mais capaz de fazer as coisas básicas do dia a dia. É um processo lento, mas vai acontecendo. “Meses depois, com alguma capacidade de perspectiva escrevo  “Entender a minha divergência em relação à sociedade é compreender as minhas decisões e o modus operandi dessas mesmas escolhas. Nada é inócuo, pois tudo está mesclado com o tecido social em que vivemos. Não chega olhar para nós, é necessário olhar para a colectividade e reconhecer que vivemos em moldes construídos e reconstruidos anos após anos, séculos após séculos, … Inferir esta divergência é dominar parcialmente a minha resposta emocional ao que se vai acontecendo. “Depois deste caminho sinuoso, sinto que há muito por fazer ainda, mas que em 2022 consegui conquistar um espaço importante nas minhas próprias dinâmicas. Como tal, espero em 2023 conseguir continuar a trabalhar internamente para obter a liberdade que muitas vezes não me dou a mim mesma.Espero um 2023 mais consciente do que quero e preciso alcançar. Um ano de objectivos e resoluções.Artigos de 2022:  Diários  Empoderamento  A morte  Dias  Cansaço  Caminho  Um texto a dois passos e dois temposFeliz Ano 2023 e continuação de boas leituras,Dani",
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      "title": "Felizes Entradas em 2023",
      "content"	 : "Hoje é dia 30 de Dezembro. Amanhã 31 e acaba o ano. Começa um novo ciclo, 2023. Hoje e amanhã é dia de fazer retrospectivas, de fazer balanços e tomar algumas decisões, ainda que a curto prazo. Olhar para um 2023 com novos objectivos e novas vontades.Este 2023 foi longo, mas também rápido. Parece que ainda ontem escrevia um texto, neste blogue, sobre a revisão de 2021, e já estou no pré-2023. Foi um caminho de aprendizagem, obstáculos e felicidades. Infelizmente, não tanta atenção a este local de escrita. Foi também um tempo de mudanças estruturais, nas quais quero continuar a trabalhar no meu dia a dia. Recompor-me de um ano 2021 difícil tornou-se o grande objectivo de 2022, sobrevivi e vou continuar a sobreviver e a aprender a viver.Contudo, Novo ano, novas batalhas e novos ritmos.Novo ano, novas felicidades e novos desafios.Sei que fiz imensas coisas, sei que deixei imensas coisas por fazer. O tempo não é infinito, mas há muito que ainda poderei fazer, muito que poderei conquistar e aprender. E, sem dar-lhe menor importância, muitas coisas que deixarei de considerar importantes e/ou essenciais que irão cair.Mais do que pensar em 2023, quero ainda fechar 2022 e com isso, deixar os meus votos de felizes entradas no novo ano. Espero que o fim de 2022 venha acompanhado de momentos felizes (para quem celebra nestes dias) e que por isso que possam também fazer as vossas reflexões e análises sobre o ano que passou.Espero encontrar-vos num abraço,Dani",
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      "title": "Um texto a dois passos e dois tempos",
      "content"	 : "Já passou algum tempo desde a última vez que escrevi o último texto. Mas, ainda que tenham acontecido imensas coisas neste período – desde 12 Junho – quero tocar numa em particular. A minha auto-estima e a minha segurança no sujeito “eu”. Ambos estes assuntos tomaram conta de muitos dos pensamentos que fui tendo dia após dia. Não que me deixassem com dúvidas ou certezas, mas porque eram questões importantes para eu refletir. Dar-me as ferramentas corretas para quando este tipo de sensação e sentir ocorre. Sem dúvida, para mim, o primeiro passo é tentar perceber qual o gatilho que provocou uma perturbação no meu estado emocional.Entender a minha divergência em relação à sociedade é compreender as minhas decisões e o modus operandi dessas mesmas escolhas. Nada é inócuo, pois tudo está mesclado com o tecido social em que vivemos. Não chega olhar para nós, é necessário olhar para a colectividade e reconhecer que vivemos em moldes construídos e reconstruídos anos após anos, séculos após séculos, … Inferir esta divergência é dominar parcialmente a minha resposta emocional ao que se vai acontecendo.Em artigos anteriores escrevi sobre a minha luta no acesso à saúde no sistema nacional de saúde (SNS), escrevi sobre as minhas revoltas internas e, também, externas. Escrevi sobre como os meus processos vão-me trazendo ferramentas para seguir em frente. Ou, pelo menos, para aprender a situar-me no mundo e na minha própria realidade. Uma realidade dilacerada por normatividades, padrões e sistemas tendenciosos. Referir-me a uma oscilação na minha auto-estima não implica só o sujeito “eu”, mas induz-se também através da construção social de como devem ser e como se devem comportar determinados corpos – a sua validade é colocada em causa por estes mesmos processos. De uma forma sintetizada – há corpos que não devem e/ou não podem existir.Há dias que acordo e penso que não queria estar a passar por este caminho, queria apenas ser quem sou. Sem mais nem menos. Admito que essa ideia pode parecer, às vezes, atractiva. Porém, simultaneamente, a minha vida, de uma forma geral, deixaria de fazer sentido. Não porque sou a travessia deste caminho, mas porque sou a construção dessa mesma travessia. Não posso apagar anos e anos de destruição e reconstrução dos meus modelos de vida e dos meus próprios valores.Conjugo auto-estima com segurança do sujeito “eu” porque penso que, de alguma maneira, ambas são formas diferentes do mesmo estado. A oscilação entre a resposta corporal e os estímulos que vamos recebendo pode gerar movimentos na nossa auto-definição. Movimentos estes que, por vezes, me levam a ficar confusa sobre o meu próprio futuro e os meus próximos passos. Eu quero moldar-me ao meu “eu”, mas a minha auto-estima atribui-se às construções sociais em que me insiro. Não posso dizer se existe alguma forma perfeita de moldar o meu “eu” e não ser submetida à pressão social, mas dado que não é a nossa realidade atual, não pretendo seguir esse caminho.O meu desenvolvimento molda-se pelo tempo e pelo espaço, pela cultura e pela política. Se há uns anos eu não sabia o que era viver em divergência com a sociedade, agora sinto-o na pele todos os dias. Isto tem impacto na (re)formulação de quem sou. Pois passei de um registo em que me reconhecia facilmente em outras pessoas, para outro em que luto diariamente para conseguir a visibilidade que me permita sentir afinidade com alguma história de vida. A minha incapacidade de contestar e afirmar quem sou varia com o decorrer do meu tempo de vida. Há momentos em que me sinto bem e confortável comigo, com quem sou e com o caminho que percorro. Por outro lado, também há momentos em que sinto uma tristeza inabalável, um vazio profundo, uma barreira sem limites. Não me reconheço e não me sinto boa para comigo mesma. Não me sinto dona do meu próprio espaço “eu”.  Vivo em dois mundos distintos, duas faces do mesmo estado: (in)segurança.Quando experimento esta melancolia procuro usá-la a meu favor procurando, na imagem ou na escrita, um meio de poder expressar os meus medos mais interiores e profundos. Relaciono-os com ocasiões onde sou colocada numa posição de defesa da minha identidade, da minha materialização no mundo. Uma vida encarnada no meio material, no centro das construções humanas. Esta melancolia deixa-me reflexiva e só. Reflexiva, porque vivo uma combinação de estados emocionais que preciso equacionar e digerir. Só, porque o caminho para me (des)construir na sociedade pode ser um processo muito solitário. Reflexiva e Só.Escrevo, escrevo como se tivesse sentido, como procurar uma realidade onde consigo coexistir. Escrevo com ou sem lógica, escrevo com ou sem racionalidade, escrevo porque as emoções me dizem o que escrever, ditam a sua autonomia e a sua determinação. Escrevo porque é das emoções que o meu mundo vive, porque é das emoções que sobrevivo.Escrevo, escrevo sem uma linha condutora bem definida, escrevo torto e sem rumo.Esta melancolia tão presente em momentos cruciais na minha vida. Esta melancolia que me ajuda a entender o meu lugar. Esta melancolia que alimenta o meu vazio interior.Saber-me sem auto-estima, ou com ela bastante comprometida, é um indicador de mais um período de autoconhecimento e nova gestão emocional. Entender-me sem auto-estima é tomar conta do meu próprio destino, é passar a barreira do sentir-me sem auto-estima. Sentir-Entender, um duo fulcral da nossa vida. Uma resposta às nossas maiores dúvidas. Porém, como faço, ou como farei, no futuro? Manter-me na melancolia? Deixar-me ir pelo vazio?Quando choro por um caminho que, muitas vezes, me é difícil, sorrio por um caminho que me permite ser quem sou. A dualidade chorar-sorrir é fundamental para deixar de sentir o vazio, deixar de sentir melancolia de forma permanente.Este é um texto de dois passos e dois tempos. É o texto e o seu próprio contra-texto.É, sem sentido algum, um texto melancólico e finito. É, sem sentido algum, um texto triste e fatal.Quero mais (vida), muito mais (vida)!DaniImagem: Melancolia - Luis",
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      "categories": "Geral, Saúde, Trans"
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      "title": "Caminho",
      "content"	 : "Já passaram vários dias desde a última entrada “Cansaço”. Desde o dia em que escrevi esse texto aconteceram algumas mudanças estruturais no meu dia a dia. Nas semanas anteriores a esse artigo, dormia em média duas horas por noite (quando não, menos). A acompanhar vinham imensos pesadelos vívidos que me enchiam o corpo de dores e mal estar quando me levantava. O cansaço a acumular-se e a dificuldade em manter-me concentrada aumentava a cada instante. Felizmente entre artigos, conversas, reflexões e acompanhamento terapêutico, consegui pedir ajuda a tempo de não cair mais e mais depressa.Passadas duas semanas o meu sono melhorou bastante, para um nível razoável para a minha estabilidade (não suficiente, mas melhor). Deixei de ter memória dos sonhos (se os tenho ou não, não consigo saber) mas, pelo menos, não acordo cheia de dores e memórias pesadas. Acordo menos cansada e, pelo menos, mais capaz de fazer as coisas básicas do dia a dia. É um processo lento, mas vai acontecendo. Vou notando melhorias de momento para momento e resta-me ter paciência para que tudo se estabilize. Ainda que, muitas vezes, a vontade de estar melhor ultrapassa a paciência, atrapalhando o próprio processo de recuperação.Porém, neste momento, tenho alguns efeitos colaterais que espero serem resolvidos no futuro. A minha memória de curto prazo está bastante afectada (estou com imensas dificuldades em escrever este texto) e tenho falhas a relembrar de palavras e expressões quando falo. Tenho dificuldade em manter uma linha condutora ao expressar um pensamento, porque me perco no mesmo.Este foi mais um texto escrito em dias diferentes. Já voltei ao trabalho e aos poucos a recuperar o ritmo. Preciso levar com calma e contenção, pois não quero estragar as melhorias que tive nestas últimas semanas. Sei, é um facto, que tenho dificuldade em não acelerar e, tendencialmente, a ocupar todas as horas do meu dia. Aprender a descansar e a gozar momentos de lazer é bastante importante e necessário. Ter a capacidade de me desligar das tarefas que tenho é-me bastante difícil, não consigo ter um descanso efectivo porque não consigo desconectar do trabalho (não necessariamente coisas do emprego).Neste preciso momento penso e volto a pensar nas dificuldades que encontro no meu caminho. E ao mesmo tempo, na intensidade dos meus sentimentos e emoções. Fortes o suficiente para mexer com as minhas estruturas basilares, com o meu chão e com os meus pilares. Isso leva-me até aos textos que vou escrevendo e que vou publicando. São pequenos trechos de momentos da minha vida, microsegundos de sentir que se depositam em cada tecla, em cada dedo. Trechos que surgem sobre a forma de desabafos ou reflexões sobre o meu próprio estar. Para mim é um exercício, também, de vulnerabilidade. Podia escolher não o fazer, podia-me conter nos meus diários e escritos aleatórios. Mas acredito na vulnerabilidade e na fragilidade como um elemento motriz muito forte na construção do nosso eu. Protegemo-nos para não falar em estar vulnerável e frágil. Principalmente numa sociedade com as características como a nossa, onde o ser vulnerável e frágil é mau. Estar vulnerável e frágil não interessa ao sistema, não interessa a um modelo de produção de capital em que vivemos. Não há tempo, nem disponibilidade, para se ser vulnerável e frágil – é preciso sobreviver.Pessoalmente, quero afastar-me desse caminho. Acredito em mudanças estruturais. E para que aconteçam é necessária a voz da diversidade. É importante que haja visibilidade das variadas experiências de vida de diferentes pessoas. Numa sociedade dominada pelo capitalismo onde há resposta para tudo o que nos faça produzir mais e mais, mas que não dá resposta às verdadeiras necessidades de cada pessoa. No meu caso, como ciclo entre alguns estados intensos, estar estável é produzir e estar instável é não produzir, estar vulnerável e frágil. O sistema coopta todos os mecanismos necessários para que o nosso bem corresponda a cumprir uma lista de critérios e de caminhos que definem o que é estar bem e/ou mal.Creio, ainda que tenha dificuldade em o fazer, mostrar a minha vulnerabilidade pode ser uma forma poderosa de me reconhecer nas outras pessoas, na empatia e no respeito e na compreensão. Sinto que este é um trabalho que não pode ser feito apenas e só apenas a nível individual, mas sim um trabalho coletivo, de comunidade e partilha. A minha vida está sustentada numa sociedade injusta a vários níveis, o que me leva a colocar a coletividade como ponto de começo dos nossos processos.Não que não tenhamos de entendermo-nos enquanto pessoas individuais, mas porque é necessário entendermo-nos num contexto sócio-económico-político– com tudo o que isto pressupõe e significa.Até que ponto é que estamos realmente capazes de crescer em comunidade e em coletividade? Até que ponto abraçamos a vulnerabilidade e fragilidade de quem nos rodeia (ou não)? Até que ponto deixamos levar-nos pela ideia de que cada pessoa por si? Até que ponto entendemos que não há apenas uma única via de se estar em congruência consigo?A congruência também implica entender que temos estados diferentes, que mutamos no tempo e que somos suscetíveis ao que o mundo nos devolve. A congruência também não é só estar num estado de felicidade ou de energia. Às vezes também passa pela infelicidade e inatividade.Numa sociedade capital não há tempo para a tristeza e apatia. Não temos espaço para nos exprimir, sem precisar de resposta, de indicações ou recomendações. Por vezes é só isso, exprimir. Com uma escuta ativa/leitura ativa do nosso sentir, procura-se empatia, não instruções.Numa sociedade capital não há espaço para dizer “hoje não consigo”.DaniImagem: Caminhos - Cícero R. C. Omena",
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      "title": "Cansaço",
      "content"	 : "Toco em cada tecla com a energia que me resta, tocar no próprio teclado traz-me dor, dor física e psicológica. Física porque sinto dor, dor e dor. Psicologicamente porque me sinto em esforço para conseguir escrever uma palavra frente a outra, sem apagar tudo e recomeçar outra vez. Um balanço que me custa manter. Sem energia sigo, e vou seguir. Procuro-me. Procuro-me nas palavras para dar voz a algo que não sinto capacidade para. Nem sei se este texto terá um fim, não sei se teve um princípio ou meio. Escrevo no presente, talvez venha a acabar no passado.Fecho os olhos, escrevo com a memória mecânica para onde me hei-de dirigir com as teclas, não vejo o que escrevo, sinto-me melhor, sinto-me mais confiante do que vai aparecer no ecrã. Não porque as frases vão saindo, mas porque… porque… porque a emoção encarrega-se de decidir o que se passa na escuridão e no silêncio. Uma emoção que se vê atrelada a um sentimento de impotência e incapacidade. Sinto-me impotênte, sinto-me incapaz… sinto-me a pior pessoa do mundo. Sem capacidade de resposta, sem capacidade de gerir os meus próprios estímulos. Cada dia carrega um esforço de tentar acreditar que vale a pena, que vale a pena… que há valor e sentido.O cansaço dominou-me os dias, dominou-me o corpo e a minha saúde mental. Um ciclo que fecha em si mesmo, o cansaço físico gera-me incapacidade emocional e incapacidade emocional gera-me cansaço físico. Pelo meio ficam todas as coisas que cá estão a tocar-me e não consigo ainda decifrar. Pelo meio ficam os milhares de comboios de alta velocidade que neste momento passam à minha frente, cada janela uma ideia, um pensamento. Um pensamento que chega e desaparece, os comboios não param. E a minha corrida não é suficiente para os acompanhar. Vejo o mundo a andar depressa, como se o dia fosse longo, mas curto. Tão depressa existe, como desaparece. Tão depressa estou, como não estou.As interações são difíceis, falar cansa-me, estar cansa-me, olhar o mundo cansa-me. Não só as atividades do dia a dia são um exercício difícil para as conseguir minimamente fazer, como sentir o quer que seja tornou-se um desafio. O sentimento de culpa por não conseguir agir transversa as minhas veias, o sentimento de culpa por não conseguir naturalmente estar melhor.Temos de corresponder a um circuito social de quem está, está sempre em prontidão. Não estou aí, não estou preparada, não estou preparada para. O meu corpo não responde, o meu corpo pesa mais que um sol, o meu corpo escurecido por uma distância de anos luz a uma fonte luminosa. Não é uma questão de querer.Volto a tocar neste texto, entre o que escrevi acima e o que escrevo agora passou mais uma noite de curta duração, ainda que tenha conseguido descansar um pouco mais. Mas… ainda não é suficiente. Ainda não é suficiente este descanso. Numa fase onde não consigo agarrar pensamentos, também não consigo desconectar nem descansar. Como se estivesse sempre presente alguma coisa. Um estar é sempre desmultiplicado por vários estares.Por outro lado, acredito que fiz melhor desta vez. Caí, mas depressa (ou tão depressa quanto consegui), sinalizar os sinais de queda e reforçar os meus processos terapêuticos a tempo. Lembro-me que em 2019, quando percebi estar a entrar em crise já estava num estado de bloqueio total. O medo de acontecer o mesmo que aconteceu nesse ano está presente, mas quero acreditar que sim, estou a fazer diferente.Escrevo. Escrever é terapêutico para mim. Escrever é entender-me e achar-me. Por vezes achar-me vulnerável e frágil é sinónimo de construção, de olhar para dentro e fazer chegar a minha voz até mim mesma. Não posso deixar de lado as incongruências nos meus próprios sentires. Como se no mesmo processo de escrita caminhasse entre a escuridão e aos poucos me fosse revelando de outro modo. Escrever não me deixa sem dor ou dificuldade, não me deixa intocável, pelo contrário, escrever faz-me ter consciência da minha dor e das minhas dificuldades, do meu lugar de fragilidade. Escrever ajuda-me a organizar o meu pensamento, obriga-me a tentar procurar focar-me num sentir, numa emoção ou dificuldade. E isso sim, é organizador para quando releio e entendo em que fases estou.Não deixei de me sentir a pior pessoa do mundo, não deixei de me sentir incapaz ou impotente perante o meu estado. Por quanto, ajudou-me a nomear estes sentimentos e muitos outros que se colocam e colocaram nestes dias. Sei que fiz diferente, e quero acreditar que estou a fazer diferente e para melhor.Vou levar uns próximos dias ainda difíceis até que volte a estar mais estável, sei que é um processo que toma o seu tempo e a sua exigência. Até lá, resta-me arranjar estratégias saudáveis para conviver comigo mesma. Sei que vou sair deste poço, decerto que vou. Vou, também, sair com mais capacidades e mais ferramentas. Porque aprender sobre mim é crucial para a minha estabilidade emocional.DaniImagem: Nightmares - Crusty Da Klown",
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      "title": "Dias",
      "content"	 : "A minha imagem sem cor, espelhada num vidro fosco e escuro. A minha imagem sem cor delimitada pela luz que atravessa a sala - nenhuma. Hoje acordo com este espelho na mão, falta de cor, falta de luz, falta de brilho. No fundo – falta de existência. Ainda no anterior 25 abril falava da força de existir e ultrapassar obstáculos. Referia como estou melhor e como as minhas reflexões têm me ajudado a não ser a mesma pessoa de há 10 anos. Muito mudou. E também mudou o fato de que agora as minhas emoções mais negativas são abraçadas com amor e carinho.  Talvez diga isto porque os meus olhos estão a fechar. Acredito que o conhecimento da emoção passa por vivê-la e vivenciá-la. Só assim aprenderei como abraçar as emoções dentro de mim e reduzir o impacto negativo que determinadas provocam. Eu sei o que é medo, mas não sei caracterizar a emoção se não a experimentar, se o meu corpo não a reconhecer.Passa um dia desde que comecei este texto. Ontem os meus olhos fechavam a cada tecla que pressionava, mas a vontade de avançar era maior, ou tanto maior que acabei por ter de me deixar levar pelo sono, pois a minha cabeça já girava em torno das mesmas letras. Porém, não foi um dia fácil, hoje um pouco melhor. Mas não foi um dia fácil. O cansaço que comecei a manhã propagou-se no decorrer do dia e os sentimentos de tristeza começaram a dominar o meu espaço das emoções. Uma tristeza vazia, sem causa ou sentido, simplesmente uma tristeza vazia. Não quis aqui procurar as suas razões, mas apenas deixar o sentimento correr e abraçá-lo.Abraçar as tristezas, as dúvidas e os medos é conquistar um território, é conquistar o território do desconforto, mas é também encontrar-me num mundo diferente. Num mundo onde me dou ao direito de estar triste, duvidosa e com medo. Não é uma posição necessariamente má, mas sim reflecte-se de alguma dureza. Uma dureza que se encosta a mim pela minha auto-exigência e pela culpabilização pelos meus sentimentos. A culpa faz parte, constantemente, do meu repositório de estados. E, sem desacreditá-lo, é um dos mecanismos que mais me traz algemas à minha vida.Os processos e mecanismos internos a que a minha vivência se predispõe surgem de vários conflitos e lógicas de funcionamento gravadas na minha memória corporal. Consequentemente, a minha minha capacidade de transformar essas memórias e ressignificá-las é um processo longo e duro que se sustenta no topo de reflexões contínuas sobre os meus estares, os meus sentires e o meu comportamento a cada momento e cada segundo/minuto/hora/dia/semana/mês… Estas etapas duram longos tempos e por isso, determinados pontos tenho de esclarecer comigo até onde quero ir mais. Até onde é importante para mim ir mais. Até que ponto estou a magoar-me com as minhas próprias descrenças em mim?Penso, volto a pensar e repensar, mas não tenho muitas respostas para as minhas próprias perguntas. Tal como em muitas áreas da minha vida, a solução não ótima (porque óptima não existe) vai passar por tentar e voltar a tentar, errar e voltar a errar. Acredito que para eu ser feliz, preciso passar por estes processos. Acredito que para que o amanhã seja uma continuidade do “eu” atual é necessário ir convergindo para movimentos pequenos, mas erráticos… convergindo para um momento de estabilidade mais coerente.É com o objetivo de continuar a explorar o que sinto e o que penso, e como sinto e como penso, que escrevo e continuo a escrever. Uma folha branca é tudo o que preciso. As folhas brancas são, talvez, os únicos momentos da minha vida atual que não sinto um único grau de culpa… posso sentir incompetência, dificuldade e rotação no pensamento, mas não culpa.Passaram quase 24 horas desde que comecei este texto, muitas coisas pelo caminho aconteceram, mas sobretudo friso as minhas escaladas de cansaço que derivaram em mal estar, tristeza e desespero. É preciso estar com atenção e saber escutar o meu corpo. Saber quando é melhor para ele parar e, quando digo parar, é parar mesmo, não é ficar no sofá a pensar no que se tem de fazer daqui a uma hora.Um dia depois digo, hoje estou melhor, muito melhor.Um dia depois digo, a cada dia mais segurança.Um dia depois digo, a cada dia menos medo.Um dia depois digo, hoje estou melhor…DaniImagem: fear - Francisco Sánchez",
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      "title": "A morte",
      "content"	 : "Passa da meia noite, é quase uma hora da manhã. A medicação para dormir tomada, mas a vontade de escrever é mais forte. Não sei se será um texto que irei publicar ou não, mas a vontade está, e a minha própria vontade respeita-se. O sono não me incomoda, a escrita continua o seu caminho. Há pouco publicava uma fotografia no Instagram (a mesma que acompanha este texto). A mesma que revejo e sorrio, a mesma que me dá forças para continuar contra um cistema exigente, opressivo e controlador. Um cistema que mata a cada dia e a cada momento. Um cistema que se procura alimentar a si próprio e a redefinir a realidade e a experiência do mundo.Faço acompanhar a fotografia com um pequeno texto:  Estava a dias de fazer 27 anos, cerca de um ano antes da minha primeira consulta em sexologia clínica, cerca de um ano antes do meu coming out enquanto mulher trans e, posteriormente, enquanto mulher trans e não-binária.O meu corpo sempre foi, é e sempre será de quem eu sou, de mim mesma para mim mesma. Porque a autonomia é liberdade e porque liberdade é poder viver. O meu corpo é aquilo que eu quero que este seja. Sem limites, sem quereres, ordem ou norma. O meu corpo é aquilo que eu defino que seja.Acordo hoje e revejo fotos minhas de anos anteriores, revejo com um sorriso. Quem eu era e quem eu sou. É. Na completude de ser. Eu sou.Não me perdi, não me dividi. Cresci, adicionei e somei. Sou mais do que era, sou mais do que sou, e sou mais do que serei.Agora e sempre. Com recordo, com as cicatrizes e marcas de um cistema que nos fragiliza. Mas com as marcas de que a força de continuar está cá.Olhar-me no passado é dar-me força para o futuro.Eu sou. Só isto. Eu sou.Hoje sou diferente, muito diferente. Ou então, melhor, sou apenas eu, apenas isso. Redesenhei-me, reconstruí-me e reencontrei-me. Fui buscar em mim aquilo que estava já lá, escondido. A força de viver e de estar. A força de conseguir e avançar. A força de sorrir e ser feliz.Acredito na mudança, sempre acreditei… acredito na destruição e na revolução.Pois, foi na destruição e revolução que eu, eu e eu, eu e o meu corpo, vivemos ano após ano. Foi na revolução que construí a minha realidade e que simultaneamente, a destruí para a erguer de novo. O meu mundo foi derrubado vezes após vezes, como um sonho que se repete na minha cabeça até achar a solução óptima. Até que no fim sorria e não volte a morrer. Até que sobreviva. Até que a morte me deixe de perseguir. Até que a morte…Eu morri e vivi. Remorri e revivi. Porque foi na morte, no abandono do cistema, que me entendi enquanto pessoa vivente. Foi na morte, no abandono do cistema, que deixei de sobreviver, para viver. O cistema não desapareceu, o cistema vive com todos os seus tentáculos. O cistema vive do controlo dos corpos e das suas experiências, o cistema alimenta-se da felicidade, consome a diversidade e fomenta a pobreza das vivências.Eu morri e vivi. Mas hoje já não morro, hoje estou solidificada. Hoje é o cistema que vai morrer. Hoje, e cada dia, hoje e a cada momento, sou eu que o vou consumir, consumir até não lhe restar nada. Até que este, o cistema, caia e não tenha energias para consumir. Não consiga mais alimentar-se da felicidade e consumir a diversidade, mas que se alimente apenas de tristeza e que consuma apenas padrões repetitivos, como se um pedaço de pedra passa-se a ser o seu alimento contínuo. O cistema morre e nós vivemos.Porque eu morri no cistema, mas revivi e re-encontrei-me nas fronteiras, reencontrei-me nos limites de algo que não consigo nomear (um transtema?). Encontrei-me no espaço a infinitas dimensões, desmultiplicada e construída numa realidade unidimensional. Assustei-me, tive medo, tive suores frios, tive dúvidas, tive incertezas… mas agarrei a minha mão e recoloquei-me – fora do cistema.A cada dia procuro o balanço entre a minha existência e a existência no mundo. A cada momento negoceio a minha estadia aqui. Nesta realidade suja, penosa e deprimente. A cada momento recálculo-me e reequaciono a vontade e o desejo de quebrar. A cada momento repenso em como o cistema alimenta a miséria, promove a dor e fomenta a riqueza do sofrimento.O cistema significa isso: sujidade, miséria, dor, sofrimento e tristeza.Porque é hoje que mato o cistema, porque é hoje que vou deixar de precisar morrer eternamente.DaniImagem: Auto Retrato - Daniel Bento",
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      "content"	 : "Nasço, cresço e entendo-me. Nasço num mundo destinado, cresço num mundo corrompido e entendo-me num mundo irreal. A vivência e as experiências que me atravessam o corpo corroem-me a alma até aos seus limites. Alma essa desprendida do mundo, entendida como uma alma livre num corpo preso. Corpo que limita a cadeia da liberdade e promove a ruptura.Compreender-me enquanto pessoa trans num mundo cis é como entender-me como uma reclusa da minha própria vida. Numa realidade que permeia a violência através de uma construção sócio-económico-bio-política que antevê a minha eliminação antes da minha própria existência. É neste contexto que falar em empoderamento da minha identidade é falar em revolução. É afirmar-me da margem e gritar pelo meu posicionamento no mundo.Uma sociedade construída em torno do privilégio e das relações de poder. O referencial patriarcal, capitalista, colonial, sexista, misógino, lgbtifóbico, racista, capacitista, … que estimula e perpetua a estigmatização para com os corpos que são entendidos como abjectos. Uma sociedade que decide que corpos merecem a vida e que corpos não a merecem, uma sociedade que decide que corpos podem e não podem…Construir-me num mundo de apagamento e invisibilidade é como construir-me na escuridão, no frio e no silêncio. Os músculos congelados, na impossibilidade de ver e ouvir o que me rodeia, construo-me através daquilo em que acredito sentir. Construo-me através das barreiras intransponíveis de um mundo cis-heter-mono-centrado. O meu empoderamento é, neste caso, como criar luz, calor e som onde nada havia. É criar a minha luz, o meu calor e o meu som. É estimular a nossa margem a contorcer-se e a propagar-se no espaço e no tempo. É invadir as rédeas do cistema, não querendo ocupar o seu espaço, mas criando um novo. Revolucionando o mundo para a sua calamidade.Porque… só seremos livres quando o cistema estiver em declínio sistémico e estrutural.Porque… só seremos livres quando o cistema nos pedir perdão e clemência.Porque… só seremos livres quando o cistema for destruído.DaniImagem: Onward, Love - Jeremy",
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      "title": "Diários",
      "content"	 : "Acordo, tomo o pequeno almoço e vou ao café. Volto e sento-me à secretária. Procuro as minhas notas e entretenho-me a ler os meus diários… vários anos de diários. Um processo que me leva a muitos locais da minha vivência e experiência. Locais estes, muitas vezes, duros de reviver e duros de entender. No entanto, para mim, é necessário viajar até lá algumas vezes. Olhar para o passado para crescer. Perspectivas e retrospectivas sobre a minha vida, sobre o meu passado, presente e futuro.Há poucos dias comemorou-se o Dia Internacional da Doença Bipolar, no dia seguinte o Dia Internacional da Visibilidade Trans. Muito poderia escrever sobre estes dias, como já escrevi aqui, aqui e aqui.Hoje escrevo sobre a descoberta do meu passado. Escrevo sobre quão é importante, para mim, reconhecê-lo e abraçá-lo como parte integrante de quem eu sou agora. Muitas vezes pergunto-me pelo luto de quem eu era há alguns anos atrás. Entendo o luto pessoal como um processo importante para muitas pessoas. Porém, não é para mim. Teria de fazer imensos lutos porque morri e vivi imensas vezes, porque desconstruí-me e reconstruí-me imensas vezes. O luto torna-se um significante de uma vida nova. Eu não sinto que procurei uma vida nova, sinto que estou em processo constante de mutação, de desenvolvimento e crescimento. Como costumo dizer, a minha transição não começou no dia em que me descobri trans e/ou não binária. A minha transição começa quando toquei o mundo.Redescobrir o meu passado e entendê-lo hoje é, também, reconhecer e abraçar os estados emocionais que sempre vivi. Um abraço que percorre a minha vida, abraçando a minha criança e a minha adolescência. Manter este registo é essencial para reconhecer quem sou hoje. Escrever e manter um diário permite-me entender o mundo da minha perspectiva, muitas vezes errada, duvidosa e complexa. Porquê? Porque a leitura do mundo depende das nossas subjetividades, dos nossos crescimentos e das nossas descobertas.É com prazer que leio as minhas histórias de sobrevivência e vivência. É com prazer que vejo as minhas fotografias e relembro cada momento e cada pedaço da minha vida. É com alegria que conecto as fotografias aos textos, muitas vezes duros, mas necessários. Conecto-me com o passado e procuro revivê-lo… não para o sentir, mas para o redescobrir sobre a visão da Daniela adulta. Os meus traumas são parte da minha existência e de quem eu sou hoje.Por vezes esta linha ténue entre o prazer e a dor está muito presente. Um prazer associado ao meu empoderamento, uma dor associada às minhas descobertas e consciencialização do meu lugar na sociedade. Porém, entre o prazer e a dor, encontro chaves importantes para o meu desenvolvimento. Escrever com esta vontade ajuda-me neste processo, ajuda-me a reconstruir permanentemente a minha vida e os meus estares. Ajuda-me a viver, mais do que sobreviver.Os meus diários datam o seu começo no ano aproximado de 2013. Desde aí imenso tenho escrito e reflectido, porém, também imenso me tem causado dor. Escrever sobre anos subsequentes a 2013, mas relembrar e reviver sobre anos anteriores. Sempre foi um desafio, mas um desafio com a sua importância característica. Um desafio vitorioso, eu estou aqui viva.Há uns anos eu procurava apenas sobreviver, era a minha batalha primária: sobreviver. Conjugava as minhas crises de saúde, os seus altos e baixos permanentes, o desequilíbrio e a instabilidades, com as minhas buscas identitárias (que foram várias até aos dias de hoje). Um processo que se mesclou em situações mais ou menos complexas. Entender a minha história de vida não pode só passar pelas minhas identidades, mas também sobre quem eu sou, como cresci, o meu contexto e a minha realidade.Dizer que sou uma mulher trans, não-binária, não diz praticamente nada sobre mim. No entanto, mais do que as minhas identidades, a procura dos pilares que me sustentam a vida é um processo árduo e complexo. Um processo duro e cheio de rasteiras, principalmente porque vivi em muitos contextos diferentes. Quero com isto dizer que não me posso reduzir a como me identifico, mas necessito procurar quem eu sou.Entendo a dor de viajar no passado, mas para mim pessoalmente, essa dor é importante para nos impor um futuro mais promissor e menos invisível. Eu sempre fui e sempre serei, com as minhas mudanças, o meu crescimento e a minha mutabilidade. Não sou um ser estático no mundo e isso os meus diários revelam… essa mutabilidade, essa procura insana por se ser e existir.Hoje sinto felicidade e sinto o abraço da minha pequena criança. Olhar para esta pessoa há muitos anos é, para mim, um processo saudável de curar todas as minhas feridas e entender o trauma como parte da minha vivência e como forma de catapultar a minha vida para um futuro melhor. Hoje sinto tranquilidade e calma. Um sentir que surge e emerge da minha auto-descoberta, do meu autocuidado, das minhas experiências.Um diário que se constrói diariamente, um diário cheio de eu. Um diário que amo pois amo-me a mim, amo quem sou e quem sonho ser. Um diário cheio de eu. Um eu também expansível e nutrido pelo amor que o mundo que crio me concede, que me dá e me oferece.Escrevo para recordar,Escrevo para existir,Escrevo porque vivo.DaniImagem: diary writing - Fredrik Rubensson",
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      "title": "Ano 2021, em revisão...",
      "content"	 : "O ano 2022 já começou, deixo para trás um ano de dificuldades, descidas e subidas, em consequência da saturação de um ano de pandemia. Se 2020 foi difícil, 2021 ganhou a passos largos.Este foi um ano pouco ativo neste sítio (blog), mas começava por falar do primeiro 8 Março em confinamento.  “O meu mau estar prende-se com a prática. Para mim, feminismo não é uma imagem a ter quando se fala em inclusividade e em luta social. Para mim, feminismo é procurar abraçar a vivência das pessoas, das suas realidades, das suas histórias num tempo contínuo, num tempo que existe para além das manifestações e do visível. É também ele um apelo à subjetividade, ao interno, ao desafio das nossas contradições mais profundas.”A 30 de Março marca-se o Dia Mundial da Doença Bipolar e, no dia 31 de Março, o Dia Internacional da Visibilidade Trans.  “Colocar ambos os dias na mesma linha do parágrafo, nada tem a ver com alguma relação existente entre ambos. Mas sim, a relação que ambos têm comigo: enquanto pessoa Bipolar e enquanto pessoa Trans Não-Binária. O desafio é não deixar que ambas se consumam mutuamente e que entendamos (eu entenda) de que sentires estou a falar. “As dificuldades continuavam a mostrar a sua face, tornando os dias cada vez mais difíceis e complexos.  “O vazio preenche-me, o vazio conquista-me, o vazio prevalece. O vazio está aqui, profundo, encaixado nas minhas entranhas. O vazio está aqui, diluído, unido com as minhas células. O vazio está aqui, agora. Ocupa-me o corpo, dissolve-me a mente, corrompe-me a alma. Aqui, agora. Está.”A tristeza e a melancolia começavam a tomar conta dos meus dias.  “Queria não sentir cansaço, queria não sentir desmotivação nem desconcentração. Queria ter ideias, queria ter mais energia e vitalidade. No entanto, os anos ensinaram-me: não posso ter esse pouquinho, ainda que pense nisso.”A propósito do Mês do Orgulho LGBTIQA+, decidi escrever sobre discriminação no trabalho.  “No entanto, o que me traz a esta escrita é a necessidade de argumentar por umas políticas de inclusão mais radicais, mais efetivas e com mais garantias de segurança. Vou focar-me principalmente na esfera do trabalho.”E, a propósito do Dia do Orgulho Não-Binárie escrevia.  “As histórias e os relatos de pessoas que vivem neste chapéu da não-binariedade são muito diversificados. Não há uma só forma de ser uma pessoa não-binária, há tantas quantas as pessoas que existem no mundo ou, até mais. “Também, em Setembro falava de como um processo vivêncial caótico pode passar a um mais simples e calmo.  “Antigamente, as emoções eram intensas, muito intensas, mas de um modo destrutivo. Não aquelas emoções que te trazem alegria e cuidam do teu estar. Eram emoções que mexiam com os meus pilares basilares mal construídos durante o meu percurso de crescimento, deixando-me em progressivos e intensos saltos quânticos a cada momento. Podia estar aqui, mas também ali.Falei também da continuação do estigma da saúde mental e como isso afeta a vida de imensas pessoas.  “Por fim, abres 5 minutos as redes sociais, o suficiente para ler o que não queres ler, uma pequena coisa, mas bem demonstrativa “doentes mentais são pessoas que não podem trabalhar e vivem sempre dependentes de outras pessoas”… Infelizmente estes comentários capacitistas circulam todos os dias a qualquer momento.Durante este último ano também notei francas mudanças na estrutura da minha rede de proximidade, mudanças essas não muito positivas, mas a necessidade de dar um grito de atenção foi imensa.  “As minhas lágrimas derramadas pela solidão dão voz ao abandono, dão espaço à terceira voz. As minhas lágrimas derramadas pela solidão dão voz às injustiças, dão espaço à violência. Não quero chorar por lamentar quem sou, quero chorar de raiva por quem entende a inclusividade no discurso, entende a inclusividade no cuidado comunitário, entende a inclusividade nas palavras saudosas e no penso em ti. Não quero chorar por lamentar quem sou, quero chorar de raiva por aquilo que o mundo é.”No fim, sinto que 2021 foi um ano de poucas decisões importantes, de pouco movimento e de saturação. O meu processo correu lentamente, a minha capacidade criativa foi-se desmantelando e a minha capacidade de ser espontânea também.Espero um 2022 cheio de novas ações para reverter este estado de apatia e melancolia que 2021 me trouxe.Artigos de 2021:  8 Março - Dia Internacional das Mulheres  Dias contra o estigma e pela visibilidade  O tempo e o caderno  Hoje eu pensei, queria ter um pouquinho de euforia…  Transmitir no Silêncio  A violência que nos impregna…  Dia do Orgulho Não-Binárie 2021  Do caos à organização – baixando a entropia  O estigma ainda continua… e vai continuar  Atiradas para as margens… do esquecimentoFeliz Ano 2022 e continuação de boas leituras,Dani",
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      "title": "Atiradas para as margens... do esquecimento",
      "content"	 : "Passaram vinte minutos desde que escrevi o título, tinha as ideias fluídas de como iria começar a escrever. Porém, perdi-me nos meus pensamentos, nas minhas profundezas e perdi a linha condutora do meu pensamento. Perdi porque também eu me sinto perdida nos meus sentimentos e no meu próprio raciocínio. Estou presa entre a razão e a emoção, numa zona limítrofe que não me deixa avançar. Sou devorada por uma incapacidade de conseguir gerir este espaço na minha mente. De gerir o que se passa no interior e no exterior das fronteiras do meu próprio território. Neste momento é assim que estou… Sinto, de uma forma muito aguçada, que o meu posicionamento identitário enquanto pessoa trans e/ou de identidade dissidente serve como utilitário e que se assume um lugar de boas impressões e/ou boas estatísticas para a inclusividade. Na prática, um corpo que é rejeitado pela sociedade, sempre o será, por mais que se sacrifique para ser reconhecido. Um corpo colocado nas margens, sempre estará nas margens. Isso.No último artigo falei sobre capacitismo e como isso, de alguma forma, tem afectado esferas transversais da minha existência. A transfobia também cruza a minha vida em todas as esferas. Desde o meu interior consciente e inconsciente, como o meu exterior e tudo o que me rodeia. Apesar de alguns privilégios que tenho, não deixo de sentir a margem como espaço que também ocupo. A margem será sempre o meu espaço. Pois a minha existência foi, é e será sempre questionada como real, fantasiosa ou patológica. Nos dias de hoje, falar de pessoas trans, em terceira voz, entrou a fundo nas correntes mediáticas, nas instituições e até nos movimentos sociais. A terceira voz domina o discurso trans. Por outro lado, nós, as dissidências, estamos continuamente combater por estar num lugar onde a nossa voz tenha espaço, onde a nossa voz seja escutada. Onde possamos ser apenas e só nós. A nossa voz é a voz da perseverância e da resiliência.Estar nas margens não significa apenas luta contínua por existir, mas também luta contínua para não cair no esquecimento. Falo de esquecimento material e simbólico. Material porque o privilégio não permite repensar em recentrar o sistema para que a margem deixe de ser margem. Simbólico porque as pessoas trans têm uma morte simbólica anunciada no momento em que o são – a negação constante da sociedade retira-nos qualquer possibilidade de agência própria e auto suficiência. A cis colonialidade rouba-nos a nossa identidade, o nosso corpo e a nossa manifestação enquanto pessoa. Somos isso, estatísticas, teses de mestrado, testes de doutoramento, livros e histórias. Somos trabalhos escolares, somos entrevistas e somos conferências inclusivas. Somos a matéria prima de trabalho para a voz de terceiros.A nossa voz quer-se calada.Dizer que na generalidade a violência que nos atinge é perpetuada continuamente. Dizer que o patriarcado, o capitalismo, o colonialismo, o racismo, a xenofobia, o capacitismo, entre outras formas de violência se interseccionam com a transfobia. Dizer que a transfobia mata. Dizer que a transfobia é necrófaga – que se aproveita dos nossos corpos mortos, do nosso sofrimento, do nosso sangue e daquilo que representamos para o sistema. Dizer que a sociedade mata. E mata em nome da inclusividade.A nossa voz quer-se calada.A nossa voz quer-se calada por isto e muito mais.O meu território não o posso reclamar para mim mesma. O meu território não o posso trabalhar ao meu desejo. As fronteiras do meu território são impostas pela cis colonialidade. A terceira voz sabe quem sou, sabe o que quero, para onde vou. A terceira voz é a autoridade do meu corpo, apesar de se afirmar inclusiva… porque nos observa.Não crescemos para sentir amor, não crescemos para sentir carinho ou compreensão. Crescemos para cair nas mãos do esquecimento de quem nós verdadeiramente somos. Crescemos para cair nas mãos do esquecimento da plenitude e transversalidade das nossas vidas.Crescemos para sentir a morte, muito antes de morrer.Crescemos para sentir o vazio, muito antes de viver.As minhas lágrimas derramadas pela solidão dão voz ao abandono, dão espaço à terceira voz. As minhas lágrimas derramadas pela solidão dão voz às injustiças, dão espaço à violência. Não quero chorar por lamentar quem sou, quero chorar de raiva por quem entende a inclusividade no discurso, entende a inclusividade no cuidado comunitário, entende a inclusividade nas palavras saudosas e no penso em ti. Não quero chorar por lamentar quem sou, quero chorar de raiva por aquilo que o mundo é.Acredito, sempre acreditei que todas as pessoas são agentes de transformação social. Hoje, acredito que as pessoas apenas podem ser agentes de transformação social – nem toda a gente o é. Nem toda a gente o procura. Nem toda a gente o quer ser.DaniImagem: 2oo - Benjamin Linh VU",
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      "title": "O estigma ainda continua... e vai continuar",
      "content"	 : "Acordas pela manhã. Levantas-te, tomas o teu pequeno almoço. Finalmente estás a tirar dois dias de descanso do trabalho. É fim de semana. A semana foi dura, muita exigência energética e muita concentração. Problemas à parte, não foi uma má semana de trabalho. No fim de semana chegam outras demandas e outros projetos, pessoais e não pessoais.Pequeno almoço, diário de sono… diário de sentires. A calma prevalece. A tranquilidade invade o teu corpo… sentes-te na calma da vida. Os gatos brincam… nada mais.Por fim, abres 5 minutos as redes sociais, o suficiente para ler o que não queres ler, uma pequena coisa, mas bem demonstrativa “doentes mentais são pessoas que não podem trabalhar e vivem sempre dependentes de outras pessoas”… Infelizmente estes comentários capacitistas circulam todos os dias a qualquer momento.Tinha 17 anos quando tive o primeiro internamento, 19 quando tive o segundo internamento. Felizmente, como já referi em artigos anteriores, comecei a ficar mais estável aos poucos. Os diagnósticos não me definem, mas ter um referencial ajudou-me a entender um pouco o meu comportamento e a procurar maior estabilidade emocional. Um processo que demorou anos. Ou pelo menos, há coisas que senti, que não gostaria de voltar a sentir, demasiado violentas e difíceis. Demasiado destruidoras e incapacitantes.Nessa época, eu própria acreditava que nunca iria ser capaz caminhar na vida com alguma tranquilidade, via-me na impossibilidade de estudar (estive três anos em Matemática Aplicada e acabei por desistir), impossibilidade de trabalhar (tinha um receio enorme de não ser capaz de estar à altura de um emprego), impossibilidade de ter relações estáveis (a minha instabilidade emocional não me permitia pensar muito mais longe), impossibilidade de uma vida independente. Em suma, eu dava-me descrédito e, na mesma linha, sentia que todas as pessoas em meu redor seguiam o meu próprio pensamento. Seria uma pessoa incapaz e incapacitante. Seria um peso relacional permanente.O estigma para a saúde mental assim nos ensina e, neste mês da saúde mental, é importante continuar a sensibilizar parar a multiplicidade de experiências que existem. O estigma ensina-nos que passamos a ser pessoas de cidadania de segunda, passamos a não ter responsabilidade e capacidade de falar dos nossos problemas, das nossas alegrias e das nossas vivências. O estigma ensina-nos que o mundo acabou para nós. Como me chegaram a dizer “és doente, não tens direito a opinião” entre outras coisas piores. O estigma também nos causa resistência a avançar e a lutar por melhores condições. É difícil navegar num mundo onde todas as pessoas acreditam que nós não somos nada.É público alguns problemas que atravessei. Tenho sido muito transparente em escrever e partilhar as minhas experiências, as minhas vivências, os meus sentires, mesmo quando me custa imenso. Porém acredito que nós só conseguiremos recuperar um lugar quando houver consciência da nossa existência como seres humanos plenos. Com experiências próprias e com formas de ver o mundo muito subjectivas.Questiono imenso os processos psiquiátricos e a violência que exercem sobre as pessoas e, sobretudo, sobre algumas pessoas. Pergunto-me constantemente se haveriam outras ferramentas mais humanizadas para proporcionar uma vida estável. Porém, num mundo em que vivemos, numa sociedade que está doente e moribunda, manter-nos à tona torna-se uma urgência e uma necessidade premente. Tudo o que nos trás estabilidade acaba por ter um impacto enorme. A toma de medicação para mim tem sido um factor de estabilidade, se critico esta toma? Critico, mas neste momento não encontro outra solução. O estigma vai continuar a rondar os nossos corpos enquanto não houverem processos educativos bem desenhados para a população em geral. O estigma vai continuar a matar muitas das nossas pessoas por se sentirem sós numa batalha imensa. O estigma vai continuar a ferir muitas das nossas pessoas por se sentirem à margem e segregadas da realidade e da comunidade. O estigma vai continuar a dilacerar sentires de muitas das nossas pessoas por se não se sentirem escutadas e compreendidas.O estigma mata.O estigma fere.O estigma dilacera.É por isso que escrevo e continuarei a escrever. A partilhar o que me vem da alma. Não o afirmo pelo racional, mas pelo emocional. Escrevo do coração. As doenças invisíveis, como as doenças do foro psicológico são duras e afectam transversalmente todas as vivências de uma pessoa. Porém, não fomos, não somos, nem nunca seremos pessoas de cidadania de segunda.Merecemos mais.Merecemos políticas públicas efectivas que combatam o estigma, que combatam a precariedade emocional, que sejam desenhadas com a contribuição de vivências reais e concretas.Merecemos mais.Merecemos uma revolução social, onde se aprenda sobre capacitismo, neuro divergência e muito mais… onde tenhamos consciência da sociedade podre e desmaiada em que vivemos actualmente, destruída pelo sistema capitalista, colonialista e patriarcal.Merecemos mais.A sociedade mata.A sociedade fere.A sociedade dilacera.DaniImagem: Solidão - Johnny Kamigashima",
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      "title": "Do caos à organização – baixando a entropia",
      "content"	 : "Caos, organização e entropia, poderia estar a falar de um artigo de Física Teórica, Termodinâmica ou outra disciplina que trate estes conceitos. Porém, estou a referir-me a estados subjetivos, pessoais e espelhados num mundo material através da minha atuação dia a dia, processo a processo, descoberta a descoberta. Do caos à organização retrata um período, uma imersão psicológica no meu eu, na minha identidade e nas minhas fronteiras. Baixando a entropia subsequentemente se liga  ao meu estado emocional e sentimental durante este período.Passaram mais de dezasseis anos do meu primeiro internamento, o tempo passa mas as memórias e o peso desse passado continuam aos meus ombros, agora e sempre. Um passado que quebrou um dos meus maiores veículos de sustentabilidade emocional. A minha capacidade de me manter na realidade e no mundo dos vivos, a minha habilidade de me manter à superfície, respirando algum ar e não sentir o coração preso nas mãos e os pulmões obstruídos pela poluição emocional. Neste primeiro internamento, o meu estado era catastrófico, bloqueada, sem conseguir comunicar (falar, escrever ou ter qualquer tipo de expressão emocional), caí na amargura de um mundo alternativo. Um mundo onde a minha existência mesclava com formas de vida inconcebíveis no nosso mundo, bem com formas de morrer para além da imaginação a que alguma vez podia ter alcance. Sou primariamente diagnosticada com uma depressão grave, psicose grave, risco de suicídio alto, entre outros mais detalhes. O mundo tinha desaparecido para mim.Passado pouco mais de um ano, volto a outro internamento, quatro meses. Sem ter passado primeiro por um acompanhamento próximo por alguém que respeitava e ainda respeito muito. Mas o internamento não foi possível de evitar. Ali fiquei, num regime de hospital de dia - que não me resolveu problema nenhum. Já em Lisboa, 3 anos depois, procurei um novo acompanhamento terapêutico e um novo seguimento psiquiátrico – onde recebi o meu diagnóstico de bipolaridade Tipo I, psicose grave, risco de suicídio alto e perturbação de personalidade borderline. Nesse momento, depois de uma revisão completa na medicação que tomava e na forma de acompanhamento terapêutico que tinha, foram visíveis as melhorias – nunca mais tive um internamento desde então. O diagnóstico ajudou-me a entender melhor os meus comportamentos e o que me acontecia até então. Os altos e baixos, as euforias e as depressões gravíssimas, as alucinações, os delírios… tudo tinha, naquele momento, um nexo lógico na minha cabeça.Porém, a minha vida continuou a ser caótica. Crises mais leves, mas ainda assim crises, não me permitiam ter controlo sobre grande parte das coisas que fazia na minha vida. As minhas relações um caos, a minha casa um caos, a minha mente um caos… as minhas emoções um caos. Todas as ações que tomava tinham o seu quê de impulsivo e não ponderação. Comia mal, dormia mal, tratava-me mal, não conseguia procurar qualquer harmonia no espaço que habitava. Desde que estou em Lisboa, vivi muito desse período sozinha e o caos era visível. Viver com outras pessoas sempre foi um desafio para mim porque me obrigava a viver na culpa da minha imprevisibilidade. Não conseguia suster-me. Durante alguns anos este caos reinou, com tudo a ser atirado para todo o lado constantemente.Ao longo dos anos, tenho tido um processo de amadurecimento enorme e, principalmente nos últimos anos, tenho conseguido ter algumas rédeas na minha vivência. Um novo acompanhamento terapêutico e psiquiátrico vieram potenciar relações mais saudáveis, menos caóticas, de bom trato. Automaticamente essas relações mostraram-me que o meu mundo não tinha de ser o caos, ainda que indiretamente, fizeram-no. Senti-me na capacidade de finalmente acreditar em mim e começar a procurar harmonizar tudo o que me rodeia internamente e externamente. As casas por onde passei começaram a ter outro cuidado, comecei a fazer refeições dignas de alimento, comecei a dar-me espaço para descansar e tratar de mim. Acima de tudo o auto-cuidado começou a fazer parte de uma conduta, não automática, mas treinada para que funcione de uma forma relativamente estável.Antigamente, as emoções eram intensas, muito intensas, mas de um modo destrutivo. Não aquelas emoções que te trazem alegria e cuidam do teu estar. Eram emoções que mexiam com os meus pilares basilares mal construídos durante o meu percurso de crescimento, deixando-me em progressivos e intensos saltos quânticos a cada momento. Podia estar aqui, mas também ali. A emoção era volátil de uma forma descontrolada e desordeira. Hoje, continuo a ter emoções muito intensas, sou uma pessoa sensível, reconheço isso. Mas não me sinto destruída. Sinto-me construir trajetórias saudáveis para a manutenção do meu eu. Pelos caminho tive crises que me obrigaram a estar em casa, incapaz de trabalhar ou estudar, mas consegui vencer esses momentos e aprender com as suas façanhas.Do caos à organização não passa só pelo processo exterior que mudou, mas a minha conceção de quem eu sou, de como sou e das minhas fronteiras. É lógico e claro, que também “aconteceu” pelo caminho assumir uma série de identidades dissidentes que mexeram com este processo. No entanto, tiveram de existir para que hoje sim, sinta que estou mais próxima de uma espaço harmónico entre a minha mente, o meu ser e a minha existência. A minha presença no mundo material tornou-se objeto  da minha própria experimentação. Decidir o que que quero e para que quero e como quero. É certo que tenho tido algumas barreiras que se demonstram intransponíveis, mas estou continuamente lá, porque vou conseguir ultrapassá-las. Hoje acredito que vou conseguir passar todas as minhas barreiras. Antigamente não era algo que iria acreditar.Do caos à organização passa pelo meu crescimento, pelo meu contacto com um mundo que me trata melhor e que, também, acredita em mim. Não estou mais só a viver as minhas dificuldades e para além de eu não estar só, gostava que outras pessoas possam sentir-se acompanhadas por estas palavras, por mim mesma, pela minha experiência que me permitiu chegar onde estou hoje. Um processo contínuo de aprendizagem onde caminho em dois sentidos, do crescimento e do repensamento, da reestruturação das peças que compõem a minha vida. Cada elemento é fundamental, não posso ignorar ponto algum.Com isto, não acredito que estou curada e que tenho todas as respostas, mas acredito que pelo menos consigo passar algum tempo da minha vida com alguma qualidade e com algum desfrute por ser quem sou. Pois sou um ser mutável no tempo, todos os dias sou alguém diferente, porque nós mudamos todos os dias. Por isso, é lógico que posso voltar ao caos, porem agora estou num momento em que a entropia da minha vida está ao seu nível mais baixo.Do caos à organização – baixando a entropia, é uma visão global, superficial, mas vivencial, daquele que foram os meus últimos 16 anos de vida.DaniImagem: Chaos - Gerard Stolk",
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      "title": "Leitura - Pontes para o Infinito",
      "content"	 : "Pontes para o Infinito - O lado humano das matemáticas é um livro de divulgação científica de 1983 da autoria de Michael Guillen. Doutorado em Física, Matemática e Astronomia  pela Universidade de Cornell, tem centenas de artigos publicados em revistas especializadas e é autor de diversas obras de divulgação matemática.Pontes para o Infinito é um livro de divulgação de matemática, tem uma linguagem bastante simples e acessível para pessoas que não têm contato regular com a matemática. As metáforas são bem desenhadas o que facilita a compreensão de muitos termos que vão aparecendo durante a escrita.Sem recurso a fórmulas matemáticas ou a derivações complexas, Pontes para o Infinto, é um livro para quem quer conhecer melhor o trabalho desenvolvido por matemáticos ao longo da história. Repleto de histórias e problemas que se poderiam dizer complexos, a sua compreensão é fácil.  “O homem é formado por corpo, mente e imaginação. O corpo é defeituoso, a mente é mentirosa, mas a imaginação fez dele um ser notável. Em algumas centúrias, a imaginação humana tornou a vida neste planeta uma intensa  prática de todas as mais belas energias. - John Masefiel, Shakespeare amd Spritual Life”O livro está dividido em três partes “Fantasiando”, “Compromisso” e “Optimização”. Na primeira parte expõe-se temas como o infinito, o nada, a simetria, o zero. Na segunda parte segue-se para as geometrias e na última para muitos problemas de probabilidades, teoria dos jogos e topologia.Ao longo das três partes entramos em confrontação com o poder imaginativo das pessoas, seja em que área for e, neste caso em particular, na matemática, derivando objetos e entidades que são completamente abstratas e difíceis de obter uma imagem visual compreensível. Porém, são também, muitas vezes, explicações para fenómenos físicos que reconhecemos do dia a dia.É um livro já com vários anos, mas que recomendo a leitura a quem tiver alguma curiosidade sobre estes tópicos.Continuação de boas leituras,Dani Bento",
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      "title": "Leitura - A criação do Universo",
      "content"	 : "A criação do Universo é um livro de divulgação científica de 1989, da autoria de Fang Li Zhi e Li Shu Xian. Fang Li Zhi (1936-2012) licenciou-se em Física na Universidade de Pequim, foi vice-presidente da Universidade de Ciências e Tecnologia da China e ensinou Astrofísica no Observatório Astronómico de Pequim; Li Shu Xian (1961-2012) licenciou-se em Física na Universidade de Pequim onde lecionou. Foi responsável por muitos manuais de física e obras de divulgação científica.Este é um livro que, de forma simples e didática, expõe uma série de desafios perante a descoberta e entendimento de como foi a criação do universo. A teoria atual mais completa é a teoria do Big Bang. Aqui é retratado o caminho para atingir esta teoria.Escrito com uma linguagem acessível e evitando o recurso a fórmulas matemáticas, são apresentadas teorias e observações cosmológicas.  “No estado de Qi algumas pessoas preocupavam-se com o facto de o céu e a Terra poderem vir a cair e desmoronar-se, deixando, assim, de ter onde se apoiarem; preocuparam-se tanto que se esqueceram do sono e dos alimentos”Começamos com “Sugestões físicas de uma história chinesa tradicional” seguindo para “Expansão sem centro”, “A idade do Universo”, entre outros capítulos seguintes que nos conduzem até “O princípio antrópico e as constantes físicas”.Apesar de não ser um livro atual, é sem dúvida, um livro que merece a sua atenção pela simplicidade das explicações e pelo contexto histórico que nos oferece.Continuação de boas leituras,Dani Bento",
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      "title": "Dia do Orgulho Não-Binárie 2021",
      "content"	 : "A experiência de dar um salto para fora do sistema é muitas vezes assustadora. Assustadora e rica ao mesmo tempo. Há vários anos, afirmei-me enquanto mulher trans, mais tarde, com mais conhecimento e com mais introspecção afirmei-me enquanto mulher trans e não-binária: agénero, demi-rapariga. Este não foi um processo simples, foi um caminho de reconhecimento e entendimento do meu lugar na sociedade, do meu lugar no sistema, ou então, do meu não lugar. É por isso que, num dia como hoje, no Dia Internacional das Pessoas Não-Binárias (ou Dia do Orgulho Não-Binárie) é tão importante visibilizar histórias e trajetórias que promovem a diferença e a diversidade.O ano passado escrevi “Dia Internacional das Pessoas Não Binárias 2020”:  “É com um sentimento de orgulho que nós nos afirmamos, que reclamamos a posse da nossa identidade e da nosso forma de estar no mundo, somos pessoas não binárias, com orgulho, com engajamento, com empoderamento. Somos.”As histórias e os relatos de pessoas que vivem neste chapéu da não-binariedade são muito diversificados. Não há uma só forma de ser uma pessoa não-binária, há tantas quantas as pessoas que existem no mundo ou, até mais. A não-binariedade identitária é algo que vai para além daquilo que apresentamos ao mundo, é um processo interno de autoconhecimento e auto realização. Não deixa de ter, também, um encadeamento político.Quando afirmamos que o género vai para além do binário (e da correspondente forma de opressão na forma de binarismo), estamos a desafiar as categorias mulher/homem como existências primárias, universais e transversais às sociedades. Uma pessoa não-binária é aquela que não se revê na exclusividade de ser mulher nem na exclusividade de ser homem. Estas identidades situam-se na neutralidade, ambiguidade, multiplicidade, parcialidade, ageneridade, outrogeneridade ou fluidez.O binário de género, como o conhecemos, é resultado de um processo colonial e de apagamento histórico de múltiplas sociedades e formas de estar no mundo. É por isso importante descolonizar o nosso pensamento quando falamos em identidade. Entender o contexto onde esta forma de opressão nasce e reside é importante para entender o exercício de viver fora desse sistema. E quando falamos em descolonizar o nosso pensamento, também falamos em descolonizar as nossas identidades e os nossos corpos. Ver o nosso direito à autodeterminação consagrado e protegido.O nosso corpo é o nosso território, o nosso corpo é a nossa casa e devemos-lhe a sua segurança e a sua integridade. Uma integridade que começa muitas vezes por nos reconhecermos e por sabermos quem somos. Tal como mulheres sabem que são mulheres (e homens o mesmo), pessoas não-binárias também o sabem. A grande diferença é que mulheres/homens crescem num mundo onde têm representação (com maior incidência nos homens, não fosse o mundo sexista e misógino), por outro lado, pessoas não-binárias não se vêem representadas em lugar algum ou, então, vão sendo apagadas da história. O sistema privilegia quem se situa neste binário. E por isso dizemo-lo cissexista (onde pessoas cis são pessoas que não são trans nem não-binárias).A vida de uma pessoa não-binária começa, infelizmente, sempre dentro de um mundo binário e é aí que o choque começa. A violência de não existir em lugar algum é um motivo claro para um crescimento em dificuldade. O não reconhecimento, a violência de género, o policiamento de género, os discursos de ódio e os actos de ódio são algumas das dificuldades que enfrentamos. A resistência é um acto contínuo na nossa vida. Viver é resistir. Viver é enfrentar.O reconhecimento social destas identidades também trouxe consigo mudanças estruturais na forma de comunicar. Faz-nos ter consciência que os discursos inclusivos vão para além do a/o, a(o), professora ou professor. Mas sim, que devem ser estruturados e restruturados de uma forma interseccional para incluir todas as pessoas e também serem reformulados para que sejam construídas expressões não mono-cis-heterossexistas, interfóbicas, capacitistas, racistas, xenófobas, gordofóbicas, entre outras formas de violência propagada pelos nossos discursos do dia a dia.Para mim, enquanto pessoa não-binária, é ter consciência de que estou cá para participar, nos meus limites, na transformação social, num tecido de reconstrução do mundo, de trazer as margens para um centro saudável, seguro e digno. Enfraquecer o sistema binário e reconstruir um sistema que seja realmente inclusivo.Por isso é altura de exigir muito mais.Por isso é altura de fazer garantir os nossos direitos plenos.Por isso é altura de colocar as nossas vivências num lugar de existência.Por isso é altura de colocar os nossos discursos no plano da nossa voz.É altura do nosso orgulho se opor definitivamente à invisibilidade e vergonha.É altura do nosso orgulho ser contínuo e resistente.É altura do nosso orgulho mostrar que existimos e sempre existiremos.A experiência de dar um salto para fora do sistema é muitas vezes assustadora. Assustadora e rica ao mesmo tempo.DaniImagem: Digital / Binary - Mark Round",
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      "categories": "Trans"
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      "title": "Leitura - Bom dia Camaradas",
      "content"	 : "Bom dia Camaradas é um romance que nos transporta para uma Angola dos anos 80. Um país que vivia o monopartidarismo, os cartões de abastecimento, os professores cubanos, o hino cantado de manhã…      Ó João, tu gostavas quando os portugueses estavam cá?    É o quê, menino?    Sim, antes da independência, eles é que mandavam cá. Tu gostavas desse tempo?    As pessoas dizem que o país estava diferente… não sei…    Claro que estava diferente, João, mas hoje também está diferente. O camarada presidente é angolano, os angolanos é que tomam conta do país, não são os portugueses…    É isso, menino…  Ondjaki leva-nos para um tempo da sua infância, onde as suas memórias se transformam em ficção e a ficção a sua história. É um livro bonito ler, que nos leva a Luanda através da visão de uma criança de aproximadamente 10 anos, mas que tem dificuldade em entender o que está acontecendo à sua volta.Uma criança que não entende a realidade da tia que chega de Portugal. Pois a sua vida está totalmente normalizada ao ritmo de Angola naquela época. Medos e dificuldades atravessados por uma guerra civil, pela mudança e pela possível perda das pessoas em em seu redor.Um livro que aconselho, um retrato histórico de uma realidade tão humana que nos faz querer continuar.Continuação de boas leituras,Dani Bento",
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      "title": "Leitura - As Miniaturas",
      "content"	 : "As Miniaturas é um livro que nos transporta para o mundo dos sonhos e dos desejos. A ação desenrola-se numa cidade, no qual, no centro está o Edifício Midoro Filho, que existe e não existe simultaneamente, tal como um sonho, que existe e não existe.O livro circula entre 3 personagens principais, a Mãe, o Filho e o Oneiro. A trama vai sendo definida pela alternância entre cada personagem. Neste caso, o Oneiro é responsável pelos sonhos de ambas as pessoas. Por um erro no sistema, é-lhe possível seguir pessoas com este grau de parentesco. Existem outras personagens no argumento, que não atingem tanta profundidade. Na realidade, a história é bastante linear e sem grande complexidade. São as passagens pelo oneiro que dão significado à história, caracterizando  uma fábrica de produção de sonhos, de chegadas e partidas, guiando os sonhantes nos seus sonhos. Um sistema altamente burocrático, onde cada oneiro atende sempre a mesma pessoa, mas não se podem conhecer entre si. É a relação ente o Oneiro, a Mãe e o Filho que tomam relevância nesta cadeia de acontecimentos. É desde modo que a autora nos remete para o limiar da realidade e do sonho ou imaginação. Um lugar tão desconhecido ainda.O livro está escrito de uma forma simples, com palavras facilmente reconhecíveis, mesmo sendo num formato de prosa poética.“A mãe me pediu os números premiados da próxima loteria, dou os números com uma técnica antiga, digo um número em alto e bom som, os demais em voz baixa, inaudível. A pessoa tem a sensação de que sonhou com toda a sequência de números e culpa a si por se lembrar apenas de um e não dos demais”.A autora foi vencedora do Prémio Literário José Saramago, estou curiosa para a ler outros livros.Continuação de boas leituras,Dani Bento",
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      "title": "A violência que nos impregna...",
      "content"	 : "Estamos em Junho e, neste mês, celebra-se o Mês do Orgulho LGBTIQA+. O porquê de se celebrar o orgulho neste mês tem as suas razões históricas. Tudo se relaciona com o motim que aconteceu em Stonewall a 28 Junho de 1969. Onde pessoas trans, negras, migrantes, trabalhadoras do sexo, lésbicas se revoltaram contra a crescente violência policial, no contexto dos EUA. No entanto, o que me traz a esta escrita é a necessidade de argumentar por umas políticas de inclusão mais radicais, mais efetivas e com mais garantias de segurança. Vou focar-me principalmente na esfera do trabalho.Fiz o meu coming out, no meu emprego, em Outubro de 2014. Quando falo em coming out, estou a falar em colocar 100% das pessoas com quem trabalho ocorrentes de que sou uma pessoa trans e que isso irá implicar mudanças estruturais. Nessa época trabalhava no SAPO – PT Comunicações. Ao longo desse ano, algumas coisas já foram mudando. A minha visão sobre o que era ser uma pessoa trans ainda era bastante limitada, mas era o que sentia na altura. Vivia uma espécie de vida dupla, navegando entre a existência da Daniela nos contextos sociais e entre o Daniel no trabalho.Tudo começa em Maio, desse mesmo ano, quando tenho uma crise identitária e corto aquilo que mais sagrado era para mim no meu corpo: o meu cabelo. Corto até não haver nada.  Com este movimento decido que realmente quero mudar o meu nome, quero ser reconhecida por quem sou. Peço consulta no Hospital Santa Maria - Lisboa, onde tenho consulta apenas em Julho. Nesse dia levei, também, uma carta do meu psiquiatra clarificando que tinha um problema de saúde mental, mas estabilizado. Fui atendida pelo Dr. Rui Xavier num momento de vulnerabilidade máxima, acabei sendo bastante maltratada por não estar a cumprir com dever os mandatos sociais de ser mulher. Simultaneamente vou contando a algumas pessoas no trabalho, pessoas que considerava minhas amizades e onde sentia um espaço seguro para falar. Nessa mesma época comprei alguma roupa feminina, coloquei brincos, estava ligeiramente a mudar a minha expressão. Assumi o mau trato do médico como alavanca para acelerar o meu processo no trabalho.Quando decidi que era o momento, a informação chegou aos recursos humanos – à época eu não tinha noção do que eram violências estruturais e micro agressões. Decidiu-se conversar com todas as pessoas do meu entorno, correndo vários grupos sem eu nunca estar presente. Nunca pude (felizmente ou infelizmente) entender as expressões, as reações das pessoas que trabalhavam comigo quando souberam: isso era uma informação importante para mim. Voltando à nova consulta com o Dr. Rui Xavier, não havia ninguém nas minhas esferas que não soubessem o que eu estava a fazer.Exprimir-me no feminino nunca foi difícil para mim, já o fazia há vários anos em muitos contextos, nunca o tinha feito num espaço de trabalho. Toda a lógica e relação de poder muda.A mudança do meu nome na empresa iria acontecer a X dia. Ainda assim, o sistema foi mudado para Dani e não Daniela (nessa época eu ainda não usava o nome Dani para me autonomear – mudar para Dani continuava a não respeitar a minha identidade daquele momento, pois era “simplesmente” um diminutivo do meu nome). Esse X dia também era depois de nos movermos de um edifício onde trabalhavam grande parte das pessoas da PT Comunicações, para um edifício dedicado só ao SAPO. Numa mini reunião que tive já nesse local com algumas pessoas que estavam a “gerir” o processo, explicaram-me que tinha tudo de ser feito com cautela, não fossem os rapazes sentirem-se ameaçados, porque eu poderia querer relacionar-me com eles.O dia X chega e eu apareço no trabalho relativamente habitual, ligeiramente mais feminina, ténis, calças, camisola.  Muitas pessoas me perguntaram porque não vinha eu de peruca, de saia e lantejoulas. Eu não vinha feminina o suficiente. Afinal, queria mudar para onde? Na primeira semana, comecei a sentir-me um boneco, um fantoche. Era alvo de imensas perguntas, perguntas invasivas que nem eu sabia responder. Porém, era a minha vivência e, melhor do que ninguém, sei da minha vivência. Era eu que escolhia as minhas roupas, estava a aprender, na realidade nunca quis saber das regras impostas sobre como nos devemos vestir, mas… por via das dúvidas era melhor manter alguma coerência, o medo de ser uma má figura e perder o emprego era grande. Na semana seguinte, a propósito de uma consulta teatral com o Dr. Rui Xavier, apareci no trabalho de saia. Os minutos de silêncio ecoavam nas paredes quando eu passava. Dias depois, sou questionada por um rapaz que era novo na empresa e que me só tinha visto naquele dia, se ainda tinha o meu pénis. Estas perguntas tornaram-se recorrentes. Ou outro colega que disse que queria apalpar as minhas mamas quando crescessem. Ou outro colega que disse que agora teria todo o direito de me assediar. Ou todas as outras pessoas que deixaram de me falar. Deixei de ter conversas técnicas sobre trabalho, sobre implementação e arquitetura de software, passei a ter conversas sobre compras, maquilhagem e roupa. Aos poucos fui sendo afastada até das posições de trabalho que ocupava, perdendo a voz nas reuniões, perdendo a capacidade argumentativa.Naquela época usava mais saias e sapatos com tacão, não me importava o tamanho, sentia-me bem e era isso que importava. Alguém me disse, “na melhor das intenções” para ter cuidado, porque essa pessoa já sabia tudo sobre pessoas transexuais, porque tinha lido e sabia que nós tínhamos tendência a exagerar no princípio. Um dia, sou chamada à parte para me dizerem que não me querem assim, porque era roupa de puta e eu não era nenhuma puta. No mesmo cenário, eu adorava usar batons escuros, sempre gostei (da minha era mais gótica, sempre usei batom preto). Fui novamente chamada a atenção. Também fui chamada à atenção pela maneira como colocava os meus pés no chão, como andava e/ou como me mexia.Por sinal, chega o Natal e eu trabalhava numa consultora, a Prime IT, o SAPO era seu cliente e por isso eu tinha sempre contactos dos dois lados. Fui à festa de Natal da consultora e foi bastante desagradável. Para além de muitos risos e maus estares por parte de colegas que eu não conhecia, decidiram contratar uma pessoa para animar o jantar com alguma comédia e as piadas foram quase todas sobre homens que se vestiam de mulheres, travestis e por aí a fora…Vale a pena dizer que do ponto de vista da saúde, os meus sintomas estavam-se a agravar, estava a ficar deprimida. As violências continuam a um ritmo escandaloso, pessoas que pensavam serem aliadas tornaram-se controladoras. Tudo o que eu fazia servia de escrutínio público.Houve uma época em que decidiram fazer sessões semanais para as pessoas falarem de algo que gostam. Eu quis fazer uma sessão de astronomia. Era claro que para mim, naquela situação, falar em público era algo muito difícil. No entanto correu bastante bem. As conversas eram gravadas para depois o resto da empresa ver. Porém… no meu caso em particular, chamaram-me à parte para me dizer que não iriam publicar o meu vídeo. Eu estava com umas calças mais justas, usava sutiã na época, e acusaram-me que era uma vergonha eu ter um alto nas calças quando tinha também mamas e que isso iria ser uma vergonha para a empresa. Inclusive foram pedir a mais pessoas para confirmarem essa tese.  Fiquei de rastos – como é que uma simples tertúlia de astronomia se vira num problema sexual e genital.Decidi que a partir daquele momento as coisas seriam como eu queria, estava mais empoderada e isso ajudava-me a salvaguardar a minha saúde mental. Eu era quem era, não era a roupa e a expressão que mudavam isso. Voltei a deixar crescer a barba e o bigode (no que era possível), voltei às calças largas e t-shirts largas… comecei a fazer a maior mistura de roupa possível, entre aquela que se considera masculina e/ou feminina. Deixei de performar a mulher perfeita que queriam que eu fosse. Não era esse o meu caminho. Claro que neste momento muitas pessoas acharam que eu estaria a desisir ou a voltar para trás.As violências continuaram e aos poucos fui me deprimindo mais. Comecei a pensar que tinha de parar, mas parei de forma obrigada e bruta, fui de atestado dois meses e entreguei a minha carta de demissão.Anos depois de ter saído do SAPO, continuava a não nomear esta empresa pelas suas más práticas em relação a pessoas LGBTQIA+. Falava de episódios, mas não nomeava: sabotava-me, achava que ainda devia alguma coisa à empresa por me ter “aceite” e não ter ficado logo sem trabalho.Ao invés de parar uns meses, logo a seguir do atestado, entro noutra empresa, a Talkdesk. A princípio correu tudo bem, a minha capacidade de estar íntegra era forte, mas comecei a ficar frágil com outros processos pessoais que estavam a acontecer. Entra uma nova pessoa para a minha equipa, líder técnico, uma pessoa LGBTIQA+-fóbica a todos os níveis e a minha vida ali ficou condenada. Tinha muitos dias de discussão por ser quem era, era avaliada de uma maneira ridícula, deixei de ter reuniões de acompanhamento que me ajudassem a perceber em que estado estava. Resultado, só me aguentei nesta empresa por um ano, não vi o meu contrato renovado. Havia pessoas simpáticas que me apoiaram, mesmo depois do que aconteceu com a minha saída. No meio do ano ainda me vieram pedir para eu arranjar mais pessoas diversas para a empresa para melhorar as percentagens de diversidade.Depois de sair da Talkdesk, senti que era importante parar uns meses e assim o fiz, para me recuperar.Entrei para o OLX Group há sensivelmente 4 anos e lá continuo. Até ao momento não vivenciei discriminação direta. Claro, já tive de dar bastantes aulas, mas nunca me senti prejudicada por ser todas as minhas identidades.No outro dia vi as bandeiras do arco-íris em algumas destas empresas e veio-me a zanga e o mau trato. O meu corpo sentiu como se estivesse no momento. O mês do orgulho não é um mês para colocar bandeiras e para ser visível e bonito. O mês do orgulho é um mês que simboliza resistência, resiliência, comunidade e colectividade. É um mês de carga política, de reivindicação dos nossos direitos, da nossa autodeterminação e identidade.No SAPO ainda queriam fazer uma história comigo, ao que eu associei “vamos mostrar que somos uma empresa inclusiva” e recusei. Porém, em nenhum dos dois locais tive espaço para falar das violências que estava a ter, que me estavam a prejudicar no dia a dia. Em nenhum dos dois locais havia políticas concretas que me ajudassem a enfrentar a transfobia. Havia sim, uma questão de imagem para a inclusividade.Existiram mais violências do que as que relato aqui, principalmente porque hoje sei ver o que são violências. Porque hoje tento desnormalizar a violência como mecanismo automático.Usar bandeiras, cores, afirmar-se LGBTIQA+ friendly no mês do orgulho não chega… não vou dar uma bolacha a quem o faz. As políticas são para ser concretas, as mudanças estruturais devem acontecer, deverá haver espaço para as pessoas que são vítimas de discriminação possam falar e ver essa violência validada. As empresas são o local onde muitas pessoas passam a maioria do seu tempo. Não, não façam lavagem de cara/marca quando nem linguagem inclusiva usam, quando nem dão o acesso à livre expressão de género, quando não condenam comentários fóbicos, quando simplesmente compactuam com o sistema em vigor.O caminho está na mudança de paradigma: o nível de desemprego entre pessoas trans, não-binárias e género diverso é imenso; por isso, não me falem em meritocracia. Para quem não vivência esta realidade não há nada de mérito em ter um emprego onde não se é discriminado e desrespeitado a qualquer hora e lugar. Não há nada de mérito quando se está numa posição de segurança e apoio.Não há nada de mérito em ser branco cis hetero mono capaz e neurotípico.DaniImagem: Beet Juice Texture - Phoebe Baker",
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      "title": "Transmitir no Silêncio",
      "content"	 : "No meu último artigo (Hoje eu pensei, queria um pouquinho de euforia…) escrevi sobre como se processam, em parte, as minhas crises eufóricas e referi, também, como a depressão depressa preenche todas as células do meu corpo. É importante enquadrar e situar aquilo que sentimos. De facto, o meu sentir está a ser devorado por incertezas e oscilações permanentes no meu humor, na minha capacidade de me relacionar, na minha capacidade de manter um foco. A dificuldade em me concentrar, a dificuldade em conseguir comunicar, a dificuldade em construir um raciocínio, de refletir estão muito presentes.Hoje é, apesar de feriado nacional, o meu primeiro dia de férias do emprego, só volto dia 14 de Junho. Sentia e sinto que estou a precisar deste momento  de pausa para voltar a carregar baterias e, também, conseguir explorar os porquês de estar como estou e possíveis soluções que me ajudem a alcançar uma certa estabilidade. O facto de estarmos num processo de saída do confinamento está a causar-me alguma inquietação. Estar cansada e desmotivada na maioria do tempo não me ajuda a procurar estar de alguma forma com as pessoas no meu entorno. Por isso é como se estivesse na mesma confinada.Transmitir que estou a ter um humor oscilante, extenuante e potencialmente perigoso não é simples. Todas as pessoas em seus momentos oscilarão o seu humor, estão mais felizes ou mais tristes. Por outro lado, no meu caso, as minhas oscilações estão entre sentir uma tristeza profunda que me leva a ficar um dia na cama sem me mexer ou agarrar numa lista de tarefas e despachá-la em menos de uma manhã – quando tenho uma semana para as fazer. Transmitir não é fácil porque não há consciência e/ou entendimento de como, pelo menos para mim, estes processos evoluem. Se não tenho o acompanhamento certo eu sei o que vem a seguir e isso é assustador.Por vezes, até as pessoas que julgamos mais próximas, pouco ou nada sabem. Não por sua culpa, talvez nunca tivessem questionado como é ter um determinado problema de saúde mental, principalmente quando é crónico e que pode manifestar-se sem haver grande controlo. Foram muito poucas as pessoas que na minha vida me perguntaram “Como posso fazer quando sentes que estás a ter determinados sinais?”, também foram poucas as que se mexeram do seu lugar. Transmitir é um problema, transmitir é ficar em silêncio pois as nossas dificuldades são sinais de fraqueza, são sinais de incapacidade – a nossa resiliência e resistência nunca aparecem na equação. Ficar em silêncio para que ninguém note que não estamos bem porque não queremos perder as pessoas que nos relacionamos, porque não sentimos um espaço seguro para o  transmitir.Nós não somos a doença, mas ela existe, é real, está presente nas nossas vidas. Não posso ignorar a doença e o transtorno. Posso trabalhar sobre eles para ter uma vida razoavelmente estável, mas não posso magicamente fazer com que desapareçam. Uma das razões porque escrevo muito é, para além do efeito terapêutico, uma forma de fazer entender que sendo a estabilidade boa para as relações, a dureza dos ciclos e dos estados destrutivos não pode ser silenciada. Pois isto só contribui para o contínuo isolamento e para o agravar da situação.“Pensa positivo”, “Todas as pessoas têm dias maus”, “Esforça-te”, “Vai à rua”, … nunca serão boas manifestações de ajuda, por muito bem intencionadas que sejam (pelo menos em alguns dos meus estados). Na maioria das vezes sei o que preciso, alguém que sustente uma escuta sem dar a sua opinião, que respeite e receba os meus sentires. A opinião é para quando eu a peço, esta pode-se tornar um julgamento à minha vivência. Na realidade, muitas das vezes sei já o que fazer, largos anos a lidar com tudo isto ensinaram-me que a dor vai embora, pode demorar mais ou menos, mas vai embora.Acho que hoje acabei a escrever em tom de desabafo, um texto que peca pelo seu valor, mas que me deixa de braços abertos para receber uma escuta ativa. Sinto que apesar de me sentir num outro lugar no meu processo de saúde, ainda padeço na qualidade das relações que estabeleço. Muitas vezes não me permitindo ser em pleno, mas ser só em funcionalidade e isto é um processo extenuante. Um processo que estou tentando desconstruir e melhorar.Um humor oscilante, uma vitalidade questionável…DaniImagem: Scream - Barry Crabtree",
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      "author": "danifbento",
      "categories": "Saúde"
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      "title": "Leitura - Mentes Ansiosas",
      "content"	 : "Mentes Ansiosas – Medo e ansiedade para além dos limites é um livro que nos leva para os limites do medo e da ansiedade. Mostra-nos como estes elementos têm um peso fundamental para a gestão das nossas atividades do dia a dia, mas também, quando exageradas, podem ser terríveis.É um livro que conta com vários testemunhos de diferentes tipos de transtorno da ansiedade. Fala-nos um pouco da medicação mais eficaz para cada transtorno e, também, da abordagem terapêutica.Procura humanizar a relação médico-paciente, fundamentando a importância da escuta e da humanização do sofrimento das pessoas que procuram ajuda.É um livro que também fornece alguns conselhos para uma dieta saudável e hábitos saudáveis que permitam diminuir os efeitos das crises de ansiedade.Está escrito de forma simples e acessível, de uma forma relativamente clara e com alguma profundidade.Continuação de boas leituras,Dani Bento",
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      "title": "Leitura - Temperamento Forte e Bipolaridade",
      "content"	 : "Temperamento Forte e Bipolaridade – Dominando os altos e baixos do humor é um livro que descreve o funcionamento e as correlações entre o nosso temperamento e a doença bipolar.É um livro que aborda o tema de uma forma simples, acessível. Porém, achei a escrita com demasiados julgamentos morais sobre o comportamento das pessoas.O livro pode ser complementar no entendimento da medicação e dos seus efeitos, pois toma grande parte do mesmo.Por outro lado, a simplicidade torna-o também superficial e confuso.Um livro que certamente poderia ter sido mais explorado para chegar de uma forma mais clara e aprofundada ao público em geral.Continuação de boas leituras,Dani Bento",
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      "title": "Leitura - Uma Mente Inquieta",
      "content"	 : "Uma Mente Inquieta – Memórias de Loucura e Instabilidade de Humor é uma memória biográfica de Kay Redfield Jamison. Kay é uma referência internacional na doença bipolar. Este livro traz ao público a sua própria luta, desde a adolescência, com esta doença.Ao longo das páginas do livro, este leva-nos a conhecer uma experiência pessoal de sobrevivência à doença bipolar (ao qual no livro é sempre referida como doença maníaco-depressiva) e como isso moldou a vida de Kay Redfield.É um relato comovente e estimulante de uma mulher com uma enorme determinação em conhecer o inimigo e usar os seus próprios dons para exercer influência no mundo.Este livro leva-nos a percorrer os momentos de euforia e depressão de Kay, de uma forma transparente. Sentir a sua vulnerabilidade, mas também sentir a sua força interior.Vale a pena referir que, segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), a doença bipolar atinge cerca de 140 milhões de pessoas no mundo e é considerada uma das principais causas de incapacidade.Um livro empático, escrito de forma simples e acessível.Continuação de boas leituras,Dani Bento",
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      "title": "Hoje eu pensei, queria ter um pouquinho de euforia...",
      "content"	 : "Eram 7 da manhã quando acordei, 7h20 quando me levantei. É sábado, normalmente vou à rua comprar o jornal e tomar o pequeno almoço: uma rotina que já levo fazendo há alguns anos. O espaço das rotinas tornou-se importante para mandar alguma solidez na minha sanidade. Não que não as possa quebrar, mas que existam em primeiro lugar e que me ajudem a manter alguma estrutura mental. Chego a casa e pego no caderno para escrever, o meu pensamento está em círculo, penso em alguns pesadelos que me deixam aflita: voltar a entrar numa crise, seja ela eufórica, seja ela depressiva. Os dois pólos de uma existência extrema que me assaltam de tempos a tempos.Porém, dei por mim a pensar que gostava de ter um pouquinho de euforia. Sei que não posso ter esse pouquinho, mas pensei nisso. De repente pensei nos últimos dias e como me tenho sentido cansada, desmotivada e desconcentrada. Oscilando entre períodos de melancolia e períodos um pouco mais alegres. Dei por mim a pensar que gostava de ter um pouquinho de euforia. Queria não sentir cansaço, queria não sentir desmotivação nem desconcentração. Queria ter ideias, queria ter mais energia e vitalidade. No entanto, os anos ensinaram-me: não posso ter esse pouquinho, ainda que pense nisso.Há alguns anos atrás, entre o período em que não estava medicada nem com acompanhamento terapêutico e o período em que comecei a tomar uma medicação que me deixa relativamente estável, os meus sentires eram novelos de várias cores intrelaçados e sem ponta visível. O meu humor oscilava mais do que uma montanha russa e entrava em consecutivas crises que duravam imenso tempo. A euforia e a depressão eram sinónimo de “eu”. Eu era assim, não estava doente. Eu era assim. Eu era essa montanha russa e, sendo eu, também não detectava sinais nenhuns que se pudessem relacionar com doença… eu não sabia o que era essa doença.Os estados de euforias são muito diversos e eu, hoje, tenho algumas ferramentas para entender quando o meu corpo  começa a voar. Da mesma maneira, entendo quando o meu corpo fica de baixo da terra. Não quer dizer que consiga evitar todas as crises, mas consigo actuar mais depressa e procurar a ajuda necessária, seja na rede de proximidade, psicóloga ou psiquiatra. Foi e continua a ser um caminho de atenção permanente, onde nenhum detalhe do meu sentir pode ser ignorado. O pânico de entrar em algum destes momentos outra vez, atira-me para o limiar de voltar a ter um episódio.A euforia, na minha experiência, passa sempre por uma destruição considerável do meu eu. No princípio, de uma forma mais lenta, o meu vício em trabalho fica muito mais notório, não consigo parar de executar, os dias deixam de ter 16 horas, mas passam a ter 22h… as duas horas que sobram servem para ir correr. O dormir e comer passam a ser bens não essenciais e por isso não existem. O meu discurso começa a ter um ritmo desproporcional, consigo falar de muitos assuntos num curto espaço de tempo, com ideias muito vividas e interessantes (na visão que tenho no momento). A minha mente está activa, sinto-me bem, realmente bem. Uma felicidade tão profunda quanto o céu profundo. O medo desaparece, o risco aumenta. Leio muito, decoro tudo… faço raciocínios que nunca faria de outro modo, escrevo imensas reflexões sobre o mundo. Sinto-me inteligênte, sinto-me capaz de resolver os mais difíceis problemas da matemática (e cheguei a tentar….), sinto que posso resolver crimes (também cheguei a tentar…), posso resolver o mundo. Eu tenho a solução para o mundo. Gosto de arriscar, andar mais rápido, conduzir mais rápido, desejo adrenalina a todo o momento. Estou a viver outro mundo. Um mundo onde eu sinto que existo, onde sinto que sou suficiente, onde sinto que faço parte. Fixo-me em todos os detalhes, nada me escapa, sentidos fortemente apurados. Sou a pessoa mais apaixonada do mundo e, principalmente, apaixonada por mim. Estas são apenas algumas das coisas que me acontecem quando começo a escalada eufórica… porém… ao fim de alguns meses de uma vitalidade muito acima do normal, o meu corpo começa a exigir mais… muito mais. Este estado não chega, esta vitalidade deixa de chegar, não é suficiente para alimentar a minha vida. Preciso de mais. Estou no topo do universo, mas não chega, o meu corpo exige ser o criador do universo e de todos os outros universos. É neste momento que a minha mente dá um salto e, como a realidade não chega, procura mais fora dela. Nesse momento o mundo transforma-se, consigo ler os pensamentos das pessoas, ouvir tudo o que elas dizem dentro da carroagem do metro ou na rua, sinto que posso falar com todo o mundo usando apenas o cérebro, enviar mensagens. Começo a ver coisas que não existem, começo a ouvir muitas vozes e a falar alto durante muito tempo com essas vozes. As pessoas passam todas a ser uma ameaça, todos os seus movimentos indicam que vão exercer violência sobre mim, que se vão juntar todas e me torturar. Estou hiper sensitiva. As minhas lógicas, os meus raciocínios ficam deturpados e contas de 1+1 (literalmente) passam a ser a solução para qualquer problema em matemática. A minha voz desaparece, deixo de conseguir falar e, aos poucos deixo de conseguir escrever e o meu corpo começa a deixar de funcionar. Deixo de saber estar no mundo e vivo noutra realiade. Fico louca. Estou psicótica.Se estou no céu, no topo do universo, logo a seguir caio, a gravidade espalma-me contra o vazio. Passado meses de euforia e bem estar, só quero morrer. Só quero morrer sem deixar qualquer rasto de existência. Fico obsecada com a morte. A tristeza atinge-me com uma força imensa e fico paralisada… não mexo, não saio da cama, não como, não durmo. Escondo-me do mundo. A chama da vida apagou-se por completo. Posso andar mais de um mês com a mesma roupa, não limpo a casa, não tomo banho, não me consigo organizar, não consigo ler três palavras e lembrar-me da primeira… A vida deixou de valer a pena. Nada faz sentido, abandono tudo o que gosto. Até as amizades. Sinto-me terrível, sinto-me a pior pessoa do universo. Nada, mas nada é suficiente e eu nunca sou suficiente. A dor passa a ser o único sítio onde me sinto bem. Este salto é chocante, é como ter a luz ligada debaixo de um sol ardente e depois desligar a luz e o sol passar a ser um buraco negro que suga tudo o que se tem.Hoje eu pensei, queria ter um pouquinho de euforia. Mas sei que não posso ter esse pouquinho. A medicação que tomo há alguns anos estabilizou-me, as minhas crises também são mais leves e mais espaçadas. A terapia tem-me ajudado a entender o funcionamento da minha mente e de como posso construir uma vida positiva sem me destruir. Têm sido factores determinantes na manutenção da minha sanidade, bem como, ter construído uma rede de proximidade mais sólida. Era-me difícil manter relações estáveis, hoje reconheço isso de uma forma muito clara.Quero acreditar que são apenas uns dias menos bons, mas de todas as formas, para mim é significativo sentir que preciso de um pouco mais vitalidade. Faz-me indagar nos porquês, no como e no quando. Dá-me um espaço para aprender um pouco mais sobre mim e entender as minhas dinâmicas em momentos de estabilidade.É um facto: quando se vive muitos anos em penhascos e escarpas, entender a planície demora o seu tempo.DaniImagem: #storm - Lucas Sabena",
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      "author": "danifbento",
      "categories": "Saúde"
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      "title": "O tempo e o caderno",
      "content"	 : "Quarta, dia chuvoso, dia cinzento. Começo o dia por me encontrar com o tempo, negociar o meu estado e acabar refém dele, do tempo. Começo o dia por beijar o ar e sentir as gotas de choro dos céus correrem-me pelas faces. Começo o dia por abraçar a terra que piso e sentir o chão desabar-me dos pés. Foi assim, o meu encontro de hoje com o tempo. Foi assim que o meu estar se colou ao estar do tempo, unos e apenas só. Um sol escondido, tal como a luz da minha mente. Um azul oculto, tal como a dimensão da calma que me tem preenchido. Foi assim, que fiquei refém dele, do tempo.As palavras deixaram de me fazer sentido, as frases ficaram desconexas, os textos vagamente completos. O toque da caneta perdeu-se nas memórias de um passado, a tinta evacuou-se pelos caminhos já trilhados. O caderno, esse… permanece, vazio. Um vazio impenetrável, um vazio circundado de mundo, mas apenas isso, vazio, o caderno. Sem histórias, sem aconteceres, sem movimento e sem ação, apenas umas folhas degradadas e sem futuro. Um caderno que se esqueceu de como é o toque da caneta, do toque da mão que o preenche, da sensação de tinta corrida pelas suas páginas. Vazio.Hoje, o tempo e o caderno desencontraram-se. Um tempo que enfraquece a mente, um caderno que se ousa perdido por entre gotas. Queria. Apenas queria. Mas querer é muito, querer é difícil, querer é pesado, querer é apenas querer. Sem sonho ou plano. Querer é isso. Querer é apenas querer.Hoje, as palavras e a vontade desencontraram-se. Umas palavras que seguem esboçadas, letras que não se revelam na terra. Queria. Apenas queria. Mas querer é duro, querer é errar, querer é esquecer, querer é apenas querer. Sem vontade ou objetivo. Querer é isso. Querer é apenas querer.O vazio preenche-me, o vazio conquista-me, o vazio prevalece. O vazio está aqui, profundo, encaixado nas minhas entranhas. O vazio está aqui, diluído, unido com as minhas células. O vazio está aqui, agora. Ocupa-me o corpo, dissolve-me a mente, corrompe-me a alma. Aqui, agora. Está.Não sei o que sinto, mas também não sei o que não sinto. Assim hoje, como o caderno, como o tempo. Sou levada, sou empurrada e sou puxada, sou dilacerada. Impludo nos meus sentires e expludo nas minhas emoções. São tudo e não são nada. Em cima, em baixo, elas vão, aqui e ali, desencontrando-se do meu eu. Ou eu desencontrando-me?! Talvez eu queira, ou talvez não. Talvez eu sonhe, ou talvez não. Talvez eu tenha vontade, ou talvez não. Talvez, a minha vida circunda os talvez.Desfaço o caderno (a mim) em pedaços, estilhaço todos os seus pormenores, fragmento todas as suas memórias… racho com as linhas e com a linha da vida. Simplesmente o desfaço(-me). Procuro(-me) entre rasgos e bocados de vida, procuro(-me) entre letras soltas e acontecimentos aleatórios. O vazio transforma-se e retransforma-se, apaga e destrói o que existe… penetra nas profundezas da vida e devora o que existe e não existe. O vazio vocifera palavras ocas e sem significado. O vazio consome e alimenta-se. O caderno e o vazio. O tempo e o vazio. A chuva e a tristeza, as palavras e a melancolia.Assim o é. Assim o é o dia…DaniImagem: Emptiness - ~Erebos",
      "url": " /o-tempo-e-o-caderno/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "Saúde"
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      "title": "Dias contra o estigma e pela visibilidade",
      "content"	 : "No momento que escrevo este texto comemora-se o Dia Mundial da Doença Bipolar e é, também, véspera do Dia Internacional da Visibilidade Trans. Algumas vezes escrevo, escrevo em consequência de ambos os dias. Mas também escrevo em consequência dos meus próprios sentires. Porém, é necessário ter consciência que estes dias não devem começar e acabar aqui. É necessário fazer um trabalho árduo para que durante o resto ano se combata o estigma da doença bipolar e se torne visível as identidades trans, não-binárias e género diverso. Deve ser um processo continuo, orgânico.Colocar ambos os dias na mesma linha do parágrafo, nada tem a ver com alguma relação existente entre ambos. Mas sim, a relação que ambos têm comigo: enquanto pessoa Bipolar e enquanto pessoa Trans Não-Binária. O desafio é não deixar que ambas se consumam mutuamente e que entendamos (eu entenda) de que sentires estou a falar. Não posso deixar de dizer que, no meu caso em particular, respeitar a minha identidade, deixá-la falar e existir foi um passo para reduzir os períodos de depressão ou, pelo menos, atenuá-los. Não obstante, estes processos não são tão lineares para poder justificar esta razão de causalidade, mas é algo que vem dos meus sentires, das minhas emoções. Todavia, respeitar-me enquanto pessoa Bipolar e enquanto pessoa Trans foi uma etapa longa da minha vida pois, muitas vezes, o medo do estigma social deixava-me num fosso difícil de interpretar… não era o medo de ser quem era, era o medo de não ser entendida pela sociedade.Em certos momentos, lembro-me como foi este caminho. Lembro-me e relembro-me. Viajo pelas estradas que percorri e vejo os muros que derrubei – alguns deles bastante altos. Por quanto, hoje estou aqui, a relembrar.Parte das barreiras que ultrapassei deviam-se a construções interiores que me dificultavam o quotidiano, promovendo as minhas crises. Saltando continuamente entre crises depressivas e eufóricas, a minha fraca estabilidade obrigava-me a despender imensa energia para conseguir manter compromissos diários, como, o trabalho, a escola ou a manutenção de círculos de amizades estáveis. Nos momentos depressivos isolava-me, a energia perdia-se totalmente no vazio e custava-me imenso ter razões para viver. A manutenção da vida tornava-se um exercício tortuoso e difícil de acomodar. De uma forma diametralmente oposta, os momentos eufóricos resultavam numa sobrecarga de energia no meu corpo… o meu pensamento circulava tão depressa que não conseguia focar-me em nada, perdia-me na primeira palavra que dizia e mudava de assunto. Da mesma forma, manter compromissos era de um sacrifício enorme. Algumas vezes, mantinha episódios depressivos misturados com episódios eufóricos, um desafio ao próprio reconhecimento do meu estado.Em certos momentos agudos: ficava incomunicável, deixava de conseguir escrever (não tinha controlo sobre os movimentos finos da mão) e deixava de conseguir falar (não conseguia emitir som nenhum). Funcionalmente ficava… uma desgraça.As restantes barreiras deviam-se à estrutura social em que vivemos. Atenta ao estigma da saúde mental, escondia-me do mundo quando tinha crises. Por exemplo, muitas vezes, em períodos pré agudização do meu estado, tornava-me altamente funcional no trabalho – era a forma que tinha de me defender. Todavia, tudo o resto se ia desmoronando. A incapacidade de haver respostas para quem sofre de um ou vários problemas de saúde mental, a incapacidade de se combater o estigma de forma efetiva, reduziam-me o espaço de ação, colocando-me nas margens, no lugar de quem não tem posição na sociedade. Era marginalizada e eu própria também me empurrava para as margens.No meio deste caminho sinuoso as questões relacionadas com o meu género começam a ganhar um peso enorme e, à falta de informação nos primeiros anos em que estas perguntas se fizeram, eu associava a minha falta de concretização identitária ao meu estado de saúde mental. Ser trans, em si, não é cruel, cruel era a minha transfobia internalizada, a minha auto patologização por me achar diferente e por sentir que não me enquadrava como a generalidade das pessoas em meu redor se sentia. Descobrir-me na minha identidade entre crises, entre brechas do meu estar, foi uma provocação à minha forma de entender o mundo e uma provocação às minhas construções interiores. De repente, tudo o que eu tinha de garantido por certo, passou a estar errado ou em questão. Foi uma contrariedade enorme. Rapidamente entendi que as margens iriam-se tornar o lugar para viver, uma terra de ninguém. Quando mais tarde, me afirmei enquanto pessoa trans, era contra todas as formas de patologização das identidades e corporalidades. Mas o processo clínico existente à época (e tenhamos sinceridade, ainda hoje), mantinha-me colada à perturbação. Inclusive, o meu diagnóstico serviria como base para questionar se realmente eu poderia ser uma pessoa trans.Hoje, estou noutro ponto, mais estável, melhor e mais capaz. Hoje afirmo e reafirmo as minhas várias identidades sejam elas o facto de ser trans, não-binária, pansexual ou anarquista relacional, entre outras. Todas estas identidades, infelizmente, passaram pelo meu questionamento à sua existência sendo eu uma pessoa com distúrbio de humor. Não podia amar, não podia desejar, não podia existir. Hoje, estou noutro ponto, consciente de quem sou e daquilo que me afeta. Estou num processo contínuo de me encontrar, de me questionar, mas sei hoje que as minhas identidades são quem eu sou, independentemente de ter doença bipolar e transtorno de personalidade borderline.Pois, hoje e sempre, serei quem sou.Pois, hoje e sempre, serei visível.Dani",
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      "author": "danifbento",
      "categories": "Saúde, Trans"
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    "48": {
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      "slug": "8-marco-dia-internacional-das-mulheres-2021",
      "title": "8 Março - Dia Internacional das Mulheres",
      "content"	 : "Hoje comemora-se mais um Dia Internacional das Mulheres, este ano, numas condições atípicas. É a primeira vez, em vários anos, que não me junto à manifestação do 8 Março.Pessoalmente, este é um dia e, particularmente hoje, que me gera algum desconforto interno. Reconheço a importância de assinalar este dia, reconheço a importância de continuar na rua reivindicando um mundo mais justo.O meu mau estar prende-se com a prática. Para mim, feminismo não é só, e apenas, uma forma de luta pela igualdade, por um mundo mais justo ou pela queda das estruturas de poder. Para mim o feminismo também é uma prática, é uma prática de vivência e de reconstrução da sociedade. A primeira não acontece sem a segunda. Neste dia, mulheres trans são reiteradamente convidadas a participar em variadas ações. São convidadas a participar em reportagens, entrevistas, conversas e demais atividades. Se por um lado a nossa existência é negada, por outro, neste dia, somos consecutivamente procuradas para falar da nossa experiência.O meu mau estar prende-se com a prática. Para mim, feminismo não é uma imagem a ter quando se fala em inclusividade e em luta social. Para mim, feminismo é procurar abraçar a vivência das pessoas, das suas realidades, das suas histórias num tempo contínuo, num tempo que existe para além das manifestações e do visível. É também ele um apelo à subjetividade, ao interno, ao desafio das nossas contradições mais profundas.O meu mau estar está aí. Presente. Num dia em que se fala de mulheres, mas de certas e determinadas mulheres. Certas e determinadas corporalidades. Certas e determinadas vivências. As outras, as mulheres trans, são deixadas para a academia ou outra entidade explicar – entidades que estão fora da nossa realidade, mas que sabem tudo sobre nós. Porque só no dia em que sairmos destes discursos teóricos, académicos e patologizantes é que passaremos a existir. Até lá, somos apenas meras silhuetas que vivemos num mundo onde tentamos procurar um lugar.O meu mau estar está aí. Presente. Num dia em que se fala de mulheres, não se atenta ao discurso binário e cis-sexista. Num dia em que se fala de mulheres, nós mulheres trans, somos capa. Somos motivo para afirmar um feminismo mais inclusivo, mas sem a prática de o ser.O meu mau estar está aí, e talvez por isso, e por sentir esta revolta interna, também não me quis juntar. A minha energia esvaziou-se rapidamente. Talvez por isso e por saber que este também é um mês de visibilidade trans, preferi o segundo ao primeiro.Para mim, feminismo é ser-se em prática. A existência do transfeminismo não é alheia à criação destes discursos pseudo-inclusivos. Não chega afirmar que feministas trans-excludentes não são verdadeiramente inclusivas. Não chega afirmar e boicotar este grupo.É preciso mais, é preciso mudar a prática diária, é preciso repensar os nossos próprios privilégios, repensar as nossas ações e discurso. É preciso trabalhar para combater não apenas a transfobia e a transmisóginia, é preciso trabalhar para derrubar um sistema cis-sexista e binário.Dani",
      "url": " /8-marco-dia-internacional-das-mulheres-2021/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "Transfeminismo, Feminismo"
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      "slug": "ano-2020-em-revisao",
      "title": "Ano 2020, em revisão...",
      "content"	 : "Já entramos em 2021, deixamos para trás um ano de imensas mudanças estruturais e imensas mudanças de hábitos. Nada em 2019 indicava vir a ter um ano assim.Entrava  em 2020 em recuperação de uma crise depressiva, um período no qual enchi folhas de textos.  “Hoje acordei de manhã com vontade de escrever, não aqui, mas nos meus cadernos. Uma vontade súbita de transcrever uma série de sentimentos que me atingiam a alma. Perguntas, respostas, incertezas, certezas e sentires.”O ano seguia o seu início e senti-me mais forte, mais capaz de enfrentar os desafios que aí vinham. Era um período de mudanças estruturais internas profundas,  queria continuar a melhorar, queria continuar a aprender sobre mim: mais e mais.  “É dia de retornar, mas também é dia de recomeçar. Novas propostas, novos fazeres, novos objectivos. É dia de retomar, mas também é dia de restaurar. Controlo, estabilidade, aprendizagem. É dia de me encontrar e de me reencontrar. É dia. É dia. É dia de viver de novo.”Ao mesmo tempo, passava por períodos de reflexão interna sobre como a minha condição enquanto pessoa trans fazia-me gerir o mundo de forma diferente.  “Durante anos e anos, experimentei, experimentei sozinha para significar o que me estava a acontecer. Quis ter a certeza do que sentia, se era transponível na minha realidade ou se era algo mais. Ao mesmo tempo, as constantes crises e oscilações entre períodos maníacos, hipomaníacos e depressivos não me deixava tirar grandes conclusões sobre os meus sentires. Tudo se misturava, as crises identitárias levavam-me a crises de saúde e vice-versa. Até aos 28 anos a instabilidade era enorme.”Chegou o 8 de Março e a violência que se sente por, muitas vezes, como mulheres trans não sermos incluídas e respeitadas em alguns espaços feministas, negando-nos a nossa natureza, negando a nossa existência. Foi a última manifestação a que fui em vários meses: chegava a pandemia.  “Porém, quando falamos em sororidade, de quem falamos? Numa batalha que se tem vindo a verificar dura, mulheres trans e outras identidades dissidentes continuam na penumbra, invisibilizadas por um movimento que as exclui, segrega. É num contexto de grande perigosidade que vemos aparecerem cada vez mais movimentos trans-excludentes, manifestando-se publicamente contra pessoas trans, deturpando acontecimentos e argumentos. Usando falácias e populismos para incentivar o ódio e perpetuar a discriminação de um grupo que já é bastante ostracizado pela sociedade em geral.”Com o tempo de quarentena, vêm também as reflexões sobre as diferenças sociais e as dificuldades que muitas pessoas têm sentido durante estes meses e que eu não tenho sentido por ter um trabalho estável que me permite estar em casa.  “Para que eu possa estar em casa, no meu processo de quarentena, muitas pessoas estão a manter a cidade nos seus mínimos. Continuo a poder ir à loja comprar o que me falta em casa, continuo a poder ir buscar comida para os meus gatos, continuo a poder arranjar, se necessário, o meu microondas, continuo a ter Internet, televisão, água, gás, luz. Todos serviços que estão a ser assegurados por alguém. Muitas vezes esse alguém em condições não dignas de trabalho, em condições desumanas, em condições de risco elevado.”O ano continua e nada de extraordinário acontece. Continuo em casa em períodos de reflexão, de arranjar estratégias para me aguentar à falta de socialização.  “É no limiar entre o sonho e a realidade, num precipício enjaulado, num abismo condicionado que procuro viver entre fissuras e brechas, entre acontecimentos e não acontecimentos, um percurso parado, um caminho desfeito, um andar atabalhoado e penoso.”Sentia como os últimos meses foram impulsionados por uma tentativa de me encontrar em algum lugar.  “Os processos limítrofes são realidades também eles fronteiriços, são realidades que nos remetem a perda de identidade, ao lugar algum de lugar nenhum. Uma fronteira intransponível pelo exterior, mas conectada internamente pelo núcleo da minha existência.”Tudo corria relativamente bem, até chocar novamente com os médicos, via-me impossibilitada de avançar nas minhas necessidades, via-me novamente ser confrontada com a realidade cruel que é a normalização dos corpos.  “Ser monstra é um direito, ser monstra é um caminho, ser monstra é transformar os meus monstros interiores, os meus medos, as minhas dúvidas e as minhas incertezas. Para ser monstra é preciso visibilidade, é preciso existir, é preciso viver… por fim, é preciso realizar.”Apesar de tudo, considero que tive um ano 2020 bastante rico, bastante importante do ponto de vista pessoal. Um momento de crescimento enorme. Espero agora um futuro 2021 com mais vida, mais socialização e mais compromisso.Artigos de 2020:  Energia que mata, mas que possibilita…  Corpos fronteiriços…  Um dia de sororidade  A minha quarentena  Dia Mundial da Doença Bipolar 2020  Dia Internacional da Visibilidade Trans 2020  Adormeço  51 Anos de Stonewall  Estados Limítrofes  Dia Internacional das Pessoas Não Binárias  O sol e a lua  Dia Mundial da Prevenção do Suicídio  Quando a estranheza te impede de ser Monstra  Dia da Memória Trans - para homenagear, relembrar e consciencializar  Entender a Transfobia  Estabilidade e ConfiançaFeliz Ano 2021 e continuação de boas leituras,Dani",
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      "author": "danifbento",
      "categories": "Geral, Revisão"
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      "title": "Estabilidade e Confiança",
      "content"	 : "Faltam pouco mais de 10 dias para o final do ano 2020. Não poderia deixar passar o momento sem uma pequena reflexão sobre os meus estares, as minhas realidades, os meus sentires. Há um ano, neste dia, lutava comigo mesmo sobre se teria capacidade de voltar a trabalhar em Janeiro. Antevia um percurso de recuperação longo após uma crise depressiva grave. O meu estado ainda não era muito conclusivo sobre a possibilidade de conseguir tomar a rotina sem que entrasse novamente em crise. Foi um mês de decisões.Acaba o ano e decido voltar a tentar trabalhar em Janeiro, sabia que me iria custar no início, ganhar ritmo, ganhar engrenagem e conseguir atender a todas as demandas que me surgiam. É verdade que consegui adaptar-me com alguma eficácia, também o ambiente em que estou inserida contribuiu para essa adaptação. Dois meses depois chega a pandemia derivada da COVID-19 e fico novamente recolhida em casa, com a diferença de  que agora estou a trabalhar. Porém, sem qualquer forma de ver as pessoas que quero, que amo, que estabeleço algum tipo de vínculo. Estou no isolamento, estou isolada do mundo enquanto recupero da depressão. Os meus contactos passam a existir em plataformas digitais, mas não mais do que isso. O medo apoderou-se das pessoas, da sociedade em geral e também de mim. Como iria eu superar este momento?É verdade que hoje olho para esses dias e lembro-me que sentia  medo, não queria voltar ao sítio de onde vim. Não queria de todo voltar a esse lugar. Foram vários meses muito duros dos quais me recuperei. Porém, sinto hoje estabilidade e confiança. Sinto que dei um passo largo no meu crescimento interior, pessoal e emocional. Fui tomando decisões ao longo destes meses, decisões que complementam o meu estar, a minha saúde, física e mental. Algumas dessas mudanças foram mais dolorosas do que outras, mas de uma importância vital para a manutenção do meu bem estar, da minha energia e capacidade de estar no mundo.A pandemia tornou-se um freio para toda a minha interação social. Ainda que eu seja, no geral, uma pessoa introvertida, a obrigatoriedade de confinamento trouxe-me algumas dificuldades concretas. Porém, algumas coisas que aprendi durante a minha última crise depressiva serviram relativamente bem neste contexto. As minhas rotinas deram-me estabilidade e permitiram-me ter sempre perspectiva em relação ao dia seguinte. Permitiram-me manter em contacto comigo mesma e, da forma que podia, com o mundo. É verdade, não sou fã da comunicação via Internet e isso ficou bastante claro nestes últimos meses. É uma comunicação que sinto limitante e redutora da minha linguagem e por isso tenho tendência a ter dificuldades em manter diálogos em conversas online. Isso demonstrou-se um desafio. Ainda hoje o é.Estabilidade e confiança surgiram naturalmente deste modelo que tenho aplicado. Rotinas bem definidas, saídas higiénicas à rua, planos de dia para dia, momentos de descanso e prazer. Momentos de contacto com as pessoas, ainda que tenha dificuldade em manter o contacto digital - vou praticando. Também tenho de agradecer às pessoas que tiveram comigo durante este período, apesar das limitações, tornaram-se fundamentais na minha forma de estar. Principalmente os esforços feitos por quem amo para que a distância não fosse um problema.Hoje, e comparando com o ano anterior, acordo com vontade de viver o dia e de continuar viva. Acordo com a energia de quem está descansada, de quem está pronta para os desafios do dia a dia. Continuam a existir momentos difíceis e nesta época de fim de ano costumo fazer algumas reflexões que por vezes mexem bastante com o meu estar. Porém a vontade de superar o problema é maior. A vontade de continuar cada dia a dar o melhor de mim. A tomar ações sobre aquilo que sinto e aquilo que desejo.Com o fim de ano vem a perspectiva de um ano seguinte mais rico, mais enriquecedor, mais confiante. Sem medos, sem o receio de voltar a sair à rua e ter um ataque de pânico, sem o receio de voltar a sair à rua e o coração explodir, sem o receio de voltar a sair à rua e ficar sem ar para respirar. Entendo, hoje, que estes meses obrigaram-me a pensar e a repensar os meus dias, as minhas necessidades e os meus desejos. Obrigaram-me a parar, a reduzir o ritmo que estava a viver e a entender melhor os momentos com atividade reduzida e descanso.Algo que hoje ainda continuo a aprender a descansar, a desfrutar de cada momento, de sentir e de me permitir sentir. Hoje ainda continuo a aprender, a aprender para o amanhã ser melhor. Hoje ainda continuo a aprender, a aprender para continuar a crescer, a aprender para continuar a sorrir.DaniImagem: Closeup Photography of Stacked Stones - Shiva Smyth",
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      "author": "danifbento",
      "categories": "Saúde"
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      "title": "Entender a Transfobia",
      "content"	 : "Quase uma semana depois do Dia da Memória Trans e do Dia Internacional para a Eliminação de todas as formas de Violência contra as Mulheres, o mundo não para e segue o seu caminho. Segue o mundo e seguem todas as pessoas. Estes foram dias simbólicos onde se pretendia sensibilizar para a violência que existe na nossa sociedade. Para a violência exercida contra mulheres e outras identidades não hegemónicas. Num mundo onde a misoginia mata, a transfobia também. Andam a par e de mão dada. Porém, a transfobia, bem como a misoginia, vão muito para além dos feminicídios e dos transfeminicídios. A violência é um acto transversal, normalizado no cerne da nossa existência desde que abrimos os olhos para o mundo, ou até antes. Para erradicar a violência é preciso reflectir sobre ela e entender como se manifesta e como actua na sociedade em que vivemos.Nem sempre é uma tarefa fácil. Entendermo-nos como pessoas que, ainda que inconscientemente, exercem violência sobre as demais é sempre um passo de reflexão interior enorme. A transfobia é sistémica e estrutural, não nasce de uma pessoa em particular, mas sim de um conjunto de normas e mecanismos de opressão que regem as relações de poder entre identidades e géneros. Para combater a transfobia é necessário entender estes mecanismos e quais as normas pelos quais se regem, é preciso entender de uma forma radical estas relações de poder. Não chega legalizar contra a discriminação pela identidade de género, não chega aplicar sentenças a quem propaga transfobia de uma forma clara e consciente. É preciso mais, muito mais.Infelizmente, não posso dizer que este seja um exercício simples. A transfobia está enraizada nas atitudes que temos dia após dia. A transfobia é viva porque vivemos num cis-tema. Vivemos num mundo cissexista e cisnormado. Enquanto não assumirmos que pessoas trans, não-binárias e género diverso são compulsivamente obrigadas a viver num mundo que não reconhece a sua existência, num mundo que as quer invisíveis para não criar distúrbios nas formas de poder existentes, num mundo que as quer apagar, num mundo que as quer silenciadas, num mundo onde a sua voz não tem qualquer valor ou, até num mundo em que a sua função é ser um figurino de uma realidade criada por pessoas cis, não entenderemos nada sobre transfobia.Porém, a transfobia é mais do que invisibilidade. Transfobia é também a manutenção de hierarquias na relação entre géneros. É manter o status quo de quem tem o poder e quem não o tem ou, não o pode alcançar. Este status quo só pode ser mantido se não existirem transgressões ao sistema em que vivemos.Transgressão é sinónimo de colocarmos em questionamento a nossa própria existência.Transgressão é sinónimo de entendermos que a nossa experiência não é única e universal.Transgressão é sinónimo de questionamento do cis-tema e de vivênciá-lo de uma forma crítica.Transgressão é sinónimo de quebrar as regras do cis-tema construído de forma frágil, mas com tanto desiquilibro de poderes.A transgressão é sinónimo de pessoas descontentes com a sua realidade, é sinónimo de revolução.Entender a transfobia é também entender que vivemos num sistema capitalista, patriarcal, misógino, cis-hetero-mono-sexista, racista, xenofobo, capacitista, classista,… A transfobia não se descola por natureza de outras formas de opressão, pelo contrário, dá-lhes mais áreas de actuação.Combater a transfobia é então pensar na revolução. É entender a relação entre mecanismos de poder, é reconhecê-los e compreender as nossas próprias ações. Quando usamos certas palavras, quando apagamos as suas vivências, quando não ouvimos as suas experiências. Quando as tornamos objetos de estudo para nosso próprio proveito, quando as ridicularizamos, quando achamos que devem pedir permissão para existir. Quando achamos que têm lutar para concretizar as suas necessidades, de lutar para ver os seus corpos respeitados, de lutar para ver a sua identidade reconhecida e despatologizada.Combater a transfobia é então pensar no porquê.Combater a transfobia é então questionar o porquê.Combater a transfobia é então revolucionar o porquê.Quando achamos que tudo isto é menor, quando achamos que tudo isto é normal e consequência natural de sermos pessoas: não sabemos o que é transfobia.DaniImagem: Smash Binary Gender - Transguyjay",
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      "categories": "Trans"
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      "title": "Dia da Memória Trans - para homenagear, relembrar e consciencializar",
      "content"	 : "Esta semana, a 20 Novembro 2020, assinala-se o Dia da Memória Trans, em homenagem às pessoas trans que perderam as suas vidas vítimas de crimes transfóbicos.Segundo o último relatório da Transgender Europe (TGEU) – que contabiliza os homicídios por crime transfóbico desde 1 de Outubro 2019 até 30 de Setembro de 2020 – um total de 350 pessoas trans, não binárias e género diverso perderam a vida num espaço de 12 meses. Três centenas e meia de pessoas foram assassinadas por não se enquadrarem num modelo de sociedade que ainda vê no ódio uma solução para a sobrevivência da maioria.Este número está tendencialmente a crescer de ano para ano e os dados escondem outras realidades, nomeadamente todas aquelas pessoas que não constam nestas listas de crimes de ódio porque o crime não foi reconhecido como tal nos seus países  ou casos que caíram no esquecimento e não foram denunciados ou registados. Também não podemos deixar de relembrar todas as vítimas de homicídio social, que tiram a sua própria vida em consequência da violência diária a que são sujeitas.As  violências normalizadas diariamente pela sociedade são uma realidade e afectam grandemente a comunidade trans, não-binária e de género diverso. Enquanto pessoas cidadãs, temos de ter consciência do lugar que ocupamos na sociedade e de que forma somos agentes de transformação social. Como podemos contribuir? Como podemos melhorar a vida destas pessoas?Existem muitos países e contextos onde não existem políticas públicas que protejam estas pessoas das violências a que são sujeitas diariamente. Infelizmente, também há países a ter processos regressivos em relação aos direitos conquistados pela comunidade. A escassez de práticas políticas e públicas deixa esta população num contínuo desamparo. A política deve ser feita no terreno e com as pessoas que dos problemas sofrem. Somos Pessoas Trans. Não somos, nem nunca fomos, abstrações ou teorias, somos pessoas reais, com problemas reais, com sentimentos e dignidade.Neste sentido, Portugal continua a ter uma aplicabilidade das suas leis bastante omissa, sendo de muita dificuldade defender alguém contra um crime transfóbico. É preciso fazer mais. É preciso que exista um esforço internacional para que medidas concretas sejam aplicadas e que estas pessoas, principalmente as que estão ainda em grupos mais vulneráveis, como pessoas trabalhadoras do sexo, pessoas migrantes, pessoas negras e racializadas, entre outros grupos, possam ter as suas vidas protegidas e que as possam viver com dignidade. É preciso concretizar.É um facto claro: a transfobia mata. E todas estas pessoas perderam a vida só por se darem ao seu próprio direito de serem quem são. Continuam a faltar-nos recursos para garantir a digna subsistência das pessoas mais vulneráveis, seja habitação, alimentação, o direito a um trabalho ou a estudar - pois muitas vivem em situações de grande precariedade. Sabemos das famílias que não sustentam um espaço seguro, sabemos do apoio social escasso e uma rede de amizade, muitas vezes, deficitária devido à resistência em respeitar a diversidade. São nestes contextos que muitas pessoas vivem.  Ninguém é inocente neste processo, mas as estruturas de poder continuam a ter um poder devastador relativamente a estas vidas. A violência institucional, sistémica e estrutural é real e concreta.Faltam muitas estruturas elementares de apoio nas mais diversas áreas, desde o apoio psicológico, jurídico, psicossocial e de apoio a vítimas. As estruturas que existem, proporcionadas na sua maioria pela sociedade civil, não são suficientes para o número de casos que nos chegam. Esta deveria ser uma obrigação do Estado enquanto entidade legisladora e executiva do país: garantir os devidos apoios a todas as pessoas tendo em conta as suas vulnerabilidades sociais.Assinalar este dia não é suficiente, é preciso trabalharmos continuamente as nossas relações de poder, trabalhar a não perpetuação de violências, trabalhar junto das várias entidades para que tenham informação sobre a diversidade e unicidade de cada pessoa.Respeitar a diversidade não é uma opção, é uma questão de responsabilidade.  Respeitar a diversidade não é um capricho, é uma questão existência e integridade.DaniImagem: Candle - Walrus36",
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      "title": "Quando a estranheza te impede de ser Monstra",
      "content"	 : "Ser monstra é um direito, ser monstra é um caminho, ser monstra é transformar os meus monstros interiores, os meus medos, as minhas dúvidas e as minhas incertezas. Para ser monstra é preciso visibilidade, é preciso existir, é preciso viver… por fim, é preciso realizar. Ser monstra é um direito, ser monstra é um caminho, ser monstra é, também, transformar aquilo que é normal naquilo de que me quero afastar.Sou monstra e reclamo o direito a ser monstra.Sou monstra e reclamo o direito a existir.Sou monstra e reclamo o direito a viver.Há vários anos que na minha vida começaram a acontecer transformações consideráveis. Físicas, mentais e emocionais, estas transformações têm vindo a moldar a forma como penso, a forma como faço e estou presente no mundo. Num artigo anterior falei de como comecei e continuo a viver na fronteira, num espaço de ninguém (aqui). Como o meu corpo e a minha identidade estão fora do discurso, fora das histórias, fora das representatividades e dos espaços, públicos e não públicos. A minha existência está determinada por um e só um modo de ser: não existir. As dissidências não existem, são meros seres fora das fronteiras, determinadas pelo limbo da presença na realidade. Corpos trans, corpos não-binários, são para não existir. Corpos trans, corpos não-binários, são para estar no silêncio, no fundo da cadeia da existência. Porquanto: estas pessoas não existem, estas pessoas não são pessoas. São as monstras da sociedade.Desde o começo das minhas consultas na sexologia, no meu limbo de existência, que as dificuldades que me foram apresentadas foram imensas. Por quê? Porque reclamo o direito a ser monstra, reclamo o direito a ser quem sou pelo que sou e pelo que desejo ser. Uma monstra inquieta e profundamente desconfortável com o espaço da homogeneidade, da realidade construída, do destino e das normas institucionalizadas.Até conseguir mudar o meu nome no Registo Civil foi um processo moroso, fui avaliada em todos os aspectos. Uma avaliação tangível num mundo das cisnormatividades, mas um avaliação cruel no mundo das dissidências. Porém, não fui avaliada pela minha felicidade ou pelo meu bem estar: pelo contrário, afirmar-me feliz era sinal de que afinal não podia ser monstra suficiente. Todo o meu mundo caiu no escrutínio da medicina: a minha roupa, a minha maquilhagem (ou ausência dela), o meu calçado, o formato do meu corpo, os meus desejos, as minhas aspirações, o meu percurso profissional e académico. Que monstra é engenheira? Que monstra é cientista? Que monstra vive em sintonia com o seu corpo, não o negando? Que monstra diz que quer ser quem é sem imposições, sem restrições e sem padrões?  “(…) Observações: tem continuado a evolução normal… acontece que está envolvido numa relação lésbica.(…)”  “(…) O cabelo está cada vez mais à mulher (…)”  “(…) questões a ponderar : o processo de transição é ainda muito incompleto (…)”  “(…) as nossas colegas de equipa acham que nenhuma mulher se vestia como ele. Assim, usava uns sapatos desadequados para mulher, roupa masculina; cabelo curto e sem maquilhagem (…)”  “(…) Já mudou 10 vezes de cor de cabelo (…)”Do ponto de vista de quem merece existir, as monstras não podem constituir família, não podem ser amadas nem amar fora do contexto da monstruosidade. Uma monstra vive só, vive sem amor e abandonada, chutada para o silêncio e para a invisibilidade, o insulto e o isolamento. Ao desejo de no futuro poder haver a possibilidade ou não de desejar ter uma criança com os meus genes, depois de meses, tenho de usar o argumento da cirurgia genital (e não apenas a esterilização hormonal) para poder fazer criopreservação de gametas: um direito que assiste a qualquer pessoa, mas não às monstras. As monstras não podem constituir família, não podem ser amadas nem amar fora do contexto da monstruosidade. A monstra apenas quer preservar a sua masculinidade dessa forma… porque na realidade a monstra não é quem diz que é.Decido que quero despachar procedimentos burocráticos e, como mandam os actuais processos, envio duas avaliações médicas que declaram a veracidade da minha monstruosidade para a Ordem dos Médicos, mais uma vez, submetida a uma avaliação, cis-centrada, por pessoas que nunca vi, nem me conhecem (ou talvez sim, dos jornais e das revistas). Após longa espera: afinal não sou quem digo que sou… não o sou suficientemente. O meu pedido é rejeitado.  “(…) a Competência em Sexologia Clínica da Ordem dos Médicos analisou o seu pedido (…) tendo decidido que o mesmo não merece parecer positivo, dado que no relatório, apesar de uma avaliação muito completa, não fica estabelecido, de forma inequívoca, o diagnóstico de disforia de sexo. (…)”Submeto-me a uma terceira avaliação para complementar as duas anteriores, novamente para a Ordem dos Médicos, mais outra avaliação, cis-centrada, por pessoas que nunca vi, nem me conhecem (ou talvez sim, dos jornais e das revistas). Após longa espera: afinal já sou quem digo que sou… passei a ser suficiente. (Em quantas avaliações já vamos?)  “(…) informamos que a direcção da Competência de Sexologia da Ordem dos Médicos emitiu parecer positivo ao pedido de autorização (…)”Arbitrariedade de quem avalia, como se uma pessoa pudesse ser avaliada por singelas características construídas socialmente num mundo de terror e violência. Arbitrariedade de quem avalia, como se a minha identidade, a minha experiência pessoal não fosse suficiente. O médico sabe… a pessoa cis sabe mais sobre mim do que eu mesma.Passam anos em tratamento hormonal, idas e vindas a consultas, locais onde é preciso ter ousadia de falar, ousadia de contestar… a dúvida da minha existência está aqui sempre presente, em todos os momentos. Só, acompanhada, na rua, no hospital, etc… a monstra é avaliada a qualquer segundo da sua vida. Porque a monstra não deveria existir.Após um longo processo de espera por uma consulta de cirurgia, eis que ela chega. Animada, esperando que não iria encontrar mais obstáculos… afinal, tudo parecia começar a correr melhor. Acreditava eu.  “Já tem autorização da Ordem certo? - Sim. - Então vem fazer a cirurgia genital? - Não, venho só fazer mamoplastia. - Não pode, nós começamos sempre pelas genitais, se não é estranho sabe, fica estranho… começamos sempre com as genitais. - Com a estranheza não tenho problemas, com a estranheza decido eu. É esta a minha decisão.”O meu corpo é fronteiriço, mas continua a estar nas mãos da opinião de quem não entende o que são as nossas vivências, as nossas realidades. O que são as nossas necessidades e o nosso direito a existir. Porque a monstra, a monstra não pode existir, a estranheza de ser monstra é contra-natura, é quebrar a falsa normalidade que nos vendem, que nos impingem desde que somos crianças.O meu corpo é fronteiriço, mas continua a ser comparado a corpos cis. Eu não me quero comparar a corpos cis, eu não sou cis. Mesmo que, segundo a apreciação, eu tenha mamas maiores que muitas mulheres cis… Este referencial não me serve, este não é um argumento. Esta não é uma apreciação clínica, é opinião pessoal. Novamente, sigo para mais uma avaliação do director de serviço, um homem cis que nunca vi e que nem me conhece (ou talvez sim, dos jornais e das revistas). Novamente serei alvo de apreciação, de decisão e de perda de autonomia. O meu corpo deixa de ser meu, é um produto de experimentação médica, de normatização, de limpeza estética: porque na realidade, monstras não podem existir.Às vezes pergunto-me sobre o que estudam pessoas cis quando fazem estudos sobre a transfobia que afecta a comunidade trans e não-binária. Uma transfobia vista à luz do critério cis, do critério da normatividade: o sujeito trans como objecto desse projecto de critério, o sujeito trans que não beneficia nada do estudo sobre a sua própria objectificação. Faz-me falta, faz-me falta estudos sobre pessoas cis, estudos sobre os seus processos de transfobia: mudar o referencial. Não são as pessoas trans e não-binárias, agentes da pluralidade e diversidade o objecto de estudo, são as pessoas cis e a sua manutenção do poder através da homogeneização dos corpos e das identidades. São as pessoas cis que devem ser estudadas. Porque são elas como são? Porque seguem elas a norma, porque não têm atitude crítica, porque olham sempre para nós como as monstras da sociedade.Reclamo o meu direito a ser monstraReclamo o meu direito a ser estranhaReclamo o meu direito a ser plural e únicaPorque esta monstra está aqui, esta monstra existe e só isso determina a minha existência.DaniImagem: Poor Visibility - Heather F",
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      "title": "Dia Mundial da Prevenção do Suicídio",
      "content"	 : "Hoje, dia 10, anota-se o Dia Mundial da Prevenção do Suicídio. Este dia, criado em 2003, pela Associação Internacional para a Prevenção do Suicídio e pela Organização Mundial de Saúde, tem como objectivo sensibilizar e prevenir o suicídio através de medidas práticas e concretas por parte dos Governos e das estruturas Institucionais. Sendo o suicídio uma das 20 maiores causas de morte no mundo, e entre os jovens dos 15 aos 29 anos, a segunda maior causa. Morrem cerca de 800 000 pessoas a cada ano, o que equivale a aproximadamente 1 pessoa a cada 40 segundos[1]. Hoje, temos um factor extra, vivemos em plena pandemia: estamos no meio de um confinamento continuado, com liberdades limitadas e com um profundo isolamento. Não podemos deixar de pensar na implicação deste factor na saúde mental das pessoas.Há, aproximadamente um ano, publiquei um artigo onde escrevia:  “Hoje é um desses dias, um desses dias que não me quero calar. Hoje é um desses dias, que não quero cair na invisibilidade.”[2]Passado um ano continuo a achar que não me quero calar, que não quero cair na invisibilidade. E porquê? Porque a saúde mental ainda é um estigma e ainda é um assunto de difícil interlocução na sociedade. O modo produtivista, num regime capitalista como o nosso, não nos deixa parar para reflectir em diversas questões e, uma delas, é a nossa própria saúde integral e a saúde integral das pessoas com quem estabelecemos relações (ou da sociedade em geral). Fala-se em saúde, em bem estar, mas na realidade o que se está a falar é em saúde e bem estar físico. Mas a saúde é mais do que isso, é também a saúde mental, o bem estar mental e social.  “ O conceito de saúde adotado nesta publicação é o que a Organização Mundial da Saúde (OMS) elaborou em 1971, que define saúde como “um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doença ou enfermidade” “[3]No entanto, apesar de haver um consenso sobre o que é saúde, continua-se a estigmatizar e a invisibilizar todo o processo de bem estar mental (não apenas nos casos de doença do foro psíquico). Para uma pessoa que padece de um problema de saúde, esta estigmatização faz com que, muitas vezes, para além dos fatores da própria doença, tenha mais dificuldades em obter um trabalho ou mantê-lo, bem como manter e obter relações estáveis e não tóxicas. Isto acontece porque há uma realidade que é invisibilizada e simultaneamente contestada e invalidada (um duplo standard). Em muitas situações, doença mental é sinónimo de preguiça, de não vontade, de descuido e de fraqueza. É necessário mudar esta visão, é necessário pensar nas pessoas de uma forma holística e de uma forma integral. Porém isso só é possível se começarmos a mudar profundamente e de uma forma radical a estrutura das nossas relações. É preciso reconstruir o modo de nos relacionarmos, evitar o capacitismo, e desconstruir ideias que estão comumente associadas a bem estar mental. É, também, preciso abandonar as velhas concepções psiquiátricas e terapêuticas de que uma receita e um modelo serve para todo o mundo, esquecendo a particularidade de cada pessoa, o seu contexto e a sua trajectória. Novamente, os sistemas de saúde também devem olhar de uma forma holística e individual cada caso e cada realidade.Um das formas de entender que não podemos isolar a saúde mental de todos os outros processos sociais é, por exemplo, quando falamos de pessoas que sofrem opressões sociais, singulares ou múltiplas. Os seus problemas de saúde são agravados por estes sistemas estruturais e deste modo, de acordo com as suas vivências a forma de enquadrar cada dificuldade assume uma forma particular, associada e atravessada por este mesmo contexto. Conclui-se que este modelo é único e intransmissível.Sabemos assim que a saúde mental e bem estar mental e social está conectado com problemas e dificuldades internas, mas também com o ambiente social, económico e político que se tive em cada momento. E o actual momento é particularmente sensível.Combater e prevenir o suicídio não é só uma tarefa individual, é uma tarefa comunitária, social e estrutural, em que todas as pessoas devem assumir a sua parte, a sua responsabilidade. Assumir essa responsabilidade não é o mesmo que dizer somos responsáveis por este acto, mas é dizer que todas as pessoas, de alguma forma, podem contribuir para a reconstrução e reorganização social de forma a melhorar as condições sociais e ambientais em que estas pessoas se movem, abrindo espaços para que as suas dores não sejam colocadas em causa. Atualmente existem muitas lacunas relacionais que devem ser preenchidas e isso consegue-se com tentativa e erro, com comunicação e com escuta activa. É um facto, não podemos esperar que sejam passos governamentais ou institucionais que façam a diferença à velocidade que é necessária, por isso a necessidade de criarmos as nossas redes de apoio e segurança e construir uma teia de autocuidado e cuidado comunitário.Mas uma vez que falamos de bem estar mental e social, estas reestruturações não devem ser olhadas apenas do prisma da neuro divergência ou da dificuldade psicológica/emocional. Devem ser equacionadas mesmo quando não existe aparente problema, só assim será possível reduzir o impacto social e ambiental no estado psíquico de cada pessoa, evitando outras consequências piores.Só a título de curiosidade. No outro dia vi uma imagem que exemplifica bem o estado de alienação actual em relação às pessoas próximas. Existiam duas mesas para recepção de pessoas. Uma, a que recebia as pessoas que escrevem e publicam muitas mensagens de apoio emocional e psicológico, principalmente neste mês. A segunda a que recebia as pessoas que estão de facto a mudar estruturalmente as suas relações para poder fazer um acompanhamento mais próximo. A primeira mesa tinha uma fila enorme, a segunda mesa tinha apenas umas poucas pessoas. É uma amostra do sentimento que se vive nos nossos dias.É importante perguntar-mo-nos como resolvemos este processo de alienação em relação às pessoas. Primeiro é preciso vontade de o fazer, depois é necessário assumir um compromisso connosco e com as pessoas que nos rodeiam. Não há relação sem compromisso. O compromisso é parte integrante de qualquer relação e vínculo humano. É preciso ter isto em mente quando queremos concretizar uma relação. Só radicalizando as nossas estruturas e subvertendo o actual sistema pelo que nos regemos, é possível essa mudança e obter esse compromisso.Eu, pessoalmente, acredito na mudança e na transformação social. Sei e quero acreditar que há mais pessoas com essa vontade, porém este é um processo duro, difícil e inquietante. Remexe connosco e com a forma como sentimos o mundo. Mas é necessário e importante. No entanto, acredito que faz parte do nosso crescimento enquanto seres humanos, enquanto seres sociais.Merecemos mais do que um sistema destrutivo e consumidor das nossas emoções, de um sistema que nos aprisiona nas suas teias, quebrando os nossos laços, o nosso toque físico, a nossa afinidade pessoal.Merecemos mais do que um sistema que só valoriza pelo que fazemos em quantidade e não pelo que somos enquanto pessoas e seres únicos com necessidades específicas.Merecemos mais, muito mais.Agora lembrem-se… não se esqueçam das pessoas que gostam e vos rodeiam. Incluam as pessoas nas vossas vidas, incluam as pessoas nos vossos estares… estejam presentes. É difícil fazê-lo, mas pensem que só numa verdadeira rede de base nós conseguiremos vencer um sistema que nos aniquila a cada momento.  [1] world health organization  [2] dia mundial da saúde mental - a doença invisível  [3] constituición de la organización mundial de la saludDaniImagem: Depression - Nils Werner",
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      "title": "O sol e a lua",
      "content"	 : "O sol brilha, o vento corre suave, o mar está calmo, a areia quente. Um passo, dois passos, deito-me, a toalha estendida, a sombra do chapéu. Respiro. Fecho os olhos. Adormeço. Começo a sentir o calor emanar pelas minhas costas, já não é o sol a queimar-me, sou eu a queimar o sol. O sol, aquela entidade omnipresente, nem sempre o vejo, mas está lá. Ele escuta o céu, e percorre os ouvidos. Quando não o vejo, oiço-o. Presente, ele está lá. Sinto o calor emanar pelas minhas costas, já não é o sol a queimar-me, sou eu a queimar o sol.O tempo passa, passa para mim e passa para o sol… mas eu nasço e o sol está lá, eu morro e o sol lá continuará. O sol é infinito. É infinito, no tempo, no espaço. O sol estará sempre para iluminar, para aquecer, para desaparecer e dar lugar à noite. O sol estará sempre de braço estendido, de mão aberta, com os seu dedos compridos e luminosos. O sol estará sempre. O sol, o sol, o sol, sempre o sol, mas nunca a lua, a sua magia, a sua magnificência. Nunca a lua que trás a noite, o fresco, as luzes da vida escondida. Nunca a lua que traz o detalhe, a forma, a permanência. O sol e a lua. Há quem os considere opostos, complementares, há quem os considere apenas isso. O sol e a lua.O espaço percorre-se, percorre-se para mim e percorre-se para o sol… mas eu nasço e o sol está lá, eu morro e o sol lá continuará. O sol é infinito. É infinito, no tempo, no espaço. O sol estará sempre para medir o tempo, para dizer quando é dia, para marcar o ritmo da vida. O sol estará sempre a viajar, a dar-se nos caminhos incompletos, a caminhar sem fim. O sol estará sempre. O sol, o sol, o sol, sempre o sol, mas nunca a lua que nos marca as noites, o descanso, a intensidade. Nunca a lua que conversa num assobio melodioso, que cria as lendas, que provoca a razoabilidade. Nunca a lua que desafia a iluminação, que desafia a regra, que procura o seu lugar. Há quem os considere opostos, complementares, há quem os considere apenas isso. O sol e a lua.Acordei. Viajei. Viajei até um lugar onde o sol e a lua caminhavam em conjunto, dançando e orbitando-se, deixando o terreno e passando para o mundo dos sonhos. Viajei até um lugar onde o sol e a lua estavam nas minhas mãos, na mão esquerda o sol, não mão direita a lua… ou será, a mão direita o sol e a esquerda a lua… Viajei até um lugar onde o tempo e o espaço são infinitos, a direita e a esquerda misturam-se, antecipam-se às lógicas da existência mundana. Acordei. Viajei.Hoje não me apetece. Hoje não quero. Hoje não tenho vontade. Hoje. Depois de acordar, nada quero, tudo me permito. De mãos dadas, sou eu a queimar o sol, sou eu a iluminar a lua. De mãos estendidas para o céu, agarro-me à terra e entendo-me. De mãos estendidas para o céu, prendo-me nas rochas e procuro-me. De mãos estendidas para o céu, vislumbro para além dos limites, vislumbro para além do infinito. E nesse entendimento, nessa procura e nesse vislumbre que percebo para além do sol e da lua, percebo que sou mais que a antagonia, sou mais do que a contrariedade, sou mais que a ambivalência. Também sou a antagonia, também sou a contrariedade, também sou a ambivalência. Mas mais. Sou também a procura, sou também o entendimento, sou também os limites e o infinito. Sou o que quero ser, sou simplesmente partes de sol, partes de lua, partes de universo. Sou.DaniImagem: Earthshine during the Total Solar Eclipse of August 2017 - Christopher Berry",
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      "slug": "dia-internacional-das-pessoas-nao-binarias-2020",
      "title": "Dia Internacional das Pessoas Não Binárias",
      "content"	 : "Hoje, 14 de julho, voltamos a celebrar, voltamos a celebrar a nossa existência e a nossa validade. Neste 14 de julho voltamos a reafirmar quem somos, voltamos a dar-nos voz, voltamos a dar-nos espaço. Uma voz que muitas vezes é ignorada, esquecida e abandonada. Uma voz que muitas vezes é desqualificada, é patologizada e invisibilizada. Um espaço que não nos incluí, que nos desprotege, que nos atira para a insegurança. Um espaço onde não pertencemos, onde não existimos. É com um sentimento de orgulho que nós nos afirmamos, que reclamamos a posse da nossa identidade e da nosso forma de estar no mundo, somos pessoas não binárias, com orgulho, com engajamento, com empoderamento. Somos.Numa sociedade que tem uma herança histórica sobre a forma como são construídas as identidades e corporalidades, é nos permitido reconhecer facilmente a cis-centralidade do sistema, a binariedade incrustada em todos os sistemas vigentes. É nesse meio hostil que pessoas não binárias desenvolvem a sua identidade, se descobrem e procuram a sua integridade pessoal. É nesse meio hostil que pessoas não binárias procuram o seu reconhecimento, a sua congruência e a sua intimidade. É neste espaço que pessoas não binárias provocam o status quo do sistema - de um sistema pouco inclusivo, que funciona em prol de algumas e não de todas as pessoas. É na procura desse lugar na sociedade que confirmamos a invisibilidade a que nos sujeitamos.O meu processo de descoberta identitária foi um remoinho de sensações, primeiro a minha afirmação enquanto mulher trans, depois a descoberta dos conceitos sobre não binariedade e a minha auto-identificação com o conceito de ageneridade. Uma ausência de género provocadora, assustadora. Um lapso acidental na construção identitária? Ou um abandono completo do sistema mulher-homem, do sistema que procura a homogeneização das identidades e dos corpos e do sistema que quer a diferença na invisibilidade. Acredito que o abandono foi consequente e foi causador desta minha cisão. Creio, também, que a minha construção identitária passou por entregar-me à minha própria incerteza, abrindo o meu imaginário para outras formas de realizar, de fazer e de viver.Estabelecer-me num mundo que só reconhece a existência de mulheres e homens é estar em permanente confronto e em permanente choque. Confronto porque tomamos as nossas identidades por existentes e válidas numa sociedade que reivindica o contrário. Choque porque exigimos o nosso reconhecimento numa sociedade que sistemicamente só reconhece parte das pessoas e das suas existências.Reclamamos também o nosso espaço dentro dos movimentos trans, combatendo a binariedade imposta.Reclamamos também o nosso espaço dentro dos espaços feministas, combatendo a exclusão tida como certa.Reclamamos também o nosso espaço na sociedade, combatendo a incapacidade de olhar para além do nosso espaço concreto.Reclamamos isto e tudo mais.Reclamamos isto e tudo mais.Sabemos de antemão que leis não mudam sociedades, mas sabemos que leis impulsionam e dão sinais de reconhecimento. Deste modo é urgente e necessário provocar as instituições para que dêem sinais e abertura para incluir as pautas da população não-binária nos seus programas. Que haja um reconhecimento da especificidade de cada pessoa e, nomeadamente, de cada pessoa não-binária, respeitando o seu espaço de autodeterminação e do direito a ver a sua identidade aconchegada de braços abertos. Queremos mais, queremos muito mais. Não dá para afirmar que se tenha feito muito por nós, pelo contrário, muito ainda há por fazer. Muito mesmo.É preciso que as nossas vozes sejam ouvidas, que não nos apaguem no silêncioÉ preciso que as nossas questões sejam entendidas, que não nos patologizemÉ preciso que os nossos corpos sejam respeitados, que não nos exotizemÉ preciso que as nossas identidades sejam empoderadas, que não nos matemNão esqueçamos as referências, não esquecemos a necessidade de novos discursos, ou a necessidade de vermo-nos em representação em qualquer parte do espaço público.Não esqueçamos a necessidade de ter alianças, não esqueçamos a nossa capacidade de ser pessoas humanas e com coração.Não esqueçamos que estamos aqui e aqui vamos continuar a lutar para que a nossa dignidade seja garantida, que os nossos afetos sejam sinceros, que possamos sorrir ao fim do dia com a certeza de que vou viver mais um dia.Porque este espaço também é teu.Dani",
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      "title": "Estados Limítrofes",
      "content"	 : "Estamos nos primeiros dias de julho e muito aconteceu nos últimos meses. Meses que foram ricos em sensações, em reflexões, em momentos de inspiração e outros menos bons, mais desesperados, mais difíceis e mais tristes. Estar tanto tempo sem poder ver as pessoas que amamos, cuidando vínculos apenas através do ecrã é um exercício… um exercício difícil. As saudades apertam, as vontades, a ideia de transgredir o mundo. Porém, sinto que para mim estes meses foram muito importantes por várias razões. Razões que me levaram a pensar e a repensar os meus dias, as minhas capacidades, as minhas qualidades.No dia 13 de maio, escrevia este excerto de texto… um pedaço de palavras que nunca viu a luz até hoje:Era dia, era manhã. Era hora de levantar. Apita o despertador, é tempo de levantar, fazer as tarefas da manhã. Sentar-me à secretária e começar o meu dia de trabalho. Toca as dez horas da manhã, é tempo de parar quinze minutos. Ir até à varanda, dar duas festas em cada gato. São dez e quinze, de volta à secretária. O dia seguinte repete o anterior e o dia anterior repete o futuro. A seta do tempo move-se para os dois lados, frente trás, trás frente… tudo é similar. Os gatos dormem, eu trabalho, eu durmo e os gatos acordam. A música preenche o espaço vazio da sala. A fotografia remete-me para momentos de indecisão. Espero, conto até três, nada.Pergunto-me, até quando? Até quando, até quando os gatos, a música e a fotografia. Até quando a janela vazia, a porta fechada, a refeição singular. Até quando a tigela de cereais, a lista de tarefas e o calendário. Um calendário vazio, rotineiro, com uma hora de entrada e uma hora de saída. Apenas um calendário que espera ser mexido, enchido e rasgado. Um calendário escrito por mãos, preenchido pelo vento.As horas passam, o cansaço toma conta de mim. O cansaço da apatia, ou talvez não… talvez do silêncio. Um silêncio que remexe as entranhas, que rodopia o pensamento. Não me sinto activa, não me sinto estimulada, não me sinto… como que, em linha. A actividade é lançada por um eterno ciclo que vai de mim para mim. O estímulo que passa da minha mente, para as listas e novamente para mim. Um sentir que é vazio, sem tacto, sem proximidade.Este silêncio que é abandono, esta apatia que é desprezo. O telefone toca: é alarme; O telefone toca: é banco; O telefone toca: é serviço de internet. O telefone… silêncio. Chamo de volta: dou a contagem do gás. Chamo de volta: digo que não estou interessada na última campanha. Chamo de volta: não há por onde chamar de volta. Resta-me continuar a tentar.Este texto, que nunca chegou a ser acabado, retrata um estado de ânimo concreto, particular. Retrata uma incerteza no futuro, uma incerteza no presente e, também ela no passado.Momentos que, muitas vezes, são precisos sentir, absorver, viver e receber com carinho.Momentos esses onde por vezes a criatividade cresce e decresce como um pulsar contínuo.Momentos esses que desejo abraçar.Durante os meses que passaram, abriu-se um grande espaço de reflexão interna, de autoconhecimento, de aprendizagem e de preservação pessoal. Muitas destas reflexões caminham a meu lado desde a minha última crise: como manter a minha estabilidade e a mente sã, como manter a motivação e a energia? Um trabalho que foi sendo feito durante meses. Já estive em outros momentos de estabilidade que reflecti em assuntos similares, porém sinto que desta vez fui mais fundo e mais profundo. Sinto que desta vez toquei em pontos nevrálgicos, pontos estruturantes para a minha identidade (de um modo transversal).Escrevo este texto através da calma que cada palavra me transmite, que cada palavra me ecoa, que cada palavra me provoca. Uma calma, ela subtil no essencial, mas pronunciada no acessório. É neste mecanismo essencial versus acessório que procuro encontrar o meu mundo e a minha própria realidade. Um mecanismo que sustenta a unicidade de um ser e de uma vida. É também responsável pela consistência, pela existência e pela complexidade de existir e viver.A fronteira entre a minha sanidade e a minha loucura é limítrofe, é potenciada pelo desejo de ficar bem e pelo desejo de viver a loucura. Uma loucura que se alimenta de toda a energia que o meu corpo é capaz de dar, e um desejo de viver em ruptura com o desejo de parar e desistir. É neste processo limite que rasgo a minha solidez, levanto os pés do chão e procuro outros estares. É neste processo limite que contorno as lógicas internas de auto-protecção e me junto à minha própria descredibilização. É neste momento processo limite que faço o inverso, conecto-me às minhas lógicas de cuidado e procuro a minha credibilização. São estados dúbios, retro-alimentados. Mas ela está lá sempre, se não tenho cuidado, ela está lá sempre.Os processos limítrofes são realidades também eles fronteiriços, são realidades que nos remetem a perda de identidade, ao lugar algum de lugar nenhum. Uma fronteira intransponível pelo exterior, mas conectada internamente pelo núcleo da minha existência. Porque a minha essência é um limite que está para além dos limites, a minha essência é ser quem sou, apenas isso. Uma materialização dos meus desejos, das minhas aventuras, dos meus passos.É nessa região que me entendo a crescer, a sentir-me mais forte, a estar consistente na dúvida.A cada dia uma vitória, uma conquista, uma certeza que estou a caminhar, que estou a passar obstáculos, que estou a conseguir não só sobreviver, mas também viver. A música preenche as minhas teclas, as imagens que as melodias me transmitem transformam-se em palavras, a realidade que me cerca consagra a vivência, a alma e a acção.Fecho os olhos e deixo-me levar por esta felicidade que me abraça, que me protege, que me quer. Uma felicidade única, um felicidade ancorada no crescimento, na luta, na conquista e no estímulo.Fecho os olhos e deixo-me levar pelo encantamento dos meus sentires, dos meus estares, as minhas emoções. Um encantamento que me permite sonhar, sentir o futuro, o presente e o passado.Fecho os olhos e deixo-me, simplesmente deixo-me… porque estou segura, estou confiante, estou capaz. Uma segurança que nasce do meu centro, da minha essência, do meu corpo.Estou,Estou feliz, segura…DaniImagem: Invitée - Vicent Noel",
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      "title": "51 Anos de Stonewall",
      "content"	 : "Hoje, 28 de Junho, assinala-se os 51 anos dos tumultos de Stonewall e 50 anos de comemorações do Orgulho LGBTIQA+. A história é conhecida, porém é também, muitas vezes, interpretada, e desqualificada. A visibilidade consequente desse mesmo processo de afirmação continua a ter bastantes lacunas, bastantes leituras erróneas. Estamos a falar da desqualificação de pessoas trans, travestis, butch, femme, negras, migradas, trabalhadoras do sexo, precárias,… Estamos a falar de um desqualificação que até hoje não teve a devida visibilidade histórica a que tanto nos referimos. Continua a não haver representatividade para estas pessoas, estavam e continuam na margem.Quando falamos em orgulho é importante contextualizar esse sentir. Desde o individual até à colectividade, até ao movimento e até ao seu impacto político e estrutural. Quando falamos de orgulho é importante reconhecer que estamos a celebrar a nossa resiliência, a nossa reafirmação, a nossa resistência. Estamos a falar de reapropriação dos sentires, das vergonhas e dos medos. Estamos a falar da ressignificação das palavras, dos insultos, do discurso e da língua. No individual, o orgulho é atravessado pelas próprias vivências, pelas violências sofridas dia após dia, momento após momento. Na colectividade falamos das estruturas macro da nossa vivência, aqui o orgulho é atravessado por uma visão macro social, pelas instituições, pelo Estado, pelas violências sistémicas, estruturais e institucionais. O orgulho é atravessado pelas vivências territoriais, particulares de cada contexto, é atravessado pelas fronteiras impostas. É, de uma forma geral, produto de um macro sistema que vai para além de cada fronteira: o patriarcado, o capitalismo, o colonialismo, o racismo, a xenofobia, o capacitismo, o heterocis-monosexismo, entre outras violências estruturais.Lutar pelas causas LGBTIQA+ não é apenas lutar pelo respeito à diversidade sexual e identitária. Lutar pela causa LGBTIQA+ passa pela desconstrução do sistema como um todo, de uma forma interseccional. Não é uma causa separável da causa anti-capitalista, anti-racista, anti-colonialista, anti-capacitista,… É lutar para fazer diferente, para construir diferente. Diferente destas lógicas castradoras e violentas que acabam sempre a beneficiar certos grupos em relação a outros grupos. É também lutar para que o acesso aos meios, ao espaço público e a uma vida digna o seja possível para todas as pessoas. Esta luta é também sobre os territórios, sobre as fronteiras, sobre os limites, sobre a precariedade e sobre a saúde. Esta luta é também sobre o acesso à habitação, a soberania alimentar, sobre economia justa/sustentável e sobre o meio ambiente. Esta luta é transversal, não há uma opressão que se demonstre no singular, há opressões que cruzam várias camadas da existência de alguém. Há opressões que moldam como outras opressões funcionam e como se convertem na prática.Deslocar a luta LGBTIQA+ de todas as outras formas de luta social é apagar e invisibilizar todas as pessoas que não se vêem representadas por este sistema. É apagar e invisibilizar todas as formas de viver e de se relacionar com o mundo. Deslocar a luta LGBTIQA+ é, também, não entender as especificidades de cada uma. Ter uma pessoa LGBTIQA+ junto dos órgãos de poder estatal não me representa, não me representa porque o nosso sistema político é canibal. Usa as pessoas, coloca-as na posição de representatividade, mas as políticas internas continuam a ser as mesmas ou piores. A representatividade é importante, mas só será possível quando existir uma verdadeira busca por políticas que permitam desconstruir a transversalidade das opressões que cruzam imensas pessoas. Até lá, seremos meros peões do sistema, fazendo jogos de cintura, suplicando por medidas que nos dêem alguma garantia.Em 2020 ainda se romantiza e se apaga a história dos motins de Stonewall. Stonewall foi uma manifestação clara de insatisfação, foi um momento necessário e urgente para mudar o rumo da história. Foi na precariedade, na pobreza, na humilhação e na violência que estas pessoas se chegaram à frente. Foi na qualidade (que lhes atribuíam) de pessoas de segunda ou terceira, ou de nenhum nível, que estas pessoas se chegaram à frente. É neste contexto que nascem as nossas marchas, as nossas tentativas de ocupação do espaço público, a nossa provocação a quem nos sempre humilhou e nos violentou. É assim importante marchar, mas marchar para fazer diferente, marchar para reivindicar, porque nada do que temos é garantido, nada do que temos nos foi dado em troca de pouco… foi sempre necessário um esforço individual e colectivo, foi sempre necessário desacordos ou ambivalências.Urge a necessidade de pensar, de construir, de abraçar a mudança de forma radical. Urge a necessidade de radicalizar os nossos afetos, os nossos vínculos, o nosso amor. Urge a necessidade de radicalizar a nossa forma de ver o mundo. Ver através dos olhos de quem quer a mudança, a revolução e a construção de uma sociedade mais una e justa.A revolução não se faz pedindo espaço para que a minha voz seja ouvida, a revolução faz-se ocupando esse espaço heterocismono centrado. Mudando os discursos, mudando os referenciais, permitindo que a minha história também seja reconhecida como uma história de luta, permitindo que a minha experiência seja considerada e validada. Não queremos pessoas no topo do seu privilégio a dizer quem somos ou não somos, não queremos pessoas no topo do seu privilégio ditar como deve ser o nosso corpo e a nossa sexualidade, não queremos pessoas no topo do seu privilégio a referenciar todos os discursos de uma olhada não crítica, não contundente, não coerente com uma mudança estratégica do mundo.DaniImagem: data - jayceboi83",
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      "author": "danifbento",
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      "title": "Adormeço",
      "content"	 : "Adormeço..Acordo, olho o relógio, são meia noite e trinta. São uma, adormeço…Acordo, olho o relógio, são duas e trinta. São três, adormeço…Acordo, olho o relógio, são quatro e trinta. São cinco, adormeço…O despertador toca, são seis e trinta… acordo, viro-me na cama, espero pelas sete, e pelas sete e trinta… levanto-me. Preparo-me para mais um dia, mais um dia longo, um longo dia.A cada noite pertence o seu próprio espaço e tempo, a sua mudança literal entre o estar e o não estar, uma mudança que é rompida e corrompida pela sua natureza. Um lugar de nada, um lugar de tudo… um mundo de existências, de vidas, de desfechos. É nesta ilusão desiludida, neste sentir quebrado, neste viver antagonizado que segue cada momento, cada dia.É no limiar entre o sonho e a realidade, num precipício enjaulado, num abismo condicionado que procuro viver entre fissuras e brechas, entre acontecimentos e não acontecimentos, um percurso parado, um caminho desfeito, um andar atabalhoado e penoso.É no limiar entre o sonho e a realidade, num terreno árido, num campo hostil que colho sementes de rochas que crescem para o céu e árvores que crescem para a terra. Numa simbiose entre aquilo que existe e aquilo que procura existir.A cada dia ancora-se um desejo, a cada dia ancora-se uma possibilidade, a cada dia ancora-se um fazer. Porém, a cada dia perde-se um desejo, uma possibilidade e um fazer. Entre o estar viva e o estar morta, apenas se distingue a ilusão. A fantasia de viver e reviver em um, dois, quatro, oito, dezesseis mundos é como o desejo de não querer viver em nenhum, como a ambição de apenas consolidar aquilo que de comum existe e aquilo que de incomum não pertence. Apenas isso e, só isso.Queria sonhar sobre o sol e sobre a lua, queria sonhar sobre as estrelas e sobre as galáxias. Desejos inertes e vontades imobilizadas. Desejos no espaço e no tempo, na continuidade.Queria sonhar sobre o mar e sobre o rio, queria sonhar sobre a floresta e sobre o campo.Desejos móveis e vontades energéticas. Desejos na terra e na água, na vida.É, num espaço vazio de sentir, que me entendo nos limites. É, num tempo imutável de sentir, que me entendo nas fronteiras. É entre o espaço vazio e o tempo imutável, que a potencialidade de permanecer viva conecta com a incapacidade de conter a sanidade. É entre espaços de loucura e tempos de alienação que acordo, é entre espaços de lucidez e tempos de juízo que procuro reviver e viver cada dia. O contraste entre o real e o imaginário difere apenas na forma, na apresentação… viver e sonhar, sonhar e viver, um mundo dual.Sonho todos os dias e morro, também, todos os dias. Morro para voltar a viver. Morro para voltar a acordar. Morro para volta a sentir. Sonho todos os dias e vivo, também, todos os dias. Vivo para voltar a morrer. Vivo para voltar a adormecer. Vivo para voltar a anestesiar. É entre o viver e o morrer, que a linha condutora da persistência segue criando raízes, criando memórias e recordações. O alcance da dor, do cansaço e da insanidade só é mensurável através da sua vivência, do seu sentir, da sua predominância. O alcance do prazer, da vitalidade e da sensatez só é mensurável através da sua perda, da insensibilidade, da sua escassez.É no mundo das incertezas e no mundo das não certezas que me entendo.É num mundo atingido pela inseguranças e pelos medos que me revejo.É num mundo resgatado pela ternura e pelo afeto que me asseguro.Que o sono e o sonho me percorram as artérias do corpo reavivando cada célula, cada órgão, cada membro. Que me atinja a harmonia e a melodia de estar em sintonia comigo mesma. Que a vida me atinja e que me tinja de cor e brilho.DaniImagem: abstract 10821 - Dimka",
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      "author": "danifbento",
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      "slug": "dia-internacional-da-visibilidade-trans-2020",
      "title": "Dia Internacional da Visibilidade Trans 2020",
      "content"	 : "Hoje é dia 31 de Março, Dia Internacional da Visibilidade Trans. Este dia comemora-se desde 2009 com o objetivo de celebrar positivamente todas a comunidade. Projetando, assim, a visibilidade e histórias positivas. É um dia importante para a consciência de que nós existimos, de que fazemos parte, que merecemos vidas dignas e que queremos ser livres das amarras de um sistema que nos condiciona em todas as frentes.Nos últimos anos, a visibilidade de pessoas trans/não-binárias ou outras identidades dissidentes parece ter aumentado de uma forma crescente. Mais do que nunca temos entrevistas, artigos, workshops, debates e apresentações sobre tudo o que nos envolve. No entanto, muitas vezes é importante ter um olhar crítico sobre todas estas atividades. Será que realmente nos estão a trazer mais visibilidade? Ou será que essa visibilidade também é condicionada pela forma como os media retratam as nossas vivências? Ou será que essa visibilidade continua a colocar-nos na posição da diferença?É sabido que durante muitos anos, e ainda atualmente, pessoas que se identificavam com qualquer identidade não hegemónica eram condicionadas pela sociedade, pelo aparelho médico, pelo Estado para se normalizarem de acordo com as regras de género vigentes. Homens de um lado, mulheres de outro lado. Esta pressão continua a existir. Um dos problemas que assisto é o facto de que, na sua maioria, a visibilidade que existe é sobre um tipo muito característico de pessoas trans, pessoas que na sua vivência estão de acordo ou muito próximo das normas sociais. Muito raramente é dada visibilidade a pessoas que saiam fora dessas normas.Por outro lado, a visibilidade que nos dão ainda continua a ser aquela que nos remete para os seres especiais e diferentes, que nos coloca no centro da trama pelo nosso sofrimento. Não aquela que nos coloca no espaço e tempo das pessoas que existem no seu quotidiano, que existem nas histórias de quadradinhos, ou nas novelas, ou nas séries… não por terem uma identidade dissidente, mas por serem parte integrante da diversidade humana na sua plenitude. Continuamos a ser as pessoas que são chamadas especificamente para falar de questões sobre identidade de género, mas nunca as pessoas chamadas para falar de ciência, política ou arte.Neste mesmo sentido, as histórias que prevalecem continuam a ser aquelas que retratam o sofrimento, que retratam as dificuldades. Não as que tecem a crítica ao sistema, que colocam as pessoas cis no centro do problema, que colocam a transfobia e as regras de género como um problema que deve ser combatido. A visibilidade continua a estar nas cirurgias que fazemos ou não fazemos, mas nunca em como o sistema de saúde é parco e violento no acompanhamento. A visibilidade continua a estar nas crianças que têm uma família que não os compreende, mas nunca na família que tece violência e sofrimento nas mesmas. A visibilidade continua no lado errado da história.Com isto não digo que a visibilidade não seja importante, mas acredito que é necessário reestruturar a maneira como queremos que estes assuntos sejam debatidos e integrados na sociedade. É preciso tirar o foco da pessoa que é diferente, para focar na pessoa que causa o problema. Uma troca de papéis, uma troca de narrativas… olhar para o problema estrutural e não apenas para o problema individual, para uma pessoa em concreto - muitas vezes assumindo que esta experiência se replica por todas as outras pessoas, assumindo a unicidade da experiência e não a sua pluralidade.Queremos festejar a nossa existência, mas que esse festejo seja todos os dias, que esse festejo seja por estarmos verdadeiramente a ser incluídas enquanto pessoas. Queremos festejar a diversidade e a inclusão, queremos festejar a liberdade. Porém sinto que este festejo só se torna eficaz se no mesmo tempo festejarmos a crítica e a mudança estrutural.DaniImagem: 2018.05.19 Capital TransPride, Washington, DC USA 00484 - Ted Eytan",
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      "author": "danifbento",
      "categories": "Trans"
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      "slug": "dia-mundial-da-doenca-bipolar-2020",
      "title": "Dia Mundial da Doença Bipolar 2020",
      "content"	 : "Hoje, dia 30 de Março, comemora-se o Dia Mundial da Doença Bipolar. Segundo a OMS, 45 milhões de pessoas em todo o mundo sofrem desta doença. Este dia tem como objetivo combater o estigma social e sensibilizar para a doença que representa um desafio enorme para as pessoas portadoras, a sua família e comunidade.Os períodos de mania são caracterizados por sensação extrema de bem estar, aceleração do pensamento e da fala, agitação e hiperatividade,… Por outro lado, os períodos de depressão são caracterizados por alterações no apetite, humor deprimido, fadiga, perda de energia,…Foi neste quadro de sintomas que aprendi a reconhecer o quanto pode ser difícil viver diariamente com este problema de saúde, todos os dias são uma batalha para manter a estabilidade e a segurança pessoal. Porém, também aprendi a reconhecer que faz parte de mim e que molda, de certa forma, o meu estar. Aprender não sentir culpa por se estar doente foi um processo que me levou anos, aprender a permitir-me sentir foi um processo lento, aprender a pedir ajuda foi um processo moroso.No entanto, há quatro anos escrevi (aqui) que este diagnóstico com o valor (relativo e subjetivo) que tem, permitiu-me conhecer as minhas dificuldades e trabalhar numa solução que me permitisse ter uma vida razoavelmente estável.Desde esse dia muitas coisas aconteceram e muitas coisas mudaram na minha vida. Estou mais estável, mais saudável, mais organizada. As minhas crises são menores, mais rápidas e menos destrutivas. Tudo isto deveu-se a ter resiliência, ter o acompanhamento certo e ter uma rede de apoio que tem crescido de dia para dia.Porém, em outubro de 2019, fui apanhada de surpresa por uma crise depressiva major que descrevo aqui, numa sequência de artigos sobre o que sentia.Hoje estou bem, sinto-me estável e capaz. Escrevo este texto com uma perspetiva muito diferente daquela que tinha quando escrevi todos estes textos que publiquei durante a minha crise. Mas, hoje há outro desafio. Entramos num período de isolamento forçado, o aparecimento de uma pandemia associada ao COVID-19 traz dificuldades extra.Neste momento aposto nas ferramentas que fui criando ao longo dos últimos anos/meses para me manter estável, organizada. Ferramentas essas que me foram extremamente úteis nos últimos meses que estive em casa devido ao meu estado de saúde. Criar lista de tarefas, premiar-me, ter períodos de reflexão, respeitar os meus espaços de descanso e trabalho, manter o contacto o mais próximo possível com a minha rede de amizades.Acredito que nesta fase terei altos e baixos. Vivo sozinha por isso, o contacto com outras pessoas é bastante reduzido o que me coloca numa situação de grande isolamento. É importante para mim reconhecer que irei ter esses momentos, deixar-me senti-los, permitir que existam, pois ajuda a manter-me organizada e humana. Mais do que nunca, o acompanhamento psicológico deve ser mantido com regularidade. Mais do que nunca, devo procurar manter-me conectada comigo e com o mundo que me rodeia. É compreensível que o isolamento agrave determinados sintomas e que provoque o aparecimento de outros, nomeadamente associados a um estado depressivo.Por isso deixo alguns pontos do que me têm ajudado a passar este momento:  Manter uma lista de tarefas diária  Manter o contacto com as minhas amizades  Manter a regularidade do sono e das refeições  Manter a perspetiva  Respeitar os meus momentos de descanso  Fazer exercício em casa  Praticar algum tipo de meditação (no meu caso, tenho tentado Mindfullness)  Limitar o meu acesso à informação sobre a doença  Escutar o meu corpo e a minha mente  Ser solidária  Procurar ajuda sempre que necessárioNão sei quanto tempo este isolamento vai durar, por isso, sinto que me é necessário apostar em medidas contínuas no tempo, em medidas sólidas e pragmáticas que me permitam lidar com as incertezas e com a falta de contacto humano. Ter, também, em atenção possíveis sintomas que possam aparecer para poder fazer uma gestão eficaz e pedir ajuda se necessário.Haverão pessoas que, devido ao seu contexto, usam técnicas e métodos diferentes. Tudo o que pudermos fazer para manter a nossa sanidade mental é muito importante. Também haverão pessoas, que devido à mesma razão, poderão passar por dificuldades diferentes. Dificuldades essas que dependem da necessidade e dos meios de cada pessoa. Numa época como esta é importante manter a solidariedade e abertura a receber alguém, a ouvir ativamente e a entender as dificuldades de cada pessoa.DaniImagem: bipolar - versionz",
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      "author": "danifbento",
      "categories": "Saúde"
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      "title": "A minha quarentena",
      "content"	 : "Estou em casa. Há duas semanas que estou em casa. Sou uma pessoa privilegiada em relação ao meu trabalho, posso continuar a trabalhar normalmente, sem restrições em casa. Já podia fazer teletrabalho antes, se precisasse. A diferença é que estarei mais tempo, muito mais tempo do que num regime normal em que peço para trabalhar de casa. Porém tenho todas as comodidades que poderia ter. Trabalhar na área de engenharia de software dá-nos esta vantagem. Um privilégio. Infelizmente, não é este o caso de muitas pessoas, imensas pessoas.Para que eu possa estar em casa, no meu processo de quarentena, muitas pessoas estão a manter a cidade nos seus mínimos. Continuo a poder ir à loja comprar o que me falta em casa, continuo a poder ir buscar comida para os meus gatos, continuo a poder arranjar, se necessário, o meu microondas, continuo a ter Internet, televisão, água, gás, luz. Todos serviços que estão a ser assegurados por alguém. Muitas vezes esse alguém em condições não dignas de trabalho, em condições desumanas, em condições de risco elevado. Graças a essas pessoas eu posso continuar a executar o meu trabalho diariamente, com risco mínimo. Este é momento em que muitas pessoas dizem que estas pessoas são as nossas heroínas, mas durante todo o ano não compreendem o quanto essencial são estes trabalhos e o quanto, apesar disso, estas pessoas vivem precariamente. Muitas vezes mulheres e pessoas racializadas, pessoas migradas, pessoas sem documentação que lhes permita aceder à maioria dos serviços essenciais em Portugal.O vírus não discrimina quem atinge, mas nós discriminamos. As desigualdades sociais tornam-se maiores e pessoas em situações mais vulneráveis, tornam-se pessoas em situações ainda mais vulneráveis. O vírus não discrimina, mas o nosso sistema reinventa-se a si mesmo e não dá hipótese a quem já com dificuldades vive. O capital faz sempre para sobreviver, sacrificando quem acha que deve ser sacrificado. O vírus não discrimina, mas a minha classe social permite-me estar mais protegida que outras pessoas. É a desigualdade social a funcionar, é o capital a dizer quem é protegido e quem não é.Os despedimentos em massa, os despejos que continuam a acontecer, as pessoas que estão em casa em situação de risco por violência, junta-se os agressores com as vítimas, as pessoas que voltam a entrar no armário por terem famílias homofóbicas ou transfóbicas, as pessoas que vivem isoladas e que por esta situação vão estar ainda mais isoladas, os abandonos, a falta de financiamento para continuar a pagar as despesas básicas (casa, água, …), as muitas pessoas sem casa e deixadas ao abandono. O aumento do racismo, da xenofobia, da violência contra pessoas migradas. A desproteção a que as pessoas trabalhadoras do sexo estão sujeitas. A falta de políticas de cariz social peca em todas as suas frentes. Dando-se privilégio a manter uma economia em mínimos do que a proteger na íntegra, a população. Isto é mais do que económica, uma crise social.É nestas alturas que devemos procurar estratégias comunitárias, procurar soluções que façam frente a esta estratégia de poder. Procurar soluções contra o isolamento e toda a repressão que se faz sentir. Repensar o modo como vivemos em comunidade, como podemos estar presentes umas para as outras. É, neste momento, necessário criatividade para repensar o sistema. Pequenos gestos contam imenso, aquele telefonema para aquela pessoa que está só ou, as compras para uma pessoa vizinha. É repensar os nossos privilégios e entender como agora e no futuro podemos ter uma contribuição social mais assertiva, mais coerente com um sistema de luta pela igualdade social.Porque todas as pessoas merecem uma vida dignaPorque todas as pessoas merecem viver e não só sobreviver.DaniImagem: PixBay - Quarentine",
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      "title": "Um dia de sororidade",
      "content"	 : "Hoje é um dia de sororidade. Um dia em que nos juntamos para gritar bem alto que queremos uma vida digna. É um dia de todas nós. Queremos mostrar que estamos juntas nesta luta constante, diária e sem fim. Queremos e merecemos o espaço público, queremos e merecemos o direito a viver. Não queremos flores, queremos não sofrer violência constantemente. Não queremos flores, queremos que as nossas vozes sejam ouvidas. Queremos…Porém, quando falamos em sororidade, de quem falamos? Numa batalha que se tem vindo a verificar dura, mulheres trans e outras identidades dissidentes continuam na penumbra, invisibilizadas por um movimento que as exclui, segrega. É num contexto de grande perigosidade que vemos aparecerem cada vez mais movimentos trans-excludentes, manifestando-se publicamente contra pessoas trans, deturpando acontecimentos e argumentos. Usando falácias e populismos para incentivar o ódio e perpetuar a discriminação de um grupo que já é bastante ostracizado pela sociedade em geral.Este crescente movimento acompanha as tendências dos actuais países do ocidente: a extrema-direita, o fascismo e o neoliberalismo crescem de uma forma assustadora. A proximidade dos argumentos usados por estes movimentos trans-excludentes e a extrema-direita é assustadoramente pequena. É neste cenário que procuramos alianças, procuramos restabelecer-nos no mundo e procurando fazer-nos ouvir. É um jogo tático e constante.A violência contra as nossas identidades, a violência contra os nossos corpos, as nossas decisões, a nossa autonomia. A violência que é sistémica, é estrutural, é do Estado contra nós, é da Sociedade contra nós, é do Indivíduo contra nós. A violência que se sente na rua, nas escolas, nos trabalhos, em casa… ou em qualquer outro espaço. As que de nós sobrevivem e que têm imensas histórias de horror e sofrimento para contar. As de nós que já partiram, na maioria das vezes silenciadas e apagadas, caídas no esquecimento.Não queremos só direito a salários iguais, queremos o direito a poder ter um trabalho. Não queremos só um sistema de saúde público e gratuito, queremos um sistema que nos assista nas nossas necessidades pelo que somos. Não queremos só um sistema de educação público e gratuito, queremos um sistema onde sejamos representadas. Não queremos só estar em cargos de poder, queremos que sejam aplicadas verdadeiras políticas de inclusão. Não queremos só o reconhecimento da nossa identidade, queremos que sejam implementadas medidas concretas que nos protejam da violência e da discriminação. Não queremos ser o lavado de cara dos movimentos sociais, da falsa inclusão, queremos ser parte integrante.Nos feminismos tem de haver espaço para todas as vozes, para todas as mulheres, para todas as identidades não hegemónicas. Todas afectadas pelo mesmo sistema: o patriarcado. São estas as vozes que também nos dizem que a sociedade é mais do que apenas o sexo designado à nascença. Há intersecções, há uma multiplicidade de opressões cruzadas que afectam o modo como cada identidade se desenvolve. É nessa mesma interseccionalidade que não podemos ser apagadas, a nossa experiência tem um valor enorme para compreender estruturas e hierarquias sociais.Entender as violências perpetradas contra pessoas trans e outras identidades é entender de uma forma mais concreta os mecanismos que produzem um sistema de opressão inato ao patriarcado. Entender estas violências é também entender que existe uma construção social em torno do modo como crescemos que pode e deve ser questionada e desconstruída.O patriarcado e o capitalismo andam de mão dada, a lei e a autoridade sucumbem a este mesmo sistema. Queremos fazer diferente, queremos destruir o patriarcado, queremos destruir o capitalismo, queremos criar formas sustentáveis de viver, para nós e para o planeta. Queremos criar comunidades ricas e livres de hierarquias e opressões. Queremos um sistema horizontal, onde todas as pessoas têm voz.Dani",
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      "author": "danifbento",
      "categories": "Feminismo"
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      "title": "Corpos fronteiriços...",
      "content"	 : "“Bom dia Dr.”“Bom dia, então o que vem cá fazer?”Tinha aproximadamente 28 anos. Foi a minha primeira consulta de sexologia. Sentia-me ansiosa, muito ansiosa. Durante os anos anteriores, tive diversas crises identitárias, de momento para momento, sentia que teria de mudar para me sentir bem. Durante anos e anos, experimentei, experimentei sozinha para significar o que me estava a acontecer. Quis ter a certeza do que sentia, se era transponível na minha realidade ou se era algo mais. Ao mesmo tempo, as constantes crises e oscilações entre períodos maníacos, hipomaníacos e depressivos não me deixava tirar grandes conclusões sobre os meus sentires. Tudo se misturava, as crises identitárias levavam-me a crises de saúde e vice-versa. Até aos 28 anos a instabilidade era enorme.Nesta época o meu conhecimento sobre reafirmação de género era parco. Apenas sabia algumas coisas de uns testemunhos que li uns anos antes. Numa época em que andava a experimentar a minha expressão de género e que para alguns grupos eu já era a Daniela e outros continuava a ser o Daniel. Dava um salto de um estado para o outro com enorme facilidade, era nato em mim e via-me imensamente reconhecida neste nome… Daniela. Porém, sabia que não era só isto, era muito mais do que isto. Com isto percebi que teria de ir ao médico para conseguir um relatório para poder mudar o meu nome no cartão de identificação. Na verdade pensei que seria fácil.Fui equipada com os meus relatórios de saúde, atestando que, apesar do meu diagnóstico de saúde mental, eu estava plena das minhas capacidades de decisão e de poder consentir com este procedimento. Passado umas semanas da primeira consulta, já tinha exposto a todas as pessoas que estavam comigo o que iria acontecer. Não foi de todo difícil para mim, já grande parte destas pessoas sabia, faltava “oficializar” a mudança. Oficializar aqui significa literalmente depender de uma entidade para confirmar quem eu era. O Estado ainda não me reconhecia, mas pelo menos ser acompanhada dava-me permissão. Claro, eu não acreditava nisto. Acreditava que a única pessoa que poderia decidir sobre mim era eu mesma e que a minha identidade não era fonte de avaliação. Porém, era o sistema a empurrar-me contra a parede.A minha passagem pela sexologia foi bastante complicada, manter a minha integridade pessoal era mais importante do que cumprir os passos que o médico achava que eu tinha de tomar. Expressava-me como queria, saias ou maquilhagem, ou não… barba ou não. Resultado: o meu processo foi-se protelando, não cabia na caixinha exigida pelo médico. Não, de todo. Acredito, também, que haveria certa desconfiança por eu ter Bipolaridade, quem diria que eu podia estar a ter uma crise maníaca…uma crise então que me duraria vários anos consecutivos, permanente, mas ao mesmo tempo mantendo-me altamente funcional em todos os outros campos.Foi rápido até assumir-me também enquanto pessoa não binária, agénero: demirapariga. A ruptura entre mim e o sistema médico, o sistema social e o próprio Estado foi intenso. Nenhum destes três últimos teria o direito de ditar quem eu era. Muito menos limitar as minhas acções. As rupturas são visíveis nas mais comuns tarefas do dia a dia. A falta de resposta, a descriminação, a desinformação, o estigma.É aqui, nesta época, quando me valido a mim mesma que entendo o quanto tenho vivido na fronteira. Na fronteira identitária, na fronteira da corporalidade. Naquele momento, o meu corpo já não era o expectável, já não era o normativo. Eu era uma rapariga, num corpo que é lido masculino. O sistema não tem respostas para isto… a sociedade também não. A minha identidade e o meu corpo passam a estar na margem. Numa margem de uma incoerência que a sociedade teima em fazer crer, descredibilizando a minha existência. Sabia que a partir daquele momento tudo tinha mudado. De um modo discriminatório, entrei na terra de ninguém.Dois anos mais tarde começo processo hormonal, tinha abandonado as consultas na psiquiatria (sexologia), estavam-me a destruir toda a minha integridade enquanto pessoa. Já era bem acompanhada por outra pessoa, por isso, foi uma decisão sensata. Não acredito em autoridades, acredito em pessoas que nos ajudam a conhecermo-nos melhor e isto é tudo o que não se fazia naquelas consultas.Do ponto de vista da minha identidade de género e identidade corporal, sei quem sou e o que quero. É natural que com a compressão de mim mesma o ser e o querer também se alterem, também evoluam com esse caminho. No entanto, esta plataforma opressiva sistémica e estrutural só te permite dois caminhos: ou és um homem, ou és uma mulher. Se és homem tens ter uma corporalidade como todos os homens cis, se és mulher tens de ter uma corporalidade como todas as mulheres cis. É a genitália que vai dizer quem tu és. Esta estrutura de controlo não me permite desconstruir a noção de identidade e corporalidade, não me permite ser livre e decidir o que sinto ser melhor para mim em cada momento. Senti, a cada consulta que ia, pressão para aceitar todas as cirurgias, só assim o meu caminho estava definido.No entanto, para a sociedade que faz parte deste sistema de controlo, que perpetua a sua violência, que mascara o ódio atrás da desinformação e da ignorância. Eu nunca estarei em lado nenhum, serei sempre um corpo fronteiriço em terra de ninguém. Demiti-me do corpo que me foi assignado, passei a decidir sobre o que quero fazer com ele. Ainda que faça uma reafirmação sexual, para a sociedade, o meu corpo continua a não fazer parte de lado algum, porque não sou verdadeira, sou uma construção artificial de uma pessoa. Se não a faça, reafirmo-me num corpo não expectável, num corpo indeciso, numa falta de coerência. Sou uma fronteira, mas não estou presente de um lado, porque me demiti, nem do outro porque é impossível.Porém, a minha demissão do corpo normativo, expectável, controlado, tornou-me intrinsecamente mais rica no meu sentir. As minhas emoções e sensações são muito diferentes do que eram. Ao mesmo tempo amar também se tornou um acto de revolução. Ser amada também. Amar e ser amada passa pela compreensão de um corpo na fronteira, no seu crescimento, na sua mudança, na sua construção, na sua autonomia e autodeterminação. Amar e ser amada passa por revolucionar as expectativas que se produzem sobre uma identidade e sobre um corpo. Amar e ser amada passa por entender que a mudança ou não, serão parte do processo.É com um sorriso que, hoje, olho para a minha auto descoberta e me orgulho do que conquisteiÉ com um sorriso que, hoje, amo e permito-me ser amada por quem sou e por aquilo que sou, sem constrangimentosÉ com um sorriso que, hoje, sinto-me apta a quebrar barreiras, a quebrar muros impossíveis de transpor.É com um sorriso que, hoje, sou.DaniImagem: Borders - ~Essence of a Dream~",
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      "author": "danifbento",
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      "title": "Energia que mata, mas que possibilita...",
      "content"	 : "São seis e meia da manhã, o despertador toca… já há meia hora que esperava que tocasse. Saborear os lençóis e o descanso até decidir que era hora de levantar. São sete da manhã, o despertador toca… continuo deitada, sinto-me embalada a pensar em como será o novo dia. São sete e meia da manhã, o despertador toca… é hora de saltar fora dos lençóis, o novo dia está aí… perto, muito perto, à distância de um salto, à distância de um piscar de olhos. São oito menos vinte, estou completamente desperta. Quando digo completamente é com a energia de quem está em plena maratona… fazendo um sprint deixando tudo para trás. Deixando as árvores, as estradas, as rochas, os penhascos, a praia e o mar… tudo fica longe rapidamente.Passa pouco da meia noite, já de medicação tomada há pouco mais de uma hora. A energia vai-se dissipando. Fecho os olhos. Passam uma hora e meia, acordo. Mais meia hora acordada. Passa mais uma hora e meia, acordo. Mais meia hora acordada. Passa mais uma hora e meia… o sono não é permanente, é instável, fugido… o sono é consequência, mas o sono também é causa. A energia transforma-se e retransforma-se. A energia permite-me viver, mas a energia também me mata… a energia permite-me aceder ao estímulo, mas a energia também me esgota. A energia é, puramente é.A ansiedade corrompe-me o estável, a ansiedade de voltar a estar no mundo, de voltar a pertencer e a participar. A ansiedade é também motor, é engrenagem. A ansiedade é também possibilitadora. Na outra mão do mesmo corpo, a ansiedade é promotora do desgaste, da insegurança, do mau estar. A ansiedade é vida e morte ao mesmo tempo. A ansiedade é sobrevivência, a ansiedade é desgraça. A ansiedade é energia pulsante.É dia de retornar, mas também é dia de recomeçar. Novas propostas, novos fazeres, novos objectivos. É dia de retomar, mas também é dia de restaurar. Controlo, estabilidade, aprendizagem. É dia de me encontrar e de me reencontrar. É dia. É dia. É dia de viver de novo.Hoje durmo. Hoje mantenho a calma. Hoje estou tranquila. Hoje fecho os olhos e não sou perturbada por mil e uma realidades. Hoje fecho os olhos e vivo no presente. Hoje estou capaz. Hoje concentro-me, hoje rio, hoje sorrio, hoje amo. Amanhã também me vou concentrar, rir, sorrir e amar. E depois de amanhã, mais ainda. E depois de amanhã estou viva. Recuperada de estar morta, recuperada de não existir, recuperada de colapsar. Recuperada de me ódiar.Hoje não me odeio, hoje perdoei-me, hoje permiti-me, hoje senti que estou. Hoje realizei que sou mais que o passado, mas também sou mais que o futuro e certamente, mais do que o presente. Tudo hoje, tudo hoje e amanhã e depois. Tudo hoje, ontem e antes. Porque não sou apenas eu, sou transversalidade nos sentires. Sou meta, mas também sou partida. Sou vitória, mas também sou derrota. Sou segurança, mas também sou insegurança. Sou.A música corre-me pelos ouvidos, as mãos estão certeiras, o pensamento alinhado. Um pensamento que não é inóspito, não é perdido… por outro lado, é rico, estável e limpo. Livre o medo de existir, livre o medo de não me corresponder, livre o medo de me auto-sabotar. Livro o medo que corre por cada nota de cada música. Livre o medo para quem nos ama e para quem amamos. Livre o medo de estar e, também, não estar.Não estou sozinha. Não acredito que esteja sozinha. Não acredito no mal que imaginei onde o mundo se quer movimentar contra mim. Não acredito no bem que imaginei quando tudo era perfeito. Não acredito simplesmente. Tudo são as nossas projecções, tudo são as projecções da outra pessoa em relação a nós..Quero acreditar que a minha vida não foi vazia, insignificante ou problemática. Quero acreditar que estamos no caminho certo. Quero acreditar que sim.Porque todos os dias é preciso continuar a lutarporque todos os dias queremos ser nósporque todos os dias eu quero ser euDaniImagem: Major Types of Anxiety Disorders - Maheen Fatima",
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      "author": "danifbento",
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      "title": "Ano 2019, em revisão...",
      "content"	 : "O ano 2019 está a acabar e com ele, mais uma década. Entramos nos anos 20. Passaram alguns meses até voltar a escrever no blog  “Acompanha o meu caminho uma tela branca. Uma tela quadrada, simples, de moldura feita de madeira de pinho.”Ainda num processo de descoberta de mim própria, houve momentos fortes, momentos que me vi com bastante dificuldade, momentos vários em que a dor me atingiu de uma forma que não esperava. Ao mesmo tempo, momentos de grande alegria completaram o meu ano de 2019.  “Oscilar entre o desejo e a morte é a minha permanência de existir. A conexão perfeita entre o sentir-se nua e o sentir-se invisível para o mundo. A melancolia pesa-me, o humor trespassa a necessidade de existir a acaba na virtude do silêncio.”Durante todos estes meses cresci, cresci bastante. A cada momento vou conseguindo exprimir-me melhor, expondo as minhas necessidades e os meus sentires. Apesar de um ano que se finalizou num processo bastante complicado, sinto que o saldo é positivo.Consegui voltar a pegar nos estudos, conseguindo fazer mais algumas cadeiras. Este ano voltei a realizar diversas acções de sensibilização pela causa LGBTI+, em particular, identidade de género. Porém, devido a muitos acontecimentos, tenho-me movido muito menos nestas actividades.A agenda de 2019 vai mantendo estes registos vivos.Depois de um verão cheio de energia, chego a Outubro e tudo mudou drasticamente. Entrei numa espiral depressiva grave, deixando-me catatónica e sem possibilidade de participar em actividades, trabalhar e com muita dificuldade de socialização. Porém, também foi um momento grande de aprendizagem. Aprender a pedir ajuda, a falar das minhas necessidades, a não estar sozinha quando tudo parece estar a ruir… mostrar as minhas vulnerabilidades.  “Durante muitos anos escondi-me durante as minhas crises, isolava-me, permanecia na escuridão até melhorar. Resultado: as crises eram longas, difíceis e muito solitárias. Negava a aproximação de quem quer que seja, sentia culpa pelo meu estar e não queria de algum modo perturbar a vida diária de ninguém, não queria estar nesse papel de vulnerabilidade.”A minha rede de proximidade melhorou e aprendi que posso contar com as pessoas que me rodeiam. Não voltei a fugir do mundo numa táctica de sobrevivência. Porém, passei quase três meses em casa, tentando recuperar a actividade, tentando recuperar o bem estar… entro em 2020 para um novo ritmo.  “É neste período de acontecimentos rápidos que precisei de mudar a estratégia que normalmente usava: procurar ajuda.”Hoje, último dia do ano, é dia de validar os objectivos do ano passado, retificar alguns e criar novos objectivos. Num processo inteiramente de auto-escuta, auto-critíca e cumplicidade é importante criar uma visão para um futuro melhor em 2020.Artigos de 2019:  Uma tela branca  Oscilar entre o desejo e a morte  Sei que a morte me persegue  É um lar sem alma  Quando o problema é da casa de banho… e não das mentes.  Na certeza de quem sou  Dia Mundial da Saúde Mental - A Doença Invisível  Acordo pela manhã…  Quando a apatia te rouba o prazer…  Porque hoje é melhor que ontem…  Lugar de vulnerabilidade  Os movimentos repetitivos  A lista de tarefas  As noites  Quando a ajuda é necessária…  Um olhar em perspectiva  Quando apenas se quer ser ouvida…Feliz Ano 2020 e continuação de boas leituras,Dani",
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      "author": "danifbento",
      "categories": "Geral, Revisão"
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      "slug": "quando-apenas-se-quer-ser-ouvida",
      "title": "Quando apenas se quer ser ouvida...",
      "content"	 : "Hoje acordei de manhã com vontade de escrever, não aqui, mas nos meus cadernos. Uma vontade súbita de transcrever uma série de sentimentos que me atingiam a alma. Perguntas, respostas, incertezas, certezas e sentires. Tudo cabe nestas linhas, neste papel, nestas letras. Durante aqueles minutos, a caneta era a minha melhor companhia, não questionava, não dava a sua opinião, apenas deixa-se ouvir e transcrever o meu pensamento em linhas umas vezes tortas, outras vezes direitas, palavras que no futuro vou entender e algumas que no futuro, certamente, não vou conseguir decifrar. Na incerteza, escrevo na mesma.Escrever foi sempre, desde que tenho memória, um processo importante na minha vida. Sempre escrevi muito. Por vezes, menos do que desejava. Escrever muito não é sinónimo de escrever bem, mas escrever muito para mim era desejo de ser ouvida, apenas. O papel é uma ferramenta bastante útil para esse fim. Porém, mais tarde, comecei também a escrever no computador, a partilhar. Os processos de partilha são sempre mais arriscados, expõem-nos mais. Expõem as nossas vulnerabilidades de uma forma diferente.Normalmente os meus textos são descrições de sentimentos, de estares, de emoções, de sensações. São análises ao meu próprio estar. Críticas que faço a mim mesma para que no futuro possa voltar a ler e relembrar. São, também, outras vezes, textos crus - sensações e emoções que são transcritas directamente, sem processar, sem articular. O lugar de onde falo é pessoal, muito pessoal.Estas análises e críticas são, para mim, também uma forma de me ajudar a contextualizar os meus sintomas num quadro mais geral, num quadro sócio-cultural. São estratégias que me garantem algum poder e autonomia sobre a minha própria vivência. É um complemento. No entanto, e apesar do efeito terapêutico que a escrita tem, a ajuda médica e psicoterapêutica é muito importante bem como a rede afectiva, de cuidados e de proximidade. Por isto, acredito que para existir uma verdadeira inclusão de pessoas com algum tipo diagnóstico de saúde mental na sociedade é necessária uma reestruturação radical do modo como agimos entre pares, da forma como construímos as nossas relações e as nossas redes.Numa sociedade que peca pelo isolamento, muitas vezes desresponsabilizamo-nos desse cuidado, connosco e, também, com a outra pessoa. Os diagnósticos de saúde mental, ao contrário de muitos outros diagnósticos, são olhados através de um enorme prisma estigmatizante. Como consequência, pessoas com estes diagnósticos, vêem de uma forma sistémica os seus sintomas serem desvalorizados, criticados, deturpados - muitas vezes aumentando o risco de isolamento. Da mesma forma, a anulação contínua do seu processo de vivência, do seu contexto, do seu passado e futuro - quantas vezes as pessoas confundem os sintomas de doença mental com a própria personalidade da pessoa? Reduzindo a mesma àquele momento, àquela crise, àquele estar.Neste mesmo sentido, quantas vezes, com boas intenções, invalidamos a própria experiência e autonomia das pessoa dando opiniões e formas de resolver os problemas que não são solicitadas nem consentidas. Muitas vezes, esta forma capacitismo, mascarado de boas intenções, corrobora uma posição de poder que muitas vezes ignoramos. Exceptuando em fases agudas, em que a acção imediata é mais importante que qualquer reflexão ou crítica, a autonomia da pessoa consegue-se respeitando o seu espaço e a sua vivência. Se temos alguma ideia, uma forma que pode funcionar, é sempre importante perguntar se a pessoa quer opinião e se quer ajuda e como a quer: deixá-la decidir sobre o seu futuro.Decidir pelas pessoas, impondo a uma visão, apagando qualquer experiência passada não é eficaz e, muitas vezes, causa um sentimento de frustração e impotência enorme. Penso que consentir é uma ferramenta poderosa e necessária para elaborar um estado de autonomia plena. Toda a ajuda é sempre bem vinda, claro, mas é importante pensar no modo como o fazemos, como afectamos a pessoa e como possivelmente chocamos com a rede de cuidados que essa pessoa possa já ter.Em suma, é toda a ajuda pode ser importante, porém a forma como essa ajuda chega pode muitas vezes ser desestruturante para quem a recebe. É importante considerar o meio de como a fazemos chegar, de como queremos ajudar e como efectivamente o fazemos.DaniImagem: Echoes - Fouquier ॐ",
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      "author": "danifbento",
      "categories": "Saúde"
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      "title": "Um olhar em perspectiva",
      "content"	 : "São quase oito da noite, já jantei e já fiz quase todas as tarefas que me tinha comprometido a fazer hoje. No que resta do dia ainda acabo o que falta fazer. Não são muitas, mas as suficientes para me manter ocupada até começar a preparar o sono. O sono esse, finalmente, parece estar a ficar regulado, há uma semana que durmo relativamente bem. Foi um processo difícil de acertar com as medidas certas para me proporcionar um descanso mais efectivo. Dormi bem, hoje acabei por ter um dia relativamente tranquilo e calmo. Sem pesares ou tristezas.Este processo tem sido moroso, o estado em que estava há umas semanas era de ruptura total. Estava catatónica e sem capacidade de dar qualquer resposta ao mundo, não falava, não escrevia, não tinha forma de comunicar. As semanas têm passado e com o acompanhamento devido, afectivo, terapêutico e médico, tenho melhorado a um bom ritmo. Um processo dificultado pela minha resistência a dormir, a conseguir desligar e consequentemente, a descansar.Porém, sei que tenho feito largos passos e tenho feito tudo o que está ao meu alcance para colaborar nas minhas melhoras. Escrever é um processo terapêutico para mim, permite-me lançar para fora o que sinto, materializando e podendo recordar mais tarde. Para além destes textos, tenho os meus diários e outros registos paralelos que vou escrevendo. É um processo vital para mim.Por outro lado, a minha recuperação não teria sido tão eficaz sem as pessoas que me rodeiam neste momento, desde a minha rede afectiva, à minha terapeuta e à minha médica. Têm sido vitais para este processo de retorno. Hoje quero agarrar a vida, quero voltar a inteirar-me de mim, há umas semanas queria desaparecer, nada tinha significado. Hoje acredito que vou ficar bem e vou voltar a sorrir, há umas semanas não acreditava em recuperação possível, só tristeza.No entanto, numa sociedade tão precarizada como a nossa, o facto de eu ter um seguimento clínico adequado é um privilégio que me toca. Muitas vezes falamos na decadência do nosso sistema nacional de saúde (SNS), do escasso financiamento para a saúde mental, a dificuldade em encontrar terapeutas preparados para determinadas situações e médicos com posturas humanizantes. Sinto-me privilegiada por ter pessoas que me acompanham que entendem todas as minhas questões transversalmente, não olhando o meu quadro clínico como uma fonte isolada da sociedade e daquilo que esta acarreta no meu caso em particular. Sinto-me privilegiada por conseguir ter os meios para conseguir este acompanhamento. Não generalizando, a minha experiência no SNS não foi positiva, tendo a minha situação até sido agravada devido à falta de atenção das pessoas que me acompanhavam - porém, é uma situação bastante comum em relatos que vou ouvindo de pessoas que tentam ser acompanhadas neste sistema, falta de médicos, falta de terapêutas, falta de cuidados.Segundo o site[1] da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental, mais de um quinto dos portugueses sofre perturbação psiquiátrica, sendo o segundo país da Europa com a taxa mais elevada. Pelo mundo, só um quarto das pessoas com perturbação mental recebe tratamento e apenas 10% tem tratamento considerado adequado. Sendo nos últimos anos a principal causa de incapacidade e morbilidade nas sociedades.Quando observo estes valores, há muitas questões que me surgem, nomeadamente sobre as actuais dinâmicas sociais.Os últimos anos têm sido palco de grandes mudanças estruturais na sociedade. Muitas destas mudanças dão-se a velocidades elevadas sem qualquer problematização das mesmas. Isto equivale a uma época rica em mudanças políticas, económicas e em mudanças culturais - nem sempre para melhor.Estas mudanças, acompanhadas por uma mudança radical na forma como comunicamos entre pares, na mudança radical como expomos os nossos problemas, tem provocado também um maior isolamento, o fraccionamento familiar. Ao mesmo tempo, a sociedade tem-se naturalizado competitiva, muito competitiva, apostando na busca pelo progresso individual, deixando pouco espaço para a fragilidade, vulnerabilidade - tornando-se estes, sinais de fraqueza.Também, de uma forma geral, as pessoas que violentadas pela construção de sociedade - uma sociedade machista, monocishetero-normativa, racista, xenófoba, classista, colonialista, capacitista, capitalista…; que privilegia determinadas estruturas em relação a outras - têm uma vulnerabilidade maior e maior risco de sofrer algum problema de saúde mental.No entanto, não sendo os factores externos causas únicas de determinados diagnósticos, o modo como socialmente estabelecemos relações influencia a maneira como estes afectam pessoas nos mais diversos contextos. Deste modo, o panorama da saúde mental pode ser visto como uma perspectiva de olhar a nossa sociedade contemporânea. A falta de suporte e o abandono institucional, a falta de condições laborais, o bullying nas escolas, a falta de condições nos sistemas de saúde, o encarecimento da vida, o contexto político e económico, a cultura, entre outras causas, colaboram para que não se tenha uma acção preventiva sobre as questões de saúde mental.É importante começarmos a coletivizar os nossos sentires e problemas, entendermos a nossa humanidade como parte da nossa existência, entendermos que os nossos corpos não têm recursos infinitos e que necessitamos de problematizar quando a exigência nos coloca em situações limite das nossas capacidades. É importante aprender que partilhar a nossa vulnerabilidade não é um sinal de fraqueza, mas um sinal de força - é dar sinais claros de que a sociedade em que vivemos não está pensada para a vida, mas sim para a obtenção de resultados de interesse individual através da exploração de todas as camadas sociais a vários níveis diferentes.[1] - https://www.sppsm.org/informemente/guia-essencial-para-jornalistas/perturbacao-mental-em-numeros/DaniImagem: New hope - Ashish Lohorung",
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      "author": "danifbento",
      "categories": "Saúde"
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      "title": "Quando a ajuda é necessária...",
      "content"	 : "É sexta feira, estou-me a sentir mal. Tenho dificuldades em estar no trabalho, arrasto-me para as aulas ao fim do dia. Começo a sentir-me desligar. Chego a casa, deito-me, fico. No fim de semana que se segue, deito-me, fico. Apática, sem vontade de qualquer acção arrasto-me em pequenas actividades para procurar estar melhor. Falo pouco, a vontade é pouca. Procuro o isolamento. Uma quebra que deveria estar a germinar há algum tempo, mas aconteceu. Nos dias seguintes acontece tudo muito rápido, começo a ter ataques de ansiedade, a viajar no tempo, a deslocar-me da realidade. Perco a capacidade de executar quaisquer das minhas tarefa. Estou a cair. Foi assim que aconteceu há pouco mais de um mês.Tenho tido uma estabilidade relativa, há três anos que não tinha uma crise que me incapacita-se desta maneira. Pequenos altos e baixos que vou registrando, com rápida recuperação. Desta vez não apanhei sinais que deveriam ser óbvios, o ter deixado de comer em condições, alguns pensamentos parasitas, ruminantes e obsessivos , o estar apática durante três dias seguidos, procurar o isolamento. Quanto mais olho para trás, mais evidente fica que estava a crescer em mim uma possível crise. Nesse primeiro fim de semana deveria ter pedido ajuda, deveria ter seguido directa para o hospital. Enganada nos meus próprios sentires, deixei-me pensar que seria apenas cansaço e que precisava descansar o fim de semana.É neste período de acontecimentos rápidos que precisei de mudar a estratégia que normalmente usava: procurar ajuda. Eu não falava, não escrevia, não conseguia ter um pensamento coerente - ainda hoje muitas tarefas que exijam um pensamento mais complexo me custam imenso. Neste momento ficou claro que não queria passar outra crise sozinha, renegando-me da sociedade, excluindo-me, afundando-me mais depressa e ter menos capacidade prática de lidar com as decisões do dia a dia. Porque verdade seja dita: perdi qualquer perspectiva, não havia decisão que eu conseguisse tomar de uma forma consciente, pensada e efectiva.Com todas as dificuldades inerentes a uma mudança de estratégia associadas a um comportamento viciado, procurei, com ajuda, criar uma rede primária de cuidados e apoio. Um conjunto de pessoas que estariam de forma mais próxima ao meu lado. A criação desta rede permitiu-me, até hoje, manter-me acompanhada em muitos momentos, não estando sozinha o tempo inteiro e permitindo-me ir tendo um novo olhar sobre o meu estado.A existência de uma rede de apoio é de extrema importância quando se vive com um diagnóstico referencial como o meu. Muitas crises podem ser muito destrutivas no impacto que têm sobre a vida de uma pessoa: trabalho, escola, relações, família, etc… Ao mesmo tempo, quando se está numa crise depressiva perdemos toda a capacidade de ter um pensamento optimista, coerente e em perspectiva. Os sintomas físicos e psíquicos são imensos e geram muitos sentires incoerentes com a realidade. Há uma troca de papéis: a doença tenta-se tornar na pessoa. É neste sentido, que esta rede atua, dando-nos um olhar mais realista, mais congruente, ajudando-nos a tomar algumas decisões importantes e acima de tudo está.Reparo que, graças a existência destas pessoas, o meu estado tem melhorado de forma exponencialmente mais rápida. Tenho espaço para me exprimir, para ser ouvida, para gritar, para sentir aconchego. Ajuda e incentivo para fazer algumas tarefas, até mesmo força para continuar a escrever. Percebo, assim, toda a diferença que faz ter pessoas ao nosso lado, alimentando-nos de bons sentires.Tenho aprendido muito com esta crise, sobretudo estou a aprender a falar das minhas necessidades e colocá-las em primeiro plano. Estou a aprender a receber ajuda, a gerir movimentos chave durante este período que já me encontro em recuperação. Tenho aprendido, ainda que com muito esforço, que devo descansar e deixar-me ir ao meu ritmo, sem pressão para ficar melhor. Por vezes o medo de não sair deste estado faz-nos querer apressar a recuperação e assim piorar ainda mais o estado em que se está devido a ansiedade, má auto-estima, falta de confiança, falta de acreditar, etc…O meu problema é crónico e cíclico, aparece e desaparece. Posso ter crises que consigo prever, mas outras posso não conseguir por perder perspectiva. Neste sentido, existir um grupo de pessoas que têm entendimento sobre a doença, sobre os meus sintomas e sinais, é uma mais valia para evitar cair noutra crise.De um ponto de vista macro, tenho consciência que o meu estado de saúde vai para além do que é individual. Existe, por certo, uma componente de predisposição genética, mas existe uma fatia de responsabilidade social. Na sociedade atual, mais individualista, a aproximação aos problemas de saúde mental são feitas única e exclusivamente na pessoa, dotando-a da responsabilidade do seu estar e da sua própria realidade, alienando-o do resto da sociedade. Assim existe falta de uma aproximação colectiva, de entendimento que a sociedade também tem responsabilidade sobre como a pessoa evolui. É nesta lógica que entendo que muitas vezes as pessoas, no geral, não têm informação e facilidade em acompanhar estas situações porque não estão habituadas a coletivizar os seus sentires e estares. Procura-se, desta forma, deixar para a pessoa o seu próprio tratamento e luta interna, descartando a responsabilidade social para com ela. Em muitas situações, as pessoas vêem-se sozinhas na precariedade, preocupadas com a manutenção da sua sobrevivência, faltando-lhes oportunidades mais seguras, o que vai dificultando a sua recuperação.Há, na generalidade, pouca atenção aos cuidados de saúde da mente e, não falo especificamente dos diagnósticos de saúde mental. O individualismo, a discriminação em vários níveis, a maior dificuldade de comunicação directa, o excesso de estímulos, a prática consumista, a precariedade, a falta de suporte clínico, a falta de reconhecimento da existência da outra pessoa na nossa vida: tudo isto influencia a maneira como nos mantemos sãs.Não acredito que os problemas de saúde mental desaparecessem numa sociedade que trabalha colectivamente os sentires, mas acredito que seria mais fácil ultrapassar determinadas situações do dia a dia. Que seria mais simples falar do que se sente e das dificuldades e, com isso, procurar resoluções colectivas de maior eficácia para a pessoa que está procurando ajuda e para as demais que também a acompanham. Não nos podemos esquecer que estes problemas também afetam as pessoas próximas e que é importante que também tenham o seu espaço de estabilidade emocional.Por fim, não posso deixar de dizer que estou grata por ter estas pessoas na minha vida.Por fim, não posso deixar de dizer que tudo ficará melhorPor fim, não posso deixar de sentir esperançaDaniImagem: Together We Can - Cherie Stafford",
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      "author": "danifbento",
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      "title": "As noites",
      "content"	 : "As noites. As noites, as manhãs e as tardes. Mas as noites, o entardecer, o anoitecer. Tudo parece um pouco mais lento. Tudo parece se estar a preparar para uma noite de descanso. Exceto eu. Olho para a janela, olho as estrelas numa noite cheia de nuvens, olho para a Lua quando ela se esconde por entre as árvores. A minha mente salta entre as estrelas e a Lua. Salta entre a escuridão e a pequena luz que ilumina a minha sala. Salta entre a terra e o céu. A minha mente salta. Por entre as folhas das árvores, os meus pensamentos fogem e entorpecem a minha capacidade de estar consciente. A minha mente continua a saltar.O Sol esconde-se e as imagens aparecem, o cansaço apodera-se de mim, a tristeza embrulha-se no meu coração. O Sol esconde-se e tudo parece escuro, tudo está escuro… lá fora e cá dentro. Lá fora, do corpo, cá dentro, da mente. Depois de um dia a tentar fazer pequenas tarefas para exercitar o meu corpo a reagir, a tentar ler algumas notícias para tentar treinar a leitura, a tentar escrever para melhorar o pensamento, os pensamentos em corrida aparecem, atropelam-se, consomem o resto das minhas energias. São poucas.O meu corpo cai, não se deixa cair. Resiste. A mente segue a uma velocidade difícil de acompanhar misturada com períodos de ausência, de vazio. As memórias, as vivências, as preocupações… tudo o que é possível e impossível imaginar aparece. Deixa o seu rasto de tormento, deixa o seu rasto de dor. Um rasto que dura e perdura… um rasto que fica. Um rasto que me acompanha noite dentro. Seria mais fácil dormir, dormir logo… deitar e esconder-me debaixo dos lençóis. Dormir logo… vencida pelo cansaço e pela medicação.Sempre adorei a noite, foi sempre neste período que fiz as minhas produções extra escola, extra trabalho. Foi sempre neste período que ativamente estava e vivenciava a felicidade. Foi sempre um período criativo, um período de reflexão do dia. Hoje? Um suplício. Uma eterna vontade de que não existisse noites ou, então, que o dormir durasse para sempre. Sem acordar não posso vivenciar a noite… logo, teria vantagens.A noite angústia-meA noite amedronta-meA noite provoca-meA noite entristece-meA noite perdura…Olho lá para fora, pouco vejo, nem a mim própria.Olho lá para fora, só a sombra da noite.Olho lá para fora, só a Lua e as estrelas.Cansada, é neste momento que tudo vacila, tudo parece não ter alicerces, tudo parece volátil.Cansada, é neste momento que a fragilidade mais aparece.A música acompanha-me e marca o passo. É assim que deixo o tempo passar, é assim que deixo o tempo marcar o seu ritmo, é assim que contabilizo quantos minutos faltam. Minutos que faltam para adormecer e deixar-me levar pelas ondas e pelas marés. Minutos que faltam para acordar e deixar-me chegar pelo vento e pelos tornados.Minuto a minuto, a inocência de quem só quer paz.Minuto a minuto, a resiliência de quem procura não desaparecer a cada noite.Minuto a minuto, a resistência de existir num limbo entre a realidade e o sonho.As noites. As noites, as manhãs e as tardes. Mas as noites, o entardecer, o anoitecer. Tudo parece um pouco mais lento.Exceto eu.DaniImagem: Full moon with beginning of penumbral lunar eclipse - Ilona L",
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      "author": "danifbento",
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      "title": "A lista de tarefas",
      "content"	 : "A cada dia uma lista de tarefas, pequenas, muito pequenas: vestir, tomar pequeno almoço, tomar comprimidos, comer… vivo a passos curtos. A cada tarefa a oportunidade de descansar um pouco, fechar os olhos e deixar-me ficar. Levanto-me, com enorme arrasto, mas levanto-me para a tarefa seguinte. Às vezes até consigo fazer duas tarefas seguidas como, por exemplo, varrer a casa de banho e mudar a areia dos gatos. No fim de duas tarefas consecutivas estou pronta para mais trinta ou quarenta minutos de fechar os olhos. A dor de cabeça não para, não tem parado… constante. Sempre a moer e faz-se notar mais quando tenho momentos mais frágeis.Criou-se um ritual de num dia preparar as tarefas pequenas do dia seguinte. Tudo o que me lembre que posso fazer e que, sensatamente, consigo fazer. Hoje esforcei-me um pouco mais e isso já se está notar… sento-me no sofá e a corrida de pensamentos aparece a uma velocidade louca. Não consigo concentrar-me em nada específico, tudo foge. As imagens, as palavras, os sons… tudo foge. Este processo constante de investir todo a minha energia em algumas tarefas é esgotante e extenuante emocionalmente. Esgotante porque a energia escasseia, extenuante emocionalmente porque estou sempre a ter contínuos pensamentos, contínuas imagens, contínuos sons a propagarem-se pela minha mente.Neste momento, as minhas emoções estão numa autêntica montanha russa. Subir a um prédio de cem andares, olhar para baixo e atirar-me tem dois significados opostos: porque sei que vou voar e nunca vou cair, porque sei que vou cair deixando este mundo. É num registo de consecutivos sentires antagónicos que vivo. Por um lado acredito que tudo é uma fase e vai passar, por outro lado acredito que tudo é permanente e que não aguentarei mais. Depressa sinto um pouco mais energia, depressa estou esgotada. Os olhos fecham e perco-me nos pensamentos.Manter uma lista de tarefas ajuda-me a ter uma visão do que vou conseguindo fazer a cada dia, mesmo sendo tarefas pequenas. Ajuda-me a organizar-me. Neste momento algumas rotinas ajudam-me a manter contacto com o mundo: tomar o pequeno almoço, almoçar, tomar banho, escrever no diário, tomar chá, dormir. Ajuda-me a concretizar missões que são quase impossíveis de realizar. Missões que requerem tudo de mim, sem dó nem piedade. Ajuda-me a conseguir tomar acção em alguns sentires: não podemos mudar o que sentimos, mas podemos mudar como reagimos ao que sentimos. Ajuda-me a estabilizar a montanha russa.Quando consigo ter perspectiva, cada minuto que estou de pé é uma vitória:Aprendo a celebrar estes pequenos momentosAprendo que não estou no meu euAprendo que uma tarefa, por mais pequena que seja, é uma conquistaAprendo a ser paciente comigo mesmaAprendo que agora estou lentificada, mas vou deixar de estarAprendo que vou ficar bemUma das coisas que tem sido muito difícil para mim é sentir que deixei de conseguir fazer qualquer tarefa mais complexa, que possa envolver pensar ou articular pensamento, raciocinar ou ter pensamento crítico. Ler para mim é difícil, escrever continua a ser a esforço. Sentir que todas as grandes tarefas que me mantinham ocupada dia após dia estão encostadas a um canto, impossíveis de ser tocadas neste momento. Porque as minhas vitórias não são neste momento conseguir resolver um problema complicado de Mecânica Quântica ou achar a solução para um problema de desenvolvimento de software, mas sim conseguir levantar, vestir, lavar dentes, tomar banho ou comer. O paradigma mudou. A forma de olhar o mundo é diferente, muito diferente.Tenho um olhar distorcido, tenho um pensamento complexificado. Ver as pessoas circular na rua continua-me a fazer sentir pequena e incapaz. O movimento contínuo, as pessoas, oscarros, os estabelecimentos.Tudo soa-me a muito movimento e a incapacidade da minha parte.Tudo soa-me demasiado rápido e complicado.Ir à farmácia é complicado, mas tenho de ir.Ir ao parque é complicado, mas preciso de ir.Ir ao médico é complicado, mas é necessário ir.Ir à terapia é complicado, mas devo ir.É num registo de incapacidade temporária que me encontro e melhor para a minha cura e recuperação que aceitar o meu próprio estado e permitir-me estar e sobreviver a cada minuto.DaniImagem: Moleskine Retro PDA Part6 - Project Pages - mrmole",
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      "title": "Os movimentos repetitivos",
      "content"	 : "Estou deitada, respondendo ao apelo de escrever com toda a energia que me resta. Os músculos não respondem, a cabeça pende para o lado. Queria deitar e dormir. Queria adormecer por uns minutos apenas. Repousar apenas. As inseguranças estão a tomar conta de mim e as dificuldades a aparecer. A mente a ficar em estados alternados entre cheia e vazia. Cheia e vazia, cheia e vazia, cheia e vazia.Os aviões passam. A cada dois minutos. Os aviões passam.Os carros param e arrancam. A cada segundo. Os carros param e arrancam.O martelo bate. A cada pulso. O martelo bate.Todos os sons, sequenciais, constantes, permanentes. Os movimentos repetitivos. Tal como a minha mente neste momento: repetitiva - cheia e vazia, cheia e vazia. Cada tecla pressionada, um som, uma repetição. Um som quase inaudível, mas um som que está lá. Tal como a minha mente neste momento: vazia, mas um pensamento que está lá. Um pensamento corrosivo que se alimenta do meu cansaço e tenta perturbar o meu estado de ânimo. Um pensamento corrosivo, parasita que invade todo o meu sistema e procura estabelecer-se lá: como um vírus ou uma bactéria. Eu sou a casa nova desse pensamento. Para revisitar e reconstruir.Olho para os meus lados, fecho os olhos, mas continuo a teclar. Só queria descansar. Só queria ser capaz de repousar. As mãos procuram as teclas por mecânica automática, elas sabem encontrar o seu destino. O som diz-me para onde elas têm de ir. O som guia-as. Porém, neste momento, ao contrário das minhas mãos, eu não consigo sentir um guia interno, sinto-me perdida, sinto-me patinando no mesmo sítio e a escorregar para baixo. Preciso de um toque. Preciso de acordar para a realidade e tomar conta da minha mente novamente, preciso desencontrar-me do parasita que me quer possuir. Do parasita que me quer conquistar.Sinto-me perdida. Não consigo, neste momento não consigo pensar adequadamente, tudo está visível por um prisma deformado, por um prisma partido. Não consigo, neste momento não consigo sentir no corpo, tudo está misturado, dor e anestesia. Não consigo, neste momento não consigo achar uma linha condutora, tudo está enrolado como um novelo de lã. Não consigo, neste momento não consigo parar e descansar, parar e reflectir. O pouco que me surge, o pouco que me é visível é duro, muito duro e cruel. O parasita está aí, forte, à espera. O parasita está aí, decidido, no meu interior mais profundo. Sinto muita dificuldade para escrever este texto, ainda que saiba que me faça bem expressar o que sinto actualmente. Mas está a ser difícil, muito. Desconcentro-me, olho para o lado, fecho os olhos e contínuo. Sempre.Hoje foi um dia destes, destes em que a auto-estima vai abaixo, em que o mundo passa a ser escuro e difícil, em que o mundo passa a ser um buraco sem fundo. Hoje foi um desses dias, anestesiada, vazia.Hoje foi um desses dias. Hoje acredito que nada vai melhorar, acredito que este será o meu destino. Hoje acredito que não terei qualquer chance, que não terei hipótese. Que o mundo será sempre um mundo de tristeza, de dificuldades e de luta. Hoje acredito que estou condenada. Não consigo sentir outra coisa. Outra coisa é impossível de ser sentida.Os meus pés tremem repetitivamente, a minha perna responde repetitivamente. Eu olho para os lados repetitivamente, a minha cabeça gira repetitivamente. A minha mente pensa repetitivamente, as imagens circulam repetitivamente. Tudo é repetitivo, tudo é demasiado. Tudo é.Estou a balançar, a balançar na esperança de me sentir. Na esperança de deixar de acreditar. Não quero acreditar no que acredito neste momento, não quero acreditar no que sinto neste momento. Porém sei que tenho de ter paciência comigo mesma. Muita paciência.Neste momento não consigo fazer grandes reflexões, também não me consigo enquadrar.Neste momento preciso suster, preciso ter força e permanecer atentaNeste momento preciso calma, combater os fantasmas e permanecer cuidada.Neste momento, mais do que outros momentos, é preciso respirar fundo.Porque quero não acreditar no que acredito agora.DaniImagem: industrial evolution - miuenski miuenski",
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      "author": "danifbento",
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      "slug": "lugar-de-vulnerabilidade",
      "title": "Lugar de vulnerabilidade",
      "content"	 : "Hoje mirei, mirei uma luz que se vai aproximando. Estou a caminhar, devagar, mas a caminhar. É um bom princípio reconhecer algum percurso que se vá tomando, ainda que aparentemente pouco. No entanto, muitas vezes é difícil ter essa perspectiva, a doença cega-nos, deixa-nos vulneráveis ao próprio estar e à própria consciência desse mesmo estar. Sei, com alguma claridade (no momento em que escrevo estas linhas), que o percurso é lento por natureza, é cheio de altos e baixos, momentos em que se recupera e outros em que aparentemente tudo volta para trás. Neste instante reconheço esse processo.Muitas vezes pergunto-me como seria estar a meu lado nestes momentos. Como seriam esses mesmos momentos, de desespero, de desânimo, de tristeza e mau estar, de fraca energia, de cansaço e fadiga… como seriam estes momentos a meu lado. Que diria eu a mim mesma? Este é um exercício de reflexão sobre os meus próprios sentires e de como os espelho. É uma reflexão sobre a dureza que sinto sobre as pessoas que me acompanham, sobre o cansaço que se abate sobre elas, sobre o seu próprio estar e sentir. É uma reflexão de mim para mim.Durante muitos anos escondi-me durante as minhas crises, isolava-me, permanecia na escuridão até melhorar. Resultado: as crises eram longas, difíceis e muito solitárias. Negava a aproximação de quem quer que seja, sentia culpa pelo meu estar e não queria de algum modo perturbar a vida diária de ninguém, não queria estar nesse papel de vulnerabilidade.Desta vez foi diferente. Aprendi que se eu estivesse ao meu próprio lado eu quereria saber de como estava, das minhas dificuldades, do que se estava a passar, de poder reconhecer este meu lado. Quereria estar presente, quereria colaborar na minha recuperação, sentir-me-ia mais ligada a mim mesma… procuraria reconhecer a coragem da vulnerabilidade.Aprendi que deveria pedir-me ajuda, que eu quereria receber esse pedido de ajuda. A última crise major que tive foi há aproximadamente três anos. Reconheço que é uma conquista conseguir estar três anos relativamente estável quando, antigamente, as crises eram constantes. O meu instinto de sobrevivência não me permitia pedir ajuda. O meu instinto de sobrevivência dizia-me que pedir ajuda era entender que afinal não era capaz, que afinal não teria força nem coragem para avançar. Confirmava a minha máscara, dáva-lhe vida. A máscara do sorriso, da pedra que vivia em mim.Nestes últimos anos, a par de muitas outras coisas, tenho aprendido que expor a minha vulnerabilidade é um acto de coragem e de intimidade. É um acto de conexão com a outra pessoa. Tenho aprendido que esta conexão fortalece os laços, ao contrário do que eu pensava, que os fragilizava. O lugar de vulnerabilidade é assustador, é assustador quando se vive em modo de sobrevivência, quando nos desenvolvemos no pânico da solidão. É assustador quando, nunca sociedade como a nossa, aprendemos que a fragilidade, a tristeza, o desespero são bichos maus os quais temos de banir da nossa vida, mesmo que seja fugindo deles. É assustador porque aprendi que fragilidade é fraqueza. Aprendi durante anos que os meus problemas são meus e apenas meus e sou totalmente responsável por eles.Não era isso que eu quereria de mim mesma… não quereria responsabilizar-me de tudo, culpar-me, encher-me desse pesoQuereria que eu me partilha-se, que me desse a mão e pudesse sussurrar ao ouvido “não estás sozinha”Quereria que encostasse a cabeça ao meu ombro e pudesse chorar as suas mágoasQuereria estarQuereria ouvir, simplesmente ouvirQuereria que não me senti-se só, que me senti-se compreendida no meu estar, que a minha experiência tivesse valorNo fim, acredito que estou a aprender e, para mim, este processo é totalmente novo. Ter uma rede de apoio, ter pessoas próximas, ter pessoas que estão. Ter pessoas que dão o seu melhor. Porém compreendo, que muitas vezes este processo também lhes é doloroso, sentir a impotência de não me poder apagar a dor, de me ver arrastada e sem qualquer perspectiva de futuro. É um processo duro. É um processo para todas nós. É um processo de conhecimento e auto-conhecimento. É um processo de manutenção do cuidado e do auto-cuidado.Acredito que as minhas relações sairão mais fortes, mais sólidas.Acredito que sim… que vou melhorar e tu também vou poder lá estar.DaniImagem: Le repli / The fold - Michaël Korchia",
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      "author": "danifbento",
      "categories": "Saúde"
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      "slug": "porque-hoje-e-melhor-que-ontem",
      "title": "Porque hoje é melhor que ontem...",
      "content"	 : "Ontem a escuridão abateu-se sobre mim. A escuridão formou uma neblina intransponível, deixando-me sem ver qualquer vislumbre de um caminho, sem ver qualquer luz ao fundo, sem ver qualquer momento passado. Ontem, ficar melhor passou a ser apenas uma crença que me estava a servir de bengala para sobreviver. Ontem, ficar melhor era uma ideia distante, muito distante. Ontem quis desistir, cansada, extenuada, incapaz… vulnerável… quis desistir. Queria que tudo parasse, tudo se fosse embora, queria que tudo desaparecesse. Ontem. Ontem a tristeza abateu-se sobre mim. Ontem queria que o mundo deixasse de existir. Queria paz, apenas.Hoje, apesar do cansaço, consegui sair duas vezes à rua. Consegui fazer micro tarefas, coisas pequenas, coisas que me alimentem o movimento. Que não me deixem desaparecer nos meus pensamentos. Neste momento estou cansada, apetecia-me deitar e ficar quieta, preferi escrever. Preferi soltar as minhas emoções e deixar que encontrassem o seu espaço aqui, nas palavras, na escrita e/ou na leitura. Emoções que oscilam entre estados distintos, saltam entre muros e paredes, saltam montanhas e atravessam rios e oceanos. Emoções que abraço.Olho em meu redor, respiro fundo. Hoje consegui não me deitar à espera que viesse a noite, que viesse a hora de dormir. Hoje consegui manter-me acordada, com um resíduo de vida. Hoje foi mais uma vitória. Hoje foi mais uma vitória. O meu sono continua irregular, mas com esperança de vir a melhorar com um acerto de medicação. Acredito que o descanso irá fazer diferença, muita. Hoje consegui pensar que há uma saída, hoje vi qualquer coisa. Vi.Durante vários anos, no passado, cheguei a ter crises que duravam meses. Crises que me levaram às emergências várias vezes. Crises que me debilitavam por imenso tempo. Nos dias de hoje conto com uma rede que me tem apoiado, que tem estado junto a mim, que me tem compreendido e ouvido os meus gritos interiores. Nestes dias tenho tido imensa gente ao meu lado, zelando pelo meu bem estar. Nestes dias tenho tido pessoas especiais, pessoas cheias de paciência para me ouvir, pessoas que vão buscar um pedaço da sua energia para me dar, ainda que lhes custe muito, pessoas que estão presentes das formas possíveis. Tenho-me sentido acompanhada. Agora que escrevo de uma forma mais lúcida, tenho percebido que consegui não ir tão fundo como já tive, consegui esta perspectiva ao fim de uns dias e não ao fim de uns meses. Consegui e devo ter orgulho nisso.Não estou recuperada, não estou pronta, não estou ainda capaz de muitas coisas, mas pelo menos hoje tive uma visão reconhecedora do meu estado e daquilo que sou capaz. Hoje. Mais dias virão, a batalha não acaba, porque nunca acaba, mas escrevo estas linhas com uma vontade acreditar e sentir algo de melhor, mais positivo, mais construtivo. Escrevo estas linhas na clareza que ontem estava inundada pela tristeza, pela escuridão, pela dúvida e pelo medo.Quero respirar fundoQuero trazer tudo o que posso para cimaQuero rever os meus sorrisosQuero rever as minhas brincadeirasQuero rever tudo o que amoQuero rever tudo o que me possibilitaQuero acreditar que vou ter força se o cansaço ainda me pregar rasteirasQuero.Vou agarrar-me com força, vou agarrar-me para não escorregar, vou agarrar-me com o corpo e mente. Vou.Hoje foi um dia possibilitador, amanhã será outro dia. Mas hoje, consegui. Hoje respirei de alívio, sobrevivi. Hoje percebi que também posso, que também tenho direito, que também mereço. Hoje entendi-me melhor. Hoje sou um pouco mais. Hoje sou um pouco mais eu.Porque quero ficar bem, porque quero recordar que os dias melhores também existem.DaniImagem: Tunnel - Enrico Strocchi",
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      "author": "danifbento",
      "categories": "Saúde"
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    "75": {
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      "title": "Quando a apatia te rouba o prazer...",
      "content"	 : "São quatro da tarde, o meu corpo continua estendido no sofá… imóvel, sem acção. Olho em meu redor, vejo os livros, a consola de jogos, a televisão, a máquina fotográfica, a mesa de DJing, o papel para escrever e/ou desenhar. Olho com angústia. Olho com o sentimento de que tudo aquilo não me pertence, nunca pertenceu. Nunca fez parte da minha vida. Apenas o sofá, o sofá e o escuro da sala. Só conheço duas coisas, a manta que me cobre no sofá, e os lençóis onde me deito durante a noite. Apenas isso.A casa está desarrumada, a roupa por lavar, a loiça está por todo o lado. Os jornais estão amontoadas ao fundo do sofá… todos por abrir, todos por ler. A mochila do trabalho continua no mesmo sítio desde o dia em que a pousei, sem movimento, inerte. O meu corpo resiste a deslocar-se, resiste a colocar-se na banheira e passar-se por água. A roupa vai ficando, dia após dia, usada… o sofá torna-se a minha vida. O sol queima, o sol é luz que não quero ter, perturba. O sol… no escuro vivo eternamente.Pensar é cansativo, mexer é cansativo. Nada vale a pena, nada tem valor, tudo perde a essência de existir. Porque vou ler? Porque vou escrever? Porque vou desenhar? Ou jogar, ou tirar fotografias? Para quê? Não tem significado, significado algum. Não percebo porque tenho livros, ou jogos, ou máquina fotográfica… não percebo porque teria de sair do sofá, o sofá.O que é o prazer? Palavra difícil… Ppppp … rraaa…zzerr. Não ressoa, não sinto, não me toca.O que é gostar?…O que é paixão?…Os meus olhos olham no vazio. É apenas isso e só isso. Não há um mundo de gostares, de prazeres, de paixões… há apenas e só apenas o vazio. O vazio que começa e termina em mim. O vazio que me roubou tudo, tudo o que tinha, tudo o que pensava ter, tudo o que poderia vir a ter. O vazio que me roubou a vida. O vazio que me roubou a existência. Este vazio que aqui existe, que cansa, que me provoca exaustão, que me deixa caída, abandonada ao meu próprio lixo.Estou tapada, mas o meu corpo está gélido, frio, congelado. Não tremo, não tenho frio, não sinto a temperatura. O meu corpo está simplesmente… está simplesmente apagado, desconectado, existe simplesmente… sem vida. Fecho os olhos e espero o dia acabar. Fecho os olhos e espero não sonhar, fecho os olhos e espero acordar para dormir outra vez. Fecho os olhos e com eles fechados fico.Mexo um pé. Mexo uma mão, viro-me para o lado da parede. Respiro. Ali fico. Rebolo novamente. Ali fico. Rebolar passou a ser a única acção que me sustem, a única opção de vida. Era tão simples. Rebolar para a esquerda, rebolar para a direita. Ficar. Apenas ficar. Rebolo para a parede, quero evitar olhar para a sala, quero evitar olhar para os livros, quero evitar olhar para a máquina fotográfica, os papéis, ou os jornais. Quero evitar, quero que deixem de me causar este sentimento de incapacidade, inutilidade, de mero esquecimento. Quero evitar.Sinto-me. Sinto-me incapaz, sinto-me sem movimento ou vontade. Sinto frustração, a tristeza começa a inundar o meu pensamento. Sinto que nunca vou sair daqui, deste buraco vazio e sem vida. Sinto que será sempre assim, momento após momento. Sinto que quero, apenas quero… desistir. Agarro-me, tento-me agarrar, mas pergunto-me se não é mais fácil escorregar e deixar-me ir. A tristeza está-se a apoderar de mim. Incapaz de avançar, incapaz de lutar, incapaz de fazer, incapaz de sentir. A tristeza está-se a apoderar de mim. Incapaz até de chorar.Peco por existir, peco por estar, peco por nada sentir, peco… peco, peco, peco. Apenas e só.DaniImagem: day 167_fighting it - Ana C.",
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      "author": "danifbento",
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      "title": "Acordo pela manhã...",
      "content"	 : "Acordo pela manhã, conto até três na esperança de que tenha um acordar mais ligeiro, abro os olhos. Olho em meu redor, a cama, os lençóis, a colcha… os gatos. A vida que existe nesta casa, os gatos. O relógio marca 5 da manhã, o corpo dói, o corpo sente-se cansado… a cabeça, já num pântano de existência. Prometo-me dormir mais um pouco, pelo menos até às 7… não consigo. Estou agitada, muito agitada, mas simultaneamente parada, estafada. Rebolo na cama, de um lado para o outro, grito para dentro, choro sem lágrimas. A dor intensifica. O cansaço é mortífero.Assim chega pouco mais das 7 da manhã, com a coragem de quem luta contra a morte, levanto-me. As pernas tremem. O corpo abana. A cabeça incha de tonturas. Enfrento o chão, enfrento o corredor… chego à sala e volto-me a sentar, não aguento mais de pé. Respiro fundo. Deito-me novamente. A respiração torna-se acelerada. Fecho os olhos. Deixo-me ficar uns minutos… o tempo passa e continuamente deitada, ofegante, paralizada.Assim começam as minhas manhãs, assim começa o meu dia. Cansada e desesperada. Aflita.Assim começam as minhas manhãs, presa no meu próprio mundo.Assim começam as minhas manhãs, desconectada com a realidade.Escrevo este texto e a minhas mãos pesam, pesam imenso. Custa-me cada pressionar, cada movimento. Como se por cada pressionar de tecla, tivesse de levantar uma tonelada de rocha. A minha cabeça gira em redor e eu não a consigo acompanhar. Já me perdi nas minhas palavras.Quero acreditar que irei ficar melhor, quero acreditar que mais uns dias e estarei bem, quero acreditar que é apenas uma fase, uma fase má. Porém, os dias custam, custam imenso, cada gesto, cada decisão, cada fala.Perdi-me na mensagem. As imagens estão continuamente a passar, a acelerar, a fugir, não as consigo agarrar, concentrar. São imagens, memórias, sentires, estares, visões, cheiros, tatos, barulhos, são contínuas passagens. São contínuas viagens, no presente, no futuro e no passado. Viajo para aqui e para ali, não fico muito tempo, apenas o suficiente para sentir a intensidade, volto, mas vou outra vez, agora para outro lugar. Os lugares são imensos, as paragens são rápidas e intensas. Perdi-me outra vez.Respiro fundo, cada vez mais fundo. Estou a tentar ouvir-me. Mas não me consigo ouvir, ouço tudo. Oiço a estática, oiço o respirar dos gatos, ouço o senhor lá de baixo a passar, oiço a vizinha a conversar, ouço os carros, oiço a criança que caiu no chão, ouço… os meus olhos alternam entre locais, entre pontos, corro a sala, procuro referència. A minha sala são todos os mundos em simultâneo, agarro-me como posso, não quero voltar a viajar. Perdi-me outra vez.Fecho os olhos por dez minutos, preciso de me recolocar. Preciso sentir-me sentada no sofá novamente. Preciso descer. Coragem, eu consigo. Vou conseguir. Preciso conseguir.A minha mente caminha entre dois pólos… o pólo da velocidade, onde não consigo encontrar nada, e o pólo da apatia, onde não consigo colocar nada. Não tenho meio termo. Viajo novamente. Volto. Respiro fundo. Sinto-me a bloquear, sinto-me a desligar. Sinto-me…Afago o cabelo, respiro… não consigo mais… quero voltar para o escuro, quero apagar as luzes e encolher-me e esperar que venha um novo dia… não consigo mais…DaniImagem: Depressed - Denkrahm",
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      "author": "danifbento",
      "categories": "Saúde"
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      "title": "Dia Mundial da Saúde Mental - A Doença Invisível",
      "content"	 : "Começo este texto sem saber bem o que escrever, mas a sentir necessidade de o fazer. Talvez dar voz a mim própria, aos meus desafios, aos meus sentires. Talvez deixar gravado como estou vivendo os últimos dias e de como vivi o último ano. Talvez para mais tarde recordar, talvez para mais tarde voltar aqui. Muitas vezes os desafios são muitos e muitas vezes a solução não é clara, outras vezes não há solução. E neste rescaldo de sentimentos, não quero abafar o meu próprio grito.Hoje é um desses dias, um desses dias que não me quero calar. Hoje é um desses dias, que não quero cair na invisibilidade. Os meus últimos dias têm sido passados com muita dificuldade, entre estar apática, não ter vontade, estar cansada, deixar de conseguir comunicar decentemente - sentir-me anestesiada. Sentir-me a ser domada por uma força que é maior do que eu, uma força que me empurra contra o chão e quebra os meus movimentos. Quebrando-me os ossos, os músculos… a dor insana que acompanha todo este processo.Tenho 33 anos e ainda hoje muitas situações são um desafio. Já passaram 15 anos desde o meu primeiro internamento, altura em que deixei de conseguir falar e escrever, altura em que até o simples acto de sentar era um desafio que me obrigava a um esforço mental para o conseguir fazer. Não dormia. O meu cérebro não parava e o mundo parecia andar a uma velocidade que eu não conseguia acompanhar. Não tinha uma realidade, tinha várias e saltava continuamente entre mundos, muitas vezes com dificuldades em retornar à minha realidade de origem. Nessa época, acreditava que a minha loucura não tinha solução. Sentia que nunca iria conseguir estudar, trabalhar ou ter uma vida independente. Sentia que a minha vida tinha acabado ali e questionava-me constantemente se valia a pena continuar.Aos 20 anos tive o diagnóstico que me acompanha até hoje, Bipolaridade e traço de Distúrbio de Personalidade Borderline. Para mim funciona como um referencial, não como uma realidade absoluta, mas que me tem permitido ter ajuda médica/terapêutica adequada e melhorar a minha vida. Os meus primeiros anos em Lisboa foram de conflitos interiores imensos, crises catastróficas, idas para o hospital, manias agudas e depressões de meses. Muitas vezes acreditava que nenhum tratamento iria resultar. Nada iria resultar. Mais: aos poucos, a vida passa a ser feita no silêncio, na vergonha e na culpa. Uma máscara que nos colocamos sorridente, funcional. Uma máscara que nos mantém numa posição de relativa estabilidade quando estamos na presença de outras pessoas. Este silêncio não é, muitas vezes, propositado, é uma consequência. Uma consequência da dureza de ter um problema de saúde invisível. A solidão de carregar uma dor continuamente. O medo contínuo de errar, de tirar a máscara e alguém perceber.Muitas vezes dei por mim a falar de cem assuntos diferentes num minuto, a uma velocidade descomunal, sem ter sentido, sem conseguir articular um pensamento. Sentir-me euforicamente feliz, sentir que não precisava comer, dormir ou sequer beber água. Poderia trabalhar 24 horas por dia, poderia dar a volta ao mundo a correr e a voar que ninguém me conseguiria impedir. Tudo era fácil, tudo era acessível, eu conseguia tudo. Tudo era perfeito, rico. Até me conseguiria dividir em dez pessoas e estar em dez sítios diferentes. Tudo, tudo era possível. No instante a seguir - a morte. O mundo ficava escuro, a minha fala interrompida, sem conseguir articular uma palavra. O desespero, a paranóia, as perseguições, a não vontade, o estar deitada 24 horas por não acreditar no mundo, por sentir que a minha única solução era morrer. Sem esperança, sem acreditar, a apatia e a anestesia. A casa que nunca era limpa e o esforço sobrehumano para conseguir fazer tarefas de higiene básicas como lavar os dentes ou tomar banho. A cama era o meu mundo e viver na escuridão também.Durante anos, os meus meses foram passados a saltar de um estado para o outro, sem interrupção. As minhas relações eram problemáticas, não as conseguia manter. É um caminho solitário, muitas pessoas vão embora. Confundem o estado de saúde com a personalidade. A doença estava a ditar quem eu era. Por outro lado, se fosse proactiva em explicar o que tinha, era declarada incapaz naquele momento. “Tu tens problemas mentais, não deverias ter direito a qualquer opinião” diziam-me. A minha autonomia era constantemente atacada, porém, também ninguém estava lá. Contava apenas com o apoio de quem me acompanhava na psiquiatria e na terapia. Um efeito perverso, porque passaram a ser as únicas pessoas que conseguia estabelecer contacto.Tinha constantemente crises, a máscara era óptima para conseguir manter um trabalho. Porém às vezes acontecia não aguentar mais, e a máscara queimar. O resultado era muitas vezes quase ficar ou até mesmo ficar sem trabalho. Deixava de ser de confiança. Isto reforça o silenciamento. Queres ter pessoas amigas, não falas da tua saúde mental, queres ter um trabalho, não falas da tua saúde mental, queres progredir na escola, não falas da tua saúde mental - melhor, nunca falas da tua saúde mental.Com o tempo as minhas crises foram estabilizando, ficaram mais previsíveis, e menos intensas. O trabalho terapêutico constante e a medicação eram a minha fonte de sobrevivência. Ter crises com alguma gravidade de notar tornou-se mais difícil, ainda que possível. Porém, comecei a acreditar que era possível, um trabalho mais estável, estava a estudar, estava a conseguir ter autonomia. A minha estabilidade trouxe-me melhores relações. Mas esta situação criou outro efeito perverso: sabia que a estabilidade do trabalho, da escola, das relações acontecia porque eu estava equilibrada - ou assim pensava. Por isso reneguei-me paro o silêncio. Mesmo quando doía, deixava-me ficar com a minha máscara poderosa da funcionalidade.Só nos dias de hoje estou a aprender a conseguir dizer que tenho um problema de saúde e pedir ajuda. Ainda nos dias de hoje tenho medo de o fazer: nas minhas relações, no meu trabalho e na minha escola. É um processo duro. A vergonha, a culpa, a exigência de estar bem, de estar apta e capaz. A vergonha de muitas vezes não conseguir fazer o elementar, não conseguir acompanhar a realidade, de sair fora dela. A culpa de querer estar bem e não conseguir, querer ser optimista e não conseguir. A incapacidade de me sentir incluída, parte de algo… por sentir que a minha voz não tem valor. É no silêncio que acabo muitas vezes a viver, antecipando o distanciamento, antecipando a dor maior. Porém, a cada dia, começo a perceber que posso viver a minha fragilidade, que não tenho de ter culpa ou vergonha. Existe.É, infelizmente, neste registo que muitas pessoas vivem, de máscaras funcionais, escondendo os seus problemas por se sentirem incompreendidas, vítimas do estigma, da rejeição social e do descrédito de si mesmas.Por isso se torna tão importante marcar este dia de sensibilização para um problema que é real, um problema que afecta demasiadas pessoas no seu dia a dia, na sua vivência e na sua procura pela felicidade.Sei que os próximos dias serão difíceis, mas sei que vou melhorar. Porém, queria deixar de estar escondida, de sofrer em solidão. De lutar contra mim, de lutar contra o mundo sem amparo. Não estar constantemente à beira do precipício, não andar constantemente de montanha russa emocional. Porém, criar essa rede de apoio é um trabalho contínuo, constante e que requer alguma paciência, principalmente de mim para mim.Por isso, há esperança. Sempre. Quero recordar estas palavras.DaniNota: Este texto foi escrito ontem, dia 10 de Outubro, mas só hoje, dia 11, consegui ter capacidade de o publicar.Imagem: Counseling Today - Finding balance with bipolar disorder",
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      "author": "danifbento",
      "categories": "Saúde"
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      "title": "Na certeza de quem sou",
      "content"	 : "Sento-me na cadeira, frente ao computador. Tenho vontade de escrever, mas não sei como, sou atravessada por uma série de pensamentos, de ideias, desilusões e mal estar. Um mal estar profundo, um mal estar que não me deixa pensar de forma estruturada, que não me deixa pensar com início e fim, apenas pensar e desiludir-me, apenas pensar e querer gritar mais alto.São gritos que vêm de dentro, do meu profundo estar. Da minha eloquência de existir. Tristes e não conformes com a realidade do mundo em que pertenço e em que vivo. Porque não quero este mundo, quero outro.Sinto-me desiludida por fazer tão pouco.Sinto-me desiludida por gritar tão pouco.Sinto-me tão desiludida por tolerar demais.Sinto-me desiludida por não chocar mais.Sinto-me desiludida.A cada dia que passa, penso mais na importância de estar na frente, de dizer não ao pacto com o sistema, viver fora dele, abandoná-lo    Porque não o quero, não de todo.A cada dia que passa, mais a convicção que este mundo não merece, não de todo.A cada dia alguém morre, a cada dia, mais uma vítima da violência    Patriarcal,    Machista,    Sexista.A cada dia mais uma pessoa vítima directa ou indirectamente,    física ou psicologicamente    num sistema que promove a violência, o mau trato - o destrato.A cada dia mais alguém que desaparece, que nos deixa.A cada dia, mais uma de nós.Digo uma de nós com a certeza de quem sou.Digo uma de nós com a certeza de quem são as pessoas.Digo uma de nós com a certeza de que nós somos as principais vítimas deste sistema.Digo uma de nós com a certeza de que nós somos as armas da revolta    da revolução e da criação de um mundo novo.Digo nós, mulheres e todas as identidades não hegemônicas.Digo nós, todas as que não se revêem neste sistema.Digo nós, todas as que lutam pela sobrevivência.Digo nós, todas as que empatizam com a dor da outra.Digo nós, porque a revolução faz-se para todas…Digo nós, porque a revolução é para o sistema destruir.Digo nós, porque a revolução é para um novo mundo criar.Não acredito na esperança,Não acredito na boa vontade,Não acredito na bonança,Acredito na luta,Acredito no cuidado,Acredito.Porque esperança é parar,Porque boa vontade é ignorar,Porque bonança é sonhar.Aqui, hoje e sempre. Em luta.Num amor construído para a revolta,Num amor construído para um novo mundo.DaniImagem: Manifestação feminista fez história em 1975 [Fotografia: Arquivo DN]",
      "url": " /na-certeza-de-quem-sou/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "Geral"
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      "slug": "quando-o-problema-e-da-casa-de-banho-e-nao-das-mentes",
      "title": "Quando o problema é da casa de banho... e não das mentes.",
      "content"	 : "Descobri-me enquanto mulher trans e não binária já após os meus 20 anos. Nada que não se tivesse manifestado mais cedo, mas simplesmente não tinha linguagem nem forma de descrever aquilo que sentia, aliás, por outro lado, sentia-me erroneamente com um problema e, um problema grave. Só nos meus 27 anos, depois de um processo intenso de desconstrução de quem eu era e daquilo que desejava para mim decidi que queria mudar o meu nome e género no cartão de cidadão. Nessa altura ainda não havia uma lei de autodeterminação e ainda tinha de ter um diagnóstico de “Perturbação de Identidade de Género” para o fazer. O meu conhecimento era parco e não eu própria não tinha muita informação de como todos estes processos funcionavam, mas de uma coisa eu sabia: quem eu era e onde me situava.Entender-nos enquanto pessoas num mundo onde não sabemos onde nos encaixar é, muitas vezes, um processo doloroso e foi aí que me encontrei durante muito tempo. A não saber onde pertencer, porque de facto, não pertencia a lugar nenhum. Hoje continuo a lutar para pertencer a algum lugar, mas não é este o lugar que quero, é outro lugar, um ainda por construir. Porém vivo aqui, trabalho e estudo aqui, as minhas relações estão aqui e por isso tenho de continuar a lutar por este processo de me fazer incluir, em modo de sobrevivência, nos espaços que já existem. No entanto, cada processo é um processo e para muitas pessoas com identidades como a minha, dissidentes, não normativas, transgressoras, pertencer ao mundo é um trabalho constante, permanente e contínuo.Poderia escrever imenso sobre como foi para mim todo o meu processo de descoberta, desde os milhentos textos que escrevi, desde as vezes que me perdi completamente e não queria ver ninguém, desde a minha tentativa forçada de pertencer ao mundo dos homens, a passar pelo meu estado catatónico nos momentos em que simplesmente queria desistir. Poderia escrever sobre isto e muito mais, mas a minha vida é bem mais rica do que apenas isto. A minha vida é uma descoberta identitária de uma capacidade incrível de me fazer acordar todos os dias com um sorriso na cara. Foi a transformação da noite para o dia, da lógica da sobrevivência para a lógica da vivência. Foi a mudança.Tudo isto para dizer que estes processos são de uma complexidade enorme, não podem ser retratados como simplesmente algo banal e corriqueiro. Não pode ser tratado simplesmente pela roupa ou pelos brinquedos que usamos em criança. Não pode ser tratado apenas pela concepção daquilo que as pessoas projetam em nós enquanto seres sociais. Por outro lado, é um processo interno de imenso remeximento, por vezes e infelizmente muitas vezes, sofrimento atroz, outras vezes uma descoberta para a vida. É talvez, neste momento que muitas pessoas não irão compreender, porem não precisam, apenas precisam de respeitar que o mundo não é apenas uma linha recta que é traçada do início para o fim… dá muitas voltas, tem muitos cortes, nós e becos sem saída. Reduzir a experiência de ser trans a uma mera concepção performativa social é de uma redução enorme à vivência que se tem.Posto isto, não é de admirar que pessoas tenha uma dúvida enorme em como tratar com estas questões. Porém existe a dúvida, a pura ignorância, existe o mau trato e existe o ódio. As duas primeiras tratam-se com informação, educação, muita paciência. As duas últimas tratam-se com medidas mais assertivas e de uma dimensão diferente.Foi no panorama das últimas duas que nos últimos dias fomos inundados com artigos na comunicação social em reacção a um despacho emitido pelo Governo que procura garantir melhorar as condições de vida a jovens trans e intersexo na sua vida escolar. Várias pessoas (pertencentes a partidos políticos e outras) contestaram esta medida do governo, dizendo ser inconstitucional, uma aposta na propagação da chamada “Ideologia de Género” nas escolas e a destruição da família e das crianças. E tudo isto resultado do facto de se tentar ajudar estes jovens a ter uma vida mais coerente no ambiente escolar, podendo usar a casa de banho e os balneários assignada ao género que se identificam. Poderia entrar em detalhes sobre quem e como foram proferidas estas opiniões, mas o facto de existirem já é demasiado problemático, não quero dar palco a tamanhas vozes.O facto é simples: estamos a falar de uma necessidade básica, ir à casa de banho. É este o temor destas vozes. A destruição da família, do lar, das crianças vai-se dar pelo facto de simplesmente quererem usufruir de um espaço seguro para fazerem aquilo que todas as pessoas fazem: ir à casa de banho. Conto já muitos anos que vou à casa de banho do género do qual me identifico, mesmo antes de ter um documento legal que o comprovasse. Tornou-se um espaço de alguma segurança que não existia antes. Pessoas trans não trazem problemas nas casas de banho, pessoas mal intencionadas sim. Neste momento não existe qualquer controlo nas casas de banho, qualquer pessoa pode entrar em qualquer casa de banho. Será mesmo preciso alguém afirmar-se como trans (contornando toda a experiência que é ser trans) para ir a uma casa de banho? Será agora que a sinalética presente nas casas de banho vá resultar de acordo com o que foram destinadas? Se o argumento for tão simples quando o medo da invasão dos espaços intímos de outras pessoas na casa de banho, então temos um problema grave de interpretação do mundo e da realidade a que estas pessoas estão sujeitas no seu dia a dia. Talvez o problema não esteja nas crianças que querem ir à casa de banho, o problema está nos adultos que já criaram todas as imagens pornográficas de rapazes e raparigas nos mesmos espaços - isso sim, é problemático. Estamos a falar de uma minoria de pessoas que é extremamente estigmatizada, que sofre uma violência atroz no seu dia a dia, cujas taxas de problemas de saúde mental e tentativas de suicídio são devastadoras. É por estas crianças que estamos a zelar um melhor espaço: um espaço um pouco mais seguro. Um pouco mais porque a sociedade continua a mover-se e continuará a estigmatizar, não se muda mentes por lei, porém, tentamos contribuir para o seu melhor bem estar.E é por causa de pessoas como estas, que eu e muitas vamos continuar a sentir dificuldade em pertencer em algum lugar nesta sociedade, a não sentir segurança quando se em qualquer espaço público ou privado. Quando se está na rua ou simplesmente a cumprir uma necessidade fisiológica elementar. Sabem quantas vezes eu tenho de olhar para o chão por temer represálias em qualquer casa de banho que vá? Neste momento, seja ela masculina ou feminina. Pois bem, é a este mau estar constante que estamos sujeitas. Um mau estar que só quem tem privilégio social consegue ignorar.O problema não são as casas de banho, o problema é afirmar-se que com tudo isto, estamos a tentar implementar uma “Ideologia de Género”, uma teoria (como ouvi ontem), como se a estrutura nuclear de família como conhecemos hoje dos meios tradicionais não fosse ideologia, como se fosse o modelo correcto e absoluto de funcionar. Não… não é. E a cada dia descobrimos isto… A família nuclear cis-hetero-mono-normativa é um ideologia colada ao patriarcado que atenta aos direitos fundamentais das pessoas, nomeadamente mulheres e pessoas no espectro feminino (trans ou não). Essa é a ideologia vigente que vai contra todas as liberdades individuais em nome da manutenção do poder de determinadas estruturas políticas e pessoais. Por isso, não, não estamos propagar uma ideologia de género, estamos a dar oportunidade às pessoas de serem quem são.Dani",
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    "80": {
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      "slug": "e-um-lar-sem-alma",
      "title": "É um lar sem alma",
      "content"	 : "Soam os sons dos sinos, a rua, deserta, caminha entre um ponto e outro ponto, a luz reflecte na água das poças que transitam entre as margens da calçada. Mais nada se ouve num raio próximo. Lá longe, imerso na escuridão, pequenos uivos de animais que circulam pelo seu habitat. O silêncio próximo reina.É no silêncio ensurdecedor que se chega à nossa casa. É no silêncio ensurdecedor que se abre a porta para trespassar para um novo mundo. Um mundo onde tudo é possível e nada é concreto. Tudo se transforma, tudo se realiza, tudo se busca… mas tudo se perde nos confins do sentir. Sentir o bafo húmido de uma casa sem vida, o bafo húmido de uma casa dada pelo seu abandono. Uma casa dada ao desterro da sua própria existência. Uma casa que nos provoca sentires contraditórios. Um habitat por onde eu própria me procuro, me encontro, e desapareço.É no abandono do lar que a verdadeira natureza de estar em casa se encontra. É o reencontrar da permanência que sistematiza a dúvida entre estar e não estar presente. Uma casa vazia naturalmente, uma vida vazia por consequência. É, também, no abandono do lar que a verdadeira natureza de coexistir em casa se encontra. É o reencontrar da alma que traduz a beleza da solidão em contraste com o futuro solitário. Porque ser solitário não é estar na solidão e estar na solidão também não é estar solitário. Um goza da opção, o outro goza do sentir. Ambas estão associadas, mas dissociadas. A opção de não estar é também o sentir de não existir. E, não existir, é também a opção de não estar. A casa mexe-se e com ela uma vida eterna de pensamentos, acções e sentires. A casa mexe-se e é, também, com pesar que tudo fica, tudo é passado, tudo deixou para trás uma realidade permanente, constante, mas volátil.Neste reduto de existência, o lar permanece o único ponto de contacto, o ponto mestre de uma vida que continua no seu pleno desígnio de desenvolvimento. É no lar que nos encontramos para nos desencontrarmos, onde nos procuramos para nos perdermos, onde acordamos para mais tarde adormecer. É no lar, a vivência que me permite coexistir num mundo, num mundo que exercita a transparência da rua, a transparência dos edifícios, a transparência de cada vizinhança. É no lar que pertenço a uma não pertença, a conquista do meu próprio mundo, a conquista da minha própria reflexão, a conquista do meu próprio medo e do meu próprio sentir. É, também, onde a turbulência aparece, no centro de paredes que oscilam, do chão que se abate e no tecto que se projecta no céu. É neste mundo que a lógica deixa para trás a sua existência e a incoerência nasce como a próxima etapa de ser vivo, de se existir e de estar presente na realidade. É neste mundo que os monstros do dia aparecem e os monstros da noite dão de caras consigo mesmos, é neste mundo que a película da vida anda para trás e os mais assombrosos temores nascem como pregas e fendas no chão.É no lar que tudo acontece, a minha vivência, a minha estrutura, a minha convicção e a minha perdição. É no lar que me encolho mas onde também cresço. É no lar onde me permito estar em ressonância com a minha mente, com a minha colectânea de sentires, com a fonte da minha própria verdade. É no lar onde tudo acontece, mas é no lar onde tudo deixa de acontecer também. As decisões, as concretizações, os formatos e os ideais, de dentro para fora, de fora para dentro. Apenas eu, para sentir. É num lar sem alma que a minha habita, é num lar sem alma que a minha consciência perdura, amadurece, cresce e se desenvolve. É num lar sem alma que a minha tristeza também toma conta de mim, é num lar, este, sem alma que o mundo cai a meus pés e eu caio no mundo. É num lar como este, que pretendo cooperar. É num lar como este, que a vida renasce para nascer para a luz e da estrada deserta fazer uma estrada de viva alma, do silêncio, a música da existência.É num lar, como o meu, sem alma, que me permito existir.Dani",
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    "81": {
      "id": "81",
      "slug": "sei-que-a-morte-me-persegue",
      "title": "Sei que a morte me persegue",
      "content"	 : "Olho para o ecrã à minha frente, várias imagens me conduzem a histórias e fins diferentes. Uns melhores, outros piores… outros indiferentes. A música soa como música, os sons da rua soam como sons da rua. A luz, essa, ligeira… soa… ligeira. Estes percursos que me atravessam o corpo a imaginação e a realidade são partes de mim, partes que coabitam no meu ser. Partes da minha existência… partes que quero preservar e permitir sentir, vivenciar.Há dias, uma dor lancinante percorreu toda a minha existência, da psicológica, à física. Há dias, eu estava à beira de morrer afogada no meu próprio estar. A luta foi insana, mas descobri que podia fazer diferente. E que fazer diferente era mais seguro do que reproduzir padrões. Estas dores fazem parte da minha existência, não interessa que existam, interessa o que lhes faço. Sei que vou ficar à beira da morte muitas vezes ainda, mas sei que tenho mais ferramentas, também, de sobreviver. E, acima de tudo, viver. Não me contento, de modo algum, com a sobrevivência. Estou neste mundo para viver, quero viver e isso importa-me bastante. Importa-me.Hoje estou feliz, não uma felicidade eufórica, mas uma felicidade saudável. Uma felicidade calma, tranquila e estável. Também a tristeza me acompanha, mas de outro modo. De um modo em que é reconhecida na sua integridade, na sua validade e na sua forma própria de ser. Sinto-me, também, feliz por me permitir estar triste. Porque a tristeza é, neste momento o menor dos meus sentimentos, mas abraço-a, sentindo-a e deixando-a exprimir-se. A forma como combino o meu pensamento é de outra estabilidade, de uma manutenção de bom trato, do bom cuidado e do bom toque. Não vou contra o que sinto, permito que este exista na sua plenitude.Sei que a morte me persegue, mas também sei que eu persigo a vida. Exemplo disso: a minha própria existência. Não fujo, enfrento. Estou, presente. Em todos os momentos. É nesse contato que muitas vezes perco a noção de quem sou, de onde venho e para onde vou. É nos momentos em que a morte me toca, nos momentos em que preciso acordar de volta, em que preciso ressuscitar, de me reanimar e bater o coração. Saber que posso fazer diferente a cada vez, fazer saudável a cada etapa.As histórias que as imagens que me apresentam são várias, desde o terror até à eterna felicidade. Por entre essas imagens há caminhos, roturas, obstáculos, contornos e desvios. É num momento de hiper consciência que me lanço para a frente, corro como ninguém, devolvo-me à realidade, procuro o contacto com o mundo e desvio os obstáculos. É neste momento de hiper consciência que alcanço o meu profundo estar. Nas profundezas da minha personalidade, dos medos que me alcançam, das dúvidas que me soletram, das verdades que se acomodam e das mentiras que me tentam atraiçoar. Quem sou eu? Fecho os olhos neste momento e penso. Deixo-me estar e fico com esse pensamento só para mim. Não tenho de escrever sobre quem sou eu, eu sou.Estou ridiculamente presente no meu processo. Visivelmente concentrada em entendê-lo. Definindo critérios sobre o que me é saudável, sobre o que me é possível e sobre o que quero conquistar. Porque conquistar não é só ir mais longe, é também agarrar o que está para trás. É também fazer disso uma ferramenta, um modo de vivência, uma realidade pura. Porque de puro apenas pode coexistir com a nossa própria mente. O corpo é poluído, o mundo é poluído.Por estas travessias emersas em questionamento, passam todas as pessoas com que de alguma forma estabeleço um vínculo. Redefinindo e ressignificando essas próprias relações. Porquê? Porque o abandono não se pode sobrepor à presença, porque a desistência não se pode sobrepor à permanência. Porque a ressignificação de vínculos é um processo constante. É um processo de amadurecimento, é um processo de estabilização, um processo de construção permanente. Estruturalmente, a potencialidade de cada vínculo existe na sua própria manutenção. Na sua própria modelação, na sua própria reestruturação.E porque sou eu atravessada por relações quando me submeto a processos de hiper consciência? Porque tenho vivências padronizadas. Porque são as relações que espelham muitas informações sobre estes padrões que construí ao longo de longas vivências. São estes padrões que muitas vezes obstruem a minha capacidade de ver para além de, para além do espelho, para além de mim mesma e daquilo que posso ser capaz ou não de realizar. Estes padrões também limitam, em muitas vezes, a minha capacidade de me relacionar e de construir. É nesses momentos que a dor torna-se o elemento fundamental para a minha realização e para a concretização de mudanças paradigmáticas na forma como espelho a minha vivência.A minha libertação pessoal passarará indiscutivelmente pela libertação do abandono. O abandono de mim mesma para comigo mesma. É neste paradigma que me importa ressignificar o abandono. Que me importa transformá-lo em algo que afecta negativamente a minha vivência, deixando de ser algo que é expectável e normalizado nos meus relacionamentos. Ressignificar para que a procura de responsabilização não seja unicamente um processo da minha resolução pessoal.Hoje sinto-me feliz, mas sinto uma tristeza subliminar. Está, existe, mas consegui concretizar. Uma tristeza do luto, o luto de quem se vê abandonada pela morte e pela desistência. Hoje sinto-me feliz, porque a morte não foi em vão, a morte reconheceu-me. A morte na existência, mas também na vida e na presença. Hoje sinto que finalmente a tristeza apoderou-se do meu sentimento de perda, que lhe deu significado. Deixei de estar catatônica, parada e sem acção, para respirar ar novo.Por isso agradeço a ti, a ti por todas as ressignificações que me fizeste ser possível acontecer neste momento. Hoje foi esse dia. E assim me deixo reflectir no meu estar. Obrigada.Dani",
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      "author": "danifbento",
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    "82": {
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      "title": "Oscilar entre o desejo e a morte",
      "content"	 : "Os meus dedos tocam o teclado, as minhas unhas pintadas brilham sob a luz que as teclas emitem, a música circula pelos meus ouvidos, a luz essa, apagada. Apenas a luz silenciada do ecrã que se apresenta à minha frente. Lá fora, o ar passa, o vento quase não existe, o calor invade a janela, propaga-se pelo chão e chega-me aos pés. A música continua, os tons fortes, as batidas, os graves, os agudos, ao seu ritmo… os meus dedos escrevem este texto. Como a mente depressa se encontra no Céu, como depressa se encontra no Inferno. Subindo e descendo entre o Paraíso e as Chamas que nos queimam a existência. Os sentimentos ambíguos. A incompatibilidade do sentir.Oscilar entre o desejo e a morte é a minha permanência de existir. A conexão perfeita entre o sentir-se nua e o sentir-se invisível para o mundo. A melancolia pesa-me, o humor trespassa a necessidade de existir a acaba na virtude do silêncio. A inconsistência do próprio sentir é mantida pela dor incompreendida de estar no mundo. Um mundo que nos apraz o desejo de viver, mas também o desejo de morrer. A incoerência perfeita entre o estar e o deixar de estar, o vivenciar e o culminar da sobrevivência.  O estado de alma a que me sujeito começa onde termina, passando por tudo o resto. Não é circular, é adimensional, transporta-me para outro estado, para outro olhar sobre uma luz que neste território não existe. Um território de melancolia assistida, assistida pela dor intensa que me percorre cada músculo do meu corpo. Uma dor lancinante que me atravessa e dilacera por completo… faz-me implodir na minha própria incerteza de existir.Estar feliz, euforicamente feliz, e estar melancólica, triste e com vontade de trespassar a realidade… com vontade de congelar a felicidade e vivenciar a derrota do que é permanecer. Estar feliz, euforicamente feliz, e estar melancólica, triste e com vontade de me transformar no silêncio da luz que me acompanha.  A vontade real, imaginária e potente de me invisibilizar. A vontade real, imaginária e potente de me derreter em pedaços de vento que apenas sopram o calor que me chega à janela… apenas rajadas de que nada se sente, de que tudo se precisa. A vontade real de no mundo eu me ausentar, de no mundo eu apenas bater ao som do passo da areia que desliza em oceanos abandonados. As minhas pernas mexem, o meu corpo dita a ordem do que penso. O meu pescoço alerta para o sufoco. Estar feliz, euforicamente feliz, e estar melancólica, triste e com vontade de trespassar a realidade.Voltando do Céu e caminhando para o Inferno, o meu estado de alma divide-se entre o Paraíso e as Chamas, o meu estado de alma divide-se entre a vida e a morte de quem já viveu e já morreu centenas de vezes. Uma vida e uma morte continuamente repetida, entre o sucesso viver e o desprezo de morrer. Ou também… o desprezo pela vida e felicidade pela morte. Ambas as verdades, ambas as realidades, ambas os imaginários, ambas concretizáveis no espaço tempo que me antecede e que precede, não menos no presente… um presente estampado em dor, que não me deixa nem viver nem morrer. Um presente estampado de insuficiência que não me deixa estar e não estar. Um limbo de realidade, um limbo entre o oceano e a praia, talvez no redemoinho das ondas que chegam. Um limbo entre a árvore e a raíz, talvez na terra que a percorre. Um limbo entre voar e cair, talvez no ar que me escoa na respiração.Olho lá para fora, não está totalmente escuro, o brilho da luz de outras casas aparece lá longe. O meu corpo estica-se entre o teclado e a rua, procura o sustento na pequena aragem que agora passa. Procura sustento nas próprias palavras que não planeja escrever, nas palavras que caminham de improviso, sem metas, sem constrangimentos, sem regras e sem estilo. O texto sai-me corrente, sai-me sem pensar, apenas o sentir permite-me fluir… a flutuação que aos poucos me provoca pânico, que me cala, que me surda, que me cega, que me bloqueia… o pânico surge através deste texto, o pânico construiu-se na escrita, o pânico agora é real… continuo, porque quero continuar, sem qualquer sentido que sustente as palavras que da minha mão saem…. quero continuar sem qualquer controlo, sem qualquer pavor de escrever certo ou errado, apenas escrever, apenas escrever, apenas escrever, apenas escrever, apenas escrever, apenas escrever… dor dor dor dor dor dor dor dor dor dor dor dor.Viver no limbo da felicidade e da melancolia, viver no limbo de quem sente euforicamente ambos os estados. Como que euforicamente existisse, como que euforicamente já estivesse morta. Como que se procuro estar, também procuro não estar.Apenas… porque sinto. Apenas porque sinto-me ser apoderada do contraditório….Dani",
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      "title": "Uma tela branca",
      "content"	 : "Acompanha o meu caminho uma tela branca. Uma tela quadrada, simples, de moldura feita de madeira de pinho. O tecido é novo e o seu peso é acessível. Facilmente transportável. Facilmente se coloca no bolso e facilmente se esconde na carteira. Também a tela consegue cobrir uma parede por inteiro, ou até mesmo o chão de um armazém. É apenas uma tela insignificante, mas que acompanha-me por onde vou. Porém, esta tela nunca deixou de ser branca. Depois de milhares de milhões de quadros pintados, coloridos, rasgados, esfaqueados, queimados, destroçados… a tela continua a ser branca.É apenas uma tela quadrada, simples, de moldura feita de madeira de pinho.Hoje de manhã acordei com esta mesma tela a meu lado, ali estava ela, pequena… debaixo da almofada, com a ponta de fora. Quase não se via, surpreendentemente, eu quase não a via, mas estava lá… a tela… pequena… debaixo da almofada, com a ponta de fora. Decido ignorá-la, tantas vezes a contemplo que, por vezes, desejo esquecê-la. Mas esta não se deixa ignorar, não se deixa esquecer. Depressa a minha porta era a tela e a tela era a minha porta. Não tinha por onde escapar, a não ser deixar-me ficar debaixo dos lençóis. Levanto-me e com dois gestos de loucura, atiro-me contra a porta… não iria ficar ali. Pego nas canetas e volto a pintar, risco, risco, risco… nesta manhã é o que sei fazer… riscar, riscar, riscar. Continuo a riscar até não haver mais branco. Até não haver mais margem, até não se ver a madeira de pinho. Risco, risco, risco… o que começou com um pincelar suave, acaba numa luta desesperada de apagar o quadro da minha frente. E como se já mais nada pudesse acontecer, sou enviada para o lado de lá da porta… caída no chão, sinto um barulho, sinto o chão tremer… e procuro olhar-me novamente. Zangada, furiosa, procuro levantar-me, levanto-me, caminho, tranco a porta atrás de mim, não quero voltar a estar naquele quarto.Por momentos sou absorvida por uma dor que me chega. Não sei de onde vem, para onde vai. Não sei que parte do meu corpo dói, apenas sei que a dor navega por cada gota de sangue que é bombeada pelo meu coração. É nesse instante, que inocentemente sou absorvida pela ideia de que nunca mais a tela me vai acompanhar, que ficou fechada naquele quarto, a fingir de porta. Riscada para todo o sempre, transformada num monte de tinta. Corro desalmadamente para fora de casa, felicitando o meu progresso. Não sou pintora, nem nunca almejei ser… mas ser acompanhada por esta tela que nunca deixou de ser branca torna-se a cada dia mais difícil, mais pesado, mais impossível.Sorrio, fecho os olhos por uns segundos e respiro o ar da natureza, do jardim que circunda a minha casa. Vêm-me os cheiros das árvores molhadas, da terra molhada, os barulhos dos pássaros que saiem dos ninhos e dos bichos que se esfregam pela erva acabada de sentir chuva. Deixo-me ficar, deixo-me ficar de olhos fechados. Não sei quanto tempo passou, mas aos poucos, o cheiro das árvores e da terra desaparece e o barulho dos pássaros e dos bichos silência-se. A dor volta-me a atacar, o sangue das minhas veias aquece e circula a um ritmo que me faz latejar em todas as partes do meu corpo. Como se o corpo se estivesse a desintegrar, mas mantendo a sua forma original. Como se cada átomo soube-se precisamente onde deve e quando deve estar. Os meus olhos ardem e sou forçada a abri-los.Onde estou? Pergunto-me. Tudo está deslocado, tudo está no limite da minha visão, nada está perto. Tento mover-me, mas preciso de um Universo de energia para o fazer. Sinto um peso que vem da cabeça para os pés… Deixei de ser eu e a tela, eu sou a tela e a tela sou eu. Engolida pelo meu próprio sentir, caí no infinito das projecções. Caí no infinito das cores. Caí no infinito do absurdo. Caí. O meu coração bate rápido, tão rápido que acredito que se vai desfazer.É neste momento que percebo onde estou. É neste momento que percebo onde me sinto. É neste momento que me encontro a caminhar. Eu e a tela, a tela e eu. Uma tela quadrada, simples, de moldura feita de madeira de pinho. Insignificante. Porém uma tela que nunca deixou de ser branca.Dani",
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      "author": "danifbento",
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      "title": "Ano 2018, em revisão...",
      "content"	 : "Com o fim do ano vêm momentos de reflexão e balanço do que foi o ano que passou. Escrevia o ano passado, no primeiro dia de janeiro:  “Um novo ciclo que urge e que promete bastantes mudanças.”Se por um lado, o ano 2017 e o início do ano 2018 atingia-me com enormes dúvidas de quem eu era  “Talvez o meu maior problema: reconhecer-me, saber quem sou e que vida é a minha. Preciso entender-me enquanto pessoa e enquanto alguém que também tem dificuldades e necessidades. “O ano 2018 veio carregado de novas descobertas sobre mim mesma. Um passo importante que teria de dar  “Será um caminho duro de percorrer, mas preciso de o atravessar. Manter-me saudável depende disso.”Ainda que tenha sentido algumas oscilações de estado mais complexas este ano, o balanço é, desta vez, muito positivo. Aprendi bastante sobre mim, melhorei a minha capacidade de traçar limites sobre o que quero e não quero, aprendi a proporcionar-me espaço para o auto-cuidado. Melhorei a minha interacção social, afastei-me de toxicidade que me prejudicava. Voltei a ter vontade de viver em pleno e em todas as camadas da minha vida.Ao mesmo tempo foi, também, um ano cheio de actividades. Não finalizei o curso como pretendia, mas por outro lado percorri o país a realizar diversas acções de sensibilização para a causa LGBT. Comentei filmes, participei em festivais, dei workshops e trabalhei junto de entidades legisladoras para culminar numa nova lei de identidade de género. A minha agenda 2018 está cheia de apontamentos sobre estes caminhos que percorri. Vale sempre a pena guardar, é uma forma organizada de diário, para mais tarde recordar como foram estes meses.Foi um ano também rico em interações pessoais, conheci imensa gente. Desenvolvi as minhas competências sociais e levei-as a outros níveis. Sinto as minhas várias relações nas suas várias estruturas e particularidades mais fortes e saudáveis. Sei que ainda tenho muito para aprender, vícios que tenho de vencer, mas sinto-me num bom caminho.O ano 2019 vem com novas resoluções e outras melhorias ao que já tenho estado a fazer em 2018.Pela primeira vez, também comecei a planear objectivos a cumprir, seja do ponto de vista de introspecção ou do ponto de vista mais prático da acção.Deixo uma lista do que escrevi neste blogue no ano 2018, com a promessa de 2019 ser diferente no modo como organizo os meus projetos online.Artigos de 2018:  E assim começou um novo ano, 2018  Há uns anos atrás…  A música do meu corpo  ErosPorto2018, uma perspectiva pessoal  Desabafos de um dia, para tempos melhores  Morri, mas sobrevivi  Os lugares onde pertenço  Eram uns dias de sol…  A LuzFeliz Ano 2019 e continuação de boas leituras,Dani",
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      "author": "danifbento",
      "categories": "Geral, Revisão"
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      "title": "A luz",
      "content"	 : "A fonte da batalha jorra em rios de cores de cheiros vários que escorrem montanha acima. Até ao seu cume. Até ao seu cume, estes rios debitam energia como se nada mais valesse a pena. O mundo para de rodar, o sol deixa de nascer e a lua também. Ambos parados, estáticos, no céu, esperando o momento de voltar a andar, de voltar a caminhar pelos seus próprios trilhos. No cume os rios continuam a chegar, ditos, brilhantes, conhecedores. Os rios chegam, como informação que trilha por toda a espacialidade e temporalidade do infinito que se confina num espaço bastante pequeno.A vida é como um jacto de energia cintilante que se intersecta com toda a maré criada para instrumentalizar. Uma instrumentalização que segue todas as instâncias de existência. Uma maré sem vista para o passado e sem vista para o futuro, mas com consciência do presente, aqui e agora, sempre. A instrumentalização do tempo que nos glorifica o espaço em que lutamos. A instrumentalização do espaço que nos glorifica o eterno tempo em que coexistimos. A premissa de estar em luta, em resistência e em significado. A premissa de estar. Como espaço que encontra o tempo e de mãos dadas colaboram na produção do presente, na construção do futuro e no resignificar o passado. Como tempo que encontra o espaço e de corpo dado colaboram na idealização do futuro, na leitura do passado e na escrita do presente. Como espaço e tempo que se intersectam em tempo e espaço. Como rios que sobem e mares que recolhem para o interior da terra. Como árvores que têm raízes no céu e pedras que chovem no infinito. A criação do mundo está e existe, a criação do mundo pertence e é contínua. A criação do mundo é… é a nossa vida.Acordo um dia, como se a ordem terminasse. Acordo um dia, como se a ordem mensurasse. Acordo um dia, como se de cristal o mundo fosse feito. Um cristal no qual eu consigo coexistir. Um cristal que roda o tempo e estende o espaço. Um cristal onde o mundo é como eu o construí. Um cristal de brilhos enfaixados no meu olhar. Um cristal de passagens suaves e luminosas. Um cristal que intersecta jactos de energia cintilante, que permite o mar recolher e os rios subir. Um cristal onde o mundo é como eu o quero, como eu o sonho, como eu o permiti.Porque na superfície, eu luto e resisto, porque no fundo, eu luto e resisto. Porque a luz é a minha forma de mudança do mundo. Porque a luz é a fonte que me acompanha aqui e sempre. Porque a luz é o meu caminho… do sonho à realidade.DaniPhoto: jacinta lluch valero",
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      "author": "danifbento",
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      "slug": "eram-uns-dias-de-sol",
      "title": "Eram uns dias de sol...",
      "content"	 : "Eram uns dias de sol, um sol branco, forte. Eram uns dias de céu azul, um azul suave, limpo. Eram uns dias em que as árvores pararam em escuta do mar. Uns dias em que mais tempo e menos tempo não interessava, apenas o sabor do ar que ventilava pelos caminhos terrenos. Aprender a saborear cada minuto e cada passagem, cada estado. Aprender a estar num dado ponto. Um ponto que não se reconhece no espacialmente e temporalmente, é só um ponto. Estar, por apenas estar.Dias que se transformam em horas e rapidamente em minutos. Dias que que desaparecem no eco dos gritos da manhã. Um grito da madrugada que engole o sabor e que mastiga a possibilidade. Um grito da madrugada que desaprende o estar e compreende o momento, o espaço e o tempo. Um grito que inspira toda a energia debitada no encontro com o bem estar. Um grito que suprime todas as possibilidades de viver em na paz do sentir. É desta forma, um grito para não se ouvir, um grito com todo o ar inspirado possível, um grito do fundo do coração. Um grito de quem quer dizer basta.Hoje acordei com este grito silencioso, amanhã vou acordar com um grito audível. Um grito de quem não quer mais. Um grito sem desespero, mas um grito de guerra declarada. Um grito vocal e energético.Amanhã será outro dia.Amanhã será o dia. Amanhã será o dia em que o sol voltará a brilhar,que o céu voltará a ser azul. Amanhã será o dia em que as árvores voltarão a parar para escutar o mar. Amanhã será o dia em que mais tempo e menos tempo não interessa, apenas o sabor do ar que ventilará pelos caminhos terrenos.Estes dias comprometem-se a viver e a sentir. Estes dias comprometem-se a voltar fazer-me sentir e viver. Estes dias comprometem-se a fazer de mim quem sou e não o que não sou. Estes dias comprometem-se a percorrer caminho e não a trilhar por atalhos. Estes dias comprometem-se. Eu comprometo-me com esses dias. Eu comprometo-me com o caminho, comprometo-me com a ligação e comprometo-me com o destino.Comprometo-me.DaniPhoto: Jon Olav Eikenes",
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      "author": "danifbento",
      "categories": "Geral, Prosa"
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      "title": "Os lugares onde pertenço",
      "content"	 : "Às vezes sinto tristeza, uma tristeza muda e surda. Uma tristeza calada, uma tristeza sem voz nem coro. Uma tristeza. Sinto porque não posso, nem sempre posso e porque muitas vezes não posso. Quero estar e não consigo. Mas a cada momento, uma tristeza mais. Mais uma pessoa, mais um desrespeito, mais uma morte. Sinto-o presente, como meu e teu, mas simultaneamente nosso. Porém, sinto que não consigo lá estar, não chego a tempo… não fui capaz… perdi mais uma vez.Na tristeza vem a angústia, o mal estar, a dúvida e a incerteza, na tristeza também vem a morte… uma morte de quem vive para quem existe. Uma morte crua, pura. No entanto, amor também é isso. É morrer, deixar-se morrer. É morrer para renascer, é morrer para acordar, é morrer para ser uma fénix. O amor também é isso. Ser uma fénix. A morte é apenas uma interpretação da vida, a morte é apenas uma metáfora para a existência, a morte é apenas uma forma de falar do mundo que conhecemos.Porém… esta morte é metafórica. Há a morte do físico. A morte que nos leva e não nos deixa ficar. Aquela morte que nos desconecta das nossas emoções, sentimentos, pensamentos, questionamentos… é uma morte que nos leva de vez… para não voltar mais. Essa é uma outra morte. Uma morte que acompanha a história, os tempos e os espaços… uma morte que acompanha sempre a realidade. A nossa realidade.Viver fora das normatividades sociais é, muitas vezes, viver em várias mortes. A morte metafórica, a morte emocional, a morte física. É viver para a morte sem consequência na vida. É um estar que não se recupera, danifica para sempre. É um estar que absorve tudo, a energia, a capacidade, o sentir. Simplesmente absorve. É uma morte para o mundo, para si. É uma morte que simboliza violência, uma violência que está cá sempre para ficar. Sempre para nos perseguir. É uma morte possuidora de todas as armas e formas de luta. É uma morte que nos chega através do olhar, das palavras, da escrita, do estar, do actuar, do viver. É uma morte que nos chega por tudo o que nós temos e queremos ter, por tudo o que não temos e não queremos ter… por tudo o que desejamos: amor.Dizem-me que não é sobre mim, dizem-me que não é sobre mim em especial ou dizem-me que talvez não seja sobre mim. Porém é sempre um bocadinho sobre nós, é sempre um bocadinho sobre nós em especial, ou certamente será sobre nós. No entanto veicula-se, veicula-se o discurso, o ódio, o desrespeito, o despejo emocional, a redução do ser. Nunca é nada sobre nós até ser tudo sobre nós. Quando não nos respeitam, em vida ou na morte, quando não nos humanizam, quando nos invadem em continuidade com o poder que querem exercer, quando nos provocam, quando roubam o ar que respiramos… é sobre nós. É tudo sobre nós. Tudo.A dor não se transmite, mas pode-se compreender. Hoje e como em outros dias já estive, a tristeza pesa-me. Porque não pude estar lá, não posso estar lá, não poderei estar lá sempre. Hoje, nas mensagens, nas palavras, nas reacções, nas leituras e escritas… hoje a tristeza invade. A tristeza encerra todas as histórias que sinto e volto a sentir todos os dias. Hoje a tristeza invade.Porque gostava de não ler mais uma frase de ódio, porque gostava de não ouvir mais uma palavra de ódio, porque gostava de não ter mais ninguém a morrer, porque gostava que a morte fosse respeitada, humanizada, sentida. Porque gostava que o mundo fizesse uma pausa para pensar nos seus actos, nos seus dizeres. Porque gostava que o mundo conseguisse partilhar a dor de quando mata. A dor de quando invalidada, a dor de quando faz desaparecer nas suas próprias acções de poder.Por favor, não nos matem a cada instante.DaniPhoto: Luke Detwiler",
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      "author": "danifbento",
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      "title": "Morri, mas sobrevivi",
      "content"	 : "Acordo. As folhas dançam como entes cheios de vida e animação depois de uma longa festa entre frutas e flores. Acordo. É noite ainda, o sol não brilha e a lua está escondida, os animais procuram um lugar para estar, para ficar, para acarinhar! Acordo, ainda não é dia, mas a noite não vai terminar. Fecho os olhos, tento-me recordar de como é estar banhada pelos raios luminosos e brilhantes da nossa estrela mãe. As memórias perdem-se com os barulhos e com a sonoridade da noite… serena, calma, profunda. As memórias estão ali e não querem estar ao mesmo tempo, querem ser vida. Vida essa que se prolongou por anos, séculos, milénios. Vida essa que existe só pelo facto de ser lembrada. Uma memória que cria vida, uma vida que encerra memória. Volto a abrir os olhos e continuo a ver o escuro da noite. A noite permanece.Passam anos. Adormeço.Sonho que não há dia, apenas noite. Sonho que não há caminho, apenas um beco sem saída. Sonho que não há água, só a secura da sede. Sonho que nada há, apenas eu. Apenas eu e o meu reflexo deformado, simples, medroso.Sonho que nada há,Sonho que nada há.Atingida. O sangue percorre o meu pescoço. O sangue escorre pelos braços e chega ao chão. Pingo por pingo. Um rio corre como se de oceanos vermelhos o mundo fosse formado. Um rio que atropela vivências, existências, estados. Um rio que desce do meu corpo para outrem chegar a lado algum, consumindo dor e manipulando todas as células que me compoêem. Atingida, a dor espalha-se pelas rochas e rochedos, destacando-se em areias movediças.Um punhado de areia, um punhado de sentimentos. As minhas mãos tocam a praia, mas os pés tocam a floresta. Dividida, esticada, torcida, estou aqui e ali, nos dois e em nenhum. De quando a quando a floresta reserva-se, de quando a quando, a praia encolhe… de quando a quando, as árvores crescem na areia e o oceano substitui a clareira. Um punhado de areia, um punhado de sentimentos, um ínfimo sentir, um supremo reviver.Provocada. O meu corpo gélido derrete sob as ondas da indagação, sob o movimento da confusão, sob a premissa da solidão. O meu corpo gélido derrete e o meu coração para. Morto. Morto o meu coração para e o meu corpo gélido derrete. Morto na provocação. Sentada, apática, sem forma, o que sobra dele ali fica. Sem destino, sem remédio, sem memória ou vida. Provocada, Morto, Ali fica, jazida… no fim do mundo e no princípio do céu.Procurada e encontrada. Os animais voltam, as árvores renascem, o mar ecoa na sua distensão. Jazida, ela, a vivência, a pequena mostra de ser, está. Os animais confinam o seu espaço, aquecem, pernoitam. Os animais assim estão. Chorosos. Os animais assim estão. Meigos. A sua pele lembra estar, a sua pele lembra permanecer, a sua pele lembra existir. Os animais assim continuam, os animais assim dão vida.Morri, mas sobrevivi. Enterrei-me, mas saí do outro lado do mundo. Caí, mas cheguei ao céu. Voltei. Acordei. Abri os olhos. Mas o mundo é outro, é dia, o sol nasceu. O calor atinge os meu braços. Não sei quanto tempo dormi. Mas dormi. Vivi na morte, uma morte experienciada. O sangue parou de correr, agora apenas o suor quente de verão. Sinto o calor suster-se na minha pele. Os animais dançam e as folhas rodopiam entre flores e frutos. Acordei na enseada, acordei rica, acordei de sorriso. Deixo cada raio de luz chegar-me e alimentar o meu corpo. Deixo o mar levar a areia suja e que traga limpa. Deixo que os sonhos sejam isso apenas: sonhos.Morri, mas sobrevivi,Morri, mas sobrevivi,Aqui e sempre, de amor para amor, de amar para amar.DaniPhoto: Jen Scheer",
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      "author": "danifbento",
      "categories": "Geral, Prosa"
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    "89": {
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      "slug": "desabafos-de-um-dia-para-tempos-melhores",
      "title": "Desabafos de um dia, para tempos melhores",
      "content"	 : "Estas últimas semanas têm sido emocionalmente poderosas. Durante a última semana estive num training em Itália, no meio da floresta, longe da comunicação diária a que estou sujeita. Apenas, e só, com todos os elementos do grupo que estavam presentes. Pessoas de várias nacionalidades. Tocou-me a facilidade de troca de experiências que aconteceu, tocou-me poder falar de mim sem receios, tocou-me poder expressar os meus sentimentos em relação a várias questões sem ser julgada… mesmo sendo um espaço com diferentes pessoas - senti-me segura como não me sentia há muito tempo num espaço misto. Aproveitei também para ter os meus próprios momentos de reflexão. Uma das coisas que achei bastante positiva foi que, apesar de os dias serem bem estruturados numa vivência comunitária, me foi possível ter o meu espaço próprio onde podia canalizar as minhas energias e repensar em muitas questões do meu dia a dia.É um facto, eu faço activismo de coração. Não consigo desconectar a minha emoção da minha vivência e da minha luta política diária. O meu sentir torna-se ele próprio uma luta. Não estou muitas vezes a discutir questões que não me tocam, mas sim questões que me afectam de forma profunda. Por isso, acabo por depositar toda a energia que tenho nestes momentos, nestas reflexões, nestes questionamentos. A minha relação com as pessoas pode e deve também ser desconstruída. Permitindo-me viver em mais segurança, não apenas em liberdade, mas em estabilidade emocional.A minha perspectiva é sempre pessoal, intransmissível e contextual, mas enquanto pessoa que se afirma na sua identidade política e privada muitas questões irão sempre aparecer no dia a dia. Hoje em dia tenho o cuidado de tentar entender quando as pessoas têm dúvidas genuínas e com isso conduzi-las a espaços próprios para esclarecimento de dúvidas - como as tertúlias ou quando as pessoas têm momentos de curiosidade invasiva. O problema de viver num jogo da não normatividade é ser sujeita a este embate. Questionando-me se não gostaria de saltar ainda mais fora da normatividade (por questões de protecção pessoal ainda mantenho alguma ligação) e planear a minha posição enquanto agente político. Por vezes este questionamento passa pela a vontade de promover algum separatismo identitário o que me leva muitas vezes a dizer: eu não quero estabelecer relações com um mundo que é white-abled-hetero-cis-mono-normativo. Se pertences a esse mundo, não te quero comigo. Acredito que a solução é mais complexa do que esta, mas a dificuldade muitas vezes leva-me a este pensamento.Ainda no sábado, a caminho do Porto, acabei a conversar com o passageiro que ia a meu lado no comboio, a confusão instaurou-se quando fui ao café e o fiscal perguntou pela rapariga que deveria estar ao lado dele. Quando volto: a interrogação, meto o chapéu de educadora. Não sou obrigada a tal, mas o meu bom senso tenta passar por cima disso e acabo a ser questionada pelo facto de ter “acção” ou não, se faço travestismo, se “executo serviços” ou se “faço topless” na praia. Rapidamente equaciono a minha posição e penso: é por estas razões que eu não quero pessoas hetero-cis na minha vida… tenho pena de estar a ser separatista, mas não tenho essa obrigação. No fim sou rematada com a frase “é importante sermos todos abertos quando falamos”, ao qual fica a resposta “mas quem é que afinal estava a ser inundada por perguntas de teor invasivo?”, é nesta abertura que ficamos?Porém, este é um caso entre muitos que me passam na vida de pessoas que não conheço, que estão fora do meu espectro de acção. Logo, pessoas a quem não posso incentivar com facilidade a uma formação devida, a uma procura inteligente de informação… são uma e outra pessoa comum que não têm noção do espaço privado do outro. De quando estão a ser invasivos e a destruir um bocadinho do outro. Tudo muda quando falas de pessoas que te são próximas. A dificuldade cresce, a angústia aumenta exponencialmente e a pergunta “onde é que eu errei?” aparece por todos os sítios. Se tenho pessoas amigas que são cis e hetero e mono, tenho, se por vezes queria não os ter? Se deixarem de ser invasivos não tenho problema, mas a amizade não dá carta branca para as mais variadas situações.Eu legalmente sou uma rapariga, independentemente da minha corporalidade, rapazes: não me digam que não podem estar comigo porque são hetero! Isso é um anulamento completo da minha identidade - podem sempre dizer que o meu corpo não vos atrai, mas nunca que é por serem hetero. É grave, é transfóbico, penoso e redutor, muito. Se me achas atraente e até me dizes que queres uma relação física comigo, não digas que agora não o fazes porque tenho nome de rapariga. Mais uma vez, estás a reduzir-me ao absurdo e apagar a minha identidade, a apagar aquilo porque luto todos os dias.Se queres ser uma pessoa inclusiva sê-o de forma séria, não sejas como o senhor que me conhece à dois minutos no comboio. Se queres realmente ser uma pessoa inclusiva, pensa que o espaço do outro também deve ser respeitado, o mesmo espaço que tu exiges no teu dia a dia para ser respeitado. Se queres ser uma pessoa inclusiva, ouve mais do que pergunta, percebe o que é ofensivo e respeita os espaços de discussão. Respeita a intimidade da outra pessoa. Porque sim, se no teu mundo isso funciona assim, no meu não. Eu vivo num mundo de cuidado e se não o queres fazer então não pertences.Às vezes dou por mim em modo separatista, às vezes preciso de distância da normatividade, deste meio de poder. Não quero sentir a tua pena, o teu cuidado, quero que respeites aquilo que é meu e aquilo pelo que luto todos os dias.Sou trans, sou mulher, sou não-binária, sou pan, sou anarquista relacional, sou neuro-não-normativa, posso ser tudo aquilo que podes não estar preparada: mas aprende, sê também honesta com os teus sentimentos e dificuldades, não apenas com o meu carácter enquanto pessoa.Dani",
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      "author": "danifbento",
      "categories": "Geral, Identidade"
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    "90": {
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      "slug": "erosporto2018-uma-perspectiva-pessoal",
      "title": "ErosPorto2018, uma perspectiva pessoal",
      "content"	 : "No fim de semana de 10 de Março fui ao Porto com o objectivo primário de visitar, pela segunda vez, a feira erótica ErosPorto - já lá tinha estado em 2017. A expectativa não era muito alta depois do que assisti o ano passado, mas dado que havia uma probabilidade do tema da feira abordar questões trans, decidi ir este ano. No entanto havia o receio da representação trans da feira fosse apenas um fetish e não mais do que isso. É sempre um desafio entender de que modo este espaço tenta ser inclusivo, ou não, e de que modo poderá ser proporcionada uma boa ou má experiência. Porém, dá-me a entender que a mecânica da feira não muda praticamente nada de ano para ano.O ano passado serviu-me de comparação a feira erótica de Lisboa que tinha havido anteriormente e tive logo algumas observações a apontar como, por exemplo, a falta de um palco principal que não fosse de editora nenhuma em particular, mas onde havia espectáculos vários a noite inteira. Este ano, o ErosPorto continuou a pecar pela mesma falta. Este ano decidi ver shows diferentes do ano passado - acabei a ver um show hétero e um show swing. Ambos deixaram bastante a desejar e o telemóvel foi a minha escapatória para me entreter a passar o tempo enquanto o espectáculo durava. Erotismo não existia e a representação (sim, nós sabemos que é tudo representação) deixava imenso a desejar. No fim foi sentir o mesmo que senti o ano passado: a feira não tem um valor educativo que poderia ter nem, certamente, um valor identitário que poderia demonstrar. Uma feira erótica poderia ter todo um potencial se não fosse feita nestes moldes altamente capitalizados e comerciais.Não querendo discutir visões políticas na existência de um feira deste género, quero, no entanto, dizer que a experiência adquirida não foi apenas negativa, mesmo não tendo vontade de voltar a frequentar esta feira - a menos que mude radicalmente a sua forma de funcionar.Tirei algumas conclusões importantes sobre a minha própria dinâmica pessoal e sobre o meu caminho neste campo. Conclusões essas que não nascem de a ter frequentado, mas a mesma apresentou-me um contraste suficiente para entender as minhas dúvidas e dificuldades.Há muitos anos que me afirmo enquanto pessoa não normativa, em várias componentes da minha vida, o que me leva a questionar permanentemente espaços que são por si só feitos e concebidos para uma normatividade, para um público que é maioritário e homogéneo. É neste contraste que também percebo a minha posição no mundo e, neste caso em particular, a minha posição no espaço das relações e da intimidade - ou, também dizendo, dos desejos. Durante alguns anos tentei performar uma vida mais normativa e isso implicava mimetizar comportamentos que não eram naturalmente meus e práticas que não eram, também elas, naturalmente minhas - não estando isto relacionado com uma questão binária de género (ser homem ou ser mulher), mas pela forma que eu sentia que me deveria exprimir para me sentir incluída e parte do grupo de pares. Assistir a vários palcos em que a experiência física é sabotada pela ideia do que é normal, comercializado e capitalizado faz-me pensar na minha divergência, no quanto saí fora deste roteiro, deste percurso.Esta experiência deixou de ser um estímulo positivo, mas um estimulo que me reconhece na repulsa. Uma das minhas dificuldades era não me reconhecer nestes modelos altamente white-abled-hetero-cis-mono-normativos e batalhar nos meus dias e nas minhas relações para eliminar estes resíduos tóxicos, no entanto, a falta de auto-estima por vezes faz-me voltar a procurar um modelo mais socialmente reconhecido (normativo) para que consiga sobreviver a esta violência. A minha mimetização é então uma forma de sobrevivência e não uma forma natural de existir. O meu corpo deve seguir o seu próprio caminho, o seu ritmo e a sua própria forma de existir. A cópia, ainda que inconsciente, não me leva a um caminho de realização, pelo contrário, leva-me a à frustração, a um apagamento do meu próprio eu, da minha identidade.Se me perguntam o que é então uma relação não normativa, só posso dizer que também é uma relação onde eu me posso deixar existir em pleno, em toda a minha figura, forma e sentir. Se me pergunta o que é então violento numa relação normativa: a sua forma inconscientemente e consciente de ser hegemónica, desconsiderando todas as outras formas de sentir.Porque no fim, o sexo também ele pode ser político. O acesso ao corpo, à sua autonomia, ao seu direito no espaço privado e público. Porque também o sexo pode ser identitário nas suas formas de existir. Porque o prazer pode ser complexo, mas não tem de ser complicado. O prazer é também ele um direito.DaniImagem: ErosPorto",
      "url": " /erosporto2018-uma-perspectiva-pessoal/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "Geral, Sexualidade"
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      "title": "A música do meu corpo",
      "content"	 : "Oiço música, os meus dedos mexem ao seu ritmo, batem na mesa e estalam entre si. Sinto-me pensativa e contemplativa. A calma invade-me o corpo e o sorriso antecede a própria vontade de sorrir. Estou feliz, um feliz de estar, um feliz de entendimento de mim, de resolução e de permanência. Não sabia como começar este texto, mas não me pareceu importante saber começar, mas sim expressar. Porque o momento é de expressão, é de sentir, não é de exposição ou ensinamento. É um texto de mim para mim, mas sobretudo do mundo para a minha alma. Porque na escrita o mundo também comunica comigo. Permite-me.Observo-me na música, como se cada nota, cada tom, cada instrumento fosse um pedaço de mim. Um pedaço que ecoa pelo conjunto, formando uma melodia… eu sou uma melodia, fluida, contínua, sem princípio nem fim, infinita. Reconheço-me nos altos e nos baixos, nas notas graves e nas notas agudas… Ou até mesmo nos silêncios. Danço o meu corpo e o meu corpo é dançado por esta sequência musical. O meu corpo é vivido pela sua audiência, escutado, sentido. A música não pára, nunca pára, por vezes segue vários caminhos, interpretações, modos diferentes de ouvir a mesma sintonia. Modos diferentes de reconhecer o traço que a caracteriza, no entanto é uma, única. O silêncio é a sua continuidade, é o ponto de mudança, de reestruturação. O silêncio é o próprio existir. Um existir que se transforma, que não é inerte, volve com a acção, com o encanto.As minhas mãos percorrem-se a elas mesmas, tocam-se, sentem-se. Também elas tocam cada uma das minhas partículas, cada parte do meu eu. O meu corpo reage, empodera-se nesta dança, a dança do mundo. O meu corpo é todo ele um mar de notas, de traços, de acordes e combinações. O meu corpo vive para tocar e ser tocado. Para criar música, para criar construções e reconstruções de si, do espaço e do tempo. Há momentos em que o meu corpo aparenta ser um concerto sinfônico, outros momentos que acha-se nas violentas passagens de uma bateria. Há momentos em que o meu corpo se mostra medieval, outras pós modernista. O meu corpo aparenta tudo o que deseja ser. O meu corpo é como uma rádio que não morre nem nasce, mas acompanha. O meu corpo é uma partitura escrita em folhas de laranjeira. Suave, mas resistente, ao tempo, à mudança e à erosão. O meu corpo não desaparece, nunca.As mãos deixam de tocar só nelas mesmas, procuram-se na infinidade de possibilidades, encontram-se na sua própria capacidade de se reconhecer em par. Este é o meu instrumento. É a minha máquina de estar, a minha máquina da vida. As minhas mãos procuram em todo o meu corpo o seu destino, o momento em que se devem silenciar para se transformarem. Porque as minhas mãos são como cordas que oscilam, fixas na sua identidade, mas soltas na sua descoberta. Um princípio e fim que podem ser o mesmo. As minhas mãos encontram todas as formas de eu estar, todas as formas de eu me sentir, todas as formas de eu me ouvir. As minhas mãos são como teclas de um piano, suaves, sensíveis, fortes. O meu corpo é como um piano que se deixa levar pelo toque, pelo arrastar dos dedos, pelo envolvimento da emoção. Porque o meu corpo é como um instrumento que não se destrói, re-materializa-se.As minhas mãos desejam, o meu corpo deseja. As minhas mãos e o meu corpo são como o músico e o instrumento. O meu corpo é para tocar e ser tocado, a música nunca acaba.DaniImagem por Giulia Bartra: soultotake",
      "url": " /a-musica-do-meu-corpo/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "Geral, Prosa"
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      "title": "Há uns anos atrás...",
      "content"	 : "Lembro-me, como se fosse hoje, de há uns anos atrás estar num processo de recuperação mais doloroso, muito mais doloroso, do que estou nos dias de hoje. Mais pesado, mais violento, mais esgotante. Não era só a minha mente que estava em cacos, mas era também eu, fisicamente, que em cacos estava. Este processo foi longo, ou relativamente longo… o tempo demarca-se muitas vezes pelas expectativas e não pelo tempo do relógio. Durante esse tempo, algo permanecia: a dor. Muito ou pouco tempo, a dor estar lá, permanente.Na altura vivia um dia de cada vez, para sobreviver uma hora de cada vez. Fazer os básicos dos básicos era para mim uma conquista a cada momento - no entanto, celebrado com muita dificuldade. Sempre achei que não estava a fazer mais do que o devido, do que se esperava que eu fizesse ou conseguisse. Esse pensamento perpétua-se constantemente.Durante a minha estadia na escola básica e no secundário sempre demonstrei bons resultados. Porém, depois do meu primeiro internamento no 12º ano, as minhas notas caíram a pique. Eu caí a pique. Na época lembro-me que muitas vozes circulavam à minha volta dizendo que iria viver na dependência, que não iria ser capaz de ser autónoma, que teria de deixar a escola e que não iria ser capaz de vir a trabalhar para ganhar alguma independência. Este era o meu estado aos 18 anos. Enclausurada no meu próprio problema. Enclausurada na minha própria vida e nos meus pensamentos. Eu não era nada nem iria ser nada.Acabei o 12º Ano, entrei para Matemática Aplicada e Computação no IST com média de 19. No entanto as crises não paravam, o mal estar não estava completamente resolvido, não, de todo. Voltei a ter uma crise major e voltei ao internamento. Recuperei, mas lentamente. Neste tempo de recuperação fui-me cruzando com pessoas, pessoas diferentes, muito diferentes. Lembro-me, como se fosse hoje, ter pessoas no meu círculo de amizades que me diziam que, dado que eu tinha um problema de saúde mental não deveria ter direito a qualquer opinião - seria invalidada logo à priori pela minha condição - ou seja, eu não podia existir na minha autonomia, na minha existência. Vários destes episódios foram acontecendo e cheguei seriamente a acreditar nesta realidade. Eu não podia.Por outro lado, havia quem acreditasse que este estado era apenas um estado de preguiça, de não vontade. Que o gesto de pensar positivo e andar com a vida para a frente seria o caminho para eu ficar bem - não necessitava mais do que isso - pensar positivo.Hoje em dia percebo, dentro do possível, a minha neuro divergência. Tenho um olhar crítico sobre o meu próprio estado e tenho o entendimento sobre um caminho que devo percorrer, que ainda é necessário. Porém, foram muitos anos, mas mesmo muitos anos a sentir que não tinha espaço no mundo, a acreditar que o problema estava exclusivamente em mim e na minha incapacidade. Ainda hoje sofro consequências disso, desse processo, dessa assimilação da realidade. E o que nós aprendemos? De uma forma capacitista e sem respeito humano que pessoas neuro divergentes não são capazes, que são culpadas do seu falhanço emocional, do seu falhanço relacional e do seu falhanço social. É isto que aprendemos e que interiorizamos toda uma vida. O “atrasado mental”, o “doente mental”, o “retardado”… aprendemos a ser menos, porque fazem-nos crer que iremos ser sempre menos.Num mundo em que a saúde mental é completamente desprezada é necessário levantar a voz - dizer que existimos e que não somos menos. Que as nossas dificuldades não são preguiça ou má vontade, que os nossos ritmos são diferentes e, que sim, também sofremos angústias pelo mundo em que vivemos, que sim, sentimos, não somos objectos inertes e sem vida. A falta de informação é catastrófica, a falta de compreensão também. Porém, nós estamos cá e vamos cá continuar.Por dias melhores e cada vez melhores, lutamos sempre que podemos.Dani",
      "url": " /ha-uns-anos-atras/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "Geral, Bipolar"
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      "slug": "e-assim-comecou-um-novo-ano-2018",
      "title": "E assim começou um novo ano, 2018",
      "content"	 : "E assim começou um novo ano, 2018 - com uma Super Lua. Estou sentada na areia da praia a escrever e a ver as ondas do mar, um período de reflexão pessoal que me é importante, necessária e essencial. O som do mar acalma-me e relaxa-me e é, sem sombra de dúvida, um magnífico mecanismo para pensar em segurança sobre os últimos tempos e, com isso, projectar um novo ciclo. Um novo ciclo que urge e que promete bastantes mudanças.No ano de 2016 fui fustigada por uma crise mista, euforia misturada com depressão, teve um efeito pesado na minha estabilidade emocional e cognitiva. Foi um ano doloroso e, no fim, custou-me caro a vários níveis. Entrei num ano de 2017 a querer melhorar e a querer tomar um novo rumo. Porém, após alguns meses de recuperação frágil, a depressão atacou e os últimos meses têm sido vividos com grande dificuldade. Já não me sentia esgotada física e mentalmente há algum tempo. Já não me sentia querer isolar tanto há muito tempo. Reconfortada no meu ninho frágil. Mas um ninho frágil é por si só um problema.Comecei a trabalhar num local novo, o anterior ficou perdido nas minhas dificuldades e por isso não posso retirar dele grandes virtudes. Porém, querer manter-me capaz de trabalhar tem-me ajudado a ter forças para acordar todos os dias e sair da cama. No entanto, com o aumento do cansaço, até isso me tem sido difícil, muito difícil… Voltei a ser assaltada pelo pânico e pelos comportamentos compulsivos, voltei a ter medo de estar e existir.Se me sinto triste ou feliz? Não sei, sei que nos últimos meses não tenho conseguido sentir nada de nada, tenho estado um autómato em piloto automático. Apenas isso. Acredito agora começar a melhorar, pelo menos alguns efeitos dos ajustes de medicação e terapia estão a ajudar. No entanto, tenho muitos vícios por quebrar, resíduos do passado e muitas lições para retirar para o futuro. Será um caminho duro de percorrer, mas preciso de o atravessar. Manter-me saudável depende disso.Talvez o meu maior problema: reconhecer-me, saber quem sou e que vida é a minha. Preciso entender-me enquanto pessoa e enquanto alguém que também tem dificuldades e necessidades. Nos últimos dois meses experimentei um cansaço imenso, eu não ia a casa almoçar, mas sim dormir. O meu corpo queixou-se a todos os momentos, mandando-me parar, apenas isso parar. Eu não o sei ouvir. Não o consigo desligar, não consigo estar para mim, comigo. Isto refletiu-se na minha capacidade de estar com o outro, ou os outros. Quis desaparecer do mundo. Quis sair daqui. Quis fechar os olhos e não ter de os abrir.Neste ano de 2018 quero fazer diferente. Antes de tudo quero aprender sobre mim, quero aprender os sinais do corpo e da mente. Quero olhar de frente e não para o chão. Quero aprender a interpretar tristeza e felicidade outra vez. Quero aprender a viver de uma forma saudável. Mesmo que isso me custe ficar zangada, irritada ou infeliz. Mas tudo diferente de ficar apática e sem resposta alguma. Talvez isto já seja pedir muito para um próximo ano, mas é importante para mim traçar objectivos, porque até agora está vazia deles. Como se me tivessem sugado tudo o que tinha para dar ou pensar.Eu preciso acreditar que vou ser capaz, que não vou ser vencida, que aqueles momentos que já vivi não vão voltar porque esses são demasiado cruéis para reviver. Preciso acreditar que, mesmo com altos e baixos, eu tenho feito um caminho, um caminho que me tem preenchido. Que o meu vazio é temporário e que não é definitivo, apenas temporário. Apenas consequência.Porque sim, sou mais do que isto. Sou.Dani",
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      "author": "danifbento",
      "categories": "Geral, Bipolar"
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      "title": "Começar e recomeçar do (zero)",
      "content"	 : "Sentada à secretária, os meus dois pequenos vagueiam pela sala e, agora deitados, olham para mim na escuridão da sala. Luz fusca que deixa as paredes marcadas de sombras e movimento. As paredes ganharam vida, a minha sombra tem vida. Sinto que estou numa fase de mudança e de uma mudança essencial para o meu futuro, não só para os próximos dias, mas aquele futuro que todas as as pessoas falam - do médio e longo prazo. Simultaneamente ouço algumas músicas que já não ouvia há uns três ou quatro anos, nostalgia? Talvez. Porém, são elementos da minha vida continua, do meu espaço e do meu tempo, das minhas passadas pelo caminho que percorro.Percebi que devo recomeçar - mas de uma forma diferente. Preciso, agora, parar e pensar. Escutar o que o meu corpo e mente me dizem, escutar as minhas necessidades, presentes e futuras. Neste sentido, necessito de me restabelecer e de voltar a ganhar energia. Construir-me e desenvolver-me de dentro para fora. Enfrentar, neste momento, algumas das minhas actuais dificuldades e continuar a trabalhar nas minhas facilidades. Desta forma decidi que preciso ter uma relação saudável comigo e, com esta mudança, não ter qualquer outra relação principal - a minha precisa de ser estruturalmente a única. Decidi, também, que preciso reduzir a toxicidade a que estou sujeita e, com isso aprender a arranjar novas estratégias pessoais para evitar esta situação - uma delas, já adotada há alguns dias, foi a redução do tempo gasto em redes sociais, apostando na força das conversas presenciais. Os planos de tarefas começaram a ser também uma forma importante de organizar o meu tempo e a minha própria disponibilidade. Agora que, também, vão começar as aulas é uma oportunidade para apostar nos meus próprios projectos e ideias. É uma boa oportunidade para tentar fazer-me crescer noutras frentes e aproveitar esse mesmo contexto para diversificar.Neste momento preciso de descanso e reduzir o ritmo e, com isso, apostar no essencial e deixar o resto para mais tarde. Eu gosto de listas, por isso não vou esquecendo de apontar o que preciso e quero fazer no futuro. Esta retração pessoal é-me necessário - reservar-me, proteger-me e realinhar o meu caminho. Com esta mudança preciso de criar, novamente, os meus espaços seguros. E, quando digo meus, quero dizer espaços que não poderão ser ocupados por outras vivências, apenas as minhas - o meu local de retiro. O silêncio é também uma forma de comunicar, nos dois sentidos e, a minha mente neste momento está silenciosa. Para dizer a verdade, triste e silenciosa.Esta era uma pausa que deveria ter feito há alguns meses atrás - decidi não fazer - acreditava que me iria conseguir endireitar naturalmente. Endireitei, mas não foi a forma saudável de o fazer, não foi com respeito à minha própria pessoa e aos meus limites. Neste momento terei de os definir claramente, os meus máximos e os meus mínimos - até pode posso e devo ir, até onde posso e devo deixar estar. É, de alguma forma, óbvio que tenho consciência do que me está a acontecer - estou num período de oscilação e estou a cair num estado depressivo e, como é de esperar, também já tenho isso em mente nas questões a resolver e de como as devo resolver.Assim, preciso de renascer, recomeçar e começar. Preciso de me reestruturar e preparar para mais uns dias de conflito interior. Felizmente sei que depois destes dias virão dias melhores, mais sorridentes e meus amigos. Estas oscilações não são infinitas, porém é imperativo para mim assinalar que vou melhorar, reforçar a certeza de que tudo vai correr pelo melhor - assim o espero.Dani",
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      "author": "danifbento",
      "categories": "Geral, Bipolar"
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      "slug": "tic-tac-tic-tac-os-ponteiros-avancam",
      "title": "Tic, tac, tic, tac, os ponteiros avançam...",
      "content"	 : "Já passa das 24h. Não é tarde, mas também não é cedo. Escrevo porque estou triste, escrevo porque preciso de escrever. Escrevo porque me entristece, escrevo porque me esvazia, escrevo porque me limpa a alma. Estou melancólica, a música não está certa, a luz está errada, os pequenos passeiam-se pela luz fusca da noite, brincam, celebram os seus momentos de paixão mútua. Alegra-me ver os pequenos - ainda que me me venham de vez em quando roubar as bolachas de milho - alegra-me.Conto os segundos, os minutos e as horas. O cansaço apodera-se de mim, mas não a vontade de dormir. Há dias em que, para mim, dormir significa pânico, hoje é um desses dias. Inconsistente, vazia. Procuro nas minhas listas infindáveis aquela onde eu pertenço. Procuro-me, para me tentar desencontrar. Ser quem não sou, quero ser quem não sou - procurar ir para onde não quero ir, sair do meu destino e caminhar por onde nunca quis estar. Procuro-me nas curvas para me achar nos caminhos direitos, mas encaixo-me nas contracurvas para me reencontrar fora da estrada. A música passa e as palavras vão-me deixando de fazer sentido… será que o sono está a vir? Ainda não me parece. O sono pertence ao meu caminho e eu estou fora dele. É assim possível imaginar… fora dele.Escrevo porque preciso escrever, não escrevo porque quero ter sentido, escrevo em tom de desabafo, não escrevo porque tenciono reflectir, escrevo em tom de incereza porque não tenciono certificar. O peso de cada letra reflecte a sua própria perfomance na sociedade, interpretações, movimentos, ideias, imaginações, realidades e irrealidades - o peso de cada letra perde-se na sua origem, na sua função primária, no seu intuito - traduzir-me… traduzir-me no momento, no instante.A palavra é performativa, o escrever e o falar são performativos, fruto do eu comigo e do eu com o exterior. A palavra é vazia quando vazia está - mas cheia quando, ainda que vazia, lhe dão conteúdo. A palavra é só isso - conteúdo - partes de um contexto, partes de uma alguém, algures, em viagem.O meu caminho percorre-se de palavras, de curvas e contracurvas, de vontades e querer. O meu caminho percorre-se também de frustração, de desespero, de questionamento, de quedas, de dor e sofrimento. O meu caminho é completo, é contínuo, manchado, sujo, suado. É tudo… tudo. Enche-se o meu coração quando o meu caminho é dito limpo, consciente, definido, enche-se o meu coração quando o meu caminho é lido eficaz, perspicaz, capaz. Enche-se me o coração quando o meu caminho é afirmado, como um caminho.Neste momento o cansaço consome-me e, com isso, a minha vontade. Neste momento o cansaço mata-me e, com isso, o meu capaz. Neste momento o cansaço devora-me e, com isso, a minha força. Quero dar mais um passo, mas escorrego dois na direcção oposta, quero segurar-me, mas caio cada vez mais. Quero… mas não quero. Será que eu quero sequer ter um caminho? Será que o caminho quer sequer que eu o percorra? Em que ponto nos tocamos? Em que ponto nos cruzamos?Não é tarde, mas também não é cedo. São momentos, são convalescências e reentradas no mundo. Porque também preciso existir, porque quero existir, porque existo. Cada palavra, um suspiro.Dani",
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      "author": "danifbento",
      "categories": "personal"
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      "title": "As pessoas verdadeiras",
      "content"	 : "Queria escrever, mas não sabia bem sobre o quê… tenho um bloco cheio de notas com textos e assuntos que gostava de desenvolver, porém, a minha falta de criatividade tem dificultado esta tarefa. No entanto, todos os dias acontecem-nos coisas e, muitas vezes, são essas mesmas situações que nos levam a desenvolver o nosso lado emocional e criativo. E, a propósito dos vários trajectos que tenho feito, a veracidade é um dos denominadores comuns de quase todas as partes desse percurso. A veracidade no seu sentido lato, construído e assimilado. Uma veracidade que interroga a minha própria existência no mundo, como se existir não fosse suficiente.Quando fiz o meu coming out como pessoa bissexual fui questionada sobre a verdadeira natureza da minha (à altura) heterosexualidade, porque não me assumia eu como homossexual? Porém a dúvida surgia pelo facto de (à altura) eu ter relações heteronormativas e, como tal, certamente estaria a não ser verdadeira com as pessoas que amava. Mais tarde, vem a minha descoberta da palavra pansexual e a minha identificação com ela - o dilema começou novamente: isso não existe. Novamente a veracidade do meu amor é questionado em detrimento da argumentação de que no mundo só há certezas e formas protocolares de viver.O tempo passa e, afirmar a minha pansexualidade era uma tarefa árdua, não porque me obrigassem a fazê-lo, mas porque me obrigavam a ter a necessidade de o fazer. O meu amor por alguém era (e continua a ser) desmontado até nada dele restar.Mais tarde o meu coming out como pessoa poliamorosa trouxe mais dúvidas à minha capacidade de estar e fazer corresponder, a dificuldade em encontrar pessoas que têm a mesma linha de pensamento do que eu deixou-me perdida durante algum tempo, duvidando da minha própria pessoa e de como era representado o meu amor. O questionamento sobre a minha forma de gostar era constante e, mais uma vez, uma constante demonstração de que se eu existo e assim o sinto é porque é válido. No seguimento deste processo, reaprendi-me enquanto anarquista relacional e a ideia de remover qualquer rótulo relacional assusta - novamente, quem sou eu e para onde vou.No meio deste processo de questionamento amoroso, fiz os meus coming outs como mulher trans e depois como mulher trans não binária (ou pessoa não binária transfeminina). E, por outra vez, sou atacada pela dúvida de quem sou, a minha mutabilidade identitária é uma prova da minha própria incoerência - será? Novamente tenho de me auto afirmar permanentemente para ver a minha identidade reconhecida, o meu papel reconhecido e o meu valor enquanto pessoa estimado. O meu corpo passou a ser a fonte do controlo social à minha identidade, eu só sou se… eu só passarei a ser se. A minha existência identitária passou a estar nas mãos da construção social sobre uma realidade que nem sequer é minha. É verdade que procuro a desconstrução do género, da sua forma e do seu impacto social - questiono o que é feminino ou masculino - não me revejo nestes parametros (tenho-me aproximado bastante da definição agénero/neutrois/demigirl dentro do espectro não binário, para além de me identificar também como genderfuck).  Porém, no dia a dia, o não reconhecimento da minha não binariedade e onão reconhecimento de mim enquanto pessoa verdadeira torna-seperturbador - não ser interpretada como homem, mas também não serintepretada como mulher, não porque sou não-binária, mas porque nãosou uma mulher como as outras, verdadeira. Sou uma mulher decorporalidade masculina, logo não verdadeira.E, como em todas as minhas outras identidades, vejo-me novamente na obrigação compulsória de provar a veracidade da minha existência e de quem sou - procurar os caminhos que me ajudem a percorrer de uma forma sensata e protegida no meu percurso.Procurar mexer-me nestes trilhos de construções sociais milenares, que se alimentam delas próprias, é um percurso de libertação tremendo, mas sem dúvida um caminho de dúvida constante, um caminho de confronto permanente e um caminho duro. É, sem questão alguma, um processo de inclusão de mim mesma, com tudo o que posso ser, com tudo o que posso dar e receber. No fim, ainda uma estrada demasiado longa para ser percorrida por uma pessoa só, uma estrada demasiado longa para ser deixada a corroer nos imensos obstáculos. Porque não quero ser integrada, quero ser incluída. Porque não quero ter de pertencer a grupos, mas quero poder ser incluída. Porque não quero ser reconhecida apenas como parte, mas pelo meu todo. Porque não quero ser reconhecida pelo que construiram para mim, mas pelo que eu construo em mim.Mais do que ser um conjunto de identidades que se interseccionam, sou. A minha existência deveria ser a prova de que as minhas identidades são reais e que são plenas e válidas - sou verdadeira.DaniImagem: https://www.flickr.com/photos/bunnylounge/300023167/",
      "url": " /as-pessoas-verdadeiras/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "Geral, Identidade"
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      "slug": "amores-que-se-transformam-em-amores",
      "title": "Amores que se transformam em amores",
      "content"	 : "Sou anarquista relacional e, mais do que para as outras pessoas e para a sociedade no geral, devo reconhecê-lo para a minha própria pessoa. Sou, desde há alguns anos, assumidamente uma pessoa poliamorosa mas em si (tal como, há mais alguns anos, o conceito de monogamia), esta visão criou-me alguns constrangimentos na forma como lia os meus sentimentos. Não por ser incompatível comigo, mas devido à minha própria leitura do mundo e das relações que tinha e tenho, sejam elas em que dimensão e de que dimensão.Lembro-me, há alguns anos, quando comecei a questionar modelos de exclusividade: simplesmente o meu modo natural de funcionar não era assim. Com isso, e com a pouca informação que tinha, tentei performar. Tal como o fiz com a minha identidade a nível do género, também o fiz a nível sexual e relacional. Os meus sentimentos não eram menos verdadeiros ou válidos, mas interiormente mais difíceis de gerir. Associado a um problema de foro emocional, a luta era permanente. Por isso, fazer coming out sucessivos foi a minha botija de escape emocional, livrando-me a cada momento de correntes que me iam prendendo o ser, a existência, a personalidade e o sentir. Foi um trabalho árduo e longo e perguntei-me muitas vezes se fazia sentido estar a navegar contra a corrente a tantos níveis diferentes. A resposta é simples: sim. É uma batalha que me trouxe enormes vitórias pessoais e, principalmente, poder sentir e viver em plenitude.  O conceito de amor, para mim, sempre foi simples. Nunca senti quedevesse ter um protocolo, uma forma, uma definição. O conceito de amorencerra nele próprio todo o conteúdo e o sentir. Na sua mais livrevontade de estar, existir e partilhar. O amor actua em infinitasdimensões e com infinitas dimensões. Não há o amor errado, como não háo amor certo. Não há o amor mais ou o amor menos. Existem, sim,pessoas com múltiplas vivências, estados, sentires, personalidades,identidades e interseccionalidades. Existem, sim, amores, tantosamores quantas pessoas, relações e suas combinações. Um amor demultiplicidades, infinito na sua forma, infinito na sua própria causa.É um amor que só depende de quem ama e é amado.Nesta forma própria de sentir amor, venho-me descobrindo nas múltiplas camadas de sentimentos e acções que daí decorrem. Assim, deixou de me fazer sentido classificar estas formas de sentir, mas tornou-se necessário deixar que elas pudessem ser fluídas, de vários níveis e que pudessem usufruir da sua própria dinâmica de ser. Todas as pessoas, por várias razões vêm a sua dinâmica interior evoluir em vários sentidos ao longo do tempo, porque não as próprias relações que estabelecem? Estas dinâmicas podem incluir variadíssimas combinações entre níveis e dimensões relacionais. Transformam-se, mutam, envolvem no espaço-tempo, nas dimensões emocionais, nas dimensões físicas, na distância e na proximidade. Não são apenas espelhos da nossa existência, das nossas dificuldades e dos nossos medos.O que é para mim vivenciar-me como anarquista relacional? É existir em pleno nas minhas relações, daquilo que é criado e construído, daquilo que pode atingir mudança e daquilo que pode atingir estados. Não faz de mim uma pessoa relacionalmente mais segura, faz de mim apenas eu. Faz de mim alvo dos meus próprios medos, das minhas próprias fragilidades, mas também alvo das minhas próprias responsabilidades e conquistas, derrotas e vitórias. Porque no fim todas as relações são relações, porque eu e tu, eu e nós, tu e vós, são tão importantes quanto eu. As relações que por mim passaram e passam, desde o sorriso de bom dia com a pessoa estranha do café até aquilo que tradicionalmente se refere à intimidade, à validação relacional, são tão importantes como a minha própria existência nelas: a pessoa que recebeu um sorriso, a pessoa que comigo esteve intimamente.Deixo esta reflexão, pessoal apenas, porque no fim, amores se transformam sempre em amores.Dani",
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      "author": "danifbento",
      "categories": "Geral, Poliamor, Anarquia Relacional"
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      "title": "Interseccionalidades",
      "content"	 : "No dia 25 de Março, participei numa sessão partilhada no Festival Zen - um festival para Celebrar a Energia da Primavera, com o tema “Biodiversidade Humana e Género”, mas não quero falar desta sessão ou do festival, no entanto fez-me lembrar algo que gostava de ter escrito há imenso tempo e ainda não tinha tido oportunidade de o fazer. Um tópico sobre as minhas interseccionalidades, sobre a minha própria vivência enquanto pessoa não-binária.Já aqui escrevi sobre identidades não binárias, já aqui escrevi sobre parte da minha visão enquanto pessoa não binária, mas, e sobretudo isto, já aqui escrevi sobre privilégio. A sessão que co-apresentei no festival foi numa sala intitulada “Sala Mulher”. Foi uma vitória para mim, enquanto pessoa que se identifica como mulher poder estar naquele espaço, tal como, no dia 9 de Março estive numa mesa sobre “O que é ser Mulher?”. Porém, é aqui que reside o meu ponto. Eu identifico-me como uma mulher trans que, também é uma pessoa não binária, a minha expressão é fluída e a minha identidade corporal é muito específica do meu sentir. Este conjunto de características fazem-me pensar na própria interseccionalidade da minha identidade, no conjunto de definições justapostas e não exclusivas que preenchem o meu ser, a minha identidade, a minha pessoa… a minha presença no mundo. Com isto, terei eu menos voz em painéis como estes? Durante os mesmos levantei essa dúvida, levantei a auto crítica à minha própria existência. Sou eu merecedora dessa auto crítica? Acredito que não deveria.Estas intersecções relembram-me a minha posição enquanto mulher, trans, não binária, femme, pansexual e anarca relacional e, com isto, fazem-me questionar se seria o meu dia a dia mais fortemente validado se mantivesse a minha leitura social enquanto homem cisgénero, heterosexual e monogâmico. Pergunto-me se o custo de me perder identitariamente valia essa leitura e privilégio? E como posso eu expressar esta minha decisão racional em ser eu própria em meios que ainda são tão pouco inclusivos a não normatividades? Será que sou “suficientemente”?O meu pensamento é preverso nas minhas auto críticas. Preversoporque as minhas emoções são desventradas até ao infímo detalhe.Preverso porque são as mesmas dúvidas que alimentam as minhascertezas ou, pelo menos, o meu caminho. Deste modo, quando meconstruí enquanto pessoa que é pansexual, pessoa que é mulher,pessoa que é trans, pessoa que é não binária, pessoa que é femme, pessoa que é anarca relacional, construí a imagem social da minha própria interioridade. Construí o público do privado. Estas intersecções passaram a fazer sentido na sua existência no mundo porque deixaram de fazer parte apenas do meu círculo interior, pessoal, imaginário, emocional, sonhador, existencialista. Estas intersecções pertencem ao mundo por via da minha pessoa, por via daquilo que eu sou a cada momento, instante após instante. Estas intersecções sou eu.Por isso, não sou homem. Não sou homem, não porque sou mulher, mas sim porque não acredito no significado de homem. Não sou mulher por justa posição a não ser homem. Não sou não binária por justa posição a não ser ambos. Sou mulher porque me identifico enquanto tal, sou mulher porque me enquadro no mesmo sistema de opressão. Sou não binária porque acredito na espacialidade do meu próprio género. Sou não binária porque não sou homem, mas acredito na minha masculinidade. Sou não binária, porque apenas sou e existo em pleno do meu ser.Dani",
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      "author": "danifbento",
      "categories": "Geral, Trans, Não Binário, Mulher, Interseccionalidade"
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      "title": "Porque o papel fala vida",
      "content"	 : "Olho a folha de papel, penso nas linhas que me comprometo a escrever, mas ainda não sei o que caminho que vão tomar e, muito menos, o seu final. Olho a folha de papel e apenas penso nas linhas que me acredito querer escrever. Relembro a minha cadeira e a minha secretária, a minha caneta e o meu bloco, o teclado e o monitor, apenas. As linhas escrevem-se direitas, mas eu pretendo escrevê-las no espaço e tempo para o qual existem. As linhas escrevem-se em sequência, mas eu pretendo escrevê-las de acordo com a história que relatam.A folha de papel está amarelada, parece suja, mas é apenas a luz que raia do nascer do sol. A folha de papel está vazia, pronta para contar uma história. A história de quem a ler, a história de quem a pretender, apenas uma história para ficar ou esquecer.É manhã, sentada na cadeira, solto um suspiro, não sei por onde vou começar. Mas vou. É o meu próprio desafio. É a minha meta, a minha conquista, o meu objectivo, a minha luta. Luta, porque de luta sou constituída, sempre fui e serei, sou. Uma luta que se expressa nas palavras, no sentir e na paixão, uma luta que se expressa na mão, no esforço e no tacto. Uma luta.Olho a folha de papel, finalmente entra em contacto com a caneta, coragem ela grita, a caneta. A caneta que tem uma história, única, gasta e velha. A caneta que tem uma história, singular, penosa e destrutiva. A caneta. Sai a primeira palavra, o meu pulso treme, treme de temor, de arrependimento, sujei a folha… era limpa, vazia, sem sofrimento ou ternura… era uma folha. Olho a folha de papel que deixou de ser, olho a vida que passou a existir. Procuro entre as linhas o momento, procuro entre as linhas a forma e o modelo, procuro entre as linhas o futuro de um passado que é relatado. É, nestas letras, nesta tinta, nesta força, nesta mente, neste lugar, neste espaço, neste tempo, nesta existência que permaneço, mas que me deixo levar. É pelo conjunto do vazio da folha de papel que conquistou a vida que lhe é presenteada. É pela vida que vivo que decido abraçar o papel com a caneta. Juntos, para sempre, até sempre, agora. Juntos, a comunhão de ser interior com o exterior, apenas e sempre, ser e existir. Juntos. Permanentemente juntos. Papel que não se vai esgotar, caneta que não vai ficar sem tinta, braço que não se vai cansar, mente que não vai parar, lugar que permanecerá, espaço que conquistarei, tempo que é apenas meu.A folha de papel está amarelada, mas não apenas, está rica. Rica em traços que proclamam vivências e estados, permanências e quebras. Rica em traços que anunciam o finito do infinito. A história. Aquela história. Esta história. A história que queremos ler, que queremos declarar, que queremos vingar, que queremos manifestar. Manifesto. Suspiro novamente, o papel não acaba nunca. A minha mente acelera a cada toque, palavras que seguem a conduta e caem diretamente na folha, palavras que jorram sem limites, sem questão ou pudor, palavras. Palavras.Porque eu quero, porque sempre quis, porque sempre vou querer. Rasgo a folha, apago os traços, esqueço a vida e limpo as memórias. As linhas deixaram de existir, a tinta desapareceu, a mão enfraqueceu, a mente enlouqueceu, o espaço encolheu e o tempo… o tempo esqueceu.Porque eu quero, porque sempre quis, porque sempre vou querer olhar a folha de papel amarelada da luz que raia do nascer do sol.Dani",
      "url": " /porque-o-papel-fala-vida/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "Geral, Prosa"
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      "title": "Depressão e Identidade",
      "content"	 : "Gostava de pensar que a minha identidade se poderia expressar livremente ao longo do tempo. Gostava de pensar que isso seria uma realidade, mas infelizmente não o é. A minha expressão é limitada pela minha saúde, é limitada pela minha capacidade de viver em união comigo própria.Estar deprimida traz-me várias fragilidades à superfície, traz-me incapacidade e traz-me ansiedade. Traz consigo um mal estar permanente que me esfaqueia aos poucos, devagar, muito devagar. Fico limitada, muito limitada. Por outro lado, sinto a necessidade de me proteger, proteger dos olhares, dos comentários, dos ataques, das inseguranças. Deixo de conseguir ser eu pleno, esta necessidade afoga a minha existência, coloca-me num compasso de espera, num compasso de dificuldade.Estar permanentemente em estados ansiosos com alternância em estados de tristeza extrema faz-me refém. Fico refém de mim mesma. Fico refém das minhas dificuldades. Segue uma solução que me ajuda - passar despercebida, passar sem questionamento. É fazer aquilo que odeio, limitar a minha expressão livre. A doença deixa-me frágil e com isso a incapacidade de poder reagir assertivamente ao que acontece fora da esfera privada. Essa fragilidade apaga a minha voz. Deixo de conseguir reclamar o meu espaço no espaço público, não é meu de direito, não é meu. Não o mereço, é isso que sinto ou penso.A limitação do espaço público priva-me. Os estados depressivos controlam a minha capacidade de gerir a ansiedade e os problemas que me circundam, fecham em si mesmos o pessimismo de existir. O não valer a pena. E com esse momento vêm as dúvidas, as incertezas, a incapacidade. E com esse momento vêm as culpas, os retrocessos, as paragens. Quando não vale a pena, não vale. Não há existência, logo não há expressão. Há vazio. Sem querer, reduzo-me a um mundo normativo do qual eu não concordo, reduzo-me aos tradicionais papeis… não porque eu quero, mas porque preciso de me salvaguardar, proteger e ganhar coragem para um novo ciclo de luta permanente.Estar deprimida não é apenas a tristeza, é a falta de vitalidade que me possui. A energia que falta e o cansaço que predomina. A vitalidade conduz a minha própria vontade de viver e de estar e, com ela, a minha própria identidade, a minha própria expressão social e o meu papel na sociedade. Por vezes falta, deixo de a encontrar e fica perdida por entre a minha existência.Hoje sinto-me melhor que ontem, e ontem melhor que anteontem. Acordo com mais um sorriso, acordo com mais uma vontade. Acordo capaz. Acordo com mais um pouco de vitalidade. Energia.Aos poucos vai voltando e a minha expressão vai sendo cada vez mais próxima da minha própria identidade. Uma expressão definida pela sua própria indefinição, mas própria, sincera e real. Uma expressão que me suporta na minha convivência com a sociedade e o mundo. São ciclos que chegam, mas que também vão. Ciclos apenas. Vivências no cinzento antes de me poder voltar para a cor. Com o sentir melhor vem a coragem de enfrentar a rua, de não sentir que me deva esconder ou que me deva encolher num meu espaço privado. Com o sentir melhor o espaço público passa a ser um espaço que também é meu, que também me pertence, que também é de meu direito.A cada dia, um passo, a cada mais eu e mais verdadeiramente eu. A cada dia mais um passo na conquista da minha própria capacidade de agir perante a minha saúde e os meus ciclos.DaniImagem: http://www.apa.org/topics/depression/",
      "url": " /depressao-e-identidade/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "bipolar, identidade"
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    "101": {
      "id": "101",
      "slug": "depressao-e-fatshaming",
      "title": "Depressão e Fatshaming",
      "content"	 : "O meu percurso continua, árduo e ainda confuso. Uns dias estou melhor, sinto-me alegre, pronta para a acção e para o movimento, tenho outros… outros em que não me apetece levantar da cama. Outros em que me apetece isolar do mundo e esquecer que estou por cá. Outros que fico. Esta é uma fase complicada, estou a ser dominada pelos momentos depressivos. Pelos momentos de tristeza crónica. Procuro em cada coisa o melhor que consigo, procuro felicidade em bocadinhos para que me sinta melhor ou, pelo menos, um pouco melhor. Este percurso é necessário para recuperar, é preciso ir tentando aos poucos, saber como agir, como actuar.Porém, engordei 8 kg em pouco mais de duas semanas. Este foi o resultado de ter de mudar a minha medicação permanente e com isso iniciar um novo ciclo de recuperação. Estou a recuperar, aos poucos, mas ter ganho peso tão rápido fez-me diferença. Fez-me diferença porque o mesmo tipo de tratamento já me levou a valores muito mais altos, fez-me diferença porque vivemos numa cultura de fatshaming e isto foi-me difícil de gerir durante alguns anos já passados e agora volto, inevitavelmente ao mesmo registo.Recupero de um problema que me aniquila a auto-estima como uma foice corta feno, e permanentemente lembram-me de um efeito colateral de uma medicação que preciso tomar (o contínuo “estás mais gorda”). Não quero escolher entre estar bem ou ganhar peso de forma descontrolada, porém não quero entrar numa outra luta pelo qual já sofri, da qual consegui sair. Apesar de sempre defender positivismo corporal, há dias em que sou vencida pelo exterior e o meu mau estar consome-me, a minha auto-estima dá de si… No entanto, não é só a questão do aumento de peso em si que me afecta, mas sim o facto de que este crescimento corporal aviva, em mim, uma imagem de um corpo que biologicamente é masculino, o qual eu não me identifico. Mais do que me sentir mal por ter ganho peso, a forma lembra-me a minha condição enquanto macho biológico, lembra-me a minha condição que penosamente estou a tentar melhorar.Estas últimas linhas caiem em muitos estereótipos e valores contra os quais eu luto, mas… combater estes valores não significa que por vezes não sinta a dificuldade que me provocam. É permanente, é uma luta permanente e a fragilidade por vezes demonstra-se da forma mais simples, mais rudimentar, no comentário banal. O próprio preconceito interior, contra o qual tento lutar constantemente. Pelo menos, ter consciência disso, ajuda-me a dar passos, ajuda-me a pensar numa solução melhor para vencer cada dia, cada momento e encher-me de pequenas vitórias.Pelo menos sei que isto tudo me dará mais força, bastante mais força para as dificuldades que vou encontrando. São dificuldades necessárias (ainda que de uma forma geral, injusta) para conseguir lutar, para compreender o mundo e procurar uma sociedade melhor.Dani",
      "url": " /depressao-e-fatshaming/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "Geral, Saúde"
    }
    
    ,
  
    "102": {
      "id": "102",
      "slug": "passos-pequenos-para-um-mundo-maior",
      "title": "Passos pequenos para um mundo maior",
      "content"	 : "Estou a caminhar, muito lentamente, mas estou a caminhar. Passos lentos para um objectivo maior, passos lentos para um caminho longo, uma estrada com bastantes curvas e cruzamentos… decisões. Sair de um período depressivo é um trabalho árduo, muito… é um percurso que tenho de fazer, agora.Fiz mais um acerto de medicação, demora tempo, vai demorar tempo… vai ser necessário ter paciência, vai ser necessário ser resiliente, vai ser necessário aprender e desaprender velhos hábitos.Fazer ajustes de medicação é sempre um processo lento e complicado, deve ser preciso. Porém, o benefício a médio longo prazo é grande e esta aposta deve ser feita agora, neste momento.O que sinto? tudo e nada. O mundo aparece e desaparece e reaparece constantemente. O mundo vai e vem. As pessoas ficam e vão e voltam e vão novamente. No fundo, não é o mundo que vai e vem, ou as pessoas que ficam e vão… sou eu que ligo e desligo. Sou eu que permaneço num limbo ainda instável, mas menos angustiante que a última vez que escrevi aqui, menos doloroso. Um limbo que ainda me traz a dúvida, a incerteza e o desconforto do dia a dia. Sinto ainda um cansaço enorme, a dificuldade em me levantar, a dificuldade em fazer o básico dos básicos, pensar no meu dia a começar e desejar que ele acabe por estar exausta. É nesta fase que estou, do cansaço, da dificuldade em tomar decisões, da dificuldade em gerir a minha existência. Existiriam várias coisas que gostaria de aqui escrever, mas não o faço, não o faço não por não querer, mas porque não consigo. As palavras perdem-se na cabeça antes de as conseguir escrever, as emoções saltam de um lado para o outro sem que as consiga agarrar. Nada é certo e nada é errado, tudo é certo e tudo é errado. Os sentimentos voam, perdidos… quero agarrá-los. Preciso agarrá-los.Um passo de cada vez, um passo pequeno para um mundo maior. Um passo de cada vez, um passo para um mundo mais estável. Um passo de cada vez, um passo para um mundo mais feliz. Um passo…Dani",
      "url": " /passos-pequenos-para-um-mundo-maior/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "Geral, Saúde, Bipolar"
    }
    
    ,
  
    "103": {
      "id": "103",
      "slug": "estou-numa-fase-de-depressao-e-agora",
      "title": "Estou numa fase de depressão, e agora?",
      "content"	 : "Este texto não tem um alinhamento, este texto não tem uma linha condutora, este texto não tem um objectivo. É um conjunto de palavras vazio de propósito, sem maquinista e sem qualquer espécie de conexão. É um texto para transpor da mente para as letras, é um texto para transpor da ideia para a concepção, da concepção para o momento. Palavras que uso como a ferramenta mais poderosa que tenho.Quando escrevi a primeira palavra do que aqui vejo no ecrã já tinha pensado no texto inteiro. Nas palavras que queria transpor. Antes de pegar no computador estava deitada na cama, escuro, fechada no meu pensamento… precisei, precisei pensar nas palavras, precisei de transpor para algum lado o que me ocorria. Verdade, já me esqueci do texto todo que queria escrever, das ideias, dos fragmentos e dos pedaços. De tudo. De tudo o que me esqueci, resta o pouco que me lembro, a vontade que ficou. A vontade que ficou de pegar no computador que estava no chão a um canto, de lhe tocar, de colocar os dedos nas teclas e iniciar a minha escrita desnaturada, perdida, sem sentido, sem caminho.Quis escrever este texto nesta fase, especialmente nesta fase. Estou deprimida, muito, ainda não recuperei da crise que vinha a ter desde o Verão, estou instável, os meus músculos doem, o meu corpo transporta dor por todos os poros. Estou deprimida, estou triste, estou abalada, estou abatida, estou num mundo vazio e sem sentido. É onde estou, é onde me encontro, é de onde quero sair. Quis escrever este texto para que mais tarde o possa reler, não como todos os outros textos que escrevo à mão, que mantenho em diário, mas como construção da minha própria recuperação. Eu quero recuperar. Eu quero sair deste estado. É-me importante ter este ponto de controlo, um facto, uma imagem, um desenho, uma fotografia do meu estado, daquilo em que penso e daquilo em que não consigo pensar. É um ponto, é uma iniciativa, é um exercício de construção pessoal, de luta. De permanente luta. Os meus dias são luta, mas cada palavra é um gesto e uma acção. São balas da minha poderosa arma, a minha própria discussão interna. Uma arma que funciona nos dois sentidos, a favor e contra.Escrevo sem limite e sem pensar, não espero retirar deste texto nenhuma conclusão, não espero que este texto fique bonito, só espero que este texto fique cru, muito cru, como acabado de nascer, acabado de sair do seu estado embrionário. Puro. Fechado em si mesmo e naquilo que ele próprio significa. Eu escrevo, as palavras vão saindo. Não paro para pensar, paro para tocar em letras diferentes. Estou deprimida, estou abatida, estou triste e dorida. Estou incapaz. Estou incapaz.O meu braço direito dói-me, o meu joelho esquerdo dói-me. Estou com espasmos na perna direita. O meu gato está sentado ao fundo, ele vê-me, eu não o vejo… está escuro. Só vejo uma pequena luminosidade pelo espelho que me está frontal… o reflexo da luz do computador. O meu quarto continua desarrumado na escuridão. Papéis que se espalham, roupa empilhada, sacos por todo o lado… máquinas fotográficas, headphones, sapatos espalhados pelo chão. Os livros acumulam-se por ler por todo o lado, os jornais espalhados ao lado da cama. Quero andar, não consigo. Afundo-me. A confusão reina o meu mundo, a confusão reina o meu espaço, a confusão reina o meu estado. Roupa que me espera, comidas que ficam por fazer, gritos que ficam por dar. Gritos. Muitos gritos.Não penso no fim, nem no principio. Não penso de todo. O meu pensamento está a protelar o seu próprio estado. O meu pensamento está viciado, está parado, está enojado. O meu pensamento está. Quero escrever o quanto o som me atinge, o quanto a luz me fere, o quanto o movimento me cega. Quero escrever o quanto o mundo me destrói, quanto o meu interior me corrói. Quero escrever, porque quero escrever e apenas porque quero escrever. Ao meu ritmo.Puros os modos de pensar, vazios os modos de entender, fraca de entendimento, falha-me a acreditação, falha-me o acreditar, falha-me o sentir, falha-me o entender. Falha, porque me falha. As vozes das pessoas soam vazias, soam ocas de sentido e significado. As palavras pecam pela sua capacidade. A minha doença fala por mim, ela diz-me que não devo acreditar, ela diz-me que as pessoas são mentirosas, ela diz-me que na realidade eu não tenho valor, ela diz-me que eu não existo, ela diz-me que sim, que não deveria existir. A minha doença matá-me por dentro, suga-me por fora. A minha doença diz-me, mas pior, diz ao mundo que sou isto. Apenas isto. Dor, tristeza, sofrimento, pessimismo. A minha doença diz que o mundo cai e eu caio com ele, a minha doença diz que estou lá para cair e que vou cair e que caio. A minha doença diz e faz-me acreditar nela.Ela fala por mim a cada instante, não me deixa ser eu, perturba-me, substitui-me. Apaga-me. Apaga-me completamente. Escrevo, porque escrevo no momento em que eu falo pelo que a doença fala. Eu falo pelo que não quero que ela diga porque não sou eu, é ela! É ela, a malvada. Eu escrevo porque tenho esta arma, esta arma que permite demolir, que me permite andar, que me permite caminhar. Agarro-me às palavras… agarro-me a elas, combato com elas. A doença quer dizer que eu não sou, eu vou-lhe dizer quem eu não quero ser. Vou. Porque no fim, eu sei, por muito que estas palavras estejam contra o que sinto neste preciso momento, eu vou, eu vou vencer.Vencer.Dani",
      "url": " /estou-numa-fase-de-depressao-e-agora/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "Geral, Bipolar"
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    "104": {
      "id": "104",
      "slug": "momentos-passados-num-mundo-frio-escuro-quente-luminoso",
      "title": "Momentos - passados - num mundo frio, escuro, quente e luminoso",
      "content"	 : "Existem muitos momentos que não podemos controlar, existem muitos momentos que não podemos decidir. Existem, também, momentos em que apenas podemos gerir os danos que nos são causados directa ou indirectamente, conscientes ou inconscientes. Momentos em que precisamos de reforçar as nossas energias, o nosso bem estar e reencontrar-nos novamente num mundo que está sem luz e calor. Nesses tempos existe a noção que queremos desistir, que necessitamos parar a realidade e parar tudo o que nos rodeia. São momentos - passados - num mundo frio e escuro.Nos meus 18 anos parti para um local novo, uma realidade nova, muito diferente da minha típica vida num meio pequeno e ultra conservador. Foi nessa época que consegui, de alguma forma, começar a explorar diversas questões pessoais que se interpunham na minha forma de ver o mundo. Algumas delas relacionadas com o meu género, outras com a minha sexualidade e outras com a minha orientação relacional. Foi num impulso de descoberta da minha orientação sexual que consegui pela primeira vez dizer que me tinha apaixonado, porém foi pouco depois que entendi que já me tinha apaixonado antes, mas de uma forma diferente. Gostava de um amigo, bastante. Gostava da relação que eu tinha com ele e da amizade que mantinha com a sua companheira. Para mim era um amor platónico que existia e, confesso, ainda hoje me toca. Era uma relação que me fazia feliz, na medida da sua existência. Foi o meu primeiro contacto com um formato de relação não convencional. Percebi que gostar e amar não têm de ter regras, mas sim sentires e permissão intra pessoal para o fazer.Foi parte dos meus anos seguintes desconstruir estas ideias, mas sentia alguma culpa pela forma como via o amor e as relações, sentia que o meu amor poderia valer menos, valer nada ou tão pouco, não existir. Sempre me mantive em relações mono normativas, mas há 4 ou 5 anos achei a palavra poliamor. Identifiquei-me à primeira, finalmente algo que se aproximava ao que sentia. Continuei isolada, não consegui conhecer ninguém com essa experiência. Permitia-me sentir a felicidade das relações das pessoas que me acompanhavam, mas estava encurralada na minha própria forma de sentir… menor.Depois de um coming out enquanto pessoa pansexual, poliamorosa e depois como rapariga trans não binária, as complicações intensificam-se. Sempre senti a invalidação da minha sexualidade, senti um amor considerado vazio e sem compromisso, uma identidade inválida e inexistente e a somar, sofrer de um problema de saúde bastante estigmatizado.Porém, neste Verão aprendi que apaixonar-me num período de crise de saúde não é saudável - mas claro, não posso controlar estes momentos. Não me permitiu fazer uma gestão adequada do que sentia e da forma como o transpunha para uma realidade externa a mim. Querendo minimizar os danos, querendo não sentir o meu amor por quem já amo menor acabei a esgotar-me na minha própria crise e no meu próprio envolvimento. Fiquei sem forças na primeira vez que assumi abertamente que tinha uma segunda paixão.Sermos gostados pelo que somos é maravilhoso, mas também é destrutivo quando sentimos deixar de o ser - ainda que seja um sentir negativo apenas nosso, interior. Sentir isso é legítimo para quem for, ninguém deve gostar ou não gostar por força, é uma dinâmica pessoal e própria. Mas estar do lado do questionamento é, muitas vezes, sinónimo de dor. No meu caso em particular, quando me vejo a recuperar de um ponto onde sentia o meu valor próximo de nulo, com tantas questões que se propagam num curto espaço de tempo… esse questionamento assume uma força bastante destrutiva que me fez regredir na minha percepção pessoal. Num misto entre crise de saúde e outros factores, sinto essa dificuldade.É importante ter consciência da minha necessidade enquanto pessoa e daquilo que sou e para onde vou. Num primeiro contacto fui abalada por uma tristeza enorme, desfiz-me em mim e na minha própria noção de existência… em quem eu sou e o que faço. Entender que esta auto-destruição do pensamento é causada essencialmente pela nossa insegurança é um passo muito importante. Deve-se entender que a mensagem é construída entre um emissor e um receptor e o seu valor, por vezes, é diferente para ambos. É importante, também, entender que muitas vezes sentimos o que nos é mais fácil sentir, o que nos é mais próximo sentir. O auto-questionamento, a dúvida pessoal são os caminhos que percorro mais facilmente, são os caminhos que faço num momento de tensão e dificuldade.No fim, a esperança e o progresso sempre, porque a experiência abre-nos novos mundos e novas possibilidades. Querer lutar, aprender e construir para que a cada momento um surja mundo passado quente e luminoso.Dani",
      "url": " /momentos-passados-num-mundo-frio-escuro-quente-luminoso/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "Geral, Saúde, Poliamor"
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    "105": {
      "id": "105",
      "slug": "dias-em-que-pedacos-sao-inteiros",
      "title": "Dias em que pedaços são inteiros",
      "content"	 : "Hoje não foi um dia positivo. Foi um daqueles dias que somam todos os dias que passaram, todos os acontecimentos diários, as trocas, as experiências, as conquistas, as derrotas, o certo e o errado. São aqueles dias em que a vitória parece derrota, o bem parece mal, a proximidade parece distância. São aqueles dias em que nós nos extenuamos de nós próprios enquanto pessoas, nos esgotamos na nossa própria vida.Partilhei um pequeno episódio no Facebook, um entre muitos que me acontecem, deixo aqui uma transcrição do que escrevi:  No outro dia esperava numa pastelaria, daquelas que nós vamos paracomer bolinhos bons. Esperava. Dois indivíduos discutem entre si quemera eu, um insiste “É um gajo, não vez que é um gajo”… ouve-se, euoiço. Eu respondo “Se queres saber se sou um gajo podes dizer, se mequeres respeitar, ao menos sê discreto nos comentários.” Digo isto, embom som para que se oiça… ele silencia-se… e acrescento “E jáagora, eu sou uma rapariga”.  Olho-me no meu reflexo, imagens diárias como esta vão passando, vãosendo assimiladas, vão fazendo parte de quem sou. Luto diariamente porme validar, por me sentir valida. Num mundo binário é-me mais simplesme explicar enquanto rapariga, mas não me valida, não me identifica. Oespelho reflecte-me todos estes momentos de questão e de dor. Todos osmomentos em que aquilo que o meu corpo representa na sociedade não é oque eu sinto.  Quero sentir, quero que me permitam sentir. Não quero ser o objecto,quero ser a pessoa.Este episódio que partilhei não foi a causa do meu mau estar, mas apenas um contexto para as minhas palavras. Os meus dias são ricos nestes episódios, nestas danças de verdadeira bailarina com indivíduos que lido todos os dias e em diversos espaços. O que me fez sentir em baixo foi a minha consciência da minha situação diária e da experiência enquanto pessoa socialmente não conforme.Quando me dizem “É um gajo, não vez que é um gajo” o meu problema imediato não é aquela pessoa em particular. Facto, eu não devo este tipo de explicações a ninguém, porém o meu problema é o reflexo daquelas palavras, no que significam socialmente, no peso que têm nos meus dias e, principalmente, reflectem a minha consciência sobre uma luta interna que tenho, sobre a minha validação pessoal de mim para mim enquanto pessoa não binária. Por exemplo, o próprio acto de responder “eu sou uma rapariga” já é por si uma forma de me tentar encaixar num sistema e segue a consciência pessoal que até na linguagem tenho dificuldade em me referir a mim. Torna-se insuficiente. Torna-se cíclico, um problema de reconhecimento em cadeia que começa pela mensagem visual imediata, até à forma como transcrevo essa realidade em palavras. A complexidade da minha resposta iria, naquela situação, gerar ainda mais confusão… foi-me mais simples esta aproximação. No entanto e novamente, leva a questionar-me a mim.No fim, muitas destas situações apenas me relembram constantemente a luta identitária que faço em plena acção da minha vida, em pleno direito de viver, em plena firmeza em existir. Todas estas situações promovem um ciclo complexo de memórias que se interligam por muitos factores.Um dia mau entre muitos outros melhores, mas um dia que nos permite fazer uma pausa, chorar pela nossa dificuldade, merecer o cansaço, merecer dizer que hoje não consigo, merecer dizer que amanhã possivelmente será melhor, merecer dizer que eu mereço. Um dia menos bom, entre outros que são piores, mas um dia que me permite olhar e dizer que sou mais do que uma sobrevivente, sou uma vivente, que me permite olhar e dizer que sou mais do que uma lágrima, mas um sorriso rasgado, que me permite olhar e dizer que sou mais do que um pedaço, mas sou inteira.Dani",
      "url": " /dias-em-que-pedacos-sao-inteiros/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "Geral, Trans"
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    "106": {
      "id": "106",
      "slug": "quando-a-saude-sabota-a-minha-felicidade",
      "title": "Quando a saúde sabota a minha felicidade",
      "content"	 : "Os últimos dois meses têm sido emocionalmente complexos para mim.Após meses de luta permanente, a ansiedade tornou-se corrosiva elevou-me a cair num novo ciclo misto (relacionado com o meu problema desaúde) que, por sua vez me retira a capacidade de ter sonos descansados e consequentemente arrastei o meu estado de saúde e a minha sanidade mental durante algumas semanas.Felizmente, neste momento, já estou à procura das ferramentas certaspara voltar ao caminho. Uma delas passa pela minha introspecção,que me dá imensos métodos para agora e para futuro. Porém, isto nãoé verdade para todo o tempo e em muitos momentos não o consigofazer. Existem vezes que sou dominada pelo pânico que mecontrola e esgota, o pânico que me controla a mim e todos os meuspensamentos, nessas alturas não consigo encontrar ferramenta alguma. Preciso sentir o mundo antes de dar um passo, um sentir que dói muito, mas muito, que me faz chorar até não poder mais e desesperar comigo mesma. Este sentir que me esmaga no infinito, me comprime até ser nada.Perco me nesse cruel sentir, e ali eu fico. Aproveito momentos em queestou ligeiramente mais consciente para me construir em cima dessepânico existencial, pois é quando realmente sou capaz de tomar umaacção. Aproveitar variações positivas para contrapor as negativas. Estar sozinha, dentro de água, ou num abraço são alguns meios. Mas para isso, preciso reencontrar o mundo. Depois penso no que me acontece e no porquê. O porquê é uma pergunta de resposta muito vasta, mas é me importante pensar sobre as potenciais causas, coisas que terei de estar alerta no futuro, coisas que devo enfrentar e questionar. Uma delas é a minha própria felicidade.O factor comum entre todo o conjunto de coisas que me aconteceramnestes meses é um sentimento positivo… felicidade. A minha crisefoi contra mim, bateu me dê frente e disse-me que não podia serfeliz, porque não mereço. É a minha saúde a falar. A culpa de serfeliz é maior do que a própria felicidade. Eu não posso ser feliz,é o que o meu raciocínio diz, não posso, não me é permitido. Ficoem pânico, deixo de dormir, o meu humor começa a oscilar a um ritmobastante acelerado e instável, vou-me esgotando, ciclo viciado. Nãoposso ser feliz. As inseguranças começam a aparecer, existir é postoem causa, lutar é posto em causa. Ser quem sou é posto em causa… Num curto espaço de tempo sou outra pessoa, não me reconheço e desapareço no nada.O que me faz este pânico? O que me faz ter que digerir de uma forma tão.. Cruel a minha existência? Porque não sou indiferente a quem sou, ao mundo, à minha história e a tudo o que me toca. O meu cocktail de histórias de existência é limítrofe e viver continuamente em questão, traz-me reflexos da minha evolução desde que tenho memória, reflexos de uma instabilidade que tento dia após dia compensar e lutar. Eu não posso existir porque não existo.Começar o dia a rir e acabar a chorar tem sido corrente, luto com tudoo que consigo. Procuro ajuda, mas por vezes é difícil pedir. Hácoisas difíceis de explicar sem ouvir “isso passa, pensa positivo” quando a minha sintomática leva-me exactamente a não conseguir pensar de forma coerente (fico sem vitalidade para viver). Quando a única coisa que penso é na loucura e neste estado não há controlo. Essa ajuda não pode ser anuladora do que sinto, dado que desespero mais depressa. A minha experiência deve ter o valor que lhe dou, não pode ser mais nem menos que ninguém, nem melhor nem pior que ninguém, porque é só minha. Entender a boa intenção das palavras torna se difícil, quando tudo o que se ouve só me faz sentir mais culpa, o outro consegue e eu estou assim? Culpa. O outro faz e eu não? Culpa. O outro tem energia e eu não? Culpa. O outro já passou e está cá? Culpa. Existem palavras adequadas a momentos de reflexão, mas não nestes momentos de fragilidade em que tudo serve para justificar a minha anulação. Preciso que o outro tenha um papel neutro. Por isso momentos solitários são me importantes, afasto me das boas intenções que me prejudicam. Momentos solitários permitem-me escrever sobre mim, pensar sobre mim e colocar-me novamente na linha de pensamento mais justa. Readquirir a minha própria definição de felicidade.Não enfrento estes processos sozinha, na medida em que tomo algumamedicação que me é importante no imediato, dado que me ajuda a estarnum estado em que a euforia/depressão não têm um papel tão demarcado no meu dia a dia. Passo a ter mais momentos calmos e que me permitem pensar mais lentamente sobre o que me vai acontecendo. Porém, são tempos em que as minhas emoções também desaparecem, sinto-me mais distante das pessoas e deixo de as conseguir interpretar tão bem. É quase como um contracto, uma solução de compromisso. Eu preciso disto para me realinhar, mas temporariamente não consigo chegar a ninguém e tenho dificuldades que cheguem a mim. Tem um impacto colateral grande nas relações que tenho, o que é um problema. Porém tem um efeito temporário benéfico na minha saúde. É um mal necessário para bem do meu futuro.Acredito que nos últimos meses o que me aconteceu foi derivado da somade várias questões diferentes, anexada a uma fragilidade de saúdemental que provocaram uma queda acentuada no meu estado de saúde. Porém, tem-me custado pelo facto de tudo o que acredito desaparecer, a minha não anulação pessoal é um exercício que passa a ser mais intenso. A minha auto estima desaparece, a minha auto confiança desaparece, deixo de ser capaz de ler pessoas e a precisar do estimulo visual/verbal repetido para as entender. Ao mesmo tempo, os sentimentos positivos conquistados, tornam-se o meu maior peso. Transformam-se nas minhas maiores dificuldades e depressa estou num registo em que me sinto pequena, muito pequena.No fim, escrever é-me importante, mantenho o meu diário, mantenhorascunhos, traços perdidos com palavras e bocados de memórias. Estepróprio texto é um reflexo desse exercício e por isso acredito que asua construção um pouco confusa também seja ela resultado de comointernamente a minha cabeça vai funcionando. Sinto-me, apesar detudo, a melhorar. Sei que nos próximos dias ainda vou ter alguns momentos menos bons (já conheço demasiado bem os meus sintomas), mas acredito já ter conseguido dominar parte do problema. Os meus últimos dias têm sido constituídos por exercícios mentais permanentes para reforçar a minha felicidade e a minha noção de estar. Preciso de conquistar essa força, esse espaço. Preciso de me sentir existir novamente.Dani",
      "url": " /quando-a-saude-sabota-a-minha-felicidade/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "Geral, Saúde"
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    "107": {
      "id": "107",
      "slug": "viver-enquanto-pessoa-nao-binaria",
      "title": "Viver enquanto Pessoa Não Binária",
      "content"	 : "A experiência de viver em plenitude com a minha identidade é umaprocura permanente de estar, de poder e conseguir. A minha leiturapessoal enquanto rapariga trans foi-se complementando com a minhaprópria definição de que não passa de um ponto para o outro, mas passapor uma linha constituída por muitos pontos. Num registo que ao mundoparece ambíguo, num registo que a mim me parece o mais correcto.Procurar não ser um resumo de mim é um problema complexo, mas tambéminteressante de manipular.Nas várias vezes que falo em questões identitárias conquisto maisuma vitória pessoal. Associar pontos chave da minha pessoa a um mundobinário é um exercício social permanente, porque implica removersempre essa associação e essa marca. Isto toca em variados aspectosda minha vida. Falar de gostos, de trabalho ou de sentimentos obriga-meconsecutivamente a enfatizar a minha experiência e consequentecaracterística e procurar remover a possível conexão do binário. Éum exercício linguístico interessante.Porém, na prática e no social não é tão interessante. Não pornão ter valor, mas sim porque grande parte da sociedade vive numregisto que me obriga consecutivamente a explicar ponto por ponto.Dizer que não me enquadro no binário não chega, é preciso explicaro que é, o que é não sentir isso, passar pela desaprovação, sentirque sou alinhada a um pensamento de confusão oude quem não sabe o que quer, ou quem é. Atrás disto vem aexplicação do corpo, da sexualidade e no fim o julgamento a todosestes factores que me tocam. Identifico-me comigo mesma e isso deveriaser o essencial.Na minha experiência pessoal, há uma diferença clara entre eu dizerque gosto de x ou y, ou dizer que o meu lado masculino gosta de x e omeu lado feminino de y. Isto não acontece comigo, porque estes doislados reflectem apenas a minha pessoa e o meu gosto por x e y.Identificar-me como ele não me retira a capacidade para y, e viceversa. Por isso, quando se referem à minha pessoa como “não és homemsuficiente” ou agora, em particular “não és mulher o suficiente” sãopremissas vazias de significado na medida em que para a minhaidentidade essa não é a verdadeira questão - para além da questãoque levanta sobre os critérios de suficiência para ser.Porque digo então, que sou uma rapariga trans não binária? Porquenum mundo utópico, falar em rapariga, em pessoa trans, ou pessoa nãobinária não teria impacto social, pois seria apenas a minhaidentidade. No mundo real, isto não acontece - funcionamos de um modobinário. Ser rapariga trans não é exclusivo de ser não binária.Existe sobreposição na medida que o sinto. O limite de suficiênciaé regido pelo meu próprio conceito e como tal, é nesse espectro queme movo. Poderia falar na necessidade de enquadramento, mas novamenteretorno a questão sobre a definição de enquadrar. Poderia falar namaioria, mas a definição de maioria é normalizada em cima decritérios vazios e, à luz dos contextos actuais, sem grande correspondência.Normalizar, maioria, enquadrar, suficiência remetem-me apenas para umsistema de controlo, remetem-me apenas para um sistema carregado devalores morais sem significado e em dirupção com a própria realidadee com a própria diversidade humana. Normalizar é apenas deixar otempo passar. Normalizar é remeter para a apatia em relação àexistência no mundo. Normal não é pertencer a uma maioria depessoas, normal é resultado de uma liberdade condicionada aum processo, a uma ideologia de existência, de superioridade. Normal,é inconscientemente perpetuar o vício do controlo. Somos a humanidade.Dani",
      "url": " /viver-enquanto-pessoa-nao-binaria/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "Geral"
    }
    
    ,
  
    "108": {
      "id": "108",
      "slug": "dia-mundial-da-doenca-bipolar",
      "title": "Dia Mundial da Doença Bipolar",
      "content"	 : "No dia 30 de Março comemorou-se o Dia Mundial da DoençaBipolar (nodia de nascimento de Vicent VanGogh). Umdia importante para o combate ao estigma de um problema real que,infelizmente, afecta muitas vidas. Um problema que passa invisível,que passa incompreendido por grande maioria das pessoas. Não queriadeixar o meu percurso de fora, num momento em que cruzo dois caminhosdiferentes, mas que acabam por ter repercussões claras no meu dia adia. Lidar com um problema de doença mental e com um problemasistémico da sociedade por ser uma pessoa Trans.Vingo-me pelo caminho que percorro dia após dia. Poderia escreversobre muitas coisas que me seguem pela mente em todos estes momentos,bastantes mesmo. Simultaneamente, também me coloco na posição dereflectir sobre esse percurso. Há uns anos, mais de 10, fiqueibastante doente. Afunilei numa profunda depressão, num poço sem fim.Durante todo este tempo, e até hoje, mantenho o meu acompanhamentoclínico e terapêutico. É-me de uma tremenda importância que ocontinue a fazer. Hoje em dia junto resíduos desse estado com umprocesso longo e moroso que é este da minha identidade degénero. Poderia colocar tudo numa caixinha esentir que estes 10 anos foram reflexos e preparação do que passohoje. Mas não, não são - ou pelo menos na sua integra.A minha depressão vem de longe, de um estado mais longínquo e maisintrínseco à minha própria natureza e vivência. O meu estadodepressivo é remoto. E este não foi uma descoberta, foi umaconsequência. Recebi um diagnóstico de doença bipolar aos 19 anos -depois de dois internamentos com um diagnóstico errado. Estediagnóstico com o valor (relativo e subjectivo) que tem, permitiu-meconhecer as minhas dificuldades e trabalhar numa solução que mepermitisse ter uma vida razoavelmente estável. Neste momento juntoessas a outras. Não posso descurar estes estados, dado que elesexistem e continuo a gerir a sua presença na minha vidapermanentemente. Quando trato de questões Trans, envolvo-me tambémnas questões do problema da saúde mental. Pessoalmente, é uma lutadeterminada. “Estar dentro daquela caixa a que se dá o nome de Trans”não é uma doença, porém, infelizmente, na nossa realidadePortuguesa ainda é. E com esse estigma de doença mental (que setrata como disforia de género), vivo o estigma da doença querealmente me afecta e que também preciso de suportar. Honestamente,é esta última que me preocupa mais, pois é com esta que sofromaior impacto no meu dia a dia. São situações que se cruzam, comoé óbvio, pelo ciclo de dificuldades que é criado. Porque aprimeira questão, faz-me sofrer por determinação social, mas quetem impacto da minha capacidade de gerir a segunda questão enquantoproblemática interior.No entanto, a leitura que é feita da doençamental (nomeadamentenas depressões e, neste caso, da doença bipolar) é muito diferentede qualquer outra doença (não mental). Nunca se conseguirásolucionar com razoabilidade os problemas associados enquanto não forconsiderada seriamente uma doença e não um capricho pessoal. Osofrimento associado a todo este espectro de problemas é sempremenosprezado e bastante diminuído. É comum associar as dificuldadesdo foro psiquiátrico, psicológico à personalidade do indivíduo, àsua incapacidade de lidar com o mundo ou, como quem, diz “a suafraqueza e falta de maturidade”. Porém, muitas vezes é o oposto.São problemas que passam na escuridão do mundo, debaixo do tapete.Pessoas que sofrem constantemente, mas por medo de falarem das suasdificuldades vão deixando a sua doença tomar conta de si, forçandoos seus dias, forçando a sua mente a conseguir viver dia a apósdias… piorando no vazio. A solidão vai aumentando dada aincompreensão que se vai sentindo permanentemente.Existem algumas soluções, não posso dizer cura, não tenho essaexperiência. Mas podemos numa estabilidade que nos permite viver umavida razoavelmente calma, ainda que seja necessário manter muitoscuidados. No meu caso, o meu acompanhamento clínico (com um bommédico) e terapêutico foi e continua a ser essencial. Em Portugalnão existem muitos apoios no SNS para tornar esta realidade possível,mas durante alguns anos contei com a ADEB (emLisboa), que me permitiu dar um salto na minha recuperação.Hoje luto por uma causa diferente, à partida. No entanto, continuo alutar por esta porque também é minha, também é de muitos que nãoo podem dizer por diversas questões.Boas leituras,Dani",
      "url": " /dia-mundial-da-doenca-bipolar/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "Geral"
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    "109": {
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      "slug": "momentos-numa-sala-a-ver-a-rapariga-dinamarquesa",
      "title": "Momentos numa sala a ver A Rapariga Dinamarquesa",
      "content"	 : "Ontem, Sábado, fui ver o filme “A Rapariga Dinamarquesa”. Fui.Chorei. Não quero escrever sobre o que está bem feito, nãoquero escrever sobre o que está mal feito no filme. Não queroperder-me no debate sobre a qualidade da história ou a aproximaçãoda realidade. Não porque não tenha isso em consideração, mas simporque quero escrever sobre como a mensagem me chegou e me tocou… independentemente da película que vi no ecrã, dos actores, da realidade ou da ficção.Chorei. Não por tristeza, não por felicidade, mas por me sentirremexida. Eu remexi-me, eu própria provoquei esse movimento interiorsobre a minha existência, os meus dias e o meu futuro, o meupresente e o meu passado. O filme foi um pretexto, umaoportunidade. Não foi, nem será o único filme capaz de o fazer.Pois eu sinto e devo permitir-me sentir. Às vezes eu choro com comédias, às vezes eu rio com a desgraça… eu emociono-me, eu vivo.Existiu um detalhe, um detalhe que é, talvez e na sua medida,insignificante, mas foi o que me puxou para a superfície algunssentimentos. A vontade e determinação, a iniciativa de GerdaWegener em fazer parte de uma auto descoberta de Lili Elbe. Umpedaço de tempo em que esqueci o filme, o drama da pseudo-biografia ea vaga inspiração numa história real permitiu-me olhar a realidadeda minha própria vivência. Não do último dia, ou mês, ou ano, massim de todos os meus anos. A vontade e determinação de Gerdacontrastam com algo que senti muito no presente através das memóriasdo passado, a não vontade e não determinação de estar próximo. E,com os devidos cuidados quando se escreve estas palavras, asdistâncias que se vivem através da proximidade da amizade, apalavra que foi esquecida, o desabafo que não foi tido em conta, oisolamento interior e concretização de um caminho que passa por ummundo solitário, pelas questões e pelas dúvidas e, essencialmente,pela não presença e incapacidade (natural ou não) de sentir-mos queo mundo é capaz de receber o que potenciamos de melhor. Percebi pelavivência presente, o caminho que percorri em confronto com aincapacidade de sorrir de dentro. Hoje, sinto-me uma pessoa comsorte, a vários níveis. No geral sinto-me bem, existem váriasfrentes da minha vida que me correm de uma forma fluída, compercalços naturais de quem vive. Porém não posso deixar derelembrar um percurso que fiz, de uma forma paralela, no fruto daincerteza e contrastes de relação vazios, onde a minha vozdesaparecia no momento em que se fazia ouvir. Na falta de vontade de estar, de incluir, de conhecer o outro na sua forma completa, sem medos, sem julgamento.“A Rapariga Dinamarquesa” tem sido um filme polémico em vários sentidos (bons e/ou maus), mas estas linhas não são sobre o filme, mas sobre o meu contacto com ele, sobre uma realidade pessoal.DaniArtigo re-publicado em www.queeringstyle.com a 25 Janeiro, 2016",
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      "author": "danifbento",
      "categories": "Geral"
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    "110": {
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      "slug": "artigos-de-2015",
      "title": "Artigos de 2015",
      "content"	 : "Os últimos dias do ano são importantes para reflectir um pouco nos objectivos realizados, nos próximos passos e nos tempos futuros. Deixo uma lista dos artigos que sinto que tiveram mais impacto na minha construção pessoal e diária. São algumas reflexões, pensamentos ou ideias de uma vida do quotidiano. Visões de mim sobre o mundo, verdades minhas dentro de um tempo e de um contexto.Apenas aquilo em que acredito e não maisConsciência e PrivilégioUm ano em mudançaEu, apaixonar-me? SimAntes de ser Trans*, é ser pessoaNão somos fotografiasSer confundívelMono, Poli. Amar!H*, Bi, PansexualidadeEu sou, mas também souHoje, invisibilidade… na visibilidade Queer ou existênciaOlhares em PerspectivaBoas leituras e feliz Ano Novo de 2016,Dani",
      "url": " /artigos-de-2015/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "geral"
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    "111": {
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      "slug": "apenas-aquilo-em-que-acredito-e-nao-mais",
      "title": "Apenas aquilo em que acredito e não mais",
      "content"	 : "Gosto de acreditar. Mas mais do que gostar, sinto que acreditarme possibilita viver cada dia da melhor maneira que me possopermitir. Acreditar mantém a minha esperança, no mundo e em mim, vivae dá-me significado a cada acontecimento. Este acreditar a que merefiro incide sobre a minha visão do mundo, na crença - talvezingénua - de que um dia todos nós teremos um espaço de felicidade acessível e real.Acredito, mas vejo um caminho longo… Porém, acredito nele.Sendo boa ou má, dependendo do contexto, esta característicapermitiu-me nos últimos anos, não só sobreviver, mas viver.Conto com muitos momentos de desespero, de falta de coragem, decansaço… No entanto, agora que algumas dessas situações ficarampara trás, também recordo enormes vitórias, lutas conquistadas,momentos felizes, de resolução e realização pessoal. Umaconstrução continua que vou fazendo e vivendo. A minha felicidade émanifestada em cada circunstância, a cada segundo. Acredito, apesardas dificuldades que encontro, que devo usufruir do espaço e do tempoda melhor maneira que me é possível. Acredito, desta forma, que aminha felicidade é máxima sempre que me permito estar bem e quandoconsigo aceitar as minhas fragilidades, inseguranças, dúvidas e tristezas e torná-las merecedoras do meu respeito.Para mim, acreditar não significa esquecer a existência daquilo quenão corre bem, dos problemas ou dos insucessos. Não significamenosprezar essas mesmas etapas. Não significa ignorar e olhar para afrente como se a realidade não existisse. Porém, para mim, acreditarinclui entender as dificuldades como algo que, dentro das minhaspossibilidades, devo permitir-me ter um papel activo, decisivo… senecessário. Inclui entender quando devo dizer basta e quando devodizer chega. Inclui aceitar quando devo dizer volta ou vai embora, quedevo perdoar ou que devo pedir perdão.Hoje é o Dia de Natal, um feriado que muitos comemoram e que outrostantos vêm comemorar. Com ou sem um significado específico para estedia, quando saio à rua e vejo o mundo agitar-se, mexer-se, procurar - ainda que apenas uma vez a cada doze meses - fazer um pouco diferente do resto do ano, tento esperar que, em pelo menos alguns casos, seja um pouco melhor.Com esperanças de um Feliz Natal,Dani",
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      "author": "danifbento",
      "categories": "Geral, Pessoal"
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    "112": {
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      "slug": "leitura-cronica-do-passaro-de-corda",
      "title": "Leitura - Crónica do Pássaro de Corda",
      "content"	 : "Crónica do Pássaro de Corda foi o segundo livro que li deHaruki Murakami e confirmo a ideia inicial que tinha da escrita doautor - nesta referência a “Kafka à beira-mar”.Somos levados a conhecer a vida de Toru Okada na primeira pessoa.Desempregado, normal e despreocupado, torna-se o ponto central numa série deacontecimentos estranhos que vão acontecendo ao longo do tempo.Percebemos que Okada é tudo menos alguém normal na sociedadecontemporânea.Ao longo das várias passagens somos confrontados com estranhaspersonagens e com um enredo complexo no qual é necessária algumaatenção. De uma maneira subtil e ao mesmo tempo clara, Murakamileva-nos a interpretar a nossa visão sobre o mundo, a morte, aexistência, o espaço e o tempo. A nossa posição torna-se tudo enada em simultâneo.Ao mesmo tempo, é nos dado a conhecer grandes referências àposição do Japão na 2º Guerra Mundial. Um valor único neste livro.Fica-me na memória a disconexão com o mundo, a incerteza daexistência, os valores éticos, a corrupção do sistema e a própria vida.“A verdade é que um ser humano não consegue viver sem o seuverdadeiro eu. É como a terra que pisamos. Sem um terreno firme,não podemos construir nada em cima.”É, sem sombra de dúvida, uma leitura interessante e rica. Espero,ansiosamente, continuar a minha busca pelas leituras de HarukiMurakami.Continuação de boas leituras,Dani Bento",
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      "author": "danifbento",
      "categories": "Leitura"
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    "113": {
      "id": "113",
      "slug": "consciencia-e-privilegio",
      "title": "Consciência e Privilégio",
      "content"	 : "Quando comecei a escrever este texto tinha uma linha condutora sobre oque iria expor. Escrevi e reescrevi os parágrafos seguintes, queriaconseguir sentido a cada palavra. Tornou-se um texto incerto pelaprópria consciência e vivência do meu mundo e do que me rodeia. Noentanto gostava de partilhar.Ao longo das nossas vidas diárias enquanto seres sociais é comumaprendermos e perpetuarmos comportamentos que, muitas das vezes, nãodamos conta do impacto causado em nosso redor. Não pela dimensãoda nossa acção em concreto, mas pelo significado acumuladoque tem na construção da cultura e sociedade.Estar num grupo predominante em qualquer contexto torna-se umprivilégio. Esta noção pode fazer sentido quando se verifica queexistem elementos que possuem determinada característica, de qualquertipo, divergente dos seus pares. O grupo maioritário exerce o seuprivilégio na forma de limitar ou excluir a diferença, directa ouindirectamente, com ou sem consciência. No entanto, também nemsempre o grupo é predominante, mas sim um grupo que por via cultural ehistória ganha benefício pelo modo como o sistema em seu redor é construído.Ser privilegiado, é existir sem medo. Não um medo aleatório, masmedo do sistema, da exclusão, do afastamento social e das suasrepercussões a nível pessoal. Estes privilégios são de muitos tiposdiferentes: sexualidade, género, etnia, cor, estrato social, saúde,entre muitos outros. Por outro lado, as limitações que o sistemaapresenta não são apenas políticas, económicas e legais, maspassam pelas micro agressões diárias quando a diferença épermanentemente alvo de interpretações depreciativas. Adiferença e a heterogeneidade existe e faz parte de estar vivo.Quando escrevo os últimos três parágrafos tenho de terconsciência da minha situação para as colocar e do meu próprioprivilégio social. As vivências de todos nos são diferentes e, comoconsequência, elas podem ou não dar-nos a possibilidade de sentir(mesmo inconscientemente) determinados momentos benéficos ouprejudiciais da sociedade. Deste modo, fazendo uma fotografia domomento em que me encontro, posso definir uma série de vantagens quepossuo inerentes à minha existência: por exemplo, ser branca,Portuguesa e a viver no meu país de origem. Posso, do mesmo modo,definir uma série de contras: ser uma rapariga, ser trans e não sernormativa. Porém, existe aqui um ponto importante na minhaexperiência pessoal: o meu coming out “total” enquanto raparigatrans é relativamente recente. Posso falar em vivência privilegiadaenquanto lida socialmente como um rapaz cisgénero? Penso (e é somentecom base na minha experiência e sobre a minha experiência) que apenasparcialmente. Gozo das vantagens “apenas” e “na medida” em que nãoanuncio ou comunico a minha vivência pessoal em vários contextos.Deste modo, vivo um privilégio aparente, mas que interiormentefunciona como uma ditadura permanente sobre a minha vida. Existo,mas não me permito existir. Assim, estas vantagens sociais apenasresultam de uma permanente gestão emocional - parafraseando “Serprivilegiado, é existir sem medo”, não gozo o privilégio pornatureza, mas por vitória.Permanentemente tenho aprendido a desconstruir-me, a entender o mundoque me rodeia e a cruzar aquilo que penso. Neste sentido, estesbenefícios e barreiras são vividos de modo distinto por cada um denós e, como é óbvio, cada um tem um impacto social e pessoaldiferente. No fim, claramente todos eles contribuem para o sofrimentode vários conjuntos de pessoas. É neste ponto que penso ser-meimportante focar - ganhar consciência da minha posição (não asubestimando ou sobrestimando) e contribuir para que a minha causa setorne não só a minha causa, mas uma causa transversal a todos os que,de alguma forma, sofrem opressão do sistema de que modo for.Somos humanos, pessoas, partilhamos uma casa comum (a Terra). Osorriso, a felicidade e o bem estar de todos deveria ser aessência de existir e não uma batalha dura de conquistar.Dani",
      "url": " /consciencia-e-privilegio/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "Sociedade"
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    "114": {
      "id": "114",
      "slug": "um-ano-em-mudanca",
      "title": "Um ano em mudança",
      "content"	 : "Há alguns dias comemorei os meus 29 anos. Esta comemoração éessencialmente interior. É uma data que me é importante parareflectir os objectivos alcançados, as metas conquistadas e mudançasno curso da minha vida. Por isso, para mim é a data mais importantedo ano.Quando festejei o 28º aniversário antevia algumas mudanças, muitas destasestruturais e essenciais para o meu futuro enquanto pessoa. Porém,não conseguia prever de que forma essa realidade se iria transformar enão sabia qual seria o verdadeiro impacto no meu quotidiano.Os últimos anos foram uma aprendizagem enorme sobre o mundo, sobre asociedade e, sobretudo, sobre mim. Faltava um passo importante,existir de dentro para fora e concretizar uma preparaçãointerior de muito tempo.Em Julho de 2014 já esperava a minha consulta na sexologia - que só serealizou em Outubro. Durante este tempo assisti ansiosamente aoavançar do relógio, pois queria que passasse depressa. Foi nesta altura quefui dando a notícia a pessoas que me rodeavam, nomeadamente aquelasque não tinham qualquer contacto com a realidade trans. Eraimportante esclarecer que eu não ia deixar de ser quem sou, mas iriapermitir-me ser e sentir o meu mundo sem medo, semhesitação. Iria completar-me. Fui sentindo as diferentes reacções, mais ou menospositivas. Não me identifico com um género binário, mas muito menosreconhecido e não reconhecida na minha essência. Pois a minhanatureza identitária não é conforme.Foi em Outubro que fiz o meu coming out público (aqui), procurando não meencolher com o medo das consequências futuras na minha vida. Sabiapor muitos relatos e vivências pessoais qual o peso desta decisão.Sabia que iria mexer com todas as minhas relações, com a minha rotinae com as minhas perspectivas futuras. Tudo correu relativamente bem,agradeço todo o suporte que tive em meu redor, amigos, no trabalho,na escola, etc.Em Dezembro toda a minha realidade tinha mudado(aqui). E, a somar a tudo,também o meu sorriso e a minha presença. Não ignoro momentos tensose piores (aqui), mas dou-lhes um peso diferente.Um peso de vitória.Os últimos meses têm sido de um desenvolvimento enorme(aqui). Mais confiança,mais sabor e mais cor. O futuro é sempre imprevisível, mas hoje sei,sem sombra de dúvida, que não voltaria para trás no tempo. O queatingi até ao momento em que escrevo estas linhas é bom, bastantebom.Digo-o, com orgulho.Dani",
      "url": " /um-ano-em-mudanca/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "Pessoal"
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    "115": {
      "id": "115",
      "slug": "eu-apaixonar-me-sim",
      "title": "Eu, apaixonar-me? Sim",
      "content"	 : "Construir uma identidade e coexistir com a mesma é um exercíciocontínuo e exigente. O auto conhecimento é uma peça fundamental paraexplorarmos todas as nossas potencialidades nas demais aéreas. Noentanto, e de uma forma pessoal, entendo que esta evolução só setorna proeminente quando estabelecemos laços, ou não, com a sociedadeque nos rodeia. A nossa identidade ganha forma quando é espelhada parao mundo, a menos que fiquemos inteiramente no nosso interior, o que épossível… mas doloroso - sejamos nós quem e de que forma formos.Na minha opinião, parte de ser trans passa, também, pela reflexão dasociedade em nós e inerente a isto estão os possíveis problemas relacionais.Cresci a sentir uma sensação estranha sobre o meu “eu” e que só hárelativamente pouco tempo (no sentido em que me é possível ter umaconsciência precisa do que sinto) consegui decifrar na integra. Umaangústia constante de que algo não estava certo. Do meu ponto de vistainterior, a maioria das relações que tive (amizade ou namoros)tornaram-se sofridas, indirectamente, pois existia uma parte de mim queera permanentemente invisível.Deste modo, qualquer tentativa de relação supõe um entendimentosobre esta situação pessoal e, infelizmente, a conformidade oupassibilidade torna-se sistematicamente uma exigência. Desenvolver-meneste registo é bastante penoso e este estadoabsorveu grande parte da minha vivência e da minha experiênciaenquanto criança, adolescente e jovem adulto. Felizmente, algo queagora vou construindo dia a dia.Há alguns meses, entendia que dificilmente iria conseguirrelacionar-me com alguém nos próximos tempos. Não pelo facto de eunão me apaixonar (ou não o querer), mas porque a minha construçãoidentitária é esta. Sendo mulher trans, pansexual epoliamorosa, a probabilidade de vir a sentir amor devolvido (na minhaperspectiva) era bastante baixa (uma identidade, orientação sexual erelacional que são marginalizadas e suprimidas). Permanentemente era alvo docomentário de que só poderia vir a estar com alguém que fosse trans(só se estragava uma casa… - nada transfóbico) ou a famosafrase “até consigo ter uma amiga trans, mas uma relaçãocom alguém assim nunca pois não seria um homem ou uma mulher deverdade…” (felizmente, para mim, esta é uma interrogação que nãocoloco no outro). Por fim, ainda muitos os convites pela curiosidadeque me levam a sentir objecto sexual ou fetichista e não pessoa…No entanto, apaixonei-me por uma mulher cis-género, hetero emonogâmica. O pânico tomou conta de mim… seria uma relação queestaria terminada à partidaque acabou a tornar-se na minha maior surpresa positiva. A verdadepassa pela própria dúvida, neste caso a dúvida da minha companheiraassociada a uma realidade que não conhecia. Num mundo cheio deestereótipos e opressões, seria uma relação condenada. Até hojeestamos felizes e sem restrições pessoais. Uma relação onde a comunicaçãoe empatia funciona como meio para desmistificar muitas questões, poispara ambas existem situações novas. Não posso negar o facto de mesentir feliz por saber que é possível alguém desconstruir-se a simesma perante uma situação nova, permitir-se a sentir, mesmo quandoesse sentir é muito diferente do habitual. Fico feliz por sentir quesou amada por todo o meu quadro pessoal e não apenas sexual (oupotencialmente sexual). Estas surpresas pessoais são sempre possíveise este é um claro exemplo que a nossa construção pessoal constantepode-nos trazer momentos felizes. Como num artigo anterior referi, nãoacredito que sejamos fotografias, mas sim mutáveis.Independentemente de tudo, sinto-me numa relação onde sou euprópria sem medo e sem constrangimentos e sou amada por isso.Dani",
      "url": " /eu-apaixonar-me-sim/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "Geral"
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    "116": {
      "id": "116",
      "slug": "16-marcha-do-orgulho-lgbt",
      "title": "16ª Marcha do Orgulho LGBT",
      "content"	 : "Contra a violência, quebra o silêncio.Este foi o mote da 16ª Marcha do Orgulho LGBT em Lisboa(ver aqui).  “Chega de silêncios. As pessoas Lésbicas, Gays, Bissexuais e Trans são alvo devárias violências. Recusamos o silenciamento da violência e a violência dosilêncio.Marchamos, com um apoio cada vez mais alargado e com orgulho naluta que travamos, para denunciar bem alto todas as formas de violência epara as combatermos em conjunto.”No dia 20 de Junho marcou-se, pelas ruas de Lisboa, mais uma Marcha doOrgulho LGBT - a 16ª a ser realizada. Marcada pelapresença do primeiro Block Trans na linha da frente. Fiqueiresponsável por levar uma das faixas “Aqui está a resistênciaTrans”. E estivemxs todxs. Foi com orgulho que percorri o trajectoentre o Princípe Real até à Praça do Comércio com aquela faixa.Todxs nós estamxs de parabéns. Este foi um exemplo de como a comunidade T,em Portugal, está a ficar cada vez mais forte e a ganhar visibilidade napopulação.Não consigo avaliar quantas pessoas integravam o Bloco, mas éramxsmuitxs. Foi gratificante estar ao lado de todxs e de cada um.Só queria, com este texto, deixar os meus parabéns a toda acomunidade T presente. Para o ano vamos ser ainda mais.Como nota adicional, queria deixar os seguintes reparos.É comum, na comunicação social, chamar-se a Marcha do Orgulho Gay,mas sem retirar crédito à respectiva comunidade G, era tempo de se ser mais inclusivono modo como se passa a mensagem ao público em geral.O uso de linguagem inclusiva é importante para trazer a visibilidadenecessária a cada grupo, a cada identidade e/ou orientação. Este reparo podeparecer preciosismo, mas as construções identitárias de cada pessoadevem ser respeitadas na sua existência. E, no fim, para a população nãoinformada continuará a ser uma Marcha de Orgulho GGGG, de agenda políticaapenas homossexual masculina.Em segundo e, não menos importante (dado que surgem semprecomentários em redor deste detalhe) não existe orgulho cis-hetero! Sersocialmente previligiado (pertencer a uma maioria para o qual osistema está desenhado e construído) não é motivo de orgulho social. Ninguémé perseguido e mal tratado por ser cis-hetero, ninguém é reduzido aaberração por ser cis-hetero, ninguém é considerado doente por sercis-hetero… ninguém vê constantemente a sua vida estarcondicionada pela sociedade e pelo sistema por ser… cis-hetero.Neste contexto, a palavra orgulho é uma oposição à vergonha (e não um motivopara dizer que se é melhor) vivida pelas pessoas que não se enquadram no sistemamaioritário (cis-hetero-normativo).Dani",
      "url": " /16-marcha-do-orgulho-lgbt/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "Geral"
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    "117": {
      "id": "117",
      "slug": "antes-de-ser-trans-e-ser-pessoa",
      "title": "Antes de ser Trans*, é ser pessoa",
      "content"	 : "Aprecio escrever, é um velho hábito. Uma rotina de criança. Nãoescrevo tanto como desejaria e às vezes escrevo num qualquer pedaçode papel que encontro por aqui e por ali. Este gesto é pessoal, muitomeu. Não o faço pela qualidade, mas pelo gosto e conforto pessoal.Como gosto de escrever, gosto de fotografar.Como gosto de escrever, gosto de ler ou de rir, ou de sentar-me a olharo céu ou de nada fazer… quando nada me apetece fazer.Escrevo sobre o que gosto, sobre quem sou ou o que penso. Este espaçoonline é um exemplo onde transmito testemunhos ou visões pessoaisque vão passando pelas minhas etapas de crescimento e construçãopessoal. Em alguns dos últimos artigos escrevi sobre a minhaconstrução identitária (onde usei a palavra transgénero), escrevisobre pansexualidade, genderqueer e poliamor (para nomearalguns). Escrevo pelo mesmo motivo que converso sobre os assuntos,interessam-me por serem pessoais e serem formas de construção pessoal,para além da importância da visibilidade de cada assunto.Porém, não sou apenas trans-queer-pan-poli-…, sou um conjuntode vivências, sou uma pessoa com tudo mais. De uma visão interiorpara o exterior, por vezes parecem existir momentos em que deixoa minha existência enquanto pessoa e existo apenas enquanto raparigatrans. Não uma rapariga, mas uma rapariga trans. Não a Dani(ela),mas uma rapariga trans. Não eu, mas eu trans. A barreira entre aminha totalidade e apenas e só uma característica minha parecemdesaparecer. Na prática, torna-se comum perguntarem-me sobre oprocesso, a transição, o sexo, a genitália, o médico ou averacidade da Mulher e torna-se raro perguntarem-me como foi o fimde semana, como vão as aulas, se tenho fotogrado, como estou ounão perguntarem nada de todo e falarem-me de si ou algo aleatório.Independentemente da palavra que é usada para me descrever,desaparece tudo e, a minha tristeza, a felicidade, o bem estar ou omau estar passou a resumir-se a esta palavra. Nada mais me faz feliz ouinfeliz, nada mais é causa ou consequência. É apenas assim.Acredito, contudo, que educar e transmitir experiências e/ouvivências seja determinante para o sucesso da compreensão sobredeterminados assuntos. No entanto é ser inteligente entender queexistem questões que eu posso reservar na minha privacidade e a quem dedireito. É inteligente entender que por vezes é educado perceber quenão somos fontes de curiosidade, mas sim pessoas. No momento em queescreverem a alguém “tenho curiosidade em sair com uma pessoa trans”,perguntem-se se entre pessoa e trans não existe algo de muitopessoal que não deve alimentar curiosidades.Sei que será inevitavelmente assim largos anos, porque quem escreve apalavra trans pode escrever aqui outra coisa, não é fenómenoúnico. Haverá sempre alguma situação que fará lembrar que esta eraa característica mais vísivel em mim e não toda a minha existência.Que em algum tempo fui não a amiga, mas a amiga que já foi umrapaz. Existirão momentos em que sim, sou também assim (e fazervaler que não somos pessoas trans, mas pessoas), existirãooutros momentos em que esse espaço deverá ser apenas meu porqueapenas a mim me diz respeito.Dani",
      "url": " /antes-de-ser-trans-e-ser-pessoa/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "Geral"
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    "118": {
      "id": "118",
      "slug": "nao-somos-fotografias",
      "title": "Não somos fotografias",
      "content"	 : "Não somos fotografias, não somos visões estáticas no tempo, nãosomos intemporais. Somos parte do tempo, do evoluir, da mudança. Foicom esta premissa que sugeri a palavra tempo durante a minhaacção de formação de voluntariado na ILGA este último fim de semana.Acredito, conscientemente, que esta mutabilidade da consciênciaracional e emocional humana é uma fonte preciosa para a construçãode políticas de luta contra sistemas opressores de qualquer tipo(políticos, económicos, sociais, humanos). Porém, mais importante doque a existência de meios naturais de mudança é a própriaconsciencialização dessa capacidade independentemente do contexto onde senasce e cresce. No entanto, é importante notar que, dado o nossocarácter social, este processo interno está limitado massivamentepela ideia de grupo e comunhão de ideias - é aqui que qualquersistema opressor ganha vantagem.De uma forma geral, por uma questão de comunicação, expressão einteriorização atribuimos conceitos e definições a determinadoconjunto de características, sejam elas físicas ou emocionais. Estaspalavras são importantes no papel que desempenham. A sociedadeconstrói-se continuamente por ideais definidos e construídos, aspessoas desenvolvem-se e expressam-se através destas construções. Osritmos de desenvolvimento de cada indivíduo são diferentes e comotal, o contexto onde existem também se desenvolve a ritmosdiferenciados.Neste ciclo, na minha visão, torna-se importante paracada indivíduo ganhar consciência para o seu próprio crescimento einterpretação do mundo. É neste período (que acontececontinuamente e não em momentos precisos da nossa vida) que ficaclara a ideia de mudança. O mundo muda constantemente, mas muda porquefazemos parte dele. Nós somos a mudança. Cada um de nós. Permitimosa mudança social quando nós, interiormente, também nos permitimosaceitar a nossa própria mudança, evolução e aprendizagem. Estaideia é transversal a qualquer conceito ou definição, quer seja nasquestões da orientação sexual e de identidade de género (pelo factoda palavra ter surgido em contexto LGBT) ou por qualquer outracaracterística a que nos aproximamos (personalidade, visão política eeconómica, etc).A mudança de qualquer sistema é possível, a queda de qualquersistema opressor é possível. Contudo, esta mudança e esta vitóriasó fará sentido se cada um de nós, para além de acreditar, sentirmosque devemos fazer parte. Que as nossas dúvidas, os nossos receios,medos, vitórias, conquistas, visões e questionamento sobre qualquerideia possam ser atirados para cima da mesa livres de inferiorização,descreditação ou invalidação. Um a um podemos fazê-lo.A ideia de mutabilidade remete-me à ideia da diferença pessoal(interior e exterior) e, como tal, sinto que é importante perceber queinerente à natureza do mundo (no geral), muitas destas diferenças sãoirrelevantes no contexto da sociedade - o direito à indiferença.Dani",
      "url": " /nao-somos-fotografias/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "Geral"
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    "119": {
      "id": "119",
      "slug": "ser-confundivel",
      "title": "Ser confundível",
      "content"	 : "No presente, uma das lutas mais importantes que se trava com a própriaforma de ser e estar no mundo é a que nos associa de forma algumaà beleza e/ou à estética - seja esta física ou metafísica.É-nos inerente traçar limites entre aquilo que gostamos ou não,entre aquilo em que nos vemos retratados ou não. Mas sem menorimportância, é entender como são esses limites traçados e porquê.De uma forma pessoal como mulher transgénero sinto, para além de todasas assumpções daquilo queé aceitável perante o mundo (por ser belo, estético ou coerente),uma forma permanente de vinculação a uma forma de ser e me apresentarem linha com a ideia de que deverei no futuro ser confundível comqualquer outra mulher, sem expressão e existência próprias.O estudo sobre a estética e sobre o que nos faz sentir o belo élongo. Está presente em qualquer texto filosófico e está entranhadoem qualquer redacção sobre a construção social. Existe quase sempre umapremissa base: a instituição do belo marca-se, principalmente, pelo contexto social epela vigência da maioria. Este debate é controverso e gostaria maistarde, num outro artigo, voltar ao assunto, dado que neste não seriaesse o objectivo.Nos últimos meses vi no Huffington Post a notícia do progressofantástico de Aydian Dowling e sobre a sua possibilidade de ser oprimeiro homem trans a aparecer na capa da Men’s Health (link aqui). Vitambém algumas notícias sobre a modelo Andreja Pejic (linkaqui), aprimeira modelo transgénero da Vogue. São duas histórias que valem a pena ler.Porém, quando leio estas histórias de sucesso (merecido) e, ao mesmotempo, assisto a uma luta permanente (na qual eu me encaixo) contra opreconceito corporal, contra a ideia de um modelo perfeito, contra aideia de um mundo uniformizado, a favor de um mundo em que cada forma deser existe na sua completude e presença, interrogo-me.Pergunto-me se, ao mesmotempo, em simultâneo com a dificuldade acrescida por um indivíduotranssexual entender a sua realidade (independentemente do critériosocial), não traz uma dificuldade anexa que passa pela noção de ser confundível.As formas de descriminação corporal são mais que muitas, por todosos factores, por todas as diferenças. Seja pela cor, forma, traços,olhos, cabelo, entre muitas outras… Somando todos estes pontos, um aum, o que vejo no fim é alguém que não é humano… é umasobreposição de ideias sem fundamento, vazias de existência… semindividualidade. Não consigo, sequer, visualizar mentalmente um homemou uma mulher com todos os traços convencionados ideais…simplesmente, não consigo - certamente e à luz de alguém, essa pessoairia ter algo não ideal… bastaria alguém.Constantemente a visão de mim enquanto mulher confundível é trazidapara cima da mesa, porém… que mulher? Quantas mulheres diferentesexistem? Todas. O que é ser confundível? O que é ser uma mulherbela?No fim e em jeito de conclusão, apenas quero ser eu naquilo que tenhodireito, naquilo que menos sofrimento interior me causa. No fim, apenasquero acordar de manhã sentir-me confiante por ser quem sou,independentemente de quem sou e de como sou vista. Apenas, feliz.Dani",
      "url": " /ser-confundivel/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "Geral"
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    "120": {
      "id": "120",
      "slug": "leitura-o-processo",
      "title": "Leitura - O Processo",
      "content"	 : "”- A sua pergunta, Senhor Juiz de Instrução, a inquirir se sou pintorde prédios… aliás, o senhor não me perguntou nada, atirou-me essadeclaração… é reveladora do conjunto do processo intentado contramim. Pode objectar que não se trata de modo nenhum de um processojudicial, e tem inteiramente razão, porque não se trata de umprocesso judicial, salvo se eu lhe reconhecer essa qualidade. Ora,reconheço-a neste instante, por compaixão, por assim dizer.(…)” - JosephK. em O Processo.O Processo é a minha segunda obra de introdução ao mundokafkiano. Em resumo, Joseph K. é conduzido através de um processojudicial desprovido de qualquer explicação. K. é um bancário astutoe inteligente que se vê rapidamente nas teias de um sistema socialopressor e burocrático. Simultaneamente vê-se envolvido com umasérie de outras personagens, também elas, confusas e absurdas.Falar da obra de Kafka é sinónimo de construir alegoriascomplexas sobre a sociedade. Porém, publicado em 1925 - após a mortedo autor - O Processo é um exemplo de uma imagem social que vale apena reflectir - passados quase 100 anos as dificuldades de um estadode direito ainda são bastante concretas. As várias personagens daobra personificam um sistema social disfuncional, incapaz de sepreservar face às influências, ao poder e ao domínio.Lembrar da existência de obras distantes no tempo é coexistir com umpresente que já foi retratado e vivido. É impossível viajar no tempocom tanta fieldade e minuncia. Com isto, acredito que é importantetrazer importantes lições para cima da mesa e que o debate socialsempre esteve e sempre estará na ordem do dia.Boas leituras,Dani Bento",
      "url": " /leitura-o-processo/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "Leitura"
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    "121": {
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      "slug": "entrevista-jornal-i",
      "title": "Entrevista - Jornal i",
      "content"	 : "Em Março (2015) fui contactada para uma entrevista no Jornal i para um formato de reportagem,que foi publicada em papel e online.Queria apenas deixar aqui o link para o mesmo:Daniel e Daniela. A história de uma rapariga que expulsou o rapaz que vivia dentro dela, por Bárbara Marinho.Dani",
      "url": " /entrevista-jornal-i/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "Pessoal"
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    "122": {
      "id": "122",
      "slug": "mono-poli-amar",
      "title": "Mono, Poli. Amar!",
      "content"	 : "Nos últimos anos reparei que os temas relacionados com as relações e o seu formatotêm ganho visibilidade pública. Justifica-se peloaumento do acesso à informação e pela crescente capacidade de cada umassumir (de uma forma positiva) os seus sentimentos perante o mundo que orodeia.O mundo que está constantemente em mudança e é normal que, dia apósdia, surjam novas questões sobre a vivência de cada um.Interroga-mo-nos com alguma frequência sobre a validade dos nossospensamentos, dos nossos ideais e da nossa capacidade de viver o mundoda forma mais feliz que conhecemos. Concluímos que não éfácil dar uma resposta sobre o que é correcto ou errado. Por vezes acreditoque dificilmente seremos capazes de ter essa resposta, mas por outro ladosinto que a sua ausência permite-nos ser mais verdadeiros.Num post anterior (aqui) escrevi, de uma forma resumida,sobre a minha visão do modo como me apaixono pelo mundo.Porém, apaixonar é apenas parte. Relacionar é mais exigente, namedida em que não envolve apenas nós próprios, mas o outro. A Internetpermitiu-me descobrir que não estou só na minha forma de pensar.De uma forma geral, numa visão normativa do Ocidente, crescemos sobreum padrão relacional de pares. Todo o sistema legislativo e social édesenvolvido sobre a premissa do contracto bilateral entre duaspessoas. E até há alguns anos atrás, sobre a premissa mais restritivade um contracto bilateral entre duas pessoas de sexo oposto, homem emulher. Sabemos que nem todas as sociedades se regem poreste princípio. Surge daqui os termos Monogamia(nomeadamente cultura Judaico-Cristã) e Poligamia.Dentro deste último, o mais comum é a Poliginia.A sociedade Ocidental resulta, principalmente, de um sistemahetero-patriarcal. De um sistema que estimula a iniquidade dosgéneros, que subvaloriza o papel da mulher e coloca o homem no centroda evolução social. Ao longo do último século temos observado umagrande conquista das mulheres, uma posição social cada vez mais igualitária emais digna. Conseguiu-se quebrar muitos dos estigmas relacionados com oseu papel social. Mais tarde iniciou-se uma nova luta, o reconhecimento da relação (amor) homossexual.Nos últimos anos assiste-se a uma nova quebra dos paradigmasdas relações. Acredito eu, para melhor. Surgem os movimentos quedefendem o Poliamor. Pordefinição, a monogamia tem subjacente a premissa deque o amor é único e que não pode ser particionado. O movimentopoliamoroso desconstrói esta definição e, na minha opinião,evolui sobre o fundamento de que as relações amorosas não sãoentidades contáveis e mensuráveis. Quero eu dizer que o amor éconstruído emocionalmente e, como tal, o desenvolvimento de um modelopreciso e único para dimensionar uma relação é impossível.Pessoalmente, ao longo dos anos, sempre me fez alguma confusão a ideiade que o amor teria de ser único, que o amor tivesse regras restritas efundamentais para existir, que não fosse mutável e volátil. Era-meimpossível sentir-me mudar e saber que determinadas emoções nãomudavam. Simplesmente, sempre acreditei que amar em pleno alguém nãome impedia de amar em pleno outro alguém. Do outro lado estão pessoasdiferentes, entre nós existem relações diferentes e, assim, amoresdiferentes. No entanto, acreditar-se que a relação não monogâmicaé possível, na minha visão, não implica obrigatoriamente vivervários amores, isso seria trazer outro modelo restrito de vivência.Acredito sim que, viver o poliamor, é ter a oportunidade de optar,consentir, ser responsável e, acima de tudo, pensar na felicidade dequem gostamos. Permitir-me amar mais do que uma pessoa não me retira aresponsabilidade de respeitar cada pessoa que amo e tomar opções, senecessário. A ética da relação está na capacidade de todos osintervenientes poderem sentir felicidade e sentirem-se amados e nãocada um fazer-se valer pelo que acredita.Por fim, com o devido cuidado, sou poliamorosa, mas mais do que ser ouacreditar no poliamor, acredito em quem amo. Acredito que no amor, é anossa capacidade de optar, de gerir, de ser correcto, de ser umacompanheira, que vence. O conceito vale a designação, no sentimentovale a felicidade de amar e a felicidade de ser amado.Dani",
      "url": " /mono-poli-amar/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "Geral"
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    "123": {
      "id": "123",
      "slug": "bi-pansexual",
      "title": "H*, Bi, Pansexualidade",
      "content"	 : "Eu gosto. Eu sinto. Estas são duas frases que emprego frequentemente. Na minha visão são fortes e contêm um significado bastante profundo. Gostar ou sentir é emocional e, como tal, para mim é difícil racionalizar, ainda que possa tentar explicar, ainda que possa tentar exprimir. Sentir é interior a mim, gostar extende o sentir. É algo primário, antevem qualquer espécie de pensamento racional, construído. Ainda que seja básico.Uma das dúvidas que frequentemente surge em conversas sobre mim relaciona-se com os meus gostos, com as pessoas de quem gosto e de quem posso vir a gostar. Entendo que, se no passado já me era complicado explicar, hoje essa dificuldade aumentou devido ao processo pelo qual estou a passar.A língua com que nos expressamos dificulta-nos quando, muitas vezes, se tenta colocar significados que podem não ser tangíveis por todos. Torna-se um obstáculo. Assim, quando retratamos emoções e sentimentos, estas definições tornam-se redutoras e simplistas. Permitem-nos comunicar, mas torna-se necessário mais do que isso.Após um período de adolescência, no qual coloquei uma série de dúvidas em relação ao que sentia pelos outros, tornou-se claro para mim que não conseguia distinguir aquilo que sentia pelas raparigas que me rodeavam e pelos rapazes que tinha próximo. Era claro para mim que, do ponto de vista interior, sentia-me capaz de ter uma paixão com ambos. Sentia-me capaz de perspectivar um futuro, uma relação duradoura. Este sentimento não era coerente com a muitas das pessoas que conhecia. Maioritariamente, as raparigas só sentiam isto em relação a rapazes e/ou vice-versa. Sentir não me era confuso, saber que os outros não conseguiam sentir o que eu sentia é que me era estranho. Arranjei um termo, o mais próximo que consegui. Bissexual. Foi assim que me assumi muitos anos.Com o tempo, com o conhecimento, com o entendimento do mundo que me rodeia, percebi que este termo era redutor em relação ao que eu sentia, bastante redutor. Passei a usar esta definição apenas para conseguir comunicar com o mundo. É um termo simples e que supõe a generalidade dos casos de acordo com a formação essencial que as pessoas têm.Descobri, há já algum tempo, o termo pansexualidade. Na sua completude, é menos limitante. No entanto tem uma complicação, a fraca difusão deste conceito conduz a perguntas sem sentido… isto inclui, por exemplo, perguntarem-me se “pansexualidade está relacionada com animais”… o que é falso. A pansexualidade está relacionada com a descontrução do género, do binarismo Homem, Mulher. A minha capacidade de gostar, de sentir e de me apaixonar não se aprisiona na definição clássica do género, mas sim na generalização do termo Pessoa. Eu apaixono-me por pessoas, sinto-me atraída por pessoas. Por pessoas defino todo o conjunto de características que as constituem, desde o género biológico, à identidade de género, à expressão de género, à orientação sexual ou a qualquer outro traço intrínseco. Escrevi (aqui) sobre as novas Teorias Queer, a pansexualidade dá uma resposta simples quando se junta a identidade de género, a orientação e a expressão.No fundo, e essencial a reter, gosto de Pessoas. Como em qualquer outra questão, existem preferências, existem particularidades que mexem mais comigo do que outras. No entanto, permito-me. Não me sinto reduzida pela paixão que me atinge, pois é essa paixão que sinto viver e é com quem me apaixono que tenciono sentir. As suas partes são importantes para mim na medida em que me transmitem o conjunto, a unidade. Porém, características particulares (como, por exemplo, a aparência ser feminina ou masculina) não me limitam, nem circunscrevem o modo como essa pessoa é potencialmente atraente. Ela é, para mim, ela é.Eu gosto de pessoas.Dani",
      "url": " /bi-pansexual/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "Geral"
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    "124": {
      "id": "124",
      "slug": "eu-sou-mas-tambem-o-sou",
      "title": "Eu sou, mas também o sou",
      "content"	 : "Tenho-me perguntado algumas vezes o que é pertencer a uma minoria ou pertencer a uma maioria. Não tenho formulado esta questão na visão social, política ou judicial, mas apenas de uma forma pessoal e interior. O que significa para mim ser ou não uma minoria?Pessoalmente, é-me importante perguntar isto, é-me útil ter alguma consciência deste aspecto da minha vida. Questiono-me se, abstraíndo-me de toda a visão social, política e judicial, o facto de estar numa minoria, ou numa maioria, tem algum peso significativo na minha vida interior, na minha consciência de mim mesma.Eu gosto de pensar em mim como um ser único, com um conjunto de características combinadas de uma forma única. O mesmo vejo em todas as outras pessoas. São únicos na sua construção e vivência. Do ponto de vista da minha interiorização sou tão minoritária como qualquer pessoa que encontro diariamente, qualquer. Cada um é em si um mundo inteiro. Uma realidade, uma verdade. Ao mesmo tempo, os outros são para mim, apenas “a minha verdade”, o meu resultado, a minha interpretação. Há quem use a expressão “cada um sozinho na sua loucura”.Como tal, vejo em mim uma realidade possível que também o é nos outros. Da mesma maneira que os outros alcançam a felicidade eu também, da mesma maneira que os outros erram eu também.Podem não haver muitas pessoas com um grau de semelhança grande em relação a determinados aspectos, mas estou próxima em muitos outros. Tenho, como qualquer um, o potencial de ser diferente. Tenho, como qualquer um, o potencial de ser inteiro. Porque sou inteiro. Não sou parte. Ao mesmo tempo, não sou isenta do erro, não sou isenta da desilusão, do mau feitio, da má educação, da incoerência, da dúvida ou do máu carácter.Pertencer a um grupo minoritário por qualquer questão não me dá o ónus da bondade ou da qualidade. Apenas diz que tenho um aspecto não comum. A minha capacidade enquanto pessoa é tão grande quanto o mundo que me rodeia… para o bem e para o mal.Dani Bento",
      "url": " /eu-sou-mas-tambem-o-sou/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "Geral"
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    "125": {
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      "slug": "hoje-invisibilidade-na-visibilidade",
      "title": "Hoje, invisibilidade... na visibilidade",
      "content"	 : "Hoje, pessoalmente, foi um daqueles dias… A nível pessoal os últimos meses têm sido positivamente intensos, porém (e como é óbvio) nem sempre os dias são melhores do que os anteriores. Há momentos. Há bastantes momentos. Por vezes, há momentos rápidos, outros momentos longos, outras vezes não existem. Hoje, pessoalmente, foi particularmente mau.O relato de um caminho não pode ser construído apenas das conquistas ganhas sem medo. Também é importante clarificar que existem buracos e barreiras e que, por vezes, andamos ligeiramente para trás. Não porque não sabemos para onde vamos, mas porque é necessário repensar determinadas ideias ou, porque simplesmente precisamos de ganhar alguma energia e observar com atenção os obstáculos.Os últimos dias têm sido tensos, soma-se à questão pessoal a época de exames, a gestão de tempo, a disponibilidade mental e emocional para, também, continuar a manter um ritmo de trabalho, no emprego, compatível com as exigências. É, deste modo, necessário entregar-me a um esforço maior o que aumenta a probabilidade de ter um momento menos bom, de ter mais dúvidas ou ter mais dificuldade em estar em pleno.Após uma noite sem dormir, a minha sensibilidade durante o dia disparou e, pela manhã, no momento em que coloquei um pé fora de casa foi evidente que iria ter um dia difícil. Nós somos seres sociais e, em parte, é difícil desligarmo-nos da aceitação social e da integração em sociedade. O problema de viver uma “questão” de difícil acesso emocional não é só relativo à dificuldade em procurar empatia na resposta do outro, mas inclusive relativo à dificuldade em compreender o nosso próprio estado. Para mim (e falo disto com base na minha experiência pessoal), é importante desvincular o momento e a “questão”, a dúvida e a pergunta. Importa-me entender que o momento é apenas um momento, é uma dificuldade pontual que pode estar associada a muitos factores (internos ou externos) e não um problema de integração social. Importa-me, também, compreender que a dúvida não põe em causa a minha pessoa, mas que me ajuda a desenvolver mecanismos para gerir determinadas emoções. Esta consciência permite-me sentir (tristeza, cansaço, apatia…) sem colocar em causa todo o progresso que tenho feito ao longo do tempo. Permite-me tornar claro entre o que é a dificuldade real na sociedade e aquilo que é sentido apenas por mim e que não corresponde, na generalidade, ao sentimento do outro.Como já referi num artigo anterior a minha imagem “exterior” levanta muitas questões nas pessoas que me rodeiam (principalmente as que não me conhecem), mas é algo transitório e, mesmo que não fosse, é uma expressão social tão válida quanto qualquer outra. Os comentários, as vozes que vão caíndo aqui e ali. O meu objectivo é sensibilizar (educar) e não impôr aquilo que sinto e, como tal, penso que a falta de informação apenas pode ser combatida com a transmissão da mesma e é sempre o que procuro fazer. No entanto, o coração às vezes fala mais alto (que se nota em alturas de maior cansaço) e a sensibilidade aumenta. Comentários ligeiros tornam-se num turbilhão pessoal.Na escola (talvez porque a malta é nova) tenho tido sempre algumas reacções meio adversas. Passei a manhã na escola (exame) e, apesar de não acontecer nada, fui eu que acabei a sentir a adversidade. Fui eu que acabei a sentir diferença onde ela não existia, fui eu que acabei a sentir afastamento onde nada se mexeu. Fui eu que me senti deslocada, não integrada, sem lugar nenhum. Este sentimento perdurou o resto do dia com o acumular do cansaço. Quase todos os segundos foram contados para que me pudesse esconder o mais depressa possível. Ninguém me excluíu, ninguém me tratou mal. Fui eu que o fiz. Fui eu que, cansada, não consegui mandar no coração e evitar eliminar-me da sociedade, destruir a minha presença e, com isso, levar a reboque uma série de pensamentos cíclicos e vazios.Hoje, não foi o mundo a fazer-me mal, fui eu a sentir o mundo na visão que por vezes tenho de mim. Estes buracos também se apanham, buracos que podem ser mais fundos, mas que importa perceber que é um momento, é finito.Amanhã é outro dia e será melhor que o dia de hoje. Aos poucos, a energia restaura e o sorriso volta.Já agora… hoje marca-se o Dia da Visibilidade Trans. Marca a data da primeira campanha brasileira contra a transfobia em representação de todos os grupos que subvertem a heteronormatividade e cissexismo das relações humanas.Dani Bento",
      "url": " /hoje-invisibilidade-na-visibilidade/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "Geral"
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      "slug": "apenas-um-desabafo",
      "title": "Apenas um desabafo",
      "content"	 : "Nos últimos dias falou-se e discutiu-se o combate ao terrorismo, as medidas antiterrorismo e a limitação da liberdade. Discutiu-se todas as medidas possíveis e imaginárias que, em anos e anos, nunca se falaram (inclusive, a pena de morte?!). Tornou-se necessário. Tornou-se urgente. Tornou-se fogo de primeira linha. Foi só e, apenas, agora que o terrorismo passou a existir. Foi só e, apenas, agora que os mal feitores jihadistas vieram atrás das suas vítimas. Foi agora que o mundo acordou para o terrorismo, #jesuischarlie acordou o mundo.Porém, há uma espécie de terrorismo que ninguém retrata. O terrorismo legalmente aceite. O terrorismo que não mata, mas mói, sacrifica. O terrorismo sofrido. O alvo: todos, sem excepção. Este terrorismo é praticado no dia a dia, nas nossas casas, no nosso local de trabalho, no nosso local de laser. Todos, sem dúvida, todos, somos terroristas legalmente aceites. Somos. Somos parte e fazemos parte de um sistema cruel. Somos parte e fazemos parte de um conjunto de leis. Leis essas, impostas por nós todos. Leis essas, ricas na linguagem, fracas no empenho.Reduzimo-nos à insignificância, reduzimos o problema à não existência. Praticamos o acto.A este terrorismo eu chamo descriminação. Todos os dias, os males da sociedade, os limites, as imposições, os actos falhados, a não critícia. A insignificância do outro, a insignificância de ser. Todos os dias acordamos e discriminamos, todos os dias falamos e discriminamos, todos os dias deitamos e discriminamos. Porquê? A indiferença do outro, a indiferença de ser.Este terrorismo recruta, convida, incentiva, mas não se mexe. É um terrorismo que nada faz… mas se propaga, como um virús, como uma doença malígna, maior do que aquela considerada por muitos. Este terrorismo não precisa de interacção, nem de armas, nem de contacto. Existe, pela pura ideia de existir. Um terrorismo que se entranha, que consome, que penetra em cada célula do corpo desde o primeiro momento de vida. Porém, talvez ainda na geração da vida.Este terrorismo ontem aplicado, na sua maior força… legislar… Um terrorismo legal. Um terrorismo escrito no papel. Vocês não são como nós, não porque eu não gosto de vós, mas porque está no papel. Vocês são diferentes, desapareçam, saiam. Vocês não podem, desapareçam. O vosso amor não serve, o vosso amor é para outros, para os da vossa raia, saiam daqui! A vossa ideia, essa ideia porca que têm, um mal… um mal que caiu ao mundo, essa deficiência, vão embora, desapareçam.A todos os terroristas de hoje, um cumprimento. A todos os terroristas sociais de hoje, um obrigado.Dani Bento",
      "url": " /apenas-um-desabafo/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "Geral"
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      "slug": "queer-existencia",
      "title": "Queer ou existência",
      "content"	 : "No último sábado tive a oportunidade de ir a um evento bastante interessante, o Chá das Bichas, organizado pelas Bichas Cobardes. Um dos temas propostos à conversa foi o género não binário ou, aquilo a que na corrente actual se designa pela Teoria Queer. Há algum tempo que queria escrever sobre este assunto, mas acabei por ter a oportunidade de juntar mais algumas informações interessantes.Existe na Wikipédia uma definição bastante resumida de Genderqueer e outras que caiem dentro das concepções do género não binário. Antes de mais, é importante dizer que estas definições tentam aproximar uma ideia geral e de nenhuma forma devem ser limitativas na sua vinculação a um indivíduo. Muito pelo contrário, são definições com um nível de generalidade bastante alargado para que permitam encerrar em si um conjunto fundamental de visões sobre a identidade de género.Resumindo, o género Queer (ou género não-binário) é uma definição alargada para englobar todas as variações de identidade de género que não sejam exclusivamente associadas ao género biológico (binário homem/mulher) e cisnormatividade. Desta forma separa-se o sexo anatómico (que é marcado essencialmente pela genitália) e a definição do papel de género na sociedade.No caso conforme, ou seja, quando o sexo anatómico e a identidade de género estão em consonância, diz-se cis-género (cishomem, cismulher). Por outro lado, tradicionalmente, diz-se trans-género (homem transexual, mulher transexual) quando a expressão/identidade de género não estão de acordo com o sexo anatómico e/ou atribuídos à nascença.Actualmente, a definição binária é redutora e estrangula a expressão e identidade de género à sua simplicidade que, por sua vez, é extremamente dependente da cultura e sociedade, pois traça expectativas em relação ao papel de género. Uma demonstração deste estrangulamento é a procura constante, no caso dos transexuais, da normativa binária. A este afunilamento chama-se cisnormatividade. Tornou-se necessário repensar no enquadramento do género dando-lhe liberdade, surgindo a Teoria Queer. De um modo simples, defende-se que a identidade e expressão de género são normalizadas pela sociedade e que impõem restrições à própria existência do indivíduo. O conceito homem/mulher está intrínsecamente ligado aos papéis na sociedade e ao descontruir estas bases foi importante reestruturar a forma como se olha para o género.Um dos problemas levantados por esta nova concepção surge na língua. No nosso caso em concreto, no Português, não contém pronomes neutros, o que obriga a uma forma de tratamento binária. Existem, contudo, várias sugestões para alteração linguística, mas nenhuma se demonstra, até agora, capaz de ter um efeito vantajoso - seja pela dificuldade escrita, seja pela dificuldade fonética. Outro ponto interessante de analisar é a importância da identidade de género na sociedade. Do ponto de vista prático e social (ignorando a questão biológica), o que significa ter um F ou um M no bilhete de identidade? No emprego, nas finanças, na escola, etc, qual é a função do F/M?Vale a pena pensar no impacto que a sociedade tem na expressão de género e, consequentemente, no impacto na identidade. Os papéis sociais  estão bastante limitados (apesar de temos vindo a verificar conquistas significativas devido aos movimentos feministas), o que torna a sociedade ainda bilateral, tornando extremamente difícil a integração de pessoas que não se conseguem encaixar neste perfil normativo.Na minha opinião, não querendo sentir que se quer criar mais caixas (mais definições) para colocar as pessoas, acho que era importante haver mais alguma literatura sobre este tema. É socialmente importante desmistificar e reavaliar determinadas bases de construção. Permite-se um mundo mais tolerante, mais plural, mais próximo do indivíduo e menos discriminativo perante a diferença.Para referência, o Podcast das Bichas Cobardes sobre o tema GenderQueer aqui tem uma explicação acessível.Dani Bento",
      "url": " /queer-existencia/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "Geral"
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      "slug": "a-expressao-de-charlie",
      "title": "A Expressão de Charlie",
      "content"	 : "Mantenho um blogue activo, gosto de comunicar e aprecio dar a minha opinião, mesmo quando pouco ou nada conta. Como tal, não podia deixar de escrever aqui uma referência aos últimos dias, aos episódios que nos têm assaltado a televisão a cada minuto e, também, a solidariedade e contestação que marcou estes acontecimentos. #jesuischarlie ou #charliehedbo é a hashtag mais usada nos últimos dias… para o bem e para o mal.Tenho seguido apenas algumas notícias, alguns artigos de opinião e, entre muitos, existem posições bastante interessantes sobre estes dias. Charlie Hebdo podia ser um jornal satírico como outro qualquer se não tive já sob protecção policial devido aos atentados em 2011. Charlie Hebdo podia ser um jornal satírico como outro qualquer se não tivesse a destreza de fazer humor… com tudo. Charlie Hebdo podia ser muitas coicas.Entre opiniões, comentários e mensagens, existem duas que gostava de destacar:  qual o significado deste movimento solidário perante o Charlie Hebdo e não para com todos os outros que ocorrem todos os dias?  a culpa do ataque às instalações do Charlie Hebdo foi, em parte, culpa do próprio jornalRefere-se em relação ao primeiro, a apatia da generalidade do povo e a propósito do segundo ponto, a dúvida sobre a liberdade de expressão. Decidi juntar estes dois pontos porque penso que estam intimamente ligados, não pelo caso particular do Charlie Hebdo, mas pela necessidade da expressão para o movimento. Pessoalmente, este caso não assume maior importância que muitos outros, mas por outro lado, assume a importância do seu significado perante o mundo. É, na minha opinião, importante pensar na consequência e não na causa. Depois do 7 de Janeiro de 2015, independentemente do facto do jornal satírico ter procedido bem ou mal ao longo de todos os últimos anos, é a consequência de que se tira daqui. Deixa de interessar a razão ou a actuação jornalística dos ilustradores, mas sim, a consequência em todos os outros meios públicos de informação.Segundo uma notícia do Público, alguns jornais estão a fazer auto-censura dos conteúdos que publicam. Segundo a mesma referência, “é preferivel descrever a imagem do que publicar a imagem integral.” - ou, como quem diz, deixamos a imagem ao vosso critério. Publica-se, ao longo de muitos artigos, o medo. É, neste ponto, que penso que o limiar da liberdade de expressão se encontra. Numa visão extremada, pode-se ser criterioso e afirmar que a liberdade de expressão não pode ir de encontro à liberdade da vivência do outro, o conteúdo expresso está por isso limitado. Noutro sentido, pode-se dizer que a liberdade de expressão deve ser total e, deve ser permitido não haver qualquer filtro sobre as ideias que se expressam. Estas são visões no limite. Pergunto-me, no entanto, outra coisa. Independentemente da mensagem correcta ser benéfica, prejudicial, etc, não será a liberdade de expressão, tal como outro direito, apenas a manifestação interior da possibilidade de livre e expontanea expressão? Ou será que a defesa da liberdade de expressão tem de cair no extremo? A liberdade de expressão, ao contrário do que se manifesta, não se restringe a possibilitar qualquer um a expressar o que quer. A liberdade de expressão também dá ao indivíduo o ónus da consequência do que diz. Com isto, cria-se os métodos legais para proteger a liberdade de cada um e das consequências da liberdade do outro. Utopicamente, penso que seria este o objectivo da expressão “liberdade”.Se as publicações eram ofensivas, algumas. Se existe meios legítimos para contestar essas publicações? Existem. Nada, mas nada justifica o que aconteceu. Isto é criar medo e opressão. Fundamenta-se que a religião é algo que não pode ser alvo de satira, pergunto-me, porquê? Existem muitas outras questões intrinsecas a cada indivíduo que são satirizadas, são menores que a religião? Não, não são. As pessoas têm definições próprias do que é certo e é errado, daquilo que se pode e daquilo que não se pode, existe divergência em muitos pontos.Pessoalmente, acho que a expressão está do lado da maioria dos grandes movimentos que nos trouxeram estabilidade. Pessoalmente, exprimir não é tirar a vida a ninguém, a distância entre escrever ou desenhar uma crítica, ainda que ofensiva, até andar na rua com medo de levar um tiro… é grande, bastante grande. #JeSuisCharlie foi apenas, entre muitos, a manifestação da solidariedade perante qualquer movimento que se crie. Quando qualquer um de nós levantar um cartaz na rua em tom de protesto com alguma coisa, lembremo-nos… há sempre alguém que está contra a nossa opinião. Quando qualquer um de nós gritar que “é”, lembremo-nos, nem todos gostam do modo como somos. #CharlieHebdo não era amado por muitos, mas é na discordância e na capacidade de resposta que se conquista. Tirar a vida a alguém foi, é, e apenas será, cobardia.Dani Bento",
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      "slug": "olhares-em-perspectiva",
      "title": "Olhares em Perspectiva",
      "content"	 : "É com grande satisfação que posso dizer que o meu “processo” está a correr bem e, no hospital, o meu nome já foi oficialmente alterado para Daniela Filipa. Ainda que seja apenas mais “uma letra” no nome, é a marca de um começo, de mudança, de construção.Olhando para estes últimos meses, os mesmos que me mostrei ao mundo, os momentos que me afirmei publicamente, vejo que a minha construção pessoal tem sido bastante positiva. É uma evolução que depende muito de mim e do modo como me vou sentido dia após dia. Entre todo este caminho pessoal há toda uma interacção social que decorre do meu dia a dia, da minha presença, da minha existência.Felizmente, as minhas maiores dificuldades têm sido aquelas que me tocam interiormente e não propriamente as exteriores. Se há discriminação? Há. Se tenho conseguido contornar essas dificuldades? Tenho. O ambiente exterior nos locais de maior importância têm sido favoráveis. Contudo, nem tudo é agradável. Existe continuamente um desafio interior para filtrar algumas afirmações ou comportamentos de algumas pessoas. Acredito que a minha forma de ver o mundo e de interagir com ele seja positiva e que isso contribua em grande parte para o facto de não arranjar continuamente muitos problemas, mas vejamos situações menores e engraçadas:  Ir no metro, como todos os dias vou, e ouvir e ver duas senhoras a discutir em bom português o que eu era e, inclusive, a fazer apostas.  Estar no Pingo Doce, ouvir um pai balbuciar algumas frases “feias” para a filha e mulher. Colocou a miúda a olhar para mim intensamente.  Estar no Centro Comercial, passar uma mãe com a filha e o marido e dizer a rir “Oh filha! Já viste se eu agora começasse a vestir o teu irmão com saias? AhAh”  Estar no café sentada a escrever e ter um senhor ao meu lado que apenas dizia “Bichas, estas bichas aqui… bichas… bichas…”  Ver muitas vezes as pessoas olharem para mim e comentarem em voz baixa para a pessoa que está ao lado. Sim, eu sei ler os lábios.  … poderia acrescentar aqui uma série de episódios destes…Estes, sem dúvida alguma, serão os mais agradáveis. Já ouvi algumas frases piores, bem piores. No entanto há uma coisa que tem funcionado. Não me sentir tensa, não me sentir nervosa, manter a postura e manter o sorriso. Em muitas destas situações, quando devolvo um sorriso - principalmente quando há crianças envolvidas - e deixo um “Olá :)” simpático, as pessoas ficam sem resposta e param de comentar e, algumas vezes, até acabam por esclarecer alguma dúvida comigo.Para situações em que revejo pessoas que não sabem da minha situação, seja porque não as vejo há muito tempo, não lhes falei do assunto ou seja porque vou a um local como cliente e sempre apareci como “Daniel” e agora apresento-me de modo ligeiramente diferente, dou o espaço da surpresa. Acho que seria irrealista da minha parte acreditar que não haveria uma reacção primária do outro lado, mesmo sendo uma pessoa muito tolerante e/ou de mente aberta. Dando esse espaço é fácil integrar uma conversa simples, sem grandes voltas, que me permita falar do nome Daniela e da minha nova postura no mundo.Acredito que muito do processo pelo qual eu passo é facilitado se eu incluir nele a ajuda que devo dar para permitir às pessoas que me rodeiam me entenderem. Acredito que, mesmo que por vezes seja cansativo, um dos passos passa sempre pela educação que posso dar. A informação não aparece do nada e é importante eu transmiti-la na medida das minhas possibilidades.Pode ser que um dia, quando tudo isto for ensinado desde cedo, não haja necessidade de explicar, de formar.Num mundo em que ser transgénero tem igual valor a ser cisgénero.Num mundo em que trans e cis só está relacionado com o processo e não com o ser.Dani Bento",
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      "title": "Resoluções para 2015",
      "content"	 : "Ano 2015. Espero que as entradas no Novo Ano tenham sido recheadas de eventos óptimos e de animação. Faltam 364 dias para 2016 e não há tempo a perder para pôr em prática aquela lista enorme que todos os anos se faz: as resoluções para o ano seguinte.A minha lista já anda a ser construída há algum tempo, uma lista mental. Alguns dos seus items já começaram a ser colocados em prática, é no momento que se começa. Não sou apreciadora de marcar tudo para um tempo futuro.Contudo, só queria deixar esta mensagem de bom ano novo para todos e que muitos mais artigos venham por este blogue! :)Dani Bento",
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      "title": "Pensamento sobre a Indiferença",
      "content"	 : "O Natal já passou e o Ano Novo está a chegar. Festiva, mas também uma época de reflexão, de olhar sobre o ano e de perspectiva sobre o ano seguinte. E, não sendo excepção, acabo também a reflectir um pouco nos tempos que têm passado, nas ideias e naquilo que vejo para o futuro.Dando continuidade a muitos dos artigos que tenho escrito neste blogue, uma das perguntas que tenho levantado nestes dias é se, de facto, passar por determinados processos (como aquele que estou a passar agora), tornou-se mais fácil (ou simples) por ser mais “tolerado/compreendido” ou, se simplesmente, a sociedade actual é, também, mais indiferente a uma série de questões (é preciso ter em conta que não pretendo aqui fazer uma generalização, mas sim apenas uma observação da minha experiência pessoal).Como já referi em alguns textos anteriores, penso que a facilidade de comunicação à distância tem aumentado a distância afectiva das pessoas. O acesso à informação é generalizado na maioria dos países desenvolvidos e, com isso, muitas questões que anteriormente pareciam complicadas tornam-se hoje bastante mais claras e mais simples de entender. Há, também, maior facilidade em encontrar “o semelhante” o que, em muitas situações torna-se benéfico - a sensação de não ser único na vivência, a empatia.Por outro lado, se antigamente muitas questões eram mal aceites socialmente, vistas como doença ou problema do indivíduo, hoje numa escala diferente existe um preconceito mais violento e agressivo. Não que tenha sido alguma vez mal tratada, mas é um reparo que faço quando converso com pessoas em faixas etárias muito diferentes.Uso a expressão “tolerar” por uma simples razão. Distância. Até que ponto, “a tolerância” é positiva? Explicando o que quero dizer. Quando se refere causas, o direito à igualdade de género, à igualdade na orientação sexual, ao direito social, o direito à reinserção na sociedade… qualquer questão que implique nível de aceitação social, estamos a referir-nos a situações que envolvem uma luta interior primária muito grande. Quando se fala na tolerância, ou se usa a expressão “as pessoas hoje aceitam bem”, “hoje é mais fácil”, não nos acabamos por esquecer que apesar do mundo exterior, a luta interior é sempre complicada e é nessa luta que a dificuldade maior reside? Não será que, inconscientemente, acabamos a minimizar uma coragem primária mais forte do que qualquer presença social? É a versão contra-posta da expressão “não ligues ao que as pessoas dizem”… é verdade, porque muitas vezes o suporte necessário não é para o que a sociedade vê, mas para o modo como nos aceitamos.Penso, a tolerância aumentou, mas simultaneamente sinto que a indiferença não ficou atrás.“Ser ou não ser é uma questão tua, ninguém tem nada a ver com isso”, quem não ouviu já este conselho? E quantos de vós não pensou “mas é com a minha questão de ser que me refiro…” e, simplesmente, achou que não valeria a pena adiantar mais o assunto.Sinto que, após escrever estas linhas, não fui clara o suficiente, talvez pelo estado de espiríto natalício. Porém, fica a dica.Dani Bento",
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      "title": "Tudo é mais fácil...",
      "content"	 : "Tudo é mais fácil. Hoje, não ontem, não anteontem, tudo é mais fácil. Na realidade, tudo parece mais fácil. Este é um pensamento de quem utiliza um simples blogue como meio de comunicação, um meio de conseguir exprimir as suas ideias, as suas visões e algumas conclusões do dia a dia. A comunicação, hoje, é mais fácil.Não querendo de forma alguma elogiar o passado, não querendo de forma alguma trazer a nostalgia dos movimentos, não querendo denegrir a ideia presente dos dias que correm. Hoje tudo parece mais fácil. Na minha simples opinião, caindo eu própria no erro de fazer o mesmo, a facilidade que hoje se tem em atirar ideias para alguém apanhar reproduz uma incoerência incontrolável nos objectivos que se pretende alcançar.Não generalizando, sinto muitas vezes que a cada dia torna-se mais complicado debater ou obter uma resposta eficiente a um problema… Muitas palavras, pouca acção. É certo que é com alguma facilidade que fazemos chegar os problemas sociais ao mundo, é verdade que conseguimos mostrar o que está mal. Porém, muitas vezes ao fazê-lo acabamos a cair na visão contrária, no radicalismo oposto. Deixa de haver consenso.Pessoalmente custa-me ver que os problemas levantados começam a ser tantos que acabam por afastar possíveis interessados em colaborar, em ajudar. A própria ideia de ajuda torna-se por si só problemática. A conversa foi trocada por “Likes” e comentários ofensivos e radicais em meios digitais como o Facebook. Pois na realidade, naquilo que é de facto real, as pessoas não se sentam à mesa para procurar soluções. Naquilo que é importante, ninguém se olha nos olhos e diz que não concorda.A Internet tornou o mundo mais fácil, mas tornou o mundo desnecessário… tornou a ideia fútil, o pensamento idiota e a vontade um obstáculo. O mundo encontrou na Internet um local onde pode ser tudo e nada ser, pois a sua proximidade com o outro reduz-se a pouco… a muito pouco.Uma opinião pouco fundada, mas apenas um desabafo…Dani Bento",
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      "title": "A Expressão, a Identidade e a Orientação",
      "content"	 : "Expressão, Identidade e Orientação (e mais alguns) são termos comumente usados dentro da temática da sexualidade. Não irei usar a sigla LGBT, pois não queria escrever sobre comunidade nenhuma em particular. Estes termos tocam a todos, não são filosofias de vida, não são ideais. São definições que se ajustam a determinadas características. Partir da premissa que se deve falar em filosofia ou ideal de vida é, na minha opinião, errado.Escrevo sobre este tópico, dado que, com a vivência do dia a dia, tenho percebido que é frequente a dificuldade em compreender algumas diferenças significativas. Porém, é importante frizar que explicar estas diferenças não significa separar as pessoas, categorizá-las ou demarcar as diferenças de uma forma prejurativa e/ou benéfica. O objectivo é apenas elucidar para alguns conceitos que são importantes na compreensão da “pessoa”.Existem uma série de termos importantes, mas só queria desenvolver estes três. De uma forma resumida:      Expressão de Género está de acordo com o maneirismo, a forma de vestir, a apresentação, aspecto, gostos e atitudes. É social e cultural. É por esta forma que cada um expressa o seu “eu” com o mundo. Simplificando, é a forma social do género.        Identidade de Género está relacionada com a experiência interior, emocional e pessoal do “eu” para com o mundo. Pode ou não corresponder ao seu sexo biológico.        Orientação Sexual define a atração física, emocional e psicológica de um “eu” por outro indivíduo de um sexo em particular. As orientações mais conhecidas pelas comunidades são a heterossexualidade (sexo oposto), homossexualidade (o mesmo sexo) e bissexualidade (ambos os sexos).  Por vezes, sinto que existe uma clara dificuldade em distinguir estes três elementos do quadro. Nenhum deles é vinculativo na medida em que a definição de um, faz a definição do segundo e terceiro. Para que a minha opinião seja mais simples de transmitir vou juntar os termos dois a dois.Começando pelos dois últimos, identidade e orientação. É necessário e importante entender que a identidade está ligada ao eu, interior e a orientação está ligada ao outro, exterior. Qualquer forma de identidade pode-se expressar de qualquer forma de orientação. Um rapaz é hetero/homo/bi, (…), uma rapariga é hetero/homo/bi, (…), um transgénero é hetero/homo/bi, (…). Independentemente de como as relações funcionam entre si (seria outro tópico), a atracção pelo outro não se define pela visão de mim. Simplificando, penso que eu não me sinto atraída por rapazes ou raparigas por ser eu me sentir eu própria um rapaz ou uma rapariga (claro, com a resalva de que tudo isto é mais complexo, estou a tentar simplificar). Trocando os intervenientes, o outro sente-se atraído por um (ou mais) género independentemente da sua própria identidade. Nesta visão simplificada, o que altera é a relação entre estes dois indivíduos, a sua atracção implica “a identidade” do outro e, essa característica, é intrínseca a cada um.Com este último ponto podemos criar diversas possibilidades no par identidade/orientação e, nenhuma é menor que a outra, nem maior. No fundo são todas formas de gostar e amar, são resultado de juntar o eu interior com o eu exterior, a projecção interior e a projecção exterior. Todas são - usando um abuso de linguagem - equiparáveis e equivalentes. Na minha visão pessoal, estas projecções são também mutáveis no tempo, oscilatórias. Não no sentido em que não transmitem permanencia, mas no sentido de que o outro pode ou não fazer-nos descobrir em nós algo que não conheciamos. Como se costuma dizer: “eu gosto de raparigas, mas nunca sei se algum dia algum rapaz vai mexer comigo”. Esta é, talvez, uma das maiores negações. A dificuldade em entender que a absolutismo não existe (“sou, ponto”).Fazendo par entre expressão e orientação, penso que exprimir o meu género de acordo ou contra as normas e convenções sociais não é taxativo na minha visão para com o outro. É comum, em comentários, brincadeiras e em ideias mais desenvolvidas, existir uma tendência para criar permissas sobre a orientação de alguém devido à sua forma de expressão. Ainda que, em muitos casos, exista uma ligação é importante referir que não é vinculativo. A minha expressão não afecta o meu modo de ver o outro, logo não afecta a atracção que possa ter por ele. Exprimindo-me eu enquanto rapariga, rapaz, andrógeno… Ser feminino não significa gostar de rapazes ou vice versa. Expressão é isso mesmo, expressão, uma forma de ser, mas não caracteriza a forma de gostar do outro. Por outro lado, o par expressão e identidade já tem elementos mais próximos. Apesar da noção que a expressão de género está próxima da identidade é preciso ter em atenção que a expressão pode assumir contornos muito diferentes da própria identidade (o crossdressing e travestismo são exemplos claros), em que esta seja posta em causa.Na realidade, poderiamos escrever muito sobre este tópico.Levantando algumas questões interessantes, que talvez muitos não se perguntaram:      Uma rapariga transsexual que gosta de raparigas, é homosexual ou é hetero?        Um rapaz transsexual que se expressa na mesma como rapariga, qual a sua identidade?        Um rapaz que gosta de rapazes e raparigas expressa-se como andrógeno?        Um rapaz transsexual bissexual, é definido como hetero/homo/bi?  Todas estas questões têm respostas simples e… mas de entendimento pessoal mais complicado. São apenas algumas perguntas que baralham quando não se tem a informação suficiente.Dani Bento",
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      "title": "3 Anos no Charco",
      "content"	 : "É verdade, 3 anos… três anos. Fez hoje 3 anos que coloquei o meu primeiro pé no edifício da PT, em Picoas, para trabalhar com a equipa do SAPO Vídeos. Fez hoje 3 anos que comecei a conhecer a enorme família que tenho hoje. É com muito orgulho que falo de toda a equipa SAPO.Durante estes três anos aconteceram muitas coisas. Os últimos tempos têm sido recheados de mudanças, principalmente pessoais. Tenho crescido,muito. Vale a pena frizar. Mesmo muito. Em três anos já tive dias no trabalho formidáveis, outros péssimos… já fiquei frustrada, já fiquei orgulhosa, já fiquei de tudo. Porém, sinto que a minha passagem por este local tem sido vivida.Lembro-me de conhecer as primeiras pessoas no SAPO, lembro-me de andar perdida, lembro-me de pensar “onde raio fica aquela sala de reuniões…” que ao fim de 3 anos continuava a não saber… lembro-me de todas as pessoas que conheci, as que já sairam entretanto, as que continuo a falar todos os dias… aquelas que simplesmente gosto de dizer olá ou aquelas que não conheço.Parabéns a mim, pelos meus três anos! Cheios de mudanças positivas!Parabéns a todos… por me aturarem todo este tempo! =DDani Bento",
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      "title": "Uma vida normal",
      "content"	 : "Geralmente, quando se retratam assuntos LGBT, fala-se nos direitos, nas diferenças, na existência e, fundamentalmente, no papel que se tem na sociedade fora da esfera intíma. Sendo um assunto sensível, é retratado de formas muito diferentes por pessoas muito diferentes. Não é disto que venho escrever, mas sim, sobre uma coisa essencial, o direito à indiferença (um termo a usar com algum cuidado).Como referi num artigo anterior (Como nem tudo é bom) é natural que comece os meus primeiros contactos com a sociedade de uma forma mais intensa. Agora, mais do que nunca, estou numa prova de fogo social. Preciso de me integrar e integrar é, de alguma forma, viver na normalidade. É aqui, neste ponto, que retrato a palavra indiferença. O meu dia a dia é preenchido com todas as actividades rotineiras, as mesmas que anteriormente. Desde acordar de manhã, ir ao café, ir cortar o cabelo, ir trabalhar, ir ao supermercado ou ir a qualquer outro lado. Assim, é nestas situações que é necessário sentir que não existe diferença na postura, mesmo que por vezes a situação possa ser mais difícil de gerir.Exemplos práticos. Tipicamente comprava a minha roupa feminina como qualquer outra peça masculina. Como nunca me ofereci a grandes escolhas, nunca pensei realmente na expressão “provador de roupa”. Comprava, levava para casa e, na pior das hipóteses, voltava com a roupa para trocar. Ninguém entrava na minha esfera pessoal. Porém, as coisas mudam e, tal como há pouco tempo comecei a experimentar alguma roupa masculina, agora que me estou a dar a oportunidade de livremente escolher roupa, gosto de a experimentar (agora faz-me mais sentido, pois gosto do que procuro). Nos últimos tempos tenho comprado algumas coisas, mas neste último fim de semana decidi que seria interessante aventurar-me no mundo do “provador de roupa”, independentemente da minha expressão actual. Ora, o facto de estar aparentemente masculina não me trouxe grandes vantagens no tratamento, mas ainda assim, fui bastante bem acolhida na generalidade dos sítios.Experimentei roupa em várias lojas, H&amp;amp;M, Mango, New Yorker, Stradivarius (Dolce Vita Tejo) e as reacções foram geralmente neutras. A Mango e a Stradivarius são lojas femininas e as funcionárias olharam-me com surpresa, eu respondi com um sorriso, uma frase divertida e segui normalmente. Na New Yorker não havia funcionárias no provador daí não haver qualquer problema. Na H&amp;amp;M não cheguei a perceber se havia diferenciação, mas como levava vestidos para experimentar foi claro que havia qualquer coisa incoerente, nada que um sorriso não resolva. Por último, na Primark, havia claramente uma diferença entre provadores masculinos e femininos. Num primeiro contacto fiquei receosa de ter algum problema, mas falei (ia acompanhada com uma amiga) tranquilamente com a funcionária e o assunto encaminhou para uma resposta rápida e atenciosa. Os funcionários perceberam que seria “confuso” para as clientes no provador feminino e seria “expor-me injustamente” no provador masculino e, com isso, foram rápidos a ter uma solução: o provador para os deficientes - assim poderia estar acompanhada sem qualquer problema. No fim, a questão acabou por ser divertida para todos, ninguém foi desagradável. Apenas a surpresa das perguntas.É com base na experiência do dia a dia que percebemos o quanto estamos ou não preparados para ir enfrentando diversas questões. Tenho percebido que a naturalidade e um pouco de humor são, muitas vezes, o suficiente para que de uma situação de surpresa se caminhe para uma resposta simpática e atenciosa. Ao contrário do que se passou no Fitness Hut (apesar de ser uma questão prática diferente), ninguém criticou ou questionou a minha posição. Procurou-se dar uma resposta simples e clara, sem acusação ou diferenciação. O problema ficou pela questão prática e não pela “minha pessoa ou identidade”.O direito à indiferença neste contexto é crucial, é permitir que qualquer pessoa possa ter a sua vida estável e normalizada. É permitir que qualquer um possa usufruir do mesmo sem ser descriminado pela diferença, pois essa diferença é pessoal. O direito à indiferença é não haver distinção entre A, B ou C, quando o direito respeita apenas à condição “ser letra”.É, em muitos casos, apenas neste tópico que a mudança é necessária.Dani Bento",
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      "author": "danifbento",
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      "title": "Expectativa e Sentir",
      "content"	 : "Quase três semanas após um passo importante, o retorno interior conseguido tem sido, sem qualquer sombra de dúvida, bastante positivo. Porém, mais do que ser positivo ou bom, é preciso não perder o trajecto e entender que o caminho é longo e é necessário manter-me alinhada com o mundo, é necessário manter-me consciente de que os dias continuam e, consequentemente, o mundo que nos rodeia não para.Quando pensei nas palavras que iria usar para o título deste testemunho, surgiu-me algumas dúvidas. Naturalmente, estas palavras são suficientemente genéricas para albergar uma série de ideias e pensamentos que construo ao longo dos dias. No entanto, queria focar-me num ponto importante. A minha construção, tanto anterior, como presente e futura.Existe, dentro do rigor que a palavra permite, a realização do meu carácter público enquanto mulher é a materialização de um sentir e, sem retirar o devido sentido da expressão, não é uma mudança. A palavra transgénero esta associada a uma transição e não a uma troca. Porém, é aceitável a compreensão que se tem, efectivamente existe uma mudança, mas que é de carácter fundamentalmente físico e não psicológico. Uma das grandes exigências vinculadas a este estado é a capacidade de conseguir enquadrar um estado interior com uma realidade que é apenas tangível por mim mesma. Existem várias consequências práticas disto. A medida com que se diz “eu sinto”, é a mesma medida usada para construir uma potêncial dúvida sobre a nossa integração.Pessoalmente, o meu “sentir” torna-se mais fundamental, mais essencial na medida em que permito-me sem usufruir. Por exemplo, o meu corpo é limitado, neste momento é a minha limitação. É limitado para a minha visão de eu mesma e, é limitado para a visão que me permito ter para o outro. Era de prever que, naquilo que é básico, naquilo que é humano e animal me pudesse sentir limitada. Era de prever que encontrasse aqui um obstáculo. Porém, não, não me acontece. Existe em mim (não sei como será com mais alguém), algo interior, algo intrinseco. É a minha existência que me permite puramente sentir sem obstáculos. Naquilo que é fundamental e essencial eu sinto. Naquilo que me forma e me constrói eu sinto. A consequência material é diferente, mas o meu eu permite-me. Como resultado, não se compara, mas equivale. É, para mim, prova para mim mesma que a ideia de ser plenamente verdadeira não está limitada no essencial, mas apenas no contexto. Este, depende da minha visão do mundo, da realidade, da sociedade e do outro.Ao mesmo tempo, isto faz-me pensar em mais algumas questões. Apesar do quadro biológico não surgir a meu favor, está o meu crescimento, a minha formação e estará o meu futuro completamente dependentes desta questão? Colocando de uma forma simples, serei menos mulher por percorrer um caminho diferente? Porém, foi-me permitida outra experiência, masculina, serei eu menos homem por tal? Esta incongruência faz-me apenas pensar numa resposta. Não. Sou tudo o que me define, pela experiência e pela existência. Sou completa. Por quanto, mesmo o mundo estando de pernas para o ar e, aos trambulhões, sei que a minha construção é de dentro para fora. É de quem eu sou, para quem eu sou.Certamente, um pensamento inacabado…Dani Bento",
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      "author": "danifbento",
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      "slug": "a-discretizacao-do-homem",
      "title": "A Discretização do Homem",
      "content"	 : "Analisando a História, não só apenas contextualmente, mas em todo o seu percurso, é possível encontrar várias linhas de desenvolvimento que nos permitiram chegar onde estamos hoje. Evoluímos, crescemos, aprendemos e repetimos muitos processos. Aprendemos a distribuir as tarefas e as acções de acordo com as pessoas, com as sua especialidades e capacidades.Desde as ciências exatas às ciências humanas, procura-se compreender o mundo. Explicar o Homem no Universo, o que cada um é e a própria existência. É obrigatório referir que estas explicações vão para além do que é científico, do método e da forma. Procura-se, por muitos caminhos diferentes, respostas às mesmas questões.É fácil verificar na literatura que, com mais fiabilidade ou não, se descreve até ao mais ínfimo detalhe o pensamento, o comportamento e a emoção. Durante muitos anos predominou um estilo de explicação com base na continuidade do pensamento e da matéria. Era uma questão essencialmente filosófica. O desenvolvimento e evolução do método científico aumentou a capacidade de organizar informação, demonstrar e caraterizar os diversos fenômenos de origem Natural. Consequentemente permitiu que fosse possível ler estes artigos, conhecer o mundo e imaginar um mundo inatingível.Nos dias que correm, esta informação é imensa e é necessário, por isso, proceder a processos de segmentação da mesma.DiscretizandoExistem grupos de pessoas diferentes que procuram conseguir unir a nossa existência interior (emocional) e a nossa existência exterior (física), porém existem divergências constantes sobre as conclusões a que se chega. Não que sejam mais ou menos acertadas, mais ou menos concretas. Existe quem se aproxima mais de um método completamente prático e existe quem se aproxima de um método filosófico.Penso que sempre procurou manter a continuidade entre a existência interior (emocional) e a existência exterior (material) havendo coerência entre a existência e a realidade. Por outro lado, existe uma tentação (vantajosa por um lado) em discretizar todo o nosso comportamento, seccionar, catalogar… ou como se diz “colocar em caixinhas separadas”.O método proporciona estudar este mesmo comportamento, tirar elações, desenvolver formas de melhorar comportamentos que induzem o sofrimento e permite-nos ter um conhecimento organizado de nós mesmos. Porém, nós somos humanos e, apesar de fisicamente explicáveis, temos uma componente emocional e sentimental… Por vezes, penso que nos esquecemos que somos esta continuidade entre a vida emocional e material e que estas se influenciam mutuamente. Acabamos por esquecer que somos voláteis e mutáveis no tempo e no espaço.Discretizamos tudo, mas esquecendo que não pertencemos a categorias, mas sim, somos transversais à realidade. As categorias ajudam a aliviar o nosso eu e a entender, mas o verdadeiro conhecimento de nós próprios aparece quando percebemos que somos um pouco de tudo. Somos Homem, não apenas homem.Dani Bento",
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      "categories": "Geral"
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      "slug": "leitura-1984",
      "title": "Leitura - 1984",
      "content"	 : "Mil Novecentos e Oitenta e Quadro, conhecido simplesmente por 1984, deGeorge Orwell (1903-1950 - pseudónimo de Eric Arthur Blair) foi umdos livros presentes na minha lista de livros a ler já há algumtempo, tendo tido nos últimos meses oportunidade para o ler.Resumindo, 1984 é um romance distópico clássico, ou seja, promove osentido de uma contra utopia, a criação de uma ficção negativa, umafilosofia que possui uma carga totalitária e autoritária. Em 1984é representado um Estado autoritário, ditador, uma sociedade disrupta nos seus princípios fundamentais. É, também, uma excelente referência ao passado e ao futuro, ainda que, o alvo direto da sátira fosse o regime estalinista, o capitalismo e o capitalismo de estado.Na minha opinião, 1984 não fica apenas pela mensagempolítico-social, pelo desmantelamento de um caminho perigoso, de umarealidade que, na generalidade aceite, capaz de existir. 1984 é, nãosó, uma perspectiva do passado, é uma visão do futuro. Porém, queria ir mais longe do que esta concepção. Acho que Orwell foi capaz de ir mais longe do que isto.Quando li o livro, chamou-me a atenção uma mudança clara no discurso do autor. A dimensão das palavras usadas nas duas primeiras partes do livro é totalmente diferente da dimensão usada na última parte. Diria até mais, o discurso é do mesmo autor, mas fiquei com a sensação que a vivência nesses períodos foi totalmente diferente. O discurso não flui da mesma maneira, a mesma frase não significa o mesmo. O regime descritivo presente nas primeiras partes deixa de existir. A terceira parte foca consecutivamente um termo “sentir”, ao contrário das primeiras partes que clarificam o “viver”. Na minha leitura, o choque trazido por 1984 não foi a capacidade totalitária do Estado, a ideia de controlo, o autoritarismo, a oligarquia ou o capitalismo de Estado, mas sim, a capacidade de conseguir dissociar de uma forma inteligente o sentir do viver. A novilíngua não foi só um método capaz de controlar, mas um método de incapacitar, de regredir a ideia humana até ao mais puro instinto animal. É aqui que eu dou maior enfâse à capacidade visionária de Orwell.Na sociedade capitalista que conhecemos, naquilo que necessitamos dela e naquilo que rejeitamos, a visão de Orwell é detalhada, é promonorizada e tangivél. Porém, esquecendo integralmente a visão política e social, a metodologia de Orwell usa para invalidar a própria existência humana como um todo é magnífica. As salas de tortura não são meros meios de limpeza do regime. São representações da própria sociedade, da própria necessidade humana de interiorizar e renegar a sua própria existência até ao último limite. Tornar a sua consciência inconsciente, consolidar no Homem a sua própria natureza irracional, incapaz, medrosa e instintiva. A mudança de discurso de Orwell reduz aquilo que nós temos de vencedores, naquilo que nos torna os maiores derrotados sociais. O outro.1984 continuará a dar-me alguns momentos para pensar, continuará a permitir-me levantar mais questões. Acho que Orwell não acabou a sua mensagem, não acabou a sua visão. 1984 não terminou.Boas leituras,Dani Bento",
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      "author": "danifbento",
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      "title": "Como nem tudo é bom...",
      "content"	 : "“Argumenta-se por vezes que a protecção dos Direitos do Homemque assistem a lésbicas, gays, bissexuais e pessoas transgénero(pessoas LGBT) equivale à introdução de novos direitos. Esta éuma interpretação incorrecta da questão. A Declaração Universaldos Direitos do Homem e os tratados celebrados estabelecem queos direitos humanos se aplicam a todas as pessoas sem excepção.” - Thomas Hammarberg, Comissário para os Direitos do Homem da EuropaOs dias vão passando e, como é óbvio, há dificuldades que vão aparecendo na medida em que procuramosresponder a determinados problemas, independentemente da sua complexidade. Como ando bem disposta, decidi dar mais algunspassos e ir trabalhando algumas questões do dia a dia. Neste momento posso dizer que já encontrei3 tipos diferentes de predisposições à minha temática. A primeira, a melhor, no local onde trabalho, onde fuibem acolhida e onde, claramente, houve um esforço que merece reconhecimento da minha parte.Em segundo, na escola, a política de passar a responsabilidade ao próximo, isto é,tens a tua questão, como bom português sabe fazer “desenrasca-te”.Por último, hoje, uma questão sensível. Clubes desportivos.Como é sabido, entre todos os meios, existe uma razão para este ser um dos mais complicados. A questão dos balneários. Motivoque, gosto de frizar, entendo completamente. Porém, o que não entendo é: o seu problema aqui não tem solução, o melhor édesistir e ir embora. Pensar 5 minutos numa solução (ainda que má) seria o mínimo, no entanto a resposta foi simples e direta.Alguns pontos a frizar. Peço para falar com alguém com quem já tinha combinado, sou levado ao seu encontro e antes de poderfalar com a pessoa em questão oiço muitos risos histéricos e comentários. Segundo, vem uma pessoa falar comigo só para me dizerque não tem uma solução. Vem uma terceira pessoa claramente promover a minha desistência… de uma forma simpática, claro.Não sendo uma “mulher completa”, não tenho lugar. Não sendo um “homem completo”, não tenho lugar. Porém sou uma pessoa.Para acrescentar ainda oiço “se vier cá ainda, trate de não vir assim, mas como um homem porque você é um homem”.Sou uma pessoa calma, com um sorriso apenas respondi “só quero esclarecer a situação em que cá estou, preciso de saber secontinuo a pagar (como toda a gente) a minha mensalidade (o preço de toda a gente) para frequentar o espaço, dado quenão tenho acesso ao ginásio completo…”.A minha questão não se prende exactamente pelo uso dos balneários masculinos ou femininos. Independentemente do que sintointeriormente, não é algo que seja bloqueante para o meu dia a dia. Porém, é com enorme desgosto que chego a umsítio, sou alvo de risota enquanto cliente (sim, tenho consciência que isto vai acontecer) e nem tenho direito a umaponderação. A desistência é a única solução, para o bem de todos. Pois, até o facto de estar maquilhada éincomodativo para os outros clientes, principalmente os homens…Isto expõe outra questão. Se a minha expressividade fosse simplesmente esta, não houvesseoutra questão subentendida, o tratamento era o mesmo? Pelo que uso, pelo aspecto? E esta até é uma questão mais simples…Segundo o Ponto 24 num estudo daAgência da União Europeia para os Direitos FundamentaisHomofobia e Discriminação em razão da Orientação Sexual e da Identidade de Género nos Estados-Membros:Garantir a igualdade de tratamento e a participação em actividades desportivasAs organizações ou instituições desportivas devem tomar as medidasnecessárias para garantir que os atletas ou técnicos LGBT se sintam segurospara assumir a sua identidade sexual, se assim o entenderem, sem temeremconsequências negativas.Não deixo de estar bem, não deixo de continuar o meu caminho, dado que esta é apenas uma de muitas coisas que vêm pelo futuro.Sei onde poderei ir, sei onde poderei estar onde seja aceite. No entanto não deixo de lamentar estasposições francamente no limiar do hipócrito em pleno século XXI.De um modo que ficou bem claro, um cliente nunca vale os outros.De um modo bem claro, com fracas mentes… a sociedade não cresce.Actualização:Apenas queria deixar o registo e, como nota, denunciar este tipo de comportamento. O ginásioem questão é o FitnessHut - Picoas. Irei contactaro Grupo e pedir esclarecimentos sobre esta situação em particular.Link para o relatórioDani Bento",
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      "author": "danifbento",
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      "title": "Para não esquecer...",
      "content"	 : "As gotas da chuva batiam precipitadamente pelo chão, a água escorria pelas bermas… As pessoas corriam de um ladopara o outro, chapéus, alguns gritos, alguns esconderijos nos sítios mais estranhos. Era apenas mais um dia dechuva como qualquer outro. Eu sempre amei o tempo chuvoso, uma das coisas de que lembro bem em criança era do prazerque tinha em ir para a rua sentir a água escorrer pelo cabelo, pela pele da cara. Era um momento muito meu. Num diaimportante para mim tinha de haver chuva, chuva que baste para ficar a pingar, para reflectir a pureza da água.Hoje, é importante não esquecer. É importante ficar, é importante reter, é importante memorizar. Talvez um dia quandoolhar para trás e necessitar de acreditar é para aqui que devo olhar, para este dia de chuva, temperamental, dignode dizer “eu amo o Tempo”, como quem diz “eu amo a vida, a continuidade dos dias”. Num futuro, posso até querer recordarcom orgulho este dia, posso querer sorrir olhando para trás, posso querer abraçar os meus dias, cada ume o próximo e, também o anterior.Na aceleração que tem sido os últimos dias, as emoções fortes, os pensamentos alinhados com a pura alegria, hoje foicomo dar-me ao mundo, na mesma medida em que me deveria dar a mim mesma. Sim, mesma. Ela. Neste momento ela. É comum abraço do tamanho do mundo que recolho esta pessoa que eu sou, com um profundo sentimento de amor, eu. Era umapalavra que não reconhecia como minha para mim. Não sei o futuro. Sei o passado, sei na medida em que sinto, sei namedida em que vivo, porém, o futuro incerto. Neste momento ela. Neste momento a minha alma começa a sentir o espírito.Não deixa de ser curioso como pouco pode fazer tanto, imagino muito. Neste momento o pouco, o pouco é o que na generalidadeé automático, o que é conseguido sem pensar, sem acesso a uma consciência, um puro instinto. Neste momento, para mim o poucoé permitir-me ser sem pensar. Permitir-me viver sem desmistificar cada gesto, cada movimento, cada palavra, cada pensamento,cada olhar,… Neste momento, para mim o pouco é o fazer a diferença entre estar livre ou apenas vivo. Neste momento, para mimo pouco é o fazer a diferença entre mim e eu próprio.Agora, feliz, pelo menos estou. Para não esquecer.Dani Bento",
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      "title": "Passado, presente e Futuro",
      "content"	 : "Seja o passado um tempo fútil no presente, responsável apenas pelo futuro anterior. Seja o passado um tempo morto,despejado de significado para um futuro que apenas promete existir apartir deste momento. Seja o futuro, apenasconsequência de um presente sólido e consolidado no passado.Poderia dizer que queria esquecer a existência, o tempo, o passado. Ou, também, poderia dizer que queria queeste voltasse para trás, para o sítio de onde nasceu. Para o início. Poderia, mas nenhuma destas opções é-me agradável.Nós construímos marcos, muitos marcos, ao longo do nosso percurso. Deixamos etapas completas e, por vezes, desviamo-nos do objectivo.Outras, infelizmente, não conseguimos recuperar e acabamos por ter de abandonar. Porém, a linha da vidaé tão maleável quanto queremos, as pontas estão soltas e nós conduzimo-la por onde acreditamos ter de a levar.Não acredito no absoluto esquecimento, como se uma tesoura chegasse e cortasse esta linha, separasse o meu passado de mim mesmo.Não acredito que deixar de ser, para passar a existir seja significativo perante uma vida. Porém, acredito que na medida em quedecidimos curvar e seguir um novo caminho, devemos respeitar tudo o que ficou para trás. Todos os marcos fizeram parte da nossavida e irão continuar a fazer parte. Independentemente de termos um novo caminho ou não, eles estão lá.O passado é tão parte integrante de nós como o presente ou o futuro. Faz parte da nossa construção. Todo o nosso eu está contidoneste pedaço. Um eu que se modifica, que se aproxima, que vive. A desvinculação com acontecimentos ou pilares de construção destetempo é um processo complicado, difícil, esgotante, mas quando com vista a um entendimento maior, torna-se a árvorede uma boa colheita de fruta. É, sem sombra de dúvida, uma estrada com bastantes curvas… bastantes… a que vou percorrer.Seja esta a melhor ou a pior, é a estrada que preciso atravessar.No fim, não há certo nem errado, há sentir. Há lutar com o coração, pensar com a cabeça e jogar com o tempo. No fim, não há mal ou bem,trata-se de viver, ser feliz e transmitir a felicidade. Pois amar é fazer viver e viver é sentir amor.Dani Bento",
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      "title": "Uma Vida, Duas Vidas",
      "content"	 : "O tempo não é infinito, mas finito. Tal como o tempo, nós nascemos, crescemos e um dia… morremos. A vida passa,e deixa apenas ficar a memória e a recordação de termos existido. Esta recordação permanece nos que ficam e nos que virão, um dia.Porém, não é na memória que vivemos, mas no presente, no dia, no momento.Hoje, sinto que eu começo a fazer parte de mim mesmo, do meu presente. À medida que os últimos dias têm passado,tenho sentido um borbulhar interior num local onde apenas o vazio habitava, num sítio escuro onde não conseguiacolocar nada. Começo a sentir-me vivo. Há qualquer coisa dentro de mim que me deixa feliz, bastante.O meu estado de espírito está a mudar, sinto uma felicidade madura, capaz de durar. Uma felicidade serena. Talvez pareça não ter mudadonada, mas na realidade mudei tudo… mudei a minha perspectiva de ver o mundo e isso… reflecte-se. Tudo muda deuma forma positivamente agradável.Há mudanças pontuais que vão acontecendo, no entanto, há uma coisa importante. O meu eu. O meu núcleo. O núcleo que me forma, o núcleo queestabelece a pessoa que eu sou, o núcleo que estabelece a minha linha de pensamento e no que acredito. O meu núcleo é único e apenasum. Independentemente da cor do espectro onde estou, sou eu. Mas neste momento caminho para um eu mais completo, para um eu onde a visão que tenho interior é a mesma de como me sinto no mundo.Sou um espelho de mim mesmo, um espelho perfeito, sem textura, sem vincos, sem imperfeições e sem distorções. Sou eu.Durante muitos anos, a minha pessoa, o meu conjunto, era uma imagem desfocada, com características evidentes, mas desalinhada,privada. Uma imagem sem nitidez. Era esta a correspondência. Como acontece quando se desliza uma pedra no vidro, sinto-me agora.Uma pedra passa por mim, torna-me os momentos difíceis, mas no fim… eu, polido.Capaz de me ver. Uma vida focada, alinhada… feliz.Dani Bento",
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      "title": "Cinema - A vida de Adèle [La vie d&apos;Adèle]",
      "content"	 : "La vie d’Adèle é um filme francês, realizdo por Abdellatif Kechiche,vencendo a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Adaptação do romance de Julie Maroh -  Le Bleu est une couleur chaude,A vida de Adèle (em Português) trás-nos a história de uma jovem de 15 anos que tem uma vida normal como qualquer outrarapariga da sua idade, até ao momento em que encontra Emma, uma estudante de Belas Artes - a sua primeira paixão por uma rapariga.Enclausurada por uma família, enclausurada pelo conservadorismo que ainda se exprime socialmente, a Adèle não lhe é permitidoviver em pleno esta paixão. Emma, a rapariga de cabelo azul (Blue Is the Warmest Color, título do filme em inglês), por outro lado,vive a sua sexualidade e amor confortavelmente.Fica o trailer:É um filme recheado de emoção, interessante. Dá um destaque sensato às personagens e às suas relações, aposta sobretudo na mensagem.Consegue, ainda, com uma história simples, um romance próximo do real, trazer-nos a perspectiva da mudança, do sentir e da capacidadedo amor existir onde menos se espera.Bons filmes,Dani Bento",
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      "title": "Cinema - Something Must Break [Nånting måste gå sönder]",
      "content"	 : "Vencedor do Prémio para a Melhor Longa-Metragem na edição do Queer Lisboa 2014, Something Must Break é uma produção Suéca (2013), de Ester Martin Bergsmark que, segundo as suas palavras quer “mudar a maneira que vemos as coisas que tomamos garantidas apontando a câmara em direções que o público não sabia que existe para ver”.Something Must Break retrata a história de amor entre Sebastian, um rapaz andrógeno e, Andreas, um rapaz não gay. Ambos movidos pelo mesmo pensamento em relaçãà à sociedade sueca, tornam-se ao mesmo tempo vencedores e vítimas da normalização social. Porém, a existência de Ellie, o amor de Andreas. Amor que vive e se desenvolve dentro de Sebastian.Citando um texto meu, muito pessoal, de há alguns anos:“Mas eu não penso ou, talvez, não exista mesmo. Não sou como outro alguém, alguém que viu as pernas e os braços crescer. Não sou, não sou como outro ninguém, que nunca se viu acabar. Apareci, mas também desapareci “Não penso, mas sinto…” diria eu.”É, sem sombra de dúvida, um filme emocionalmente forte, com algumas questões pertinentes e socialmente constrangedoras.Dani Bento",
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      "title": "Questões de uma Vida",
      "content"	 : "Já alguma vez na vida se questionaram sobre quem são, de onde vêm, porque existem ou porque o mundo acontece como acontece? Desde criança que tenho tendência a fazer perguntas um pouco existencialistas. Por vezes isso reflete-se nos meus textos, na minha expressão e na minha pessoa. Porém, nem tudo é um mar de rosas. Ser existencialista também traz as suas consequências, mais ou menos graves.Cresci e sou o que sou hoje devido a um conjunto de ideias e acontecimentos que me envolveram e envolvem. Mas, como se isto não chegasse, sinto-me um pouco mais do que aquilo que socialmente sou. Sinto-me um pouco mais que eu próprio, não na medida do melhor, mas na medida do individuo. A questão é essa, sentir mais. Sinto que devo escrever esta pequena reflexão, por acreditar naqueles que se questionam. Pode ser que, positivamente, este seja um texto para quem o lê.Acordar de manhã e não saber quem se é, pode ser cruel. Perguntarmo-nos constantemente sobre a imagem que devolvemos ao mundo leva uma pessoa à loucura. Sentir permanentemente a dúvida de uma felicidade perdida é triste. Anteontem, publiquei umas fotografias de um concurso para o qual participei há cerca de um ano (relacionado com a Igualdade de Género). Ainda não tinha tido coragem de as publicar, não porque tenham alguma coisa de errado e/ou especial, mas porque há muito de pessoal nelas.Podemos pensar em uma situação simples: viver-se como qualquer pessoa, sentindo-se acarinhado e ver que para alguns existem outras pessoas que são uma aberração; e ao mesmo tempo, sentir-se como uma aberração e ver em toda a gente a perfeição de pessoa. São duas imagens em simultâneo, duas vivências não compatíveis e destrutivas. Durante muitos anos vivi neste campo, com um mais sentir, que me fazia menos viver. Existe uma altura que decidimos…ser felizes.Se me perguntarem se gosto de ser quem sou, digo que sim. No entanto, se constatarem o que vêm em mim, não consigo reagir. Simples, não me consigo sentir identificado com o meu semelhante. Chama-se a isto, classicamente, disforia de identidade de género. Não tem a ver com as pessoas que gostamos, tem a ver com a pessoa que gostamos em nós, com a pessoa que sentimos em nós. Ou seja, se quiser colocar as coisas de uma forma sintetizada, neste momento, encaixo-me naquilo a que cientificamente se define como genderqueer ou, género não binário. Isto é, não tenho particular identificação com o género masculino (por ser o meu género biológico). Sou um “cinza” entre o preto e o branco. Agora, qual é a luminosidade? Preciso descobrir em concreto e é isso que neste momento procuro fazer.Voltando a fazer outra pergunta, sinto-me um rapaz? Não totalmente. Então és uma rapariga? Não totalmente. És indeciso e não sabes o que queres? Talvez, mas também existem convenções sociais, no ambiente em que crescemos, nas expectativas que se criam sobre nós e o que representamos para as pessoas. Ou a pergunta típica, mas dizes isso porque não sabes se gostas de raparigas? Não, a minha orientação sexual não está relacionada com isso. Se gosto de raparigas? Sim. Se gosto de rapazes? Sim. Porém, a pergunta que a mim me faz sentido é, gostas de pessoas? Sim, de pessoas, independentemente da imagem que tenho delas. Isso é possível? É, eu existo.A questão verdadeira é outra. Eu vejo-me ao espelho diariamente, vejo-me e revejo-me. Aquilo que eu vejo é completamente distinto do que na generalidade as pessoas vêm em mim. Mas este espelho não é só um espelho visual (de casa de banho), é um espelho da alma. É no fundo desse sentir que está a diferença. Neste momento é bom, mas já me causou muitas dificuldades, bastantes. A falta de autoestima, o não reconhecimento de mim mesmo, a incapacidade de me sentir semelhante a outros rapazes. O sentir que é preciso “fazer de conta” todos os dias e limitar a minha existência. É tortura, é crueldade.Nos últimos tempos tenho feito mudanças, sobretudo superficialmente, a imagem. Não sou outra pessoa, sou eu mesmo, mas numa versão melhor, mais completo. Conseguindo-me definir pela própria não definição e não pela exigência social. O mundo pode ser cruel, pode bloquear os cinzentos. Mas é mais infeliz viver no preto ou no branco quando não estamos lá. Neste momento acredito que ser feliz é mais importante que a convenção. Ser feliz é amar-me a mim mesmo e ser capaz de amar.No meu sentir, ser transgénero não é só a imagem, a roupa, a formalidade, os movimentos, a postura. Também não é apenas uma questão de ter ou não genitália feminina ou masculina. Também não é apenas uma questão de ser ou não parecido com determinado género. Mais do que isso, é ter uma alma em profundidade, sentir para além do que o nosso corpo consegue transmitir. Sentir que este corpo não chega para o expressar. É sentir-se incompleto constantemente, é ter necessidade de conseguir uma identificação. É sentir que o amor não chega do mesmo modo, porque não somos um todo, somos apenas a parte.Não acredito num mundo dividido em dois, acredito num mundo em que cada pessoa é. No entanto somos espelhos da sociedade, espelhos e reflexos das pessoas que nos rodeiam. Somos as expectativas, as derrotas e as vitórias. Mas mais do que isso, é preciso sermos nós. Mais do que isso é preciso sentir que sentimos. É preciso sentir que o nosso amar é verdadeiro e, mais do que verdadeiro, corresponde-nos.No fim, resta-me dizer, que não virei o meu mundo ao contrário, não atirei tudo ao ar, não desisti pela desilusão. O que eu fiz foi deixar-me ser. Permitir-me viver na mesma medida em que sinto. É isso que interessa. É isso que é importante. As questões são importantes, levam-nos a conhecermo-nos melhor. São fundamentais. As respostas por vezes são surpreendentes e, quando a auto estima melhora, quando a coragem cresce, quando se sente realmente parte do mundo, ou a caminhar para lá, tudo se torna possível. Porque na realidade é. A tipificação é algo feito para quem quer tipificar. No fundo, somos pessoas, somos seres. Somos uniões e não fragmentações.Por dias mais brilhantes, por dias mais luminosos.Eu acredito, porque o meu dia hoje brilha mais, amanhã ainda mais. Ser feliz.Dani",
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      "author": "danifbento",
      "categories": "Geral"
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      "title": "Concurso - Caminhos da igualdade",
      "content"	 : "Participei neste concurso há quase um ano. Motivado pela sensibilização das políticas de igualdade de género, decidi participar com um conjunto de fotografias. Entre as quais duas delas foram seleccionadas para exposição (online/impresso).Para dizer verdade, apesar da minha motivação em participar, dado o teor e conteúdo das fotos, fiquei com alguma relutância em publicar as três online, identificando-me a mim mesmo como autor/modelo das mesmas.Porém, decidi que as deveria publicar, quem sabe, seja importante para alguém…Fica aqui o link: Concurso Caminhos da IgualdadeSem choques,Daniel Bento",
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      "author": "danifbento",
      "categories": "Concursos"
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      "title": "Leitura - A Metamorfose",
      "content"	 : "“Na verdade nunca tinha imaginado o pai como agora o via; nos últimos tempos, de resto, o novo hábito de rastejar por todo o quarto levara-o a descurar a atenção aos acontecimentos no resto do apartamento e já deveria estar preparado para encontrar algumas mudanças. E porém, e porém, aquele homem seria ainda o pai? O mesmo homem que ficava na cama cansado como morto quando Gregor partia (…)” - A Metamorfose, Franz Kafka.A Metamorfose de Franz Kafka (1883-1924) recebe claramente um lugar especial no seu modo sombrio, simples e eficaz de retratar a vida familiar, o nicho humano e do sentimento. Na edição que possuo, o prefácio de Vladimir Nabokov dá uma excelente explicação do mundo kafkiano presente em A Metamorfose. Porém, mais do que isso, a proeza de transmitir esta mensagem vai muito para além da época em que foi escrito.A resposta clara à falta de sentimentos e o excesso de desprezo, à troca da posição pessoa capaz e o animal incapaz… o humano e o bicho. O sentimento é transformado num obstáculo na pura simplicidade cega do Homem, enquanto ser pensante. Kafka presenteia-nos com Gregor, um jovem trabalhador que se vê transformado num insecto - a representação da transformação, o Homem que deixa de ser Homem, mas continua humano. Kafka traz-nos uma família que muda literalmente a sua postura, mostrando sem qualquer problema vazio emocional - a ideia da transformação sentimental, o Homem que continua Homem mas continua um bicho. Desta forma, Gregor é o insecto, indefeso, mas capaz de sentir a indiferença dos pais e da irmã, por outro lado, os pais, deixam de reconhecer o filho, querendo mesmo fazê-lo desaparecer.Triste, este livro revela-nos de uma forma crua, a frieza humana. Ainda que seja um livro do princípio do século XX, transmite algo muito actual, bastante presente no dia a dia.Existe uma versão curta adaptada à televisão, também chamada de “A Metamorfose”.Boas leituras,Daniel Bento",
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      "author": "danifbento",
      "categories": "Leitura"
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      "slug": "leitura-a-pianista",
      "title": "Leitura - A Pianista",
      "content"	 : "A Pianista é um livro de Elfriede Jelinek (prémio Nobel de Literatura, 2004), nasceu em 1946 na Áustria e é romancista, dramaturga e ensaísta. Esta foi a primeira obra que li da autora, também uma das mais conhecidas, a qual adorei.Nestas páginas somos conduzidos pela história de Erika, uma mulher de 36 anos, professora de piano. Vive com a mãe, dorme na mesma cama que ela, não fuma, não bebe, cresce para o piano do mesmo modo que as teclas deste sobrevivem para a música. Erika é uma representação clara da frustração de uma vida e os seus alunos no Conservatório de Viena são, por sua vez, o seu alvo ideal. Rapidamente é dado a conhecer um lado mais obscuro da capital austríaca. No entanto, o domínio da capacidade de se relacionar é totalmente modificado com a presença de um aluno, 15 anos mais novo.Pessoalmente, achei este um dos melhores livros traduzidos que li até hoje. Esta peça de Jelinek é bonita em todos os seus aspetos. Na escrita, no uso das palavras, na descrição da sociedade, na contestação, no enredo. Transporta-nos para uma realidade crua do mundo. Citando Claire Julliard:  “Pela sua crueldade e crueza, o romance de Elfriede Jelinek evoca certos quadros expressionistas de Kokoschka. Decadente, fim de século, irónico e arrepiante, ele provoca fascinação ou o repúdio, mas em caso algum nos deixa indiferentes”.Incidindo claramente na visão social, na sexualidade feminina, na hipocrisia social, este é certamente um livro a não perder na estante. A ler e reler as vezes necessárias.Existe uma versão adaptada ao cinema, também chamada de “A Pianista”.Boas leituras,Daniel Bento",
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      "author": "danifbento",
      "categories": "Leitura"
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      "slug": "a-ciencia-a-arte-o-homem-e-o-mundo",
      "title": "A Ciência, a Arte, o Homem e o Mundo",
      "content"	 : "Atualmente, a importância que a ciência tem num país assume proporções gigantescas que resultam numa competição constante entre estes. Talvez, mais do que nunca, existem pessoas formadas na área científica. Refiro-me à mesma pelo facto de que, eu próprio, estou em ciências. Porém, não é demais dizer que, por vezes, sinto que esta batalha é estranha e cansativa.Acredito, sem sombra de dúvida, no progresso, na ajuda constante que a ciência tem trazido para a evolução humana, principalmente, nos meios e no autoconhecimento. Seria bastante ignorante em dizer o contrário. Por outro lado, noutras vezes, independentemente da visão de cada um, acredito que seja importante, também, ver o mundo de um modo menos científico (pensando apenas na vivência). Procuramos insanamente uma resposta para a vida através do Método (destaco esta palavra, pois é esta definição que faz a diferença), mas não seria útil procurarmos para nós mesmos um significado pessoal que não nos reduza a quase nada? Do ponto de vista evolutivo isto não significa muito, uma vez que, todo o nosso desenvolvimento é feito em detrimento da espécie e não do indivíduo em particular. Não seria, no entanto, bom apostarmos na nossa formação enquanto ser emocional e racional?Debato-me frequentemente com esta questão. Sou da área científica, mas ao mesmo tempo apaixonado pela área criativa, pela filosofia (uma definição genérica). No sentido prático, a arte e a filosofia levam-nos a conhecer a nossa visão do mundo e não aquela que é comum a todos, subjetiva e não objetiva. Por vezes, sinto que isso assume pouca importância, talvez consequência dos tempos.No fim, vê-mos constantemente rixas entre pessoas que valorizam mais “um lado” ou o “outro lado”, quem tem razão? Talvez, na realidade, o que buscamos seja o mesmo. A felicidade, o autoconhecimento, um mundo melhor. Será necessário atropelarmo-nos constantemente para o fazer? Será necessário colocar sempre na mesma batalha a complexidade, a dificuldade, o significado, o talento, a expressão e o próprio modo de viver? Somos todos iguais, mas todos diferentes ao mesmo tempo. Para o mundo, pouco significamos, para nós mesmos, somos tudo.Daniel Bento",
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      "author": "danifbento",
      "categories": "Geral, Sociedade, Ciencia"
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    "150": {
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      "slug": "entre-o-homem-e-a-sua-expectativa",
      "title": "Entre o Homem e a Sua expectativa",
      "content"	 : "Sinais dos tempos modernos, as relações entre as pessoas têm vindo a mudar. Mudam de uma forma radical ou, pelo menos, comparado com o que sempre aprendi sobre a vida em sociedade. Facto incontestável - somos cada vez mais. Um mundo cada vez maior, a caminho da globalização, onde ninguém está indiferente a ninguém.Nestes sinais de progresso e, naquilo que é a minha realidade local, vejo-me perdido entre os atropelos e inconsistências destas lutas que se fazem. Um tanto ou quanto modernas, mas com os seus quês de primitivas. Olho e vejo um mundo de loucos (metaforicamente), um mundo de corredores, um mundo que não olha para trás e, muito menos se detém. Desrealiza-se na sua própria consciência do que é o presente e o futuro, abandonando por completo o passado. Acredita-se no caminhar para a frente, a típica chamada fuga para a frente, uma expressão conhecida de todos.Pergunto-me, o que significamos nós, cada um, para um mundo que em nós mesmos nada vê. Por observação, sabe-se que cada um tem o seu mundo, o seu espaço, a sua realidade. Por observação e pela relação, sabe-se que cada um tem uma visão do outro (seja uma pessoa ou um grupo), uma expectativa, uma imagem mental do seu ideal de quem este representa para si. Muitas vezes, essa imagem do outro e a imagem que o outro tem de si mesmo são diferentes. No entanto, importa que sejam compatíveis, construtivas. Para nós, este passa a representar sempre o ideal, é ele que nos transmite isso. Ainda que esse, para si, não o seja.Num mundo de loucos, estes exercícios tornam-se bastante complicados de executar. Existe uma predisposição à falta de disponibilidade, não digo temporal, mas mesmo mental. Acabamos a impor e não a conhecer. Acaba-se a lutar por uma conquista e não a revindicar um direito.Entre o Homem e a sua Expectativa, acabamos a matá-lo, pois ele incompleto estará sempre, constantemente, permanentemente. Passa a ser o que não é, gere-se pelo ideal de todos, confusamente. Deixa-se de se reger pela sua própria visão, o seu próprio eu. Por vezes, tenho medo que neste mundo de loucos, a realidade seja apenas uma ilusão, e esta expectativa que eu próprio tenho do mundo seja a realidade. Aqui, nestes parágrafos, fui eu a traçar a minha própria visão do mundo.Daniel Bento",
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      "author": "danifbento",
      "categories": "Geral, Sociedade"
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      "title": "Em defesa do Gosto",
      "content"	 : "Este era já um título que há algum tempo tinha na minha lista de ideias para escrever, um título simples. Não irei dissecar a palavra, esvaziar de significado ou trazer-lhe inverdade, apenas o Gosto.No dia 20 de Março comemorou-se o dia da Felicidade, um dia com um significado internacional. Porém, um significado que em larga escala pouco ou nada tem estado no Eu de cada um, mas sim, num grande amontoado de misturado de ideias e conceitos. O Gosto e o Amar relacionam-se com a Felicidade. Tocam-se como dois dançarinos em perfeita harmonia conjunta. São conceitos que interagem comumente, sendo nós, muitas vezes os responsáveis por cortar este elo natural que os liga.Fala-se, teoriza-se, propõe-se, esquematiza-se constantemente os processos do Amor e do Gostar. Planeia-se como se estes fossem atemporais, como se a sua existência fosse regida por um ser imutável no tempo, no espaço, como se estes significassem Deus, ainda que Deus para muitos não tenha significado. Transporta-se o sentimento para o conceito e deixa-se o sentimento para quem o deveria sentir, no entanto, todos acham que o devem transportar. Falta o sentimento, excede-se no conceito. No fim, pergunta-se o que de facto se Ama ou se Gosta, sem resposta. Uma parede branca enfrenta o nosso presente, como se a cal significasse o futuro e o tijolo cru o passado. Dá-se um passo em frente à espera que a cor apareça, mas a única que existe é a da nossa própria pele, do nosso sangue, da nossa entidade enquanto presença. Esperamos, mas a menos que sejamos nós a bombear as nossas artérias, a menos que seja nosso coração a fazer escoar todo o não sentimento que temos, a nossa pele ficará branca para sempre. Pois, no fim, somos nós que damos cor ao nosso universo, senão branco ou preto, apenas isto será. Branco ou Preto. O outro intercede sobre a nossa cor, imortaliza os nossos órgãos que dão continuidade a todo um espectro sentimental, porém, a célula é nossa, o oxigénio é processado nos nossos pulmões. É na nossa mente que a realidade se compõe.Triste, por vezes é mais fácil de sentir do que contente. Desapontamento, muitas vezes mais fácil de gerir que a realização. Infelicidade mais fácil de aceitar do que a felicidade pura. Um bem que não é imutável, um bem contínuo e como tal, no contínuo deve ser conseguido. O bem do Gostar, o bem do Amar. Pois no fim, significamos tudo, ou nada somos. No fim, ou o sorriso, ou apenas o vazio de um Universo previsível e sem significado.Daniel Bento",
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      "author": "danifbento",
      "categories": "Geral, Sociedade"
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      "title": "Leitura - Os Transparentes",
      "content"	 : "Os Transparentes traz-nos a história de Odonato, um homem particular, transparente, a imagem do povo de Luanda. Porque os pobres são transparentes.São quatrocentas e vinte páginas passadas na região de Luanda, num bairro, um conjunto de personagens peculiares, diversificadas e com um enquadramento muito natural. É um livro fantástico, recheado de elementos culturais.Desde o Cego, ao VendedorDeConchas, à Amarelinha, à MariaComForça, aos irmãos DestaVez e DaOutra. A mensagem, em parte a vivência, o sofrimento, a relação dos demais com a sua cidade, o seu país, a sua visão de quem está fora daquele local, os procedimentos estranhos e complexos que deixam um povo inteiro incerto e nas mãos de quem apenas quer rendimentos puros a qualquer custo. Dinheiro sujo e cruel.Mostra-se as garras de um povo que no sorriso procura a vida, na festa, na cumplicidade dos amigos, no companheirismo, nas novas relações, na facilidade social e na amável receção ao outro. Ondjaki transmite a maravilha de uma gente amachucada pelos interesses em Angola, o capitalismo puro. Um mundo que poucos, ou muitos, conhecemos, mas de que nada sabemos.No fim, eu li, eu entendi, vivenciei as palavras. Porém, entre o livro e a realidade há um percurso longo. Aqui, atrás deste teclado, estou seguro.Boas leituras,Daniel Bento",
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      "title": "Leitura - Vozes Silenciosas",
      "content"	 : "Originalmente publicado em 1998 com o nome “Overheard in a Dream”, foi o primeiro romance da autora publicado em Portugal que não segue a sua habitual escrita. A maioria dos livros de Torey são criados através de histórias verídicas o que torna os relatos bastante viciantes.Em “Vozes Silenciosas”, Torey afasta-se desse estilo e tenta um romance em que faz apenas o relato dos acontecimentos, apesar de ser omnisciente em todo o desenrolar da trama.Conor é um menino de nove anos com diagnóstico de autismo. James Innes, o pedopsiquiatra começa a segui-lo, bem como ao seu pai e mãe, à procura de uma solução para melhorar a sua qualidade de vida. A pequena criança é acompanhada o tempo todo pelo seu gato de brincar, responsável por protegê-lo.De uma forma geral, Torey desvia-nos maioritariamente para a história da mãe de Conor, Laura, ficando a criança com um papel lateral, uma consequência da disfuncionalidade parental. James é uma personagem simples, paralelizado com a vida do quotidiano da maioria dos casais divorciados, e não lhe é atribuído grande destaque. O seu objetivo primordial é permanecer colado a um processo psicoterapêutico que defende desde o início (motivo para o qual também se afastou da cidade). A mãe de Conor é uma famosa escritora, portadora de uma vida paralela, tocando um mundo imaginário no qual sempre viveu e que a fez percorrer determinados caminhos na vida. Pessoalmente, não gostei muito da história paralela de Laura. Acho a sua mensagem fraca e sem grande sentido. Entendo a analogia entre os mundos criados por si, mas ficcionalmente não está interessante, fazendo desejar que essas páginas passassem o mais rapidamente possível.O livro tem um interesse mediano, uma história demasiado comum para os textos a que Torey já me habituou. De todos os cinco que li, este foi o que menos consegui explorar, aquele que menos me interessou.Boas leituras,Daniel Bento",
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      "title": "Cinema - Ninfomaníaca [Nymphomaniac]",
      "content"	 : "“Ninfomaníaca (Nymphonamiac)” é um filme escrito e realizado por “Lars von Trier”, cineasta dinamarquês, conhecido por algumas declarações polémicas. À parte disso, existem alguns filmes na sua lista de produção que gostaria de ver.Ninfomaníaca retrata uma rapariga e a sua história. O filme foi dividido em dois volumes, como tal, ainda faltará a segunda parte para entender totalmente a história, no entanto, aquilo que é mostrado neste primeiro volume é suficiente para ter uma ideia da complexidade da mensagem que Lars von Tier traz ao público.Entre imagens perversas, eróticas (para alguns até mesmo pornográficas), o argumento é complexo. As principais intervenientes estão bem construídas, deixando claramente a imagem anexa de todos os outros. É um filme forte (não deixando de ter algumas passagens lúdicas), mas que toca em aspectos bastante proeminentes da nossa sociedade e, na questão fundamental para qualquer humano. O Amor e o Vício.Fica aqui o trailer oficial de Ninfomaníaca:É um filme que recomendo vivamente ver no cinema.Site oficial do filme: “Nymphomaniac - The Movie”Daniel Bento",
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      "categories": "Filmes"
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      "title": "Exposição - Flying High, Falling Low",
      "content"	 : "Na semana passada, vinha de um exame na escola e, no meu caminho a pé até à estação de metro do Campo Grande passando pela “Galeria 111”, reparei no seu interior e vi um indivíduo deitado no chão, como costumamos ver para as marcações dos crimes. Fiquei curioso e olhei para o resto da galeria. Pareceu-me interessante e decidi ir dar uma vista de olhos.Não conhecia os trabalhos de João Leonardo, mas gostei do que vi exposto. Este trabalho gira em torno da prevalênia do tabaco na nossa vida diária.Segundo a descrição publicada na Revista Visão: “O tabaco é a grande matéria-prima deste artista plástico, que apresenta agora novas obras: entre a abstracção e a figuração, o humor e o simbolismo, este é um território fértil para múltiplas leituras contemporâneas.”.Poderão ver algumas fotografias aqui “aqui”.A exposição de J.L. ficará exposta nesta galeria até dia 25 de Janeiro e vale a pena ver. O conceito está muito bom e altera a nossa percepção sobre os efeitos do tabaco na vida diária de cada um. Fica claramente um excelente registo de uma obra com bastante significado.Site Oficial de João Leonardo “João Leonardo”Site Oficial da Galeria 111 “Galeria 111”Daniel Bento",
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      "author": "danifbento",
      "categories": "Geral"
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      "title": "A Desinformação",
      "content"	 : "Aqui há uns dias, enquanto fazia a minha habitual ida às redes sociais, lembrei-me de uma questão, que talvez já muita gente a tenha feito. Qual a nossa capacidade de obtermos mais informação incoerente do que informação estruturada e bem condicionada?Um problema que me deparo é a fraca (talvez questionável mesmo) capacidade de se destinguir os artigos que são lançados em cada momento. Por exemplo, é frequente em qualquer rede social de grande uso (por exemplo, o “Facebook” e o “Google+”) que os artigos sejam partilhados vezes sem conta, dia após dia, mês após mês e ano após ano. Muitas vezes, estes artigos não são acompanhados por datas de publicação consistentes e muito menos com as fontes originais de onde a informação foi obtida. A consequência directa disto, somando o facto da existência de títulos, que muitas vezes nada têm a ver com o teor informativo, os artigos e/ou notícias são partilhadas a velocidades gigantes. Isto origina uma grande confusão para os leitores, pois não percebem se a notícia já não tem validade enquanto notícia ou se o artigo simplesmente já deveria ter desaparecido.Esta questão levanta-se sobretudo numa era em que obter conhecimento real torna-se cada vez mais difícil. Daqui concluo facilmente que estes veículos de informação acabam por ser extraordinários comboios de desinformação. O que leva as pessoas a terem uma completa distorção dos acontecimentos. Acabo também a ter a opinião de que esta velocidade de propagação é extremamente negativa para a qualidade de cada artigo, sendo muito provável encontrar cópias de cópias de cópias que já nada dizem. O trabalho de autor perde-se completamente.Para mim é um problema grave, eu gosto de informação consistente. Gosto de informação que me informe e me dê os dados correctos. Como já referi em artigos anteriores, a minha opinião argumenta o facto de estarmos a perder capacidade de saber, mas a ganhar capacidade de transmitir mensagens vazias e sem teor.É apenas uma opinião,Daniel Bento",
      "url": " /a-desinformacao/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "Geral, Sociedade"
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      "slug": "cinema-a-pianista",
      "title": "Cinema - A Pianista [La Pianiste]",
      "content"	 : "“A Pianista (La Pianiste)” é um filme áustrio-teuto-francês, baseado no romance “Die Klavierspielerin”, de “Elfriede Jelinek”.Em resumo, retrata a história de Erika Kohut, uma professora de piano do conservatório de música de Viena. Apesar do seu sucesso, continua a viver com a sua mãe estando o seu pai internado.Gostei bastante deste filme, da mensagem clara, apesar de muitas vezes dura e cruel. O filme é sombrio, relações predominantemente complicadas e frias.Recomendo vivamente.Daniel Bento",
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      "author": "danifbento",
      "categories": "Filmes"
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      "title": "Leitura - A Desumanização",
      "content"	 : "“A Desumanização” é o segundo livro de valter hugo mãe que leio (o primeiro foi “O filho de mil homens”). Fiz questão de adquirir este livro, dado que esperava uma óptima leitura. Não me enganei. O livro é fabuloso, desde a primeira à última página. As palavras parecem mais refinadas do que a minha anterior leitura, talvez por já estar a interiorizar a escrita do autor.Neste livro somos levados para uma pequena aldeia nos fiordes islandeses. Relata-nos, na primeira pessoa, a vida da criança meio morta, a criança meio viva pela alma da irmã gémea. A descrição primeira da vida por oposição à morte, o destino escuro, longe que é a morte.Ao seu estilo, valter hugo mãe apresenta-nos um livro magnífico, uma história cheia de significado, a beleza das metáforas usadas é incrível, a visão é plena. Somos levados para dentro do nosso coração, para os recantos mais obscuros da nossa visão do próximo e da morte. Um livro marcado pela pura tristeza, talvez a descrição mais magnifica que vi ao nosso “eu possesso de morte”.Este é um daqueles livros a não perder, um lançamento magnifico numa época em que se confunde o material com o metafísico, numa época em que a morte, a perda e a tristeza ganham novos significados. Espero do próximo romance do autor algo tão bom quanto este, pois a vontade de ler os seus livros é cada vez maior.“Estar morto deve ser inteligente. A morte deve ser pura inteligência. Não acredito que existam mortos burros. Deus não ia guardar paciência para ter com ele almas burras.”Desejo óptimas leituras,Daniel Bento",
      "url": " /literatura-a-desumanizacao/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "Leitura"
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      "title": "A expansão da comunicação e *arte",
      "content"	 : "Com o crescimento da Internet e com o desenvolvimento computacional, assistimos a uma progressão cada vez maior nos estilos possíveis de comunicar e, como consequência, na produção de Arte (independentemente do conceito subjectivo que cada um associa a esta palavra).Num artigo anterior (A Socialização da Rede Social) referi aspectos relacionados com a evolução daquilo que hoje em dia é encarado como uma rede social (não física). Hoje queria tentar referir aspectos com que me deparo em relação à socialização no contexto artístico ou, pelo menos o que penso. Mona Lisa, de Da VinciConfesso que existe para mim alguma dificuldade em permanecer actualizado por uma razão clara: tenho uma visão muito ecléctica da arte. Adoro a produção criativa (não que seja bom criador), mas a difusão é tão alta que é difícil acompanhar o ritmo. Posso dizer que participo em várias redes de temas diversos (literatura, pintura, fotografia, entre outros) e estas trazem-me a vantagem de conseguir permanentemente ver trabalhos muito bons. Tento, também, seguir pessoas que começaram a sua forma expressiva há pouco tempo. É interessante conhecer o progresso da expressão e, sem querer, acaba-se indirectamente a conhecer mais sobre o autor.Tudo poderia ser bom se tudo isto não andasse a um nível cada vez mais rápido. É verdade que os bons artistas se destacam sempre, no passado, presente e futuro, seja pela qualidade, pela mensagem ou pela sua vida. Porém, é com alguma facilidade que recordamos alguns nomes históricos na história da arte (ou mesmo noutras áreas). É também, hoje, possivel entender essas formas devido ao seu contexto histórico e, consequentemente conseguimos saber sobre a época. Só existiam essas pessoas nesse tempo? Claro que não, muitos ficaram para sempre no esquecimento, a arte satisfaz o artista, não quer dizer que o mundo a receba. A arte está para o autor como a felicidade/tristeza está para qualquer um (pessoal, subjectiva). Por outro lado, hoje em dia, mesmo os artistas menos radicais, marcantes têm uma presença forte na comunicação: actualmente está à disposição de todos, ferramentas para publicitar o seu próprio trabalho. Pessoalmente, é como ver a arte passar do autor para o mundo, deixando de pertencer unicamente à própria dor, mas como uma dor partilhada. É bom ou mau? Não sei, mas é diferente. As mudanças são sempre difíceis de avaliar (talvez num futuro mais longínquo).No fim, para quem gosta de se manter dentro daquilo que se faz pelo mundo, é preciso definir prioridades, interesses prioritários e tentar filtrar algum excesso de informação. Ao contrário de há alguns anos, hoje vemos muitos nomes a circular. Por exemplo, vejo trabalhos soberbos, magníficos, dignos do nome “arte”. Como são muitas pessoas diferentes dificilmente fico com o nome da pessoa, a menos que decida ir pesquisar sobre ela e o  seu contacto. Por outro lado, as redes sociais mistas (onde agregamos toda a espécie de trabalhos) trás-nos uma amostragem global “do que gostamos” e do que há, no entanto, acabamos por nos esquecer de valorizar o trabalho de alguém.Sim, aumenta-se “a escolha”, mas acredito que se acaba por diminuir o valor. Como já li (ao que concordei), procura-se a informação horizontalmente (muita), mas deixa-se de procurá-la verticalmente (em profundidade e conhecimento).Independentemente do artista estar para si ou para o mundo, é cada vez mais complicado relacionar estilos próprios de um autor, particularidades para o qual nós dizemos “só pode ter sido aquela pessoa” (vejamos a discussão actual em torno dos quadros de Pollock).Em suma, pode ser apenas a minha visão do mundo, a minha conclusão de um mundo acelerado ou posso ser eu que não me habituo muito bem a este ritmo artístico!Daniel Bento",
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      "author": "danifbento",
      "categories": "Geral, Sociedade"
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      "title": "Leitura - Kafka à beira-mar",
      "content"	 : "Não conhecia a literatura de Haruki Murakami, um amigo falou-me sobre o autor e emprestou-me o livro. Foi à descoberta que me introduzi pelas páginas de “Kafka à beira-mar” e, ao longo de seiscentas páginas fiquei preso até ao último ponto.Em “Kafka à beira-mar” somos levados pela história de Kafka Tamura, um jovem de 15 anos que decide sair de casa, em busca de um significado para a sua vida. Sem memórias da sua mãe e irmã, Kafka sente o vazio do abandono precoce, a perda. Em paralelo, Nakata, um velhote que não sabe ler nem escrever, que não vive o passado, mas apenas o presente. Está preso dentro de si desde um misterioso acidente quando era pequeno, ligado a um mundo misterioso o qual apenas ele entende. Fala com os gatos e procura no presente fazer o certo.Numa história onde existe uma chuva de peixes e cavalas, numa história onde chovem sanguessugas e onde aparece o senhor do whisky, Johnnie Walker, tudo é possível. O tempo vai e vem, o tempo para, o tempo avança.A linguagem usada por Murakami é simples, mas cada palavra está cheia de uma grande profundidade. O mistério é contínuo o que nos deixa interessados na próxima página. Apesar da fantasia que é introduzida no decorrer do tempo, é possível encontrar algumas predominantemente eróticas e outras predominantemente sobre a cultura japonesa. Porém, cada palavra é acompanhada pela sonoridade de uma música, todo o livro é melódico e intenso.A mensagem social é clara, a idealização da vida, do futuro, do caos, da incerteza e da angústia do passado.Certamente um livro muito recomendado!Site oficial do autor:  http://www.harukimurakami.comWikipédia: Haruki MurakamiContinuação de boas leituras,Daniel Bento",
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      "author": "danifbento",
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      "title": "Leitura - Gueixa, Uma Vida",
      "content"	 : "Este livro já estava na minha estante há alguns anos em lista de espera para ser lido. Lembro-me de ter lido algumas páginas, mas decidi recomeçar.Gueixa, Uma Vida é da autoria de Mineko Iwasaki e Rande Brown. Adquiri-o uns tempos após ter lido o famoso livro, Memórias de uma Gueixa. Surgiram diversos rumores sobre alguns factos deste último e dado se tratar de um romance percebi que seria interessante olhar para uma perspectiva mais detalhada.Mineko Iwasaki, nascida com o nome Masako Tanaka, foi uma famosa gueixa conhecida pelo seu grande desempenho nas artes da dança. Desta cultura, apesar de famosa, pouco ou nada se sabe. São poucos os relatos públicos do interior do sistema.O livro trás-nos um relato extremamente factual dos elementos que compõem o funcionamento da comunidade de gueixas no Japão. Mineko deixa o que sente e o que pensa completamente fora do contexto da escrita. Desde a primeira página até à última é-nos dada uma descrição detalhada, com todos os termos culturais, os rituais e uma pequena visão do interior destes bairros.Apesar do livro trazer uma grande quantidade de informação sobre a vida social levada por uma gueixa, os seus passos desde criança, a sua passagem por Maiko e depois para _Geiko, _Mineko deixa-nos um vazio emocional sobre este mundo. Entende-se todas as exigências, os actos, a prática, mas por vezes chega a ser difícil entender se “é bom ou mau”. A autora não nos dá essa informação. Cabe ao leitor avaliar, mas torna-se muito difícil o que também degrada a leitura.Acredito que a tradução para português também não terá ajudado. Mas fica a intenção. Não deixa de ser um bom livro para ler, mas peca pela falta emocional.Continuação de boas leituras,Daniel Bento",
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      "categories": "Leitura"
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      "slug": "leitura-o-filho-de-mil-homens",
      "title": "Leitura - O filho de mil homens",
      "content"	 : "Confesso, não conhecia o autor, valter hugo mãe, quando comecei a ler O filho de mil homens, não sabia o que esperava. Após ler algumas páginas decidi procurar mais alguma informação sobre o autor e reparei que tem recebido críticas muito positivas e apaixonantes sobre a sua escrita.Acabei a ler com bastante entusiasmo, procurando o fim do livro a cada momento para começar, certamente, um próximo. A leitura é apaixonante. A prosa poética é magnífica, um estilo que não tenho visto em livros de autores portugueses actuais.“Para ser o dobro, disse ele, era para ser o dobro e em dobro ter o que fazer da vida e ter o que deixar ao filho”.O autor conta-nos a história de Crisóstomo, “Um homem que chegou aos quarenta anos e assumiu a tristeza de não ter um filho”, de uma anã e do seu filho “Num pequeno povo do interior, vivia uma anã de quem todos se apiedavam”, da Maria e da Isaura “A mãe da mulher enjeitada acordou um dia e falou como se fosse francesa”, o homem maricas “Muitos anos passados, apareceu por ali um homem maricas que vinha ver a Isaura de longe, dizer-lhe bom dia e a sorrir”… entre outras belas personagens que somos presenteados durante as 252 páginas do livro.É um livro que, apesar de ter um estilo muito próprio, remete-nos a uma leitura simples, com mensagens bem trabalhadas e ideias profundas em muitos dos episódios. São algumas horas que valem muito a pena!É possível ver mais alguns trabalhos do autor na sua página oficial em www.valterhugomae.com.Boas leituras,Daniel Bento",
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      "author": "danifbento",
      "categories": "Leitura"
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      "slug": "literatura-dentro-do-segredo",
      "title": "Leitura - Dentro do Segredo",
      "content"	 : "Tinha, já há algum tempo, curiosidade de conhecer alguns textos de José Luís Peixoto (escritor, dramaturgo e poeta português). Decidi que deveria começar pelo livro Dentro do Segredo - Uma Viagem na Coreia do Norte. Apesar do título, sabia que se tratava de um livro sobre uma viagem à Coreia do Norte realizada por Peixoto em virtude da comemoração do centenário de Kim Il-sung e, por este motivo não esperava um livro descritivo sobre a política norte coreana ou qualquer posição ideal, mas sim, uma visão pessoal do que é entrar naquele que é considerado o país mais isolado do mundo.Peixoto guia-nos através de locais da Coreia (do Norte) que se situam no limiar entre a irrealidade e a imaginação. A imagem que é retratada da Coreia (do Norte), desde o momento em que Peixoto decide viajar até ao momento em que finalmente sai das fronteiras do regime,  é surpreendente e incrível, seja do ponto de vista geográfico, natural ou humano. É uma visão pessoal intensa, cheia de momentos que nos levam para o tempo, para o local.Ainda que a viajem descrita por Peixoto seja produto da sua imagem, da sua visão e da sua vivência, senti que conheci um pouco mais aquele território que aqui, a milhares de quilómetros, nos parece distante, nos parece apenas um local de que se fala na televisão, que se vê na Internet, mas que na realidade pouco ou nada se sabe.A leitura é bastante agradável, um estilo fluído e simples. São 200 páginas que duram apenas umas horas. Cada capítulo remete-nos para uma paragem nova, uma fotografia nova, um momento único.A interpretação da mensagem transmitida deve ficar ao critério de cada um, mas sem dúvida é uma boa referência para alguns tópicos. Como é óbvio, o texto não é completamente objectivo em diversas questões, mas trouxe-me algumas questões e alguma vontade de conhecer um pouco melhor este sistema. Concordar ou não concordar, gostar ou não gostar, defender ou não defender, não é impeditivo de conhecer e entender. Acredito que é na compreensão que reside a capacidade de crescer.Poderão ver mais informações sobre o autor na sua página pessoal em www.joseluispeixoto.net.Boas leituras,Daniel Bento",
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      "author": "danifbento",
      "categories": "Leitura"
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      "slug": "expressionismo-abstracto-pollock-e-a-arte",
      "title": "Expressionismo abstracto, Pollock e a Arte",
      "content"	 : "Há alguns anos atrás, admirava um quadro que, para muitos, não dizia nada. Lembro-me dos meus colegas me perguntarem porque gostava eu daquele quadro. Não sabia responder, simplesmente respondia que gostava. Era uma questão interior. Mais tarde, em conversas com colegas de trabalho descobri que o quadro que gostava era de um reconhecido pintor, Jackson Pollock (1912-1956) (agradeço ao Mário pela referência). Pouco ou nada sabia de arte e, ainda hoje pouco ou nada sei. Vejo, gosto, aprecio, ou não gosto e não aprecio. Tento entender do meu modo, ler do meu modo. Não estou (ainda) muito ocorrente das várias correntes artísticas dos anos que se passaram. Todos ouvimos falar do surrealismo (Paul Delvaux), do cubismo (Picasso), impressionismo (Salvador Dalí), entre muitos outras correntes que poderia continuar a exemplificar… Pollock - Number One (1948) from terraingalleryDurante estes anos apenas contemplava algumas imagens que iria vendo pela Internet e, como é possível verificar, ainda é tema de algumas notícias (ver aqui). Ontem, após ter descoberto que existia um filme biográfico da vida de Pollock achei que seria interessante ver, pois existem várias questões que se levantam ainda em relação à vida de Pollock, o seu alcoolismo, a personalidade volátil (estudos recentes indicam que poderá ter sofrido de depressão bipolar). O filme tem o seu nome e pode ser consultado (aqui). O meu objectivo não era referir muitos detalhes do filme, dado que estes estão presentes nas várias páginas sobre o artista.Pollock praticava aquilo a que se chama _expressionismo abstracto _e usava uma técnica chamada _drip, _estas técnicas estão, possivelmente, na origem daquilo que se chama pintura de acção. O resultado é simplesmente fenomenal… ou para mim, é.Porém, existem várias mensagens no filme (tiradas de referências reais ao próprio artista) que me chamaram a atenção. Aquilo que é a própria definição de arte. O que faz a arte, o que representa, qual a fonte de inspiração, a que podemos chamar arte? É muito comum nós dizermos que todos temos um pouco de artistas, é verdade. Todos somos criativos (eu próprio falei do assunto aqui). Pergunto-me entre as várias formas de arte que genericamente categorizamos, pintura, música, literatura, escultura (para referir as principais), o que entendemos como peça de arte? De onde vem essa peça? Qual o motivo?A quantidade de estudos na área da psicologia (entre outras áreas) é surpreendente. O que leva alguém a ser de facto, um artista. Por exemplo, eu faço fotografia (não me considero um fotógrafo). Que mensagem quero passar? Ou será que quero que sejam as pessoas a entender uma mensagem? Devo dirigir as pessoas ao meu pensamento? Ou devo deixar o caminho livre?Dito isto, o que leva a distinguir o “artista que todos nós somos”, do artista que marca a diferença numa época. Muitas vezes, estas peças têm valor pela revolução que fizeram, o estilo, a técnica. No entanto, quantas peças têm valor pelo verdadeiro significado? Procuramos uma explicação explicita para cada traço de uma pintura (no caso de Pollock existem matemáticos que referem um elevado conhecimento da Teoria do Caos, desenhando estruturas fractal nas suas pinturas, noutros artistas fazem-se ilações sobre o comportamento e modo de pensar do autor). Será que é esse o objectivo da arte? Ser dissecada? Ser entendida até ao último átomo que a compõe… na realidade isso alguma vez será possível? Quando se produz, as ideias são muitas… a influência exterior é grande e interior também.Acredito que na arte, está o valor de conhecer o mundo, a arte expressa significativamente a diferença entre cada um de nós. A arte é um refúgio para muitos, o enterrar de sentimentos, para outros o nascer de novos sentimentos. É sintonia perfeita (talvez noutro artigo, se for do interesse, tentarei oferecer um pouco mais da minha visão).Pergunto-me no fim… com aquela dúvida…Afinal… o que significa arte!A plataforma Artsy.net tem uma página oficial dedicada só a Pollock onde é possível encontrar vários quadros deste famoso pintor Artsy’s Official Pollock Page.Daniel BentoPS: A generalidade dos links para a Wikipédia são para a versão portuguesa. Na versão inglesa encontra-se, tipicamente, mais informação.",
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      "categories": "Geral, Other Art, Sociedade"
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      "slug": "toy-story-teoria-da-futilidade-lobos-e-raposas",
      "title": "Toy Story, Teoria da Futilidade, Lobos e Raposas",
      "content"	 : "Na sociedade actual, existem muitas concepções pessoais da próprio termo fútil. Mas, como as palavras têm significados precisos, podemos fazer uma pesquisa e encontrar no dicionário Priberam da Língua Portuguesa: futilidade  (latim futilitas, -atis) _s. f. _qualidade do que é fútil, pouco valor, ninharia.Este artigo vem na sequência de uma entrevista (ver aqui) de Judite de Sousa com, agora o famoso Lorenzo Carvalho Leal. Digo famoso porque depois desta entrevista a cobertura mediática sobre este rapaz vai aumentar exponencialmente (senão era já de si grande). Não vi esta entrevista em directo, talvez se o tivesse feito não ouvisse mais que 5 minutos, mas depois de reparar que foi um assunto com algum movimento, decidi ouvir.Ao pensar na palavra futilidade lembrei-me da famosa série de filmes Toy Story em que o filme roda todo em torno de brinquedos, não quero falar do filme. Mas lembrei-me da quantidade de brinquedos que aquele miúdo tinha… Como todos nós sabemos, esta não é uma realidade muito distante de algumas pessoas (atenção, algumas…). Têm brinquedos para tudo, desde os mais novos aos mais velhos, mas têm brinquedos. Olhando para definição de futilidade, não vejo uma definição absoluta do termo. Esta definição é mutável no tempo, pois as necessidades das pessoas mudam e, o que não tinha valor, passa a ter e vice-versa. O que nós entendemos por futilidade então? Judite de Sousa e a ajuda social… (retirado de: alamode)Pelos vistos, para Judite, ser fútil é ser rico, muito rico e não ajudar socialmente (seja lá o que ela define como ajudar socialmente), ser fútil é ser rico, andar de carro e querer continuar a pilotar, ser fútil é ser rico e querer gastar dinheiro na sua própria festa de anos. Ora, para mim, esta é uma definição de futilidade ambígua. Judite não deve receber o ordenado mínimo, certamente, para que ela quer então o dinheiro que recebe a mais? Ela própria não compra futilidades? Onde está o trabalho “social” dela? Mas passando à frente…A minha questão não se prende com a ideia persecutória de Judite (existe muita gente assim). Mas ao que percebi, o miúdo é rico, tem dinheiro, não pediu para ser rico… nasceu rico (para muitos… o infortúnio da vida). Tem 22 anos, gosta de sair, gosta de beber copos, comprar coisas, estar com os amigos, conduzir… entre outras coisas. Ao que parece, ele até ajuda bastantes pessoas, amigos, de modo sentido. Também não fiquei com a sensação que o dinheiro dele seja “ilegal”. É um atentado ele ser muito rico e gastar dinheiro? Não. Como ele disse na entrevista “eu dou pelo coração e porque sinto que devo dar, senão aí é mesmo cuspir dinheiro nas pessoas”. Concordo. Como também disse “no mundo ninguém é obrigado a nada, é uma questão de bom senso”. Bem dito. Cada vez que ele for viver para algum lado terá de deixar lá parte da sua fortuna em nome daqueles que não podem? Ele é um miúdo, espera-se o quê, o salvador da pátria? Nós temos pessoas que são “supostamente altamente qualificadas” à frente do país para tratar da gestão nacional, dos problemas das pessoas, agora passa-se essa obrigação para as pessoas que não nos levaram a essa situação?Ter um carro não é fútil, uma casa com 4 quartos não é fútil? Jantar fora não é fútil? Passear não é fútil? Afinal o que é fútil? Ou a futilidade só serve para quem tem muito dinheiro e alimenta negócios de maior valor? Ser rico legalmente obriga à prestação social, conduzir um país à falência e fazer troca de influências para ganhar mais alguns trocos já não é futilidade… Passe-se a responsabilidade a quem a tem, passe-se a fazer jornalismo decente e deixe-se lá estar o miúdo. Quando for mais velho tem tempo para ajudar a sociedade.",
      "url": " /toy-story-teoria-da-futilidade-lobos-e-raposas/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "Geral, Sociedade"
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      "slug": "1-para-uma-sociedade-evoluida-a-importancia-de-ser",
      "title": "+1 para uma sociedade evoluída, a importância de Ser",
      "content"	 : "Hoje fica assinalado +1 dia, +1 vitória, +1 conquista. Hoje, +1 passo para uma sociedade mais justa, uma sociedade que é de todos, uma sociedade constituída por cada um, feita para todos. Assiná-la-se hoje, o dia em que se votou a favor da coadopção por parte de casais homossexuais. O jornal Público destaca a notícia aqui, com o título “Portugal torna-se o quinto país a aprovar co-adopção por casais homossexuais”. LGBT RainbowDepois das notícias (aqui e aqui, in Público) que correram o mundo inteiro foi claro que, apesar de estarmos em pleno século XXI, ainda existe alguma controvérsia em relação a esta questão. Mais do que tudo, é uma questão humana. Independentemente do que eu penso (apesar de já ter participado “em certa parte” numa acção de sensibilização, como apresentei aqui), penso que é um valor que nos toca a todos.Segundo a notícia publicada, o projecto de lei (proposto pelo PS) passou com 99 votos a favor, 94 contra e 9 abstenções (votaram 202 de 230 deputados). PSD e CDS deram liberdade de voto. A diferença foi mínima, mas o que conta é que foi aprovada, falta esperar pela votação final global e a promulgação do Presidente da República. As propostas do BE e PEV sobre adopção plena foram reprovadas.Apesar de ter sido uma questão debatida em sede parlamentar, votada pelos vários partidos com participação, penso que esta é uma questão transversal à política. Não é uma questão que toca particularmente a esquerda, nem a direita de um ponto de vista do Ser Humano. É uma questão humana, não tem partido. Vota-se pelas leis, não se vota pelo sentimento, a essência do Humano e da sua estrutura enquanto individuo. Os partidos estão cheios de divergências, isso é a política, de uma ponta à outra (não dando preferência à ordem) as questões são muitas. No fundo, todos são humanos.Mais do que posições políticas vincadas, por vezes, o que me impressiona são as pessoas, todas no geral. As opiniões não são consensuais e divergem ainda mais do que na própria política. Às vezes isso assusta-me. Hoje foi um dia de extrema felicidade para muitos, mas para outros, muito ódio. Dado que sou a favor desta lei, não posso ser hipócrita e dizer que não me faz alguma confusão, ainda que entenda a posição das pessoas. As pessoas são diferentes, crescem em meios muito diferentes e acabam com visões da vida, do mundo, é uma questão muito pessoal. Da mesma maneira que é difícil julgar alguém por sentir é, também, difícil julgar por não sentir. É uma questão estrutural do ser.Muitas vezes, a realização de que o nosso modo de viver não é único assusta-nos. Ataca a nossa própria capacidade de sobrevivência, surge a questão do próprio sentido, do percurso… a segurança. Trilhar por caminhos incertos, desconhecidos, é difícil. À sua maneira, todas as pessoas acreditam que o mundo pode ser melhor, ingenuamente poderá-se pensar nisso. Mas às vezes, acho um infortuno uma pessoa não ser capaz de sair da sua própria esfera sentimental, chegar ao outro. Usam-se argumentos, muitas vezes falaciosos, sobre a incapacidade de construir uma vida, de preparar uma vida e tornar essa vida uma vida Boa, genuína. A verdade, ninguém sabe. O que nós sabemos são percursos, são situações. Existe um percurso histórico é verdade, conhece-se parte, não todo.Não acredito em soluções mágicas, ninguém tem a fórmula da vida. Argumenta-se usando consecutivamente o “valor da descendência natural, a linhagem da natureza”, quem é que comenta e diz isto? As mesmas pessoas que não se importam de continuar a explorar os recursos naturais da própria terra onde vive, levando-a à falência da própria humanidade? São as mesmas pessoas que são os primeiros a achar que nós “humanos” somos um ser superior a todos, sem qualquer predador, protegidos pelas nossas casas, destruindo a ordem da natureza? O mundo avança, as pessoas evoluem.Felizmente, hoje, é mais fácil falar-se do que se sente. Durante muito tempo isso não foi possível. O valor humano é importante e sobretudo, a compreensão pelo outro. Argumenta-se sobre a contextualização da criança, a sua suposta “confusão”, sobre o facto de ter dois pais ou duas mães. Mas quem impõe que isso é mau? É “a evolução da natureza” que não permite? É a “natureza” que na vida real não permite o acolhimento afectuoso de qualquer animal por outro? São os seres que pensam “eu só posso ter afecto por um casal”? Ou somos “nós”, todos, enquanto sociedade que impomos isso enquanto valor sagrado, como princípio da continuidade, como ordem natural do universo? Não seremos nós que estamos a batalhar contra a própria natureza do homem quando dizemos que não ao afecto? Poderia continuar aqui a levantar questões… muitas questões. Não me cabe a mim fazê-lo, cabe a cada um olhar o mundo e entendê-lo, cabe a cada um perceber o que na verdade acontece, pode acontecer ou aconteceu. Somos nós que fazemos a sociedade.Entre as questões do próprio sentimento humano, existe uma muito importante. Amar. Deixando apenas uma pergunta. Quão acham ridículo amar, querer ser amado, mas não deixar o outro amar e não deixar o outro ser amado? Não o deixar Ser.Por fim, após este desabafo, deixo apenas a minha tristeza por esta notícia aqui. Um sol de pouca dura. A inconstituicionalidade da própria identidade humana. Triste, é a única palavra que me resta. Talvez um dia exista o bom senso nestas mentes pequenas, muito pequenas, independentemente da cor que vestem.Daniel Bento",
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      "author": "danifbento",
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      "title": "Leitura - A Papisa Joana",
      "content"	 : "A Papisa Joana (1996), um romance escrito por Donna Woolfolk Cross, retrata a vida de Joana, a única mulher que conseguiu ascender ao trono papal, numa mistura de factos reais, história e lenda.Em A Papisa Joana, a autora procura que acompanhemos a vida de Joana, desde o seu complicado nascimento até ao último dos seus dias. Joana é uma personagem lendária, as opiniões actuais são controversas em relação à sua existência. Existem muitos membros da Igreja que continuam a negar a sua existência, por outro lado, também existe quem a defenda e que, inclusive, aponte algumas provas.Ainda assim, existem muitos factos históricos e pertinentes neste livro. Ao retratar a vida de Joana, é feita também uma caracterização de como eram tratadas as mulheres na época, de como a corrupção vingava entre os vários elementos da alta nobreza e clero. Também é retratado de uma forma muito clara o modo como o povo vivia, o nível de iliteracia da generalidade da sociedade (mesmo entre muitos nobres e membros do clero), as péssimas condições sanitárias, as cidades mal tratadas, os locais abandonados, entre outros pontos interessantes.A informação sobre o século IX é muito escassa. Muitos documentos desapareceram e era uma época dominada por crises. Deste modo, o que sabemos consta de algumas correntes populares e de alguns documentos mal tratados, recentemente achados. O período em que Joana foi papisa será sempre uma incógnita, mas fica para a história a imagem de como alguém pode lutar vincadamente contra a sociedade.Uma leitura que recomendo, não por uma questão religiosa, mas sim pela simplicidade das descrições e do argumento. Sem dúvida uma peça para quem gosta de alguns factos históricos.Para mais informações podem consultar o site oficial: http://www.popejoan.com/Há também um filme, Pope Joan (2009) para quem preferir - existe também um de 1972 com o mesmo nome.Boas leituras,Daniel Bento",
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      "author": "danifbento",
      "categories": "Leitura"
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      "title": "Reconhecimento versus Realização",
      "content"	 : "Com o crescimento exponencial da cultura dos meios de comunicação e da Internet começa a existir uma mistura entre a definição de reconhecimento e de realização pessoal. O indivíduo que procura a partilha do seu trabalho, da sua ideia, muitas vezes esquecendo-se da primária razão que o levou à sua execução. É tão mais frequente a incapacidade de sentir satisfação quanto mais infrequente se está isolado do mundo. A lógica social é assim gerida, na sua maioria, por conexões indirectas ao mundo, pressupostos de que no destino alguém vai receber a mensagem. Não pretendo com estas afirmações solidificar alguma ideia subjacente, mas sim apenas divagar sobre o meu próprio pensamento. Contacto Social(retirado de popstrip.com)De uma maneira ou de outra, as palavras que transcrevo para aqui ou para qualquer outro lado acessível ao público contrapõem a ideia que acima quis transmitir. Procuro realização ou reconhecimento através do que escrevo, penso ou imagino? É uma pergunta sensata e pertinente. Penso que de alguma forma, procuro os dois. Não deixa de ser verdade que sinto realização por me entregar a algumas formas de me exprimir, por outro lado, também não é mentira que sinto alguma alegria quando sei que a mensagem chega ao destino.Esta ideia permite-me tentar extrapolar para fora daquilo que é o meu mundo interior e daquilo que eu sinto. Sejamos nós todos indivíduos da sociedade, complexos e inteligentes. Apesar das inimagináveis diferenças de personalidade e estrutura emocional, somos construídos do mesmo modo, não será difícil perceber que teremos então algumas semelhanças estruturais e sociais. Faz-me sentido pensar que durante o tempo em que existimos, o nosso raio de acção social foi aumentando, por quanto, também a necessidade de partilhar e transmitir. No principio do século passado assistimos a um boom na comunicação, o nosso raio de acção social cresceu e continua a crescer cada vez mais, as pessoas distam entre sim de pouco, muito pouco.Será que este aumento exponencial do raio de acção é proporcional ao aumento da insatisfação a que assistimos? Ou será que as pessoas estão a caminhar para o sentido em que se sentem mais completas… Creio que neste momento estou com um dilema, grande, talvez. O tempo que cada um dedica a alguém é cada vez menor, é então distribuído por muitas outras pessoas ou até mesmo por algum trabalho solitário. Será que assim existe mais realização? Ou apenas reconhecimento? Será que é este o sentido que deveremos seguir? Pergunto-me se não nos estamos a esquecer daquilo que é fundamental, as pessoas. Porque as pessoas são a essência, porque são estas que nos moldam a nós como seus semelhantes, são estas que nos permitem viver.Resta-me pensar ou acreditar que nos regemos por aquilo que nos trás mais felicidade, esperando confiar no pensamento de cada um.Daniel Bento",
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      "author": "danifbento",
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      "slug": "sessao-de-observacao-2012da14-15-fevereiro-2013",
      "title": "Sessão de Observação 2012DA14 - 15 Fevereiro, 2013",
      "content"	 : "O dia 15 de Fevereiro de 2013 foi um grande dia para os astrónomos e público em geral. Já há um ano que andava a ser observado, mas foi nesta data que o asteróide - com o nome 2012DA14 - mais se aproximou da Terra, passando no interior das órbitas dos nossos satélites artificiais geoestacionários (sem perigo nenhum). Foi com grande espectativa que todo o mundo quis seguir a sua passagem, visível em praticamente todo o mundo. Organizaram-se uma série de eventos em diversos sítios, o Observatório Astronómico de Lisboa (OAL) não foi excepção.Porém, por enorme coincidência, pela mesma manhã, um meteoro enrompeu pela atmosfera e um meteorito caiu em sólo Russo. Foi um espectáculo fenomenal de ver, apesar dos muitos feridos que houveram. Por momentos, o 2012DA14 perdeu toda a sua importância, perdeu todo o seu estatuto de rocha perigosa e os olhos ficaram postos na Rússia, esperando mais novidades. Outros meteoros talvez?Com tudo isto, o OAL foi palco de uma palestra sobre asteróides e meteoróides, meteoros e meteoritos. Muitas pessoas aproveitaram para tirar as suas dúvidas, nomeadamente sobre o perigo apresentado por estes objectos e mesmo mostrar a sua insatisfação pelo trabalho científico ao não prever estes acontecimentos mais cedo.Ainda assim, aproveitei para praticar um pouco da minha astrofotografia, como não consegui registar o asteróide ou, pelo menos até agora, não o consegui visualizar no pós-processamento das fotografias, deixo aqui dois registos que fiz apenas com a máquina fotográfica, sem telescópio para auxiliar.Nebulosa M42 @ Observatório Astronómico de LisboaLua @ Observatório Astronómico de LisboaDaniel Bento",
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      "author": "danifbento",
      "categories": "Geral"
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      "title": "Exposição - Um Universo Deslumbrante",
      "content"	 : "No dia 7 de Fevereiro (2013) foi inaugurada a exposição “Um Universo Deslumbrante”, patente no Museu Nacional de História Natural e Ciência. Esta é uma exposição internacional que visa a comemoração dos 50 anos da existência do ESO (European South Observatory). Esta exposição levanta um pouco do véu sobre o trabalho que é efectuado nos maiores telescópios do mundo. São 50 imagens que representam muito bem a diversidade de descobertas que se têm realizado nos últimos anos no campo da Astronomia. Um Universo DeslumbranteA inauguração deu-se às 19h. Foi com entusiasmo que todos foram ver as imagens proporcionadas pelo ESO. Pessoalmente, achei o espaço bastante moderno. A simplicidade reinava, o que é importante para a complexidade de objectos que as fotografias mostram. O espaço não era de todo muito amplo, mas foi claramente bem organizado. Com sequências bem estruturadas de fotografias, os visitantes passavam os olhos, comentavam, perguntavam e admiravam.Nestes momentos é sempre com algum orgulho sentir que fazemos parte desta comunidade, tão distante, mas que, ao mesmo tempo, trás ao mundo coisas que são de outra realidade.Recomendo vivamente a irem visitar a exposição, vai estar no Museu até dia 5 de Maio.Não percam,Daniel Bento",
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      "author": "danifbento",
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      "title": "Queria ser astronauta...",
      "content"	 : "Era 4 de Julho de 2006 e eu tinha 20 anos. Na altura estava a frequentar o curso de Matemática Aplicada e Computação no IST, tencionava seguir o mestrado em Física e seguir Cosmologia. Era miúdo e isto espantava-me, como todas (ou a maioria) as crianças já sonhei ir ao espaço e ser astronauta. Estava sentado à secretária a ver o lançamento em direto, não queria perder nenhum momento. Talvez tenha sido a partir daí que algumas coisas mudaram. Acabei a mudar de curso, a seguir a licenciatura de Física. A dinâmica das missões espantava-me, não só a engenharia necessária, mas a complexidade dos conceitos físicos que estavam subjacentes.Perguntam-me hoje se queria ser Astronauta. Não posso negar que seria interessante, não posso negar que seria de uma destreza mental e física conseguir lá chegar. Os que vão são bons, mesmo bons. Não há espaço para falhar.Perguntam-me hoje se a Física ainda é na minha cabeça o que era. É e, talvez, ainda mais. É um entender da realidade, conceptual, humano, mas válido. É compreender o mundo e também, compreender o que não se conhece e não se “vê”. De um certo ponto de vista compreendo porque às vezes se afirma que os cientistas são pouco emotivos, desligados do sentimento e das verdadeiras causas da humanidade. Por outro lado, sei que há uma dificuldade em compreender que o desejo de contemplar e compreender é por si só, desejo de sentir a realidade.Daniel Bento",
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      "title": "Leitura - O sonho de Descartes - O mundo segundo a Matemática",
      "content"	 : "O sonho de Descartes - O mundo segundo a Matemática é um livro de Philip J. Davis e Reuben Hersh, publicado em 1986.Este livro retrata uma sociedade matematizada ao estilo do que Descartes sonhava na sua época. É um livro com muito conteúdo histórico sobre a evolução das Ciências da Computação. Retrata tópicos como o nascimento dos primeiros sistemas computacionais à vida diária de um programador.São 6 capítulos (divididos em subtemas) que nos dão elementos sobre a construção de uma matemática globalizante. Um dos aspectos que achei interessante foi as referências às questões de ética levantadas pela investigação e pelos modelos de ensino que estavam em vigor na época.É explicado, de uma forma bastante clara, como os computadores foram introduzidos na nossa sociedade e o quanto estamos dependentes dos mesmos, não conseguindo evoluir de outra forma. Conclui-se que estes têm uma presença que é impossível de eliminar, pelo menos no estádio actual do mundo.Apesar de ser um livro com alguns anos, retrata bem aquilo que ainda é a realidade presente, pelo menos, na maioria dos aspectos abordados. É certo que a visão se alterou durante os últimos anos, mas não o suficiente para não nos identificarmos com o que está neste livro.É uma leitura que recomendo aos curiosos, não é um livro demasiado técnico, mas também não é simples o suficiente para ser aborrecido.Para quem está na rede GoodReads aqui fica o link: O sonho de Descartes - O mundo segundo a Matemática.Boas leituras,Daniel Bento",
      "url": " /leitura-o-sonho-de-descartes-o-mundo-segundo-a-matematica/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "Leitura"
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    "173": {
      "id": "173",
      "slug": "concurso-de-fotografia-caminhos-de-igualdade",
      "title": "Concurso de Fotografia - Caminhos de Igualdade",
      "content"	 : "No último mês (Dezembro) participei num concurso de fotografia sobre o tema igualdade de género, intitulado “Caminhos de Igualdade”. Este concurso foi promovido pela Associação Juvenil de Dião, Viana do Castelo. Tem por objectivo sensibilizar para as questões da igualdade de género, um problema estrutural da sociedade actual.É com satisfação que comunico que uma das minhas três fotografias foi seleccionada para a exposição que está a decorrer em Viana do Castelo e por algumas freguesias no concelho. É óptimo saber que a mensagem que tentei transmitir pela câmara foi bem aceite. Para além disto, o jornal P3 apresenta uma galeria com alguns trabalhos seleccionados, onde o meu aparece.Clique aqui para ver a galeria no sítio do jornal.Quero deixar os meus parabéns a todos os participantes e também o meu obrigado pela selecção.Daniel Bento",
      "url": " /concurso-de-fotografia-caminhos-de-igualdade/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "People, Photography, Sociedade"
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      "slug": "a-socializacao-da-rede-social",
      "title": "A Socialização da Rede Social",
      "content"	 : "Actualmente, derivado à quantidade de informação que disponibilizamos, um dos nossos grandes problemas é perceber qual o caminho que esses dados levam, para onde vão, onde chegam, onde residem e para onde nos levam a nós: enquanto indivíduos.É claramente uma questão que é levada em consideração - positiva ou negativamente - por muitas empresas, esta informação é preciosa e ninguém a quer perder. Não querendo falar das empresas em si ou dos seus objectivos de mercado (isso seria outro artigo, talvez bem mais longo), o que gostaria de evidenciar é a socialização da rede social. Social Network Graph(credit: http://www.fmsasg.com)Existe um número incalculável de redes sociais, umas que trazem algumas funcionalidades, outras que trazem utilizadores de um determinado segmento. No entanto, também não se podem isolar. As pessoas vêem em cada uma a sua utilidade e procuram convergir todo o seu ambiente social online para um mesmo caminho. O seu grande objectivo é aumentar o contacto entre pessoas, permitir que qualquer distância se resuma a um click como, por exemplo, permitir que o nosso melhor amigo nunca deixe de estar em contacto connosco, mesmo que vá para muito longe. Ou, talvez, esse fosse o objectivo até há algum tempo atrás. Hoje em dia, penso que a rede social tornou-se no modo mais rápido de trocar qualquer tipo de informação, qualquer tipo de conteúdo, qualquer tipo de interacção (pessoal, profissional, criativa…).Pessoalmente, procuro diversas redes sociais com públicos diferentes. Usar uma rede como o Facebook não é o mesmo que usar uma rede como o Google+ ou, até mesmo, o Twitter. Chego a pessoas diferentes, por vias distintas. Houve uma época em que tentava manter a mesma distribuição de informação pelas diversas redes (dentro daquilo que eu disponibilizo), mas percebi que não funcionava assim. Este efeito é contagiante, na medida em que acabamos a procurar redes diferentes para conseguir diversificar o público. Talvez o nosso objectivo final seja “chegar a todos”, literalmente.No entanto, não deixo de achar que as redes sociais têm um perigo anexado e que vale a pena ser cauteloso de diversas maneiras. A nossa identidade é única e devemos defendermos em qualquer circunstância. Sendo um método tão rápido de propagação de informação, a rede social é uma faca de dois gumes. É sempre preciso ter em atenção ao futuro do que colocamos online e ter em conta que, a partir do momento em que carregamos no botão Enviar, a informação já não desaparece… é eterna.Mantenham-se sociais, mas atenção!Daniel Bento",
      "url": " /a-socializacao-da-rede-social/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "Geral, Sociedade"
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      "slug": "palavras",
      "title": "Palavras",
      "content"	 : "As palavras que nos chegam aos ouvidos são, na maioria das vezes, palavras que soam perdidas no meio das multidões. Quando saímos de casa pela manhã, quando viajamos nos transportes para a escola, seja durante o dia no trabalho ou durante a noite enquanto vemos televisão. São mais que muitas, as palavras. Existem palavras boas, más, assim assim, para todo o gosto… para o nosso e para até para quando não se gosta. The letter (A carta) por Adrian ClarkO nosso cérebro passa o dia a gerir estas palavras, a decidir o que é mais importante, o que deve ser mesmo escutado e o que deve ser interpretado. De tempos a tempos, ouvi-mo-las mal e percebemos tudo ao contrário, é necessário voltar atrás (felizmente temos essa excelente capacidade) e pensar no que correu mal, no processo inerente a esse erro. Uns dias percebemos que é erro nosso, noutros dias percebemos que não. Acabamos a construir pensamentos mais complexos e difíceis de entender na nossa própria mente, uma linguagem que só nós entendemos. Deixa de ser Português, Inglês, Espanhol, Italiano ou Japonês… eu diria, talvez, “Sentimentês”. São essas as verdadeiras palavras que têm significado nos nossos dias. Por vezes parecem mais razoáveis e racionais, outras vezes parecem completamente descontextualizadas, mas existem.Cada dia que passa pode ser como outro qualquer ou, pode ter tudo diferente… uma palavra, pode bastar. Entre ficar contente, ficar triste, feliz ou infeliz, a consequência existe. A existência de tamanha quantidade de palavras é também uma prova de que estamos vivos, de que somos inteligentes e capazes de comunicar e de que somos capazes de ter influência sobre o próximo (ou até para quem está mais longe).Pergunto-me se seremos totalmente donos desta vontade própria de comunicar ou se, na maioria, somos controlados pela vontade do meio, pela própria linguagem do meio. Independentemente da resposta é importante ter em conta que acabamos a ser moldados pelas palavras e acabamos a viver em função da expressão de cada uma.Daniel Bento",
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      "author": "danifbento",
      "categories": "Geral"
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      "title": "Máquina Humana",
      "content"	 : "A nossa mente é dotada das mais maravilhosas características e, muitas vezes, gostamos de nos colocar num local que está para além da nossa própria definição de inteligência. Máquina Humana(crédito: retirado aleatoriamente de uma pesquisa no google.com)Inocentemente, acabamos por nos comparar, tecnicamente, a uma máquina, a um ser desprovido de emoções, responsável por executar ordens e processar aritmética. No fim, acabamos por não dar espaço aos nossos sentimentos, ao nosso “querer”. Nascemos, vivemos e morremos para cumprir objectivos, uma máquina autêntica… apenas com a diferença de ser biológica.Na realidade, não é isso que somos. Somos um “ser completo”, com conteúdo emocional, sentimental, intelectual, racional, entre outras mais características que nos chegam diariamente. A ideia de completude é difícil de alcançar na medida em que diariamente nos vemos confrontados com os mais diversos obstáculos. Este vazio como “ser” transforma-se consequentemente em vazio emocional, há a modificação do Homem para a Máquina.A concretização é, talvez, o nosso objectivo mais comum. A idealização, o debruçar e a reflexão são deixadas de lado em detrimento de um produto final. São estes últimos necessários? Talvez não para muitas decisões. Talvez sim para aquelas que nos envolvem a nós mesmos e ao modo como concebemos a nossa própria estrutura emocional. É interessante, por exemplo, deixar-mo-nos levar pelo pensamento que uma música nos trás, escrever ao seu som, imaginar as notas. No fim, senti-mo-nos relaxados, calmos. Não precisa de ser muito tempo, basta dois minutos… é o suficiente.Isto distingue-nos das máquinas, a nossa interiorização. Reconhecermo-nos a nós mesmo como espécie, reconhecermo-nos como parte do mundo. É compreensível o aparecimento dos mais diversos meios de interpretação do mundo, uns mais certos que outros, alguns que movem mais do que outros, uns poucos que marcam a diferença.É então importante, olharmos para dentro e localizarmo-nos, conhecermo-nos.Daniel Bento",
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      "author": "danifbento",
      "categories": "Geral"
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      "title": "Leitura - Buracos de Verme Cósmicos",
      "content"	 : "Buracos de Verme Cósmicos: As novas fronteiras do universo é um livro da autoria de Paul Halpern, publicado em 1992 (versão original).Apesar de ser um livro com alguns anos, foi-me dado a ler e proporcionou-me muitos momentos de aprendizagem gratificantes. Consegue explicar, de um modo simples, como durante os anos de evolução da ciência da Física foram surgindo objectos que estavam para além da imaginação e que nos permitem fazer viagens mais rápido do que luz e, até mesmo, viagens no tempo.O livro está dividido em nove capítulos, cada um representa uma fase da conquista do espaço. Iniciamos com o nosso o conhecimento do actual universo até aos achados mais incríveis que só aparecem na ficção, as viagens no tempo. Acaba com uma pequena imagem do que poderia ser o nosso universo caso estas viagens fossem possíveis e qual o seu impacto no nosso quotidiano.Percebe-se que estas incríveis estruturas, os Buracos Negros, são resultado de uma investigação muito profunda da Teoria da Física. Apesar de objectos promissores, estão no abismo que existe na nossa capacidade de explorar o Universo. Para que seja possível haver viagens humanas foi necessário introduzir, na Teoria dos Buracos Negros, algumas especificidades que deram origem aos chamados Buracos de Verme Transitáveis. Mediante estas condições, passaria a ser possível realizar viagens inter-galácticas e temporais.Ainda que os temas requeiram um sentido de abstracção grande, este livro está escrito de uma forma acessível, com exemplos comparativos que dão um melhor entendimento teórico sobre os assuntos.Com vinte anos, este livro continua a ser muito actual e passa uma ideia muito promissora da Física dos nossos tempos. Para quem gosta de aprender um pouco sobre estes objectos muitos estranhos é um livro que é impossível não ler.Para quem está na rede GoodReads aqui fica o link: Buracos de Verme Cósmicos: As novas fronteiras do universoDesejo as melhores leituras,Daniel Bento",
      "url": " /leitura-buracos-verme-cosmicos/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "Leitura"
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      "title": "Cinema - Madagascar: Europe&apos;s Most Wanted [Madagáscar 3]",
      "content"	 : "Passavam aproximadamente 15 minutos das 11h da manhã, estava muito calor, mas não o suficiente para entrarmos na onda do nosso amigo Alex, o rei da selva e dos seus amigos. Apesar da temperatura que se faz sentir em Madagáscar, a ideia de perseguir os pinguins (…) mais famosos do mundo, e os seus chimpanzés sindicalistas, é promissora de fazer sentir toda uma nova aventura. Madagascar 3: Europe’s Most WantedEles são quatro, Alex, o leão, Marty, a zebra, Melman, a girafa e Glória, o hipopótamo. Junto com eles segue o Rei Juliam e companhia. O Rei Juliam a sair de Madagáscar? É verdade!Desta vez, os nossos amigos vão parar ao Mónaco. Aí, começam a ser perseguidos pela obsessão da agente de controlo animal Chantel DuBois, a cabeça de Alex está a prémio. A aventura continua quando estes se refugiam junto a um grupo de circo em crise. A partir daqui, partem por caminhos desconhecidos onde vão entender algumas questões importantes sobre as suas  vidas.Apesar de já ser a terceira parte da história, existem sempre elementos novos que nos fazem ficar colados ao ecrã. Estar nas filas da frente não é o melhor e não se desfruta ao máximo da imagem, mas acho que a versão 3D está bastante boa. Impressiona com determinados momentos, sejam eles de suspense ou comédia. O acompanhamento sonoro é muito bom e não podemos deixar de gloriar a banda sonora do filme.O filme apenas peca pela presença exagerada de alguns efeitos psicadélicos em determinadas partes que, de alguma forma, juntamente com o 3D, podem gerar alguma confusão. Ainda assim, fico com a sensação que gostava que o filme fosse um pouco maior… aquela vontade de ficar mais um pouco na sala de cinema.Se rir é a sua vontade, se ver uma boa animação é a sua paixão então este não é, sem dúvida, um filme a perder. Foram pensados  os mais ínfimos detalhes, entre eles, o novo remix da música I Like to Move It (divertido, como sempre).",
      "url": " /cinema-madagascar3/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "Filmes"
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      "slug": "formacao",
      "title": "Formação",
      "content"	 : "As frases “tens de estudar filho, um dia tens de ser alguém na vida” ou “estuda para não seres como nós” eram comuns, no dia a dia, para a generalidade dos jovens, . Era impossível passar um dia sem as ouvir, seja porque se queria ir tomar um café com um amigo, sair à noite ou ir até à praia. “Estudos” era sinónimo de sucesso e de realização. A aula de MatemáticaFotografia de stuartpilbrow @ flickrInfelizmente, o padrão está-se a alterar e são cada vez mais os pais a questionarem se vale a pena os filhos continuarem a estudar (nomeadamente para o ensino superior). Para além dos custos financeiros que acarreta manter um filho na escola (sem que este trabalhe), a falta de emprego e o crescimento a grande ritmo do desemprego jovem está a levar os nossos jovens (actuais pais) ao desespero e os nossos adolescentes a colocarem a escola como segunda opção de futuro.Não querendo entrar em manifestação partidária ou noutro tipo de intervenção, sinto um clima de elitismo escolar. A sociedade está-se a transformar e, consequentemente, está a modificar o seu núcleo de crescimento e a desmembra-lo. Não sou crente no destino, mas é visível a diferenciação social que está a ganhar forma.Olhando para o sítio Educação - Público, leio em diagonal o seguinte: o sucesso dos alunos determina a carga horária de uma escola, um pai que deve ao fisco impede o filho de ter bolsa, o filho que falta às aulas obriga os pais a pagar multa (que por sua vez, já não têm dinheiro). O pai que não tem dinheiro, veio de um curso cuja universidade não se comprometeu com a taxa de desemprego da área. Por acaso, o pai, que já tem o seu_ qué_ de dificuldade, tem um filho com Necessidades Educativas Especiais, apenas consegue pensar que o filho vai ter de sair da escola. Ah, não esquecer… há pequenos almoços oferecidos por algumas escolas… Melhor, os alunos indisciplinados a fazer trabalho comunitário?… Bem poderia continuar…Ainda há dias conversava sobre a importância da formação de cada um. Não considero apenas os anos de empregabilidade importantes para a progressão de uma pessoa, mas considero, também, todo o seu percurso. Na minha opinião, qualquer criança tem o mesmo direito à educação, nos mesmos padrões que os colegas. Faz sentido afirmar que estas são diferentes, mas é uma afirmação válida apenas num tempo local. Globalmente, penso que, é possível arranjar meios de fornecer, a todas as crianças, as ferramentas necessárias para o seu sucesso enquanto estudantes, trabalhadoras e, essencialmente, como pessoas.Penso que nos deveríamos ocupar a formar, a educar. Fazemos todos parte de uma só sociedade e que pouco conhecemos e, por isso, vale, vale a pena.Daniel Bento",
      "url": " /formacao/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "Geral, Sociedade"
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      "slug": "ser-trabalhador-estudante",
      "title": "Ser trabalhador-estudante",
      "content"	 : "Com o actual cenário económico é frequente haver a necessidade, por parte dos estudantes, de procurar algum trabalho para compensar as despesas diárias na escola. Li um artigo, há uns dias, no jornal P3 - Público, que abordava este mesmo assunto “Ser trabalhador-estudante é possível? Em Londres sim”. Decidi que seria uma boa ideia dar o meu testemunho como trabalhador-estudante.Ser trabalhador-estudante em Portugal não é simples, é verdade, mas é possível. Já passei por diversas experiências profissionais enquanto mantive os estudos. Estagiário, trabalho a recibos verdes, trabalhar em casa, ter um contrato normal… Quase sempre estive em empregos de horário completo (8-9h dia), em poucos estive com horário parcial (menos de 4h dia).Sou estudante de Física na Faculdade de Ciências e mantenho um trabalho complexo, o de programador informático. Apesar da dificuldade da conjunção das duas, é fazível, mas é necessário muito esforço e dedicação. É preciso querer e é preciso fazer algum sacrifício. Ainda assim, consigo ter tempo para o café com os amigos, para fazer fotografia e fazer muitas mais coisas. É preciso saber gerir o tempo.Os trabalhadores-estudantes são, na sua franca maioria, mal estimados pelos professores em Portugal. Muitas vezes são considerados os alunos de maior taxa de insucesso e aqueles em que não vale a pena investir no seu futuro como aluno. Por outro lado, isto é, no emprego, muitas vezes é preciso ter sorte e eu tenho-me sentido com alguma. O trabalho que faço compensa as ausências que posso necessitar para as aulas/exames. Muitas vezes, esta consolidação só é possível após algum investimento inicial e que depois deve ser mantido para que as coisas corram bem e para que, tanto da parte da escola, como da empresa, não exista um desinvestimento em nós.Não podemos ser aquele aluno que simplesmente não quer saber das aulas, porque, como trabalha, está no seu direito às faltas. Não podemos ser aquele empregado que, tendo o estatuto de trabalhador-estudante, que lhe confere (alguma) assistência legal, usa isso como meio de não cumprir na totalidade os objectivos enquanto trabalhador. É preciso um esforço redobrado, é preciso ter energia em duas partes distintas da vida, a Escola e o Trabalho.É preciso sobretudo… paixão, mas se é possível ser trabalhador-estudante? Em Portugal sim!Daniel Bento",
      "url": " /ser-trabalhador-estudante/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "Geral"
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    "181": {
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      "slug": "observatorio-astronomico-de-lisboa-observacoes-astronomicas",
      "title": "Observatório Astronómico de Lisboa - Observações Astronómicas",
      "content"	 : "Hoje é mais um dia de eventos no Observatório Astronómico de Lisboa e, a par disso, alguma formação importante para o grupo. Apesar de nós, na maioria, já termos alguma prática no manuseamento de aparelhos para a Astronomia, é importante continuar formação que nos permita progredir nos nossos conhecimentos.A formação de hoje teve como assunto principal “Observações Astronómicas”. Existem diversos conceitos que são necessários para o bom funcionamento de uma sessão. Como devem imaginar, o “céu” é imenso, é importante aprender a situar-nos no espaço, bem como, no tempo. É bom conhecer o céu, é bom saber na “ponta da língua” onde estão determinados objectos, mas é mais importante saber orientarmo-nos no espaço que nos envolve e saber localizar o objecto que procuramos, independentemente do local ou do dia em que nos situamos.Quando estamos a iniciar uma sessão de observação é preciso ter em conta algumas questões:      Estamos perto da cidade?        Quais as estrelas mais brilhantes do céu?        Que objectos conseguimos ver?        Em que altura do ano estamos?        Que horas são?  A necessidade de responder  a estas questões surge do facto de que, ao longo do tempo, os objectos que podemos ver no céu serem diferentes. Apesar disso, somos sortudos, o ciclo repete-se com os dias e/ou anos. Deste modo, aprendemos, entre muitas outras coisas, sistemas de coordenadas, de que modo os movimentos da Terra afectam a visibilidade dos objectos e alguma introdução aos telescópios que funcionam nos diferentes sistemas referidos.Foi uma sessão divertida e recheada com algum humor. Espero assistir a mais sessões destas e, com certeza, irei aplicar muitos dos conhecimentos nas minhas observações.Daniel Bento",
      "url": " /observatorio-astronomico-de-lisboa-observacoes-astronomicas/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "Geral"
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      "id": "182",
      "slug": "sapo-session-introducao-teoria-probabilidades",
      "title": "SAPO Session - Introdução à Teoria das Probabilidades",
      "content"	 : "Hoje durante a manhã, estive numa sessão, organizada pelo SAPO, cujo tema foi “Teoria das Probabilidades”. Este episódio remota-me aos tempos em que assisti a algumas aulas de Probabilidade e Estatística no 1º ano no curso de Física. De um modo muito mais simplificado, mas com alguns truques à mistura (que nas aulas não existam) abordamos algumas temáticas interessantes, tanto do ponto de vista da curiosidade como matemático.Entre moedas, dados, cartas e outros dispositivos de sorte, ficamos  a conhecer um pouco como é possível obter uma análise aproximada da realidade, apenas pegando em pequenos exemplos simples. Pela frente, ficaram também alguns conceitos elementares em matemática das probabilidades, como:Ensaio de Bernoulli: Uma experiência com dois resultados possíveis, que definimos como “sucesso” e “insucesso”, têm probabilidade de acontecer dada pela relação (sendo q “insucesso” e p “sucesso”):[latex]q = 1 - p[/latex]Distribuição de Bernoulli: A distribuição de probabilidades que resulta de um ensaio de Bernoulli[latex]P(x) = p^{x}q^{1-x}[/latex]Distribuição Binomial: A distribuição binomial consiste num conjunto de n ensaios de Bernoulli independentes, com probabilidade de “sucesso” p (k vezes) que é dada por[latex]P(k) = binom{n}{k}p^{k}(1-p)^{n-k}, k=0,1,2,3 dots n[/latex]Distribuição Geométrica: Distribuição que representa a probabilidade de obter “sucesso” p após sucessivas tentativas independentes, dadas por k.[latex]P(k) = (1-p)^{k}p, k=0,1,2,3 dots n[/latex]Distribuição Binomial Negativa: Distribuição que representa a probabilidade de obter determinado número de “sucessos” p nos ensaios de Bernoulli antes de um determinado número (r)  de “insucessos” q acontecerem.[latex]P(k) = binom{k+r-1}{k} (1-p)^{r}(p)^{k}, k=0,1,2,3 dots n[/latex]Foi um momento bastante agradável, ficaram algumas saudades das aulas e da vida de estudante. No fim, também me resta pensar que será importante rever todos estes conceitos para a cadeira de Física Estatística! Bem vou precisar deles!Daniel Bento",
      "url": " /sapo-session-introducao-teoria-probabilidades/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "Geral"
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      "slug": "fotografia-paz-e-tranquilidade-no-portinho-da-arrabida",
      "title": "Fotografia - Paz e Tranquilidade no Portinho da Arrábida",
      "content"	 : "Era de manhã, o sol brilhava, as nuvens passavam lentamente… circulavam calmamente pelo céu, mostrando facetas e sorrisos. Outras vezes, timidamente, entravam em comunhão com o Sol e escondiam-no. Eramos, então, invadidos por uma suave sombra peculiar, divina.Os raios de Sol reapareciam e desapareciam. Fruto do tempo, esta serenidade era tranquilizante, absorvente, poderosa. Contudo, as ondas, devagar, agitavam-se à beira da praia, dando ligeiros encontrões nas pedras que lá se encontravam. Sussurravam a presença de uma força impiedosa, um canto destemido e provindo do infinito.A mim… o sonho chegou e ficou para recordar.Daniel Bento",
      "url": " /fotografia-paz-e-tranquilidade-no-portinho-da-arrabida/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "Places"
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      "title": "Criativo",
      "content"	 : "Criativo é ser e não ser, ao mesmo tempo. Criativo é imaginar e realizar, simultaneamente.Do mesmo modo que o sonho nos cega durante a noite, a criatividade venda-nos os olhos e permite-nos chegar a nós próprios. Acordar é, na generalidade, um processo rotineiro, porém, pode ser uma nova etapa para o trabalho criativo, pode ser uma nova frente para a capacidade abstracta que, frequentemente, é expulsa das nossas pequenas mentes.A imagem criativa é delicada, é sensível. É, também, fruto de uma experiência pessoal e de uma procura interior. Muitas vezes, estas imagens surgem-nos nas mais variadas formas, em diferentes meios e por diversas razões. O resultado sensitivo é, também ele, explorado através da capacidade intrínseca de cada um para sentir. De uma maneira ou de outra, toda a gente faz parte do mundo criativo, é globalizante.A meu ver, a condução de um princípio criativo apela, muitas vezes, à capacidade de um indivíduo se entregar a ele mesmo e, sobretudo, de se entregar ao mundo que o rodeia. É preciso, acima de tudo, sentir o mundo, independentemente do que este tem para dar. A obtenção de um valor pessoal (interior) exacerbado é, talvez, um factor promissor para o insucesso da obra como um todo. Nestas últimas palavras pretendo dizer que (a meu ver), o objectivo em concretizar a obra criativa é um impedimento à própria criação. A nossa vontade própria de expressão e a nossa imagem do mundo é alterada, é tonificada pela técnica e pela comparação idealista do resultado. É como ter a imagem na mente sem, antes, começar a relação com o ambiente.Muitas vezes, o estado de incongruência com o mundo, em que as pessoas se encontram, não permite o desenvolvimento de potenciais processos criativos, não  possibilita a limpeza mental para que se elimine ruídos de fundo e desequilíbrios emocionais. Outras vezes, são também estes balanços negativos e positivos que permitem a um indivíduo edificar ideias. Obtidas de um modo, ou de outro, estas mensagens mentais, em grande parte, não são atribuídas a um significado conclusivo ou, até mesmo, a nenhum. Porém, na minha visão leiga, é extremamente interessante verificar que a grande maioria dos pensamentos diários são considerados, pelo próprio, insignificantes. No entanto, estes são a luz de grandes criações. É que, de um modo geral, não é sentar-mo-nos a pensar na obra que a obra nasce.Na minha opinião, a criatividade não é nada se, de nada for acompanhada. Isto é, a criação puramente racional e calculista não é, de todo, um processo completamente criativo, mas sim, um ideia transformada e produzida. Este reajuste da ideia, permite ao próximo “olhar” a obra e, de alguma forma, interpretá-la. No fundo, dando uma visão extrema da criatividade, pode-se dizer que esta é imprevisível e incompreensível.",
      "url": " /criativo/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "Geral"
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      "slug": "pplware-sistemas-criticos-e-ad",
      "title": "PPLWare - Sistemas Críticos e Ada",
      "content"	 : "Boa Noite!Fica aqui o link para o meu primeiro artigo no blogue pplware, um blogue sobre tecnologia.http://pplware.sapo.pt/pessoal/sistemas-criticos-e-ada/Espero que gostem!",
      "url": " /pplware-sistemas-criticos-e-ad/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "Geral"
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      "slug": "observacao-dia-28-de-novembro-2011",
      "title": "Observação - Dia 28 de Novembro 2011",
      "content"	 : "Durante uma saída para tomar café com alguns amigos, eis que surge a ideia de fazer alguma fotografia astronómica. Tendo em conta as boas condições do tempo mas, tendo em consideração a má qualidade do céu que Lisboa nos dá, foi este o resultado final obtido em uma de algumas fotos que fiz. No centro é possível ver a Nebulosa de Orion, M42. Apesar da foto estar um pouco arrastada devido ao movimento das estrelas, consegue-se notar a nebulosidade.Alguns dados úteis:Observação:      Local: Parque das Nações - Lisboa        Hora: ~22h00m        Céu Limpo        Aproximadamente 13 ºC  Equipamento:​      Fotografia: Canon EOS 400D        Objectiva: Sigma f/5,6 ISO 1600 @ 300mm  Apesar dos resultados não serem os melhores esta é, actualmente, a melhor foto da nebulosa de Orion que tenho. Foi de aproveitar para conversar um pouco sobre fotografia, bem como dar algumas dicas aos amigos.",
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      "categories": "Astronomia"
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      "title": "Fotografia - Parque de Monserrate, Sintra",
      "content"	 : "Estava um dia de sol em Lisboa. Como tal, decidimos fazer um pequeno passeio até Sintra, mais concretamente, ao Parque de Monserrate. O problema não foi chegar! entre curvas sinuosas, autocarros em ruas estreitas, subidas e descidas, o problema foi verificar que afinal, até para ver o que “é nosso” temos de pagar, e bem. Consequência, não entramos, nem para os jardins, nem para o palácio, como é óbvio.De qualquer modo, foi um excelente passeio. Por Sintra, Guincho e Cascais, chegamos a Lisboa… (13 Agosto 2011)Abraço,Daniel BentoMais Fotografias @ Facebook",
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      "title": "Fotografia - Praia do Guincho, Sintra",
      "content"	 : "Foi assim, um pequeno passeio para estudar… até à Praia do Guincho (12 Maio de 2011).Abraço,Daniel BentoMais Fotografias @ Facebook",
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      "title": "Fotografia - Praia da Adraga, Sintra",
      "content"	 : "Vento, muito vento… É assim que é marcado um dia (24 Julho 2011), em muitas das praias da zona de Sintra. A da Adraga, não foi excepção. Contemplando a força da natureza, eram bem visíveis as ondas que banhavam o areal.Uma praia pequena, mas cheia de detalhes por explorar fotograficamente.Abraço,Daniel BentoMais Fotografias @ Facebook",
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      "title": "Desporto - Vodafone Rally of Portugal 2011",
      "content"	 : "Ups, encontrei aqui umas fotografias do primeiro dia do Vodafone Rally de Portugal de 2011, ainda não tinha colocado aqui!Album @ Facebook",
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      "title": "Observação - Dia 01 de Julho 2011",
      "content"	 : "Depois de um dia chuvoso, um céu bem limpo e uma noite sem vento permitiram-se tentar fazer mais algumas experiências com a máquina fotográfica.Fica então o resultado:Alguns dados úteis.Observação:      Local: Casais da Lapa - Cartaxo        Hora: ~ 22h00m        Céu Limpo        Aproximadamente 25 ºC  Equipamento:      Fotografia: Canon EOS 400D        Objectiva: 55mm @ F/3.5 ISO 1600  Apesar de fazer várias experiências, apenas considero este resultado o mais relevante. É visível nesta fotografia a zona sudeste da nossa galáxia, a Via Láctea.",
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      "title": "Sociedade - A Arte e a Cultura",
      "content"	 : "Nos dias que correm, ir ao museu, ao teatro, ao cinema, aos concertos, a exposições é algo, mais ou menos, comum. Existem muitos locais acessíveis e, felizmente, também locais muito ricos culturalmente.A História ensina-nos muito, ajuda-nos a entender factos e a realidade anterior a nós. Existe um estudo bastante profundo, e detalhado, de muitas correntes culturais ao longo do tempo, em vários locais do mundo. Existem,também, análises detalhadas e descrições enraizadas sobre as demais.Ainda assim, na minha opinião, também existe uma tentativa cega de encontrar um sentido, uma lógica profunda para qualquer peça de arte. Quando alguém está numa exposição de pintura, por exemplo, é frequente ouvir-se uma voz explicativa. Uma voz que define, detalhadamente, cada linha e cada traço de uma tela. Este conhecimento artístico é algo fenomenal, a capacidade de encaixar uma obra no tempo, na cultura e na personalidade de um artista é uma tarefa árdua e bastante complicada. Porém, admito que, a meu ver, o conhecimento artístico é apenas isso, conhecimento artístico, ou seja, é informação cultural.De facto, acho impressionante a cultura artística de muitas pessoas, a capacidade de ligar obras a um nome, a uma pessoa. Acho notório, uma pessoa conhecer pintores, músicos, actores, escritores e ao mesmo tempo conhecer as suas obras, os seus feitos. Este sentido cultural é algo importante, até porque, permite longas conversas, permite a troca de ideias e permite debater diversos assuntos.Num sentido mais purista do significado de Arte, na minha opinião, a cultura artística, apesar do seu valor, acaba no mundo racional da apreciação, acaba confinada a uma realidade lógica e dedutível culturalmente. Neste mesmo sentido, como defino eu a Arte? A Arte, por definição, é algo simples, é expressão, é sentir. Colocar mais cláusulas na definição de arte, era limitar a sua própria natureza. Em consequência disto, de um modo geral, penso que, a verdadeira arte começa quando o nosso lado racional está no seu mínimo. Ao contrário de outras capacidades, como por exemplo, a aptidão para os números ou a aptidão para o argumento, penso que, a capacidade artística existe em qualquer individuo e, acredito que, esta demonstra-se naturalmente.Ora, com esta definição, talvez alguém se interrogue sobre o facto de que só poucas pessoas são consideradas artistas. Porém, nós, facilmente, verificamos que não é a definição que faz o artista, mas o enquadramento que faz a definição. Deste modo, é válido dizer que, a expressão aliada a uma determinada técnica caracteriza estes enquadramentos. Nós, por natureza, necessitamos de categorizar tudo, ajuda-nos a manter a organização da informação e, em consequência, acabamos a construir definições até para o que por si só, não tem uma definição consistente. Até por observação histórica, é possível constatar que as obras que são conhecidas de um autor são aquelas que marcam o seu enquadramento. Aos olhos de um conhecedor, as outras obras não assumem relevo histórico, mas para o autor, certamente não foram menos importantes.Sem dúvida, este tema dá diversas interpretações, dá lenha para uma grande fogueira, o sentimento é uma propriedade intrínseca ao ser e, como tal, subjectiva e passível de interpretações, mal ou bem formadas. Até porque, por si só… o sentimento não implica, necessariamente, uma lógica e/ou sentido.Como gosto de dizer, a arte não cabe àquele que interpreta a obra, mas sim, àquele que a sente.Abraço,Daniel Bento",
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      "title": "Fotografia - Palácio da Pena à Noite",
      "content"	 : "Uma visão nocturna do Palácio da Pena…As visitas nocturnas são sempre bonitas. Tive alguma pena de não ter levado comigo o resto do material fotográfico e de não me poder deixar ficar o resto da noite. Entre os caminhos percorridos ontem, havia muitos locais que dariam perspectivas extremamente bonitas da serra de Sintra.O efeito de luz nocturno é algo que é profundamente belo, é algo que consegue algum significado, mesmo no sítio mais longínquo da nossa imaginação… É a luz!Abraço,Daniel Bento",
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      "categories": "Light, Places"
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      "title": "Pensamento - Porquê Física - Astronomia?",
      "content"	 : "Ao fim de seis matriculas na Universidade, por vezes pergunto-me se estou de facto a seguir o caminho que quero no meu percurso académico.Com um plano inicial de seguir Matemática, entrei para o Instituto Superior Técnico (IST), em Lisboa, para o curso de Matemática Aplicada e Computação (MCA). Na altura, pensava eu, tinha um percurso traçado no meu objectivo escolar. Seguir Matemática, fazer Mestrado em Física e um dia, se conseguisse, um Doutoramento em Cosmologia.Por vezes, as coisas nem sempre correm como esperado e, após a terceira matricula e passar para o curso de Bolonha, o meu entusiasmo foi-se embora e achei que deveria ser mais sensato partir directamente para Física, desta vez na Faculdade de Ciências (FCUL).A verdade é que, o curso de MCA no IST era bom e divertido… antes da reforma de Bolonha. Apesar da minha incapacidade na época de realizar bem as cadeiras, a realidade é que gostava do curso. Com a reforma de Bolonha, algum interesse perdeu-se e definitivamente, a opção de mudar de curso foi boa, preferindo actualmente a FCUL para estudar.Tal como a maioria das transformações nos cursos na reforma de Bolonha, o curso de Física acaba por não ter a mesma dificuldade que teria antes e, a preparação dos alunos fica muito longe daquilo que, acredito ser, a preparação nos cursos antigos. Mas, dado que é a nossa realidade universitária actual, o importante é continuar a procurar interesse nas disciplinas.Num mundo actual, onde a ideia de trabalhar com o meio financeiro acaba por ser motivação para muitos, a ideia da partilha para outros, eu acabo num ramo onde a arte e a ciência andam a par. A Astronomia é uma ciência exacta, mas aqui, a capacidade criativa e imaginativa acaba por ser um factor de grande importância.Apesar da sua importância e, do seu papel destacado na evolução do Homem, juntamente com outras ciências, a Astronomia ainda assume um papel confuso e de menor relevo para o senso comum. É frequente perguntarem-me se estou a estudar Astrologia na Universidade e, até muitas vezes, questionarem-me a utilidade do que faço.Da experiência que actualmente tenho, e daquilo que observo, acabo por pensar que esta incompatibilidade deve-se sobretudo à tendência da necessidade de resultados a muito curto prazo. Esta área distingue-se pelos resultados inconclusivos, não imediatos, frustrantes e, principalmente, com efeitos práticos apenas a médio ou longo prazo. Dificilmente conseguimos ver algo com aplicação directa.Ainda assim, é facilmente constatável que existem várias áreas que progridem com a Astronomia, ou por companheirismo ou até mesmo por arrasto. Claramente, a minha opinião é influenciada pela minha realidade académica, mas não deixo de reconhecer que o custo-benefício da Astronomia, por vezes, não é visível. Acabo por entender os muitos investimentos noutras áreas, mais importantes socialmente, dado o frequente impacto directo na vida das pessoas.Por outro lado, não deixa de ter uma beleza que é visível a qualquer mente curiosa. A possibilidade de usar o nosso poder imaginativo vai mais longe do que possa parecer. Para além de conhecermos o que está muito, mas muito longe, conseguimos… também, encontrar algum significado para a nossa pequena presença numa grande realidade.Por fim, apenas me resta dizer que, adoro o meu curso!Abraço,Daniel Bento",
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      "title": "Fotografia - Temporal na Costa da Caparica",
      "content"	 : "Nada melhor que uma boa tarde, uma boa chuva, um bom vento e uma boa paisagem!Andar à chuva nem sempre é o mais saudável de se fazer, mas… a ideia de invadir o lugar da própria Natureza é, talvez, uma das mais fortes características humanas. Não se esconder e enfrentar. Ficar com muita areia presa na barba, também não é muito confortável, mas a visão de uma realidade, como aquela que trago através desta fotografia, é uma coisa que não se consegue debaixo de céu azul.Acabamos por acreditar, que apesar da inteligência humana, a Natureza é a Natureza e Nós, somos apenas nós!Abraço,Daniel Bento",
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      "title": "Fotografia - Chiado e o Natal",
      "content"	 : "É pena, é caro, mas as decorações de Natal, já não são o que eram…Abraço,Daniel BentoApós uma indecisão e uma vontade de ir tirar algumas fotografias, um destino interessante, seria, sem dúvida, as luzes Natalícias. Há sempre imensa coisa gira para se fotografar.Assim fui, caminhando para o Chiado, em Lisboa. Olhando em redor, perguntei-me a mim mesmo… se seria Natal… ao que parece, este ano… é pobre, muito pobre. Fora muitas luzes azuis caídas dos demais sítios, pouco mais havia… não se vê um único… Pai Natal.É triste, mas já não é o mesmo… a crise está a pegar em muito. Até luz do Chiado se está a transformar… numa escuridão tenebrosa.",
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      "title": "Pensamento - Adormecer",
      "content"	 : "Pergunto-me, por vezes, que hei-de eu fazer para conseguir adormecer?É, certamente, uma pergunta pertinente! Ora, cansado, ensonado, fatigado, com todas aquelas coisas que todos nós dizemos “epá, quando chegar à cama, caio que nem uma pedra!”… Ora nem mais, ou talvez o mais seja apenas, para grande parte das pessoas e não para mim! E, à falta de conseguir adormecer, aqui estou eu, a escrever isto.Ora, quando digo a alguém “não consigo dormir”, existem várias respostas possíveis, entre elas, as seguintes:​      “Tão?!” ou “K foi?!”        “Já experimentaste fazer força?” (nunca percebi bem esta)        “Já fechaste os olhos?” (faz algum sentido)  Mas também, felizmente, existem respostas mais inteligentes como:      “Porque não bebes um copo de leite quente?”        “Toma um banho relaxante de água quente?”        “Conta carneiros…”  De facto, o banho relaxante é a minha sugestão preferida. Até costuma ter algum resultado, mas hoje ainda não fez efeito. Simplesmente, estou esperando o sono vir, mas na realidade, não consigo sequer bocejar. Ainda não anda por aqui o João Pestana… Ai o João Pestana!Aliás, eu acho que tenho um grave problema… mas não digam a ninguém… Estou sem sono e na realidade até nem me apetece dormir, mas estou cansado e sem vontade de fazer muita coisa… era só por isso que queria dormir… Mas também há… há sim outra razão! Apetece-me qualquer coisa… doce! Um gelado, um chocolate, goma (das sortidas e principalmente, com tijolos)… Bolachas não, é muito elementar.São assim, as coisas que se dizem… quando se quer dormir!Até porque… em parte alguma… isto faz sentido!Abraço,Daniel Bento",
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      "author": "danifbento",
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      "title": "Fotografia - Duplo Arco-Íris",
      "content"	 : "É bom, quando o dia assim começa!Hoje quando acordei e olhei para a rua, o céu estava carregado e pesado. Era possível sentir o peso da água na minha pequena cabeça, era possível sentir o gelo que se vive naquele lugar inóspito e singular que é o céu.Mas… após a tempestade, vem a bonança. E o meu dia foi enriquecido com esta bela imagem da janela do meu escritório. Raramente consigo observar um duplo arco-íris, mas desta vez, estava lá… e bem nítido, à espera que o meu olhar observador o contempla-se e, me esquece-se que tinha de sair de casa.Contemplei, olhei, observei, mirei, absorvi esta imagem… até o sol irradiar de vez… e a tempestade desapareceu.Abraço,Daniel Bento",
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      "title": "Sociedade - O combate à Pobreza",
      "content"	 : "Nos últimos dias, as notícias sobre o Banco Alimentar têm tido algum destaque nos agregadores de notícias. E, ontem, falou-se bastante do sucesso obtido nestes dias. De facto, tendo em conta o esforço e a capacidade financeira dos portugueses, acho que é surpreendente e até positivo.Por outro lado, na minha opinião, penso que falta algo… O acontecimento não deixa de ser positivo, mas acabo a pensar que, na realidade, não é um verdadeiro combate ao problema.Para quem vive em cidades portuguesas como Lisboa, é frequente ver, no meio da multidão, muitas pessoas necessitadas. Para o olhar menos atento ou, para o olhar do quotidiano, estas pessoas acabam por passar indiferentes à generalidade da população que circula nas estradas. Por vezes, é realmente mais fácil despertarem curiosidade no meio de pessoas da arte, fotógrafos ou, pessoas de expressão que tentam demonstrar uma realidade que apenas existe em pesadelos de muito boa gente. Por vezes, são pessoas moribundas, toxicodependentes, desalojados, falidos, excluídos ou até mesmo pessoas de riqueza que não conseguem viver de outro modo. Muitos, tentam procurar alguns trocos diante dos estacionamentos dos carros, seja para um pedaço de pão ou, na maioria, para uma dose diária. Entre jovens, velhos, adolescentes, incapacitados, existe de tudo… e tudo serve como bom factor para angariar algum dinheiro. De facto, talvez seja aquilo que mais as pessoas, nos nossos dias, fazem apelo… ao dinheiro. Ser feliz não chega, ter dinheiro não chega, provavelmente, nada chega. Não digo que há infelicidade e que não há felicidade, há uma maneira diferente de partilhar os valores da vida.Quando chega a época natalícia, todas estas pessoas ganham um valor diferente. Passam a ser alvo de ajuda, passam a ser o objectivo de uma pequena acção diária. Entre aqueles que de facto pretendem fazer alguma coisa, há aqueles que ocultam no seu gesto de bondade, a tentativa de passar uma época de consciência tranquila, sentir que se fez algo de positivo para a sociedade sem de facto pensar no valor real do que fez.Ora, as pessoas, em Portugal, são solidárias, é um facto quase incontestável. Apesar da loucura eminente que vivemos, o povo português acaba por ser reconhecido pela sua generosidade e como tal, eu também não o nego. Nestas épocas, isso é visível, apesar das dificuldades que a generalidade da população sofre, ainda tentam ter aquele gesto, por muito material que seja, que as deixa com alguma tranquilidade. É de facto um bonito gesto e, não tenciono escrever isto para dizer o contrário. Até porque eu próprio peco um pouco e não costumo dar grande contribuição neste tipo de manifestos. Às vezes por falta financeira, muitas outras pela falta de acreditar nestes movimentos, por melhores que sejam.Numa sociedade onde é visível, a olhos nus, um poço enorme entre aquele que não tem e aquele que tem, torna-se preocupante ver quem pouco tem, alimentar quem pouco ou nada tem na vida. Torna-se preocupante, porque também, quem pouco tem, acaba sem nada. Uma vez que não acredito em sociedades em que tudo tem de ser equiparticionado, também não sou muito favorável a soluções temporárias que apenas servem de consolo.A Fome (como é descrita), é um problema social grave. Não consigo ter uma solução, é óbvio, senão, não era aqui que deveria estar. Mas acredito que, de facto, estas medidas, apesar de boas, não são uma solução viável. Dar comida a uma pessoa por uns dias, para depois durante um ano inteiro esquecer a sua existência, não me parece razoável. Estes manifestos seriam importantes na medida em que se pudesse tentar procurar uma solução a curto e longo prazo para todas estas pessoas que necessitam, que imploram por apoio. Até porque, a fome não é uma necessidade solitária na luta destas pessoas, existem diversas problemáticas sociais que afectam o dia a dia de cada um destes cidadãos. Talvez, problemas tão distantes da fome, que os ajudaria a retomar uma vida, a encontrar o seu ser, o seu eu. Penso, que em muitos destes casos, a dificuldade em se sentir humano, em se sentir socialmente aceite, em se sentir da mesma espécie que todos os que vagueiam de máquina fotográfica pelas ruas, em se sentir sociais como aqueles que na esplanada tomam café…a dificuldade em ser Homem. É de facto, suficiente para desmoronar os pilares de sobrevivência de qualquer pessoa.Num pensamento um pouco acima daquilo que é real e fazível, num pensamento utópico e pouco convicto, um primeiro passo, seria acreditar que estas pessoas têm a possibilidade de construir uma vida, têm a possibilidade de sair da rua, de sair da necessidade, de encontrar um lugar na vida. Até lá, até proporcionarmos, de facto, soluções que permitam parte disto ser real, o problema manter-se-à. E quem nada tem, sem nada fica e, quem pouco tem, com nada se terá de contentar…Apenas um testemunho, um pensamento perdido, um pensamento inóspito… de alguém… que apenas, pateticamente… observa.Abraço,Daniel Bento",
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      "title": "Sociedade - Tempo Real e Tempo Interno",
      "content"	 : "Numa tentativa de agregar alguns textos antigos, aqui fica alguns que estavam presentes num antigo blogue meu:Desmentir uma Verdade Social - A pureza de uma sociedade que erra pelo que está certo e sente o que está certo por pensar erradamenteAqui fica o último: #004 - Tempo Real e Tempo Interno[Quinta-feira, 15 de Novembro de 2007]#004 - Tempo Real e Tempo InternoNo outro dia, enquanto caminhava, deu para pensar um pouco em questões um tanto ou quanto banais e que apenas nos vêm à cabeça quando, não há mais nada para fazer.Pensar no tempo, de facto, é algo um bocado estranho e, por vezes, é necessária alguma atenção devido ao nosso contador de tempo real, o relógio. É frequente ouvir expressões como “Eia, o dia passou tão rápido” ou “raio, nunca mais chega a hora”… Isto deriva não do tempo real andar mais devagar ou mais depressa, mas sim, do nosso relógio interior estar directamente relacionado com as emoções, sentimentos e sentidos.Uma boa maneira de verificar isto será, sem dúvida alguma, caminhar por um lugar desconhecido. É facilmente visível que, aquando da primeira viagem, o tempo será mais lento, muito mais lento do que quando se faz a viagem pela segunda vez. Isto, a meu ver, tem uma interpretação algo simples, mas que penso que a explicação deve ser muito mais complexa que isto, mas é talvez uma área de conhecimento que eu ainda não cheguei, daí, vou apenas falar da minha interpretação.O que eu penso é simples. Existe uma co-relação entre a “quantidade” emotiva, sentimental, volume de captação que os nossos sentidos estão a ter e o tempo interno. Se tivermos atenção, reparamos que ao caminhar numa estrada desconhecida, a generalidade dos nossos sentidos está activa, ou talvez, ainda mais activa que o normal. O que me parece, que acontece, é que esse nível acentuado nos sentidos faz-nos, de alguma forma, ter uma amplitude nos reflexos maior e por sinal, ter uma noção mais lenta das acções. Por outro lado, quando a quantidade emotiva e sentimental é grande. Por exemplo, numa festa com os amigos, o volume de sentimentos e emoções cresce bastante… é frequente haver a noção que o tempo passa muito rápido.Sinceramente, retratando um pouco os sintomas da ansiedade como conjunto de estados emotivos e de sentidos, por vezes, este conjunto dá-nos surpresas. Ao que eu observo, é bastante difícil de prever um padrão determinado no tempo interno produzido pela ansiedade, dado que maioritariamente, esta é constituída pelas duas partes que aceleram e reduzem o tempo interno.Além disto, uma vez que não é possível colocar ambas as questões em sacos distintos, geralmente esta noção de tempo interno torna-se muito relativa mesmo dentro da própria evolução interna do indivíduo.Daniel Bento",
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      "title": "Sociedade - Street Fashion",
      "content"	 : "Numa tentativa de agregar alguns textos antigos, aqui fica alguns que estavam presentes num antigo blogue meu:Desmentir uma Verdade Social - A pureza de uma sociedade que erra pelo que está certo e sente o que está certo por pensar erradamenteAqui fica o terceiro: #003 - Street Fashion[Segunda-feira, 12 de Novembro de 2007]#003 - Street FashionHoje, enquanto estava numa sala de espera, olhava para a TV enquanto, não havia mais nada para olhar. E deparo-me com o programa “Tardes da Júlia”…Hoje um dos temas foi “Vestir bem com roupa simples” ou qualquer coisa semelhante, que agora também não é o mais importante de saber. Eu vi aquilo com alguma atenção, porque, de certo modo, é engraçado ver os comentários que provêm dali. E, quando menos esperava, sai algo do género: “As grandes marcas produzem a moda e depois aparece a Street Fashion a imitar”…O que é que isto tem de especial? Nada. Mas é interessante reparar o quanto a leste as pessoas estão. Existe uma clara diferença entre Street Fashion e roupa do dia a dia. E existe uma larga diferença entre Street Fashion e Moda de Palco. A questão é, este comentário é algo extremamente irrealista. O que consta, na realidade, é que os estilistas dos mais variados pontos do mundo vão buscar ideias aos pequenos segmentos da sociedade onde se tem uma cultura de roupa mais livre. Não digo com isto que os estilistas não têm imaginação, mas quero dizer que não é a Street Fashion que imita o quer que seja… como a própria expressão o diz “é moda de rua”, não é moda “do dia a dia”… e o que se pode entender com moda de rua é, provavelmente mais fácil associar à capacidade criativa de aproveitar, fazer e gozar da diversão. Não é correcto, de modo nenhum, vir afirmar que a Street Fashion rouba ideias. Isto até, porque, geralmente, as roupas usadas em Street Fashion são de diversos estilos e diversas naturezas, o que conta é a criatividade, ao contrário da Moda de Palco (é o nome que dou) e Moda do Dia a Dia que, tem por objectivo seguir temas, como por exemplo Outono/Inverno. Geralmente neste tipo de moda, existe uma coordenação geral para seguir um padrão nas linhas da roupa. Em Street Fashion não há isso, a pessoa que veste imagina e sente e combina… Daí, serem os pequenos grupos sociais que costumam ter alguma produção de Street Fashion, não porque o fazem por dinheiro ou andar a mostrar, mas porque se sentem bem assim e é assim que se gostam de vestir. São ideologias diferentes, às quais é incorrecto fazer aquela afirmação. Poderíamos dizer que a Street Fashion é quase como fazer “Moda Amadora”, mas hoje em dia já há também profissionais nessa área.Existem vários exemplos de Street Fashion pelo mundo. Temos Harajuku, Tóquio no Japão, temos também as modas Punk Americanas, etc… Apesar de algumas estarem muito ligadas a culturas de pensamento, estas por vezes manifestam-se da forma de roupa também. Por outro lado, o profissionalismo dos “outros” estilistas não os permite fazer algo com tanto sentimento como estas pessoas o fazem… até porque eles, não a vestem.É apenas a minha opinião.Daniel Bento",
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      "title": "Sociedade - O Metropolitano e o Funil",
      "content"	 : "Numa tentativa de agregar alguns textos antigos, aqui fica alguns que estavam presentes num antigo blogue meu:Desmentir uma Verdade Social - A pureza de uma sociedade que erra pelo que está certo e sente o que está certo por pensar erradamenteAqui fica o segundo: #002 - O Metropolitano e o Funil[Sábado, 3 de Novembro de 2007]** #002 - O Metropolitano e o Funil**No artigo passado demonstrei como é possível ter grandes ideias (apesar de não demonstrar nenhuma muito importante) quando se viaja de Comboio, neste artigo vou mostrar como é que o Metropolitano pode-nos servir para tirar as mais variadas conclusões sobre o comportamento social.Quando viajamos de metro (metropolitano), principalmente no Metro (Metropolitano de Lisboa), se formos pessoas atentas e estivermos predispostos a apenas observar o que se passa em nosso redor, conseguimos entender muita coisa sobre o quotidiano das pessoas que por ali passam. Neste artigo vou referir-me um pouco às decisões aleatórias e diferenciáveis no tempo, de acordo com o género social de um indivíduo. Dentro destas escolhas, por vezes algo estranhas, estão incluídos determinados comportamentos que podem deixar algo a desejar e que demonstram um certo carácter egoísta do ser humano. Claro, tudo isto baseia-se apenas numa opinião pessoal de um certo elemento da sociedade que gosta de estar atento e observar o mundo que o rodeia.Tudo começa quando decidimos que a nossa hora chegou e partimos direito ao Metro, para nos dirigirmos para casa. Dependendo da hora, tal cenário pode ser mais ou menos intenso. Desde modo, iremos iniciar a nossa viagem antes de passarmos o bilhete para entrar no recinto da estação. Até aí poderemos dizer que estamos felizes, depois daí o futuro o dirá. Para começar, os efeitos das escolhas aleatórias/não pensadas demonstra-se logo a passar o bilhete. Geralmente existem no mínimo 3 passagens para o interior perto de cada escada, uma para pessoas com malas e carrinhos (que serve os dois sentidos) e cada uma das outras serve para um sentido. Como tal, estas passagens têm uma indicação superior luminosa vermelha/cruz para sentido proibido e verde/seta para sentido corrente. É o primeiro facto que é difícil ler… Geralmente o que acontece é, primeiro, as pessoas por mais passagens que tenham livres no sentido em que podem ir, tendem sempre a ir para a de carga, mesmo que esta esteja impedida e, pior ainda, deixam quem realmente tem carga, ficar para trás… Maioritariamente é o que acontece pelas minhas observações, de facto, fazer uma estatística palpável era interessante. Como se não bastasse esta decisão estranha de tentar forçar uma passagem, segue-se o facto que as pessoas tendem sempre a ir para a passagem mais próxima da saída que querem, mesmo que esta esteja completamente cheia de gente, deixando passagens a 50 cm antes livres, mas tapadas por uma afluente de gente que não se decide. O outro pormenor, é o ignorar da sinalização luminosa (não há desculpa para não a entender)… Uma pessoa sozinha enganar-se é aceitável, não reparou, algo diferente será ver um conjunto de pessoas a reclamar porque não conseguem passar por ali… E, como senão bastasse, pensam que é o passe que está avariado e, como há tendência a associar pancada a arranjos, inicia-se uma luta física, de contacto extremo, entre o passe e o sensor. Quando eu nunca tive de tocar com o passe no sensor, nem bater para que ele fosse reconhecido… isto porque, por norma, vou para as saídas certas.Passado o momento das passagens de entrada, segue-se o caminhar para a linha. Aqui não há grandes problemas, excepto quando há pessoas que vêem duas escadas rolantes que ligam o mesmo sítio, mas uma desce e outra sobe, tentam ir na escada contrária ao movimento que pretendem fazer… (sim, já vi uma pessoa (e outras tentarem) subir umas escadas quando estas desciam, porque a seta indicava direita, mas esquecem-se de reparar que a seta indica direita “na linha”, não as escadas rolantes da direita). Nas escadas também se consegue ver coisas como pessoal andar a parar assim do nada, porque querem procurar o batôn ou porque lembraram-se dos anos de um amigo. Também há as outras que à procura das coisas mandam com a mala a quem passa.Quando pensamos que tudo fica melhor, chega a espera da composição, que é sempre agradável. Independentemente da posição em que estamos, perto ou afastados da linha, quando começa a chegar mais e mais gente elas vão-se colocar SEMPRE frente a nós mais próximo da linha… Mesmo que nós já la estejamos há horas e carregados com bagagens. Depois, mesmo que estejam mal posicionadas, quando chega a composição, tendem a empurrar e a resmungar muito por causa dos que já lá estavam… O que não deixa de ser interessante e cómico.Dentro das carruagens, a conversa é outra, é a luta pelos lugares… Mas o mais interessante é que quando vai alguém menos dentro da normalidade, um hippy, um gótico, um punk, um sem-abrigo ou outro, os lugares ficam vazios e ninguém se senta, mesmo que, a velhinha seja muito coxa ou tenha mesmo que haver alguém a ocupar os lugares. Depois quando, alguém, por acaso, ocupa o lugar, começam a fazer expressões estranhas que afugentam até o Pai Natal.Por fim, a sair a história repete-se, só que em sentido inverso…Daniel BentoPS: “Boas Viagens” no Metropolitano de Lisboa",
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      "title": "Sociedade - Velharias e Artefactos - Usados e Novos",
      "content"	 : "Numa tentativa de agregar alguns textos antigos, aqui fica alguns que estavam presentes num antigo blogue meu:Desmentir uma Verdade Social - A pureza de uma sociedade que erra pelo que está certo e sente o que está certo por pensar erradamenteAqui fica o primeiro: #001 - Velharias e Artefactos - Usados e Novos[Quinta-feira, 1 de Novembro de 2007]#001 - Velharias e Artefactos - Usados e NovosEscrever este artigo ou, até mesmo, construir este blogue, nasceu de uma ideia que tive enquanto viajava num comboio suburbano para Lisboa. Pensar enquanto se viaja é sempre bom, independentemente do tipo de pensamentos. Há sempre conclusões e ideias interessantes e curiosas que se obtêm. Depois disso, depende de cada um o modo como se constrói ou se vive algo pensado.A minha observação foi bastante simples, mas eficaz o suficiente para gerar um raciocínio mais ou menos interessante sobre algumas opiniões que as pessoas têm em relação ao que “se usa”.Geralmente, muitas pessoas têm um pensamento que eu já tive muita vez, mas que nunca pensei realmente na questão. Pergunta-se vulgarmente, à voz do povo, “porque raio temos nós de andar sempre em velharias… porque é que andamos em comboios reles… ou autocarros reles…” entre outro tipo de comentários do género. As questões têm a sua lógica de ser. Primeiro, existe o factor de comparação e depois existe a questão do conforto. Será ao contrário? Não, julgo que não, pelo menos na maioria das pessoas. Mas depois existe o erro de não pensar no porquê, mas sim, apenas no interesse pessoal. Passo a explicar estas afirmações anteriores.Como toda a gente sabe, o ser humano é uma espécie que está em constante contacto com o mundo que o rodeia. É fácil reparar nisso, até porque é fácil entender que nós somos uma espécie totalmente dependente da nossa própria espécie. Confuso? Mais directo, não há humano que não precise de outro humano. Onde entra isto? Entra no factor de comparação. Muitos dos nossos movimentos diários são baseados em factores de comparação com os membros da nossa sociedade chegada. A educação que recebemos é baseada num factor comparativo sobre o que é melhor para o crescimento. É com base em enormes factores de comparação que o ser humano se desenvolve. É comparando o próprio com o outro que o ser tende a perceber o que está bem, mal ou neutro. Por mais que tentemos negar, é impossível viver de outra forma. Nós pedimos determinadas condições não porque já sabemos que é melhor, mas porque estudamos através do movimento de outras pessoas que realmente essas condições afectam de modo muito mais positivo a pessoa. Seguidamente, voltando à questão, então vem o plano conforto, que depende directamente do factor comparação intra-pessoal e inter-pessoal. É também, deste modo, que distinguimos os inventores dos utilizadores. Os inventores conseguem de algum modo atingir o plano conforto sem necessitar de uma comparação inter-pessoal. Estimam e procuram adaptar o seu próprio conforto e submeter-se às experiências de uma nova utilização para verificar se realmente há mais conforto. Mas de qualquer modo, precisam de uma comparação intra-pessoal entre experiências. Por outro lado, um utilizador distingue-se pela sua utilização maioritariamente inter-pessoal (não digo desta forma que a experiência é apenas inter-pessoal), o utilizador vê nas invenções o produto acabado e verificado que existe de facto um maior conforto na pessoa que inventou e nas pessoas que já utilizam, só depois se submete ao factor intra-pessoal de comparar ele mesmo com experiências anteriores. É por estas razões que afirmo que o factor conforto vem sempre após o factor comparativo.O que isto, na realidade, tem a ver com o uso de velharias e artefactos no activo social? Simples… O mundo é diversificado ao ponto que para além do facto de as pessoas experimentarem diferentemente, os objectos que usam também são diferentes. O que acontece é que existirá sempre alguém que ao usar algo pensará sempre que outra pessoa terá algo melhor para usar e, consequentemente, anda melhor. Quando andamos num comboio, pensamos sempre nos utilizadores de comboios que têm experiências mais confortáveis que nós. É directo pensarmos isso. O facto é que nós não conhecemos o nível de conforto, mas simplesmente ao comparar-mos, já estamos a criar algo a que posso chamar “nível de conforto”. Existem muitas aplicações deste pensamento, não só ao comboio mas como a outros meios como, carros, autocarros, camiões, entre outras coisas que não transportes públicos.Tem lógica as pessoas quererem usar objectos, utensílios confortáveis mas é necessário também analisar as questões. Por exemplo, ao invés de fazer comparações com outras situações a nível de conforto, porque não a nível de tempo? ou a nível económico? Isto é, quem faz viagens de 5 minutos não precisa, de modo algum, do mesmo conforto num comboio do que alguém que faz viagens de 30 ou mais minutos. Ir em pé 2 minutos num autocarro não é nada, ao passo que ir 2 horas de viagem em pé é. Por outro lado temos a economia. Definitivamente não é lógico para uma empresa que não é muito rica, fazer investimentos acima de tudo no conforto e perder, de algum modo, o número de serviços que pode prestar ao longo do dia. Não tem lógica, neste caso em Portugal, investir-se em transportes de alta categoria para viagens curtas, como urbanas e à custa disso, ter de diminuir o número de transportes possíveis de haver durante o dia. Da mesma maneira, não se vai deitar, neste caso, comboios para o lixo. Até não poderem andar, alguém vai usá-los. É bastante lógico que esses comboios são restaurados até um limite de orçamento e são colocados a fazer serviços curtos e rápidos. Futuramente, teremos comboios super velozes, mas talvez teremos alfa-pendulares a fazer serviço urbano, porque no resto dos percursos teremos algo muito mais confortável e rápido. Mas neste momento temos os alfa-pendulares para grandes viagens, não os vamos colocar também nos trajectos de 5 Km.É, acima de tudo, essencial saber analisar as questões e perceber as coisas no sentido em que elas conseguem beneficiar todos e não apenas um sector. Por outro lado, este texto serviu também um pouco para discutir a diferença entre factores comparativos e de conforto nestas questões.Daniel Bento",
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      "title": "Fotografia - Anta de Monte Abraão",
      "content"	 : "Para quem quiser, estão mais algumas fotografias na minha página no Facebook:            [Anta de Monte Abraão @ Facebook      Daniel](http://www.facebook.com/album.php?aid=267659&amp;amp;id=832316449&amp;amp;l=0e9fa66401)      Abraço,Daniel BentoHoje, decidi fazer uma pequena caminhada até à Anta de Monte Abraão, perto de minha casa.Este foi o melhor resultado que consegui. As outras deixam muito a desejar, dado que, como é possível ver em algumas fotografias que coloquei do lugar no Facebook, aquele lugar continua a ser um depósito de lixo.Lembro-me, há talvez pouco mais de um ano, quando para aqui vim viver, de ir visitar a Anta. Nesse dia, fiquei um pouco desiludido com o que vi, existe uma sinalização diversificada em toda esta zona para a Anta de Monte Abraão e, no fim, foi com um depósito de lixo que me deparei. Ainda nesse dia, vi alguns policias, que vinham de carro, sairam com uma caçadeira e começaram a andar pela zona. Acabei por me vir embora e, começou os esforços para evitar que o lixo continua-se a aparecer naquele lugar.Um tempo depois, vi uma equipa de Arqueólogos (penso) ali a trabalhar, esperança de que algum trabalho fosse feito. De facto, ontem quando lá fui, havia algum trabalho, alguma mata que foi limpa em redor da Anta, mas pouco mais. Como resultado, ainda consegui ver mais lixo… depósitos enormes de entulho, depósitos enormes de lixo.",
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      "title": "Timelapse - Monte Abraão @ 14 Novembro 2010",
      "content"	 : "Decidi que seria interessante começar a fazer algumas experiências usando a técnica de timelapse. São fantásticos os resultados que se conseguem obter com algumas experiências simples.Apesar de já ter um conjunto mais reduzido de fotografias tiradas noutro local, este foi o primeiro conjunto, mais significativo, que me permitiu obter um resultado experimental mais satisfatório.Equipamento:      Canon EOS 400D        18-55mm @ 22mm        Tripé        DSLR Remote Pro  Processamento:      Resize: Adobe Photoshop Lightroom        Video: PhotoLapse (FullFrame, sem compressão)  Apesar de um resultado primário, satisfatório, há várias coisas que aprendi com esta tentativa.      Bloquear a focagem… as primeiras frames estão desalinhadas, dado que a máquina tentou obter focagem automática, o que resultou imediatamente numa perda de controlo, o que quebrou a sequência.        Nunca me esquecer do carregador de bateria… tive alguma pena de ter ficado com a tentativa a meio porque…a bateria… morreu  De qualquer modo, fiquei satisfeito com este pequeno resultado.",
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      "title": "Matemática - O Pi",
      "content"	 : "A fórmula dos irmãos Chudnovsky (1987):[latex]frac{426880 sqrt{10005}}{pi} = sum_{k=0}^infty frac{(6k)! (13591409 + 545140134k)}{(3k)!(k!)^3 (-640320)^{3k}} [/latex]Com alguma aritmética:3.1415926535897932384626433832(…)Mais informação sobre o número Pi pode ser encontrada em:http://en.wikipedia.org/wiki/Pi",
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      "title": "Exemplo - GNUPlot",
      "content"	 : "Exemplo retirado da documentação do GNUPlot Wordpress:[gplot]set size 1,0.7set dummy u,vunset keyset parametricset view 60, 30, 1.1, 1.33set isosamples 50, 20set title “Interlocking Tori - PM3D surface with depth sorting”set urange [ -3.14159 : 3.14159 ] noreverse nowritebackset vrange [ -3.14159 : 3.14159 ] noreverse nowritebackset pm3d depthordersplot cos(u)+.5cos(u)cos(v),sin(u)+.5sin(u)cos(v),.5sin(v) with pm3d,1+cos(u)+.5cos(u)cos(v),.5sin(v),sin(u)+.5sin(u)cos(v) with pm3d[/gplot]",
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      "title": "Pensamento do Dia",
      "content"	 : "A equação mais bonita da Matemática:[latex]e^{i pi} + 1 = 0[/latex]",
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      "title": "Observação - Dia 16 de Outubro 2010",
      "content"	 : "Neste dia, consultando a informação na Internet, verifiquei que havia manchas solares e, decidi tentar mais uma vez tirar algumas fotografias.No continuar desta pequena descrição, mostro alguns resultados da sessão.Alguns dados úteis.Observação:      Local: Casais da Lapa - Cartaxo        Hora: ~ 12h30m        Céu Limpo        Aproximadamente 20 ºC  Equipamento:      Telescópio: Newtoniano 200mm (8”)        Montagem: Equatorial EQ-5        Oculares: 25mm e 10mm + Barlow 2x        Fotografia: Canon EOS 400D  Haviam 3 manchas visíveis, identificadas pelos números: 1112, 1113 e 1115. A mancha que obtive melhor contraste visual foi a nº 1115, apesar de ter alguma dificuldade na focagem (reparei, mais tarde, que tinha um parafuso mal apertado no focador) .  A mancha nº 1112 era um pouco ténue, apesar de se conseguir alguma definição usando a ocular de 10mm.Por esquecimento, acabei só fazendo fotografia de projecção, usando a ocular 25mm nas duas primeiras fotografias e a de 10mm + Barlow 2x, na terceira. Os resultados obtidos foram os seguintes (entre muitas outras fotografias, claro):À noite, cerca das 21h, decido voltar às fotografias, mas agora, à Lua.Novamente, com o mesmo equipamento e, após muitas fotografias, eis que consegui o meu primeiro mosaico da Lua. 40 Fotografias no total, 2GB tamanho do PSD (Ficheiro Photoshop)  e algum tratamento:Não pude deixar de apontar para Júpiter e, assim perceber, que a atmosfera começava a ficar com alguma instabilidade e, estou com os espelhos do meu Newtoniano a precisar de alinhamento. Ainda assim, e ainda com alguma dificuldade a focar, deu para ver bem as bandas de Júpiter e inclusive, distinguir a Grande Mancha Vermelha e, claro, ver um pouco do trânsito de Ganímedes. Foi com algum gosto que consegui esta imagem, um pouco má, mas suficiente para perceber estes dois detalhes (coloquei uma referência visual à simulação apresentada no calsky.com).",
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      "title": "Sociedade - Os Estados de Obama",
      "content"	 : "Estes últimos dias, tenho lido algumas notícias sobre o julgamento de Omar Khadr, no tribunal militar de Guantánamo. Há algum tempo que não ouvia falar do caso, mas dado que o processo recomeçou, novamente voltou a encher alguns jornais. Escrevo este artigo, apenas para levantar algumas questões, das quais, gostaria de me ver mais esclarecido. Sinceramente, é uma questão de difícil debate, dado que, existem opiniões muito divergentes sobre o assunto.Acompanhando os artigos, também li algumas opiniões de alguns leitores, o que me baralha um pouco.Antes de mais, penso que o presidente dos EUA, Barak Obama, está numa situação complicada. Primeiro, porque aquando das eleições das quais foi vencedor, todo o mundo esperou que ele salva-se a situação mundial do estado em que se encontrava (acabando por ganhar até o Nobel da Paz, na minha opinião, precipitadamente, apesar de não duvidar da capacidade dele). Segundo, porque as coisas afinal não têm corrido tão bem como previsto e, por um lado, as pessoas que o apoiavam, duvidam. Por outro lado, quem não gostava dele, menos gosta.Mas voltando ao assunto inicial, Omar Khadr foi preso e colocado na prisão de Guantánamo, local que encerra dentro da sua área diversas problemáticas ao nível dos Direitos Humanos. Neste caso, estamos perante um jovem que, foi preso aos 15 anos, por homicídio de um militar americano e acusado de pertencer a redes terroristas.Um facto visível é a existência de muitas opiniões divergentes. A minha questão é: deve ser um jovem “de 15 anos” (na altura), ser acusado como um adulto e, principalmente, acusado de crimes de guerra? Ou não será isto considerado um crime de guerra?Lembro-me de há pouco tempo, ter saído uma notícia, de um jovem de 13 anos, Americano, que também foi acusado de homicídio qualificado, argumentando-se que foi premeditado. Acabando por ser julgado pelas mesmas leis de um adulto. Este caso é um pouco diferente, na medida em que envolve práticas de terrorismo e, guerra.Independentemente de ser acusado, ou não, de homicídio, será que um jovem desta idade pode ser acusado de crimes de guerra?Lembro-me de um pensamento, paralelo, que me ocorria durante os exames de secundário. As opiniões gerais recaiam, essencialmente, sobre a questão da capacidade de um jovem ser responsável e, pegando num leque de “palavras”, foi sempre colocada a responsabilidade da “irresponsabilidade” dos miúdos, nos pais. Ora, numa sociedade, onde as crianças nascem com determinados princípios e, é difícil dizer-lhes para ter outra atitude na escola ou, mudá-los radicalmente sem algum esforço.Neste caso, apesar de Omar Khadr estar ligado a organizações terroristas, “pelo mesmo princípio” (atenção, não estou a contextualizar uma opinião pessoal, mas sim a “colocar uma observação”), não estaria ele profundamente “educado” para “aquele mundo”. Um jovem que, a única coisa que deve ter aprendido na vida foi a usar armas, será que é viável esta acusação? Os recursos que se tem gasto, com “este caso” não seriam melhor distribuídos se fossem usados na obtenção dos “verdadeiros criminosos”? Se um miúdo não tem responsabilidade para saber o que é “estudar” e tirar boa nota a Matemática, será que, já tem responsabilidade para saber o que são organizações terroristas? Pergunto, afinal, qual é a “verdadeira” posição das pessoas.Li que é impossível comparar Omar Khadr a uma criança-soldado, vamos atribuir-lhe a designação de “criança-terrorista” ? Em termos de Direitos Fundamentais o que, é definido como criança? Qual a responsabilidade de uma criança ou, jovem?São apenas questões… de facto, e pelo menos neste momento, é algo que tenho dificuldade em ter uma opinião bem definida, acho sempre que os argumentos que tenho… não suficientes… há sempre os “ses”. É um facto, este é um caso e, infelizmente, não será, certamente, o único. Mas independentemente do desfecho, sei que iremos conseguir aprender, com aquilo que se demonstrar errado e, com aquilo que se demonstrar certo.Numa utopia, saberíamos que a decisão, seria aquela em que todos sairiam vitoriosos e beneficiados, qualquer um. Mas como disse, isso seria uma utopia e não a realidade. As posições contradizem-se e no fim, para algum lado vai tombar, independentemente de qual.Para conseguir formalizar melhor uma opinião e um pensamento, vou continuar a seguir as notícias… Neste momento, apenas posso conjecturar, levantar questões e observar.Daniel Bento",
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      "title": "Fotografia - Tróia e Portinho da Arrábida",
      "content"	 : "Durante o meu dia de anos, decidimos ir passear. Uma vez que, nunca tinha ido até à Península de Tróia, decidimos atravessar com o carro e passear no Tróia Resort. De facto é um local bonito e dou graças por não haver pontes! Apesar do tempo da travessia de barco, a beleza natural daquele local reside no facto de estar afastado “da cidade”. Já não se vêem muitos locais assim.Após o almoço, fomos até ao Portinho da Arrábida, um local bastante agradável de se passar um dia, um local onde daria prazer fazer uma longa viagem a pé… pelo verde e pela areia da praia.",
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      "author": "danifbento",
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      "slug": "os-incendios-e-o-futebol",
      "title": "Sociedade - Os Incêndios e o Futebol",
      "content"	 : "Mais uma notícia, mais uma pequena opinião. Hoje, dia de jogo entre Benfica-Porto é também um dia difícil para diversas pessoas e profissionais no combate às chamas. Segundo o jornal “Público”, “Mais de 2000 incêndios nos últimos seis dias em Portugal” (Lusa). Todos os anos, repetidamente, assistimos ao mesmo cenário. Ano após ano, não são tomadas medidas preventivas nem tomadas acções para resolver um problema que, actualmente acho grave. A falta de legislação e fiscalização por parte das autarquias é um factor decisivo no Verão.Estava a ver as notícias e é, de facto, surpreendente que, com o que se passa no resto do país, exista um conjunto enorme de pessoas para se certificarem que o jogo Benfica-Porto corra bem onde, a maioria das pessoas que assiste que costumam ter comportamentos animalescos e irracionais, de não se magoarem. Por outro lado, assistimos a um corpo “muito menor” de bombeiros, lutando com unhas e dentes para salvar uma situação que se repete anualmente por falta de cuidado “de muitos”.Lendo algumas opiniões, até na rede social Facebook, apesar de, por vezes, achar que algumas são um pouco “exageradas”, em relação a este tópico, admito que concordo com muitas delas. Felizmente, nunca estive numa situação grave de incêndio perto de casa, mas uma propriedade nossa (um pinhal) já foi por duas vezes, consumido largamente por chamas, ambas por fogo posto!É uma realidade, existem cuidados que muitas vezes se podem ter para evitar determinadas situações como, os cigarros, o lume, as queimadas, os vidros perdidos, entre outras situações. Por outro lado, a lei é pouco credível quando se fala em incendiários. Existem muitos tipos de incendiários, desde os loucos, aos interesseiros, aos pagos e aos viciados.  Os loucos, não são incriminados porque a lei não actua. Os interesseiros, tal como os pagos, têm jogadas mais sujas para conseguir objectivos (como conseguir colocar os terrenos prontos para agricultura ou urbanização) e os viciados que muitas vezes, só o fazem por gosto.Penso que, tal como já li anteriormente, estas situações são tratadas com muita tolerância e efectivamente, a provocação de incêndio propositado, não é vista como um crime grave e um atentado à povoação e à Natureza.Por outro lado, também há um grande descuido por parte de muitas pessoas, quando acumulam lixo por todo o lado, não fazem limpeza de matas, provocando situações complicadas para muitos bombeiros. Apesar de muitas vezes, os populares tentarem ajudar os bombeiros nestas ocasiões, a maioria também deveria ser responsável por assegurar algumas  limpezas em casa ou em redor de casa.Vamos ver, como correm os próximos dias!PS: Acabei por apenas publicar este artigo hoje, dia 8. Sendo que posso acabar dizendo… o Benfica, do pouco que vi,  jogou mesmo muito mal… acabando por perder por duas bolas a zero. Também está tempo coberto, apesar de um pouco abafado, espero que ajude os nossos soldados da paz a controlar a situação.",
      "url": " /os-incendios-e-o-futebol/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "Sociedade"
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      "slug": "sociedade-a-proteccao-de-dados-o-google-e-as-novas-realidades",
      "title": "Sociedade - A protecção de dados, o Google e as novas realidades",
      "content"	 : "O jornal “Público” hoje lançou uma notícia intitulada “Comissão de protecção de dados proíbe Google de fotografar ruas portuguesas” (João Pedro Pereira). Este tipo de notícia já não é recente. Desde há muito tempo que existe pequenas guerrilhas entre alguns Governos e a empresa americana, Google. É verdade que existem leis, é verdade também que os tempos mudam.Actualmente, é surpreendente a forma como várias medidas são tomadas e, muitas vezes, é também de espantar a reacção de muitos ou a não reacção de outros a determinadas questões.Em resumo, é dito que a Comissão Nacional de Protecção de Dados (CNPD) não autoriza a empresa norte-americana a voltar a fotografar as ruas de Portugal. Os argumentos, são os típicos… os dispostos legais.Ora, segundo a notícia, a CNPD diz que a proibição está relacionada com “o facto de alguns rostos e matrículas serem reconhecíveis e com a falta de autorização formal”. Para os menos atentos, as imagens recolhidas pela Google são processadas e através de tecnologia de reconhecimento, são desfocadas as caras e as matrículas dos carros. As questões remetem-se todas para o mesmo ponto de entrada, a privacidade de dados.Numa era em que, virtualmente, estamos todos ligados e que a informação circula pelo mundo como nunca circulou, não será necessário rever o conceito de privacidade? Estas definições são contextualizadas numa cultura e numa dada época, certamente estamos a viver uma fase de transição e em determinadas questões, a minha opinião geral, é que a Google nos tem levado para um novo patamar. Apesar de, actualmente, haver outras empresas muito boas, a verdade é que, desde o momento em que a garagem, onde nasceu a Google, veio ao conhecimento público, a companhia foi colocada num patamar de “exemplo empresarial”. Como tal, gera vários inimigos e ainda mais, pelo facto de ser uma empresa de disponibilização de conteúdos livre. Deve ser, de facto, das poucas grandes empresas que aproxima o utilizador do mundo virtual sem custos elevados.De um modo arcaico, qual a diferença entre a Google fotografar, colocar num sistema de mapas bem definido ou, ser eu a passar os dias a tirar fotos a tudo, montar e fazer uma galeria pública, onde mostro a toda a gente, as ruas que fotografei. Qual a diferença entre nós? O resultado final… possivelmente o meu só me agrada a mim, o das câmaras da Google servem como utensílio a muitas pessoas nos dias de hoje. Um bom sistema de navegação, indexado a uma visualização geral das ruas, dá-nos um modo real de viajar e reconhecer alguns locais.A imagem que coloquei no título, é um exemplo desses. Uma pequena imagem onde mostra uma boa área da rotunda do Marquês de Pombal. Se eu já não conhecesse, acharia interessante, como ponto de paragem, numa viagem pela zona. De facto, faço muito uso destas aplicações e, verdade seja dita, tenho conhecido coisas na nossa zona que não conhecia e, ao contrário da CNPD, nunca consegui “reconher alguém ou algum…carro”. A tecnologia falha? É provável que sim! Por outro lado, qualquer pessoa vai a um serviço de fotografias (Flickr, Picasa), ou até mesmo a alguma rede social (Facebook, Twitter) e consegue achar, facilmente, fotografias da zona, sem qualquer censura.CapitalO que tem a Google a mais que todos nós a tirar fotos? Capital! Mas é capital gasto, sem retorno directo e, dá-me a parecer que não são os objectivos em Portugal. Dado que me lembro do acordo com  a MicroSoft para fotografar Lisboa integralmente, até mesmo, em vista de olho de falcão. Foi proibido? Não… mas havia capital a ser mexido!CapacidadeVerdade seja dita, a Google ainda estará aí algum tempo… e como tal, existe muitos projectos para avançar. São estes mais ou menos ambiciosos? Não sabemos. A verdade é que a Google tem capacidade para fazer “quase tudo”, mesmo dentro dos temos da lei.Essencialmente, tem a capacidade de fazer o mundo funcionar e girar!Cumprimentos,Daniel Bento",
      "url": " /sociedade-a-proteccao-de-dados-o-google-e-as-novas-realidades/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "Sociedade"
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      "slug": "os-radares-o-transito-e-o-civismo",
      "title": "Sociedade - Os radares, o trânsito e o civismo",
      "content"	 : "Hoje, reparei numa notícia no jornal “O Público”, intitulada “Maioria dos radares em Lisboa só serve para assustar” (José António Cerejo) e, achei que deveria ser um tema interessante para escrever aqui um pouco.Lembro-me, de há alguns anos atrás se falar consistentemente nos famosos radares que, actualmente, tanto conhecemos em Lisboa. Falava-se da inovação, do controlo, da multa e acima de tudo, na complexidade de um sistema que permitira às ruas de Lisboa serem, francamente, mais seguras. Lembro-me de se falar em investimentos em grandes volumes (alguma pesquisa pela Internet, facilmente se encontra o histórico de notícias) e, também, de se falar do receio que as pessoas começariam a ter ao andar na estrada.Falou-se sempre de muita coisa, mas nunca se falou no essencial… ou pelo menos aquilo que eu acho que seja essencial. Prevenção! Sim, prevenção. É um facto, os condutores portugueses cometem muitas lacunas na estrada (incluindo eu), mas também é real que pouco ou nada se investe na prevenção rodoviária. A forma como os condutores são educados na estrada é essencialmente aquilo que decide o futuro dos mesmos a conduzir.Actualmente, conduzir não é um luxo (como era há alguns anos atrás), é uma necessidade para muitos. A sociedade evolui e tal como ela os hábitos diários de cada um. Porque não tratar do civismo rodoviário como qualquer outra vertente educacional? Não sairia mais barato? (Se tratarmos de custos). Existe uma ideia, talvez demasiado enraizada, na culpabilização dos limites de velocidade na perturbação do trânsito. Não é algo, de todo, errado, mas também, não penso que seja completamente correcto.Dificilmente acredito quando alguém diz “Eu nunca desrespeito os limites de velocidade”. Talvez até haja alguém, mas a condução não simplesmente limites de velocidade, sinais de bola vermelha com um número negro no seu interior, esta é apenas uma questão, entre muitas. Não querendo pegar, por agora, noutras situações não relacionadas com velocidade, acho que há algo que ainda não vi ninguém se lembrar. Os limites Mínimos!Os limites Mínimos:Diz o código da estrada o seguinte (não é transcrição literal, dado que, não consegui extrair dados da ANSR):“É proibido circular a uma velocidade tão lenta que cause embaraços injustificados aos demais utentes da via pública. Isto sem prejuízo dos limites máximos legalmente fixados.”“Nas auto-estradas, a velocidade mínima autorizada é de 50 km/h, salvo em situações excepcionais, se existir sinalização em contrário.”Ora, a verdade é que, tal como os máximos, os mínimos também devem ser considerados. É frequente, dentro das localidades haver embaraço de trânsito devido a estas situações. Mais grave, por exemplo, acontece em Auto-Estradas, onde maioritariamente é esquecida a alínea, no Código da Estrada, que refere “Os condutores devem sempre circular na via mais à direita, excepto situações de ultrapassagem, que deve ser efectuada pela esquerda”. Quantos e quantos condutores, conduzem diariamente, a uma velocidade “dentro dos limites legais da lei”, mas na faixa central, perturbando o fluxo de trânsito? Quantos condutores, ao entrarem na Auto-Estrada, não usam a via de aceleração, para ganhar velocidade e acompanhar o trânsito, mas sim para reduzir e reagir como se de um STOP se tratasse?Inúmeras situaçõesDesde piscas (não é também importante?), faróis desligados, ultrapassagens mal calculadas, condutores em sentido contrário, desrespeito pelas vias de trânsito único, estacionamento em plena faixa de rodagem, rotundas mal executadas, telemóveis (comida também)… um conjunto de situações que, também afectam o nosso dia a dia na estrada.PrevençãoVoltando a esta palavra, não seria mais fácil educar os jovens, os futuros condutores, para a condução cuidada? Alertar para as situações perigosas, situações de cuidado e precaução. O civismo, em que situação for, não se aprende apenas com restrições e proibições. Na minha opinião, o mal não está nos radares, no facto de não haver dinheiro para os manter ou até mesmo nas situações pontuais em que o limite de velocidade é quebrado e não há registo. O mal está em toda uma educação rodoviária que, é inexistente.  O abuso, excessivo, da buzina, é um sinal claro da falta de educação entre condutores. Quantas vezes “levamos uma buzinadela” por cometermos um erro, insignificante? Porque não são as pessoas mais compreensíveis na estrada? Porque não são “simpáticas” umas com as outras? (Por exemplo, facilitar nas situações de manobra)…Não são, nem nunca serão… apenas os limites de velocidade “Máximos”.Apenas uma opinião de um condutor, que usa em pleno os transportes públicos também,Daniel Bento",
      "url": " /os-radares-o-transito-e-o-civismo/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "Sociedade"
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      "slug": "observacao-solar-dia-17-de-julho-2010",
      "title": "Observação Solar - Dia 17 de Julho 2010",
      "content"	 : "No dia 17 de Julho decidi fazer uma pequena observação solar. Há algum tempo que não observava e gostava de ver se, pela primeira vez, conseguia observar manchas solares.Neste âmbito, tentei tirar algumas fotografias, mas dada a minha falta de experiência ainda por estas andanças, acabei por conseguir fotografar o Sol, mas não a única mancha que consegui resolver a olho. Má configuração, para a próxima irá correr melhor.A fotografia que consegui tirar foi a seguinte:      Local: Casais da Lapa, Santarém        Exposição: 1/400 sec        _Velocidade ISO: _ISO 100        _Câmera: _Canon EOS 400D        _Óptica: _Newtoniano 200mm  @ f/5 com ócular 25mm        Filtro Solar Baader  Infelizmente, não consegui fotografar a mancha solar. Fica apenas o registo de um Sol limpo e branco.Fotografia do Sol no dia 17 de Julho de 2010:É possível reparar na mancha solar nº 1087, a mesma que observei quando tirei a fotografia acima.",
      "url": " /observacao-solar-dia-17-de-julho-2010/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "Astronomia"
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      "title": "Movies - Alice in Wonderland (Alice no País das Maravilhas)",
      "content"	 : "Mais um filme da Alice no País das Maravilhas. Ainda só tinha visto algumas passagens da história em situações diferentes, como o filme animado da disney, alguns livros e pouco mais. Nunca me sentei a ler o conto de uma ponta à outra. No entanto, ontem fui ver a versão do filme em 3D e… podem continuar a ler o que achei das duas horas de filme!Director: Tim BurtonHistória Original: Alice’s Adventures in Wonderland de Lewis CarollData de Lançamento: **4 de Março de 2010 (Portugal)**MPAA: **Rated PG for fantasy action/violence involving scary images and situations, and for a smoking caterpillar.**Duração: 108 minPaís: EUALíngua: Inglês**3D: **SimComo não conhecedor total da história original escrital por Caroll, não me posso pronunciar nesse aspecto, apesar de saber que é uma história complexa e interessante. Ou, pelo menos do que conheço. As versões que sempre vi desta história foram sempre muito “limpas”… a perfeicção sempre reinou.Por outro lado, Tim Burton, já conhecido pelas suas adaptações, conseguiu transformar esta história em algo diferente. Sem dúvida, que a ideia era boa, a execução fracassou. No mundo de Alice, somos direccionados para um composto de personagens e ambiente que nos envolvem. O problema é: envolvem, mas envolvem até que ponto? A história peca muito. É uma versão muito branda de uma história bonita, em contraste com um ambiente muito ao estilo dark. As personagens estão extremamente bem caracterizadas, mas não deixam de ser personagens muito simples o que eu acredito ser uma mensagem errada da história original. Dada a complexidade original do enredo.Eu que costumo gostar dos papéis  do jonnhy deep nos filmes, acabei por não gostar muito da actuação neste. Não teve sumo para espremer. Acaba mesmo por ser um filme aborrecido… ao intervalo estava a adormecer.Apesar de tudo isto, o filme consegue ter um CGI fantástico e bem explorado… mas pena o 3D não sofrer do mesmo bem… penso que o preço pelo digital 3d não compensa.Resumindo, é um filme que teria tudo para ser um grande sucesso como se propagou que seria… mas no entanto, falta-lhe enredo e uma maior complexidade. Era o que era exigido de um filme que prometia tanto.Fazer algo diferente não chega, é necessário trabalhar isso a sério!Cumprimentos,Daniel Bento",
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      "title": "P365/10 - Day065 (07th March 2010) - 3D Glasses",
      "content"	 : "My 3D glasses from yesterday Movie: Alice - Adventures in Wonderland",
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      "title": "P365/10 - Day064 (06th March 2010) - Another White",
      "content"	 : "White flash again!",
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      "content"	 : "Noname!",
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      "title": "P365/10 - Day063 (04th March 2010) - Shower Protection",
      "content"	 : "My comic shower protection!",
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      "title": "P365/10 - Day062 (03rd March 2010) - White Wall",
      "content"	 : "Is this a white wall?? I don’t think so… my flash is very weak!",
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      "author": "danifbento",
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      "title": "P365/10 - Day061 (02nd March 2010) - 55 Degrees",
      "content"	 : "My water heater @ 55 Degrees!",
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      "title": "P365/10 - Day060 (01st March 2010) - Cookie Box",
      "content"	 : "My cookie box…. plenty of cookies!",
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      "title": "P365/10 - Day059 (28th February 2010) - Misako",
      "content"	 : "Another picture of my cat… sorry for the terrible light of this one!",
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      "title": "P365/10 - Day058 (27th February 2010) - Lost Capacitor",
      "content"	 : "3300 microFarad capacitor. I lost this one during the mounting of my 500GB hard drive. My computer case is full and I did a mistake when I inserted it. I actually need a multimeter to confirm this… but the probability is high :)No description",
      "url": " /p36510-day058-27th-february-2010-lost-capacitor/",
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      "title": "P365/10 - Day057 (26th February 2010) - AMD 2600+",
      "content"	 : "WHAT DO NOT DO!This is a mess! When I took of the processor, I didn’t believe on this… lol… What a bad thermal past use!No description!",
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      "title": "P365/10 - Day056 (25th February 2010) - Power Supply",
      "content"	 : "My extremely dusted power supply! It’s a funny picture ;)A day of hardware corrections!",
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      "author": "danifbento",
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      "title": "P365/10 - Day055 (24th February 2010) - Serial ATA",
      "content"	 : "My external drive’s Serial ATA Interface. The power supply doesn’t work. I have to make a diagnostic :)No description!",
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      "author": "danifbento",
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      "title": "P365/10 - Day054 (23rd February 2010) - Shooting the Clouds",
      "content"	 : "My second shoot of clouds… 30 seconds exposure F36!Today was a pacific day. I have stay at home to rest from this last days. But it’s amazing, the project that I was done had a great launch today, on TV. You can see it at http://www.pordata.pt, we can see there many stats about the last fifty years on Portugal. Give it a try.In other instance, my website is making me sad… I almost don’t have visits… and I think that it’s mostly because I don’t post anything useful and my English is very poor… gahh… I need more and more practice!Currently I’m coding at home my implementation of Sparse Matrix in C, I want to post the code here when it’s come finish. I had a problem with the algorithm, but in the other day I fixed it… it was a bad condition in the linked lists.Well, let’s try hard to improve this :PRegards,Daniel",
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      "author": "danifbento",
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      "title": "P365/10 - Day053 (22nd February 2010) - Shooting the Clouds",
      "content"	 : "One of my two clouds shoots of today! :)No description from yesterday!",
      "url": " /p36510-day053-22nd-february-2010-shooting-the-clouds/",
      "author": "danifbento",
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      "title": "P365/10 - Day052 (21st February 2010) - Keys",
      "content"	 : "Some key… nothing special!It’s almost hour to go to work, but in the first place I have to go take some pictures for train card. Eheh.Regards,Daniel Bento",
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      "slug": "p36510-day051-20th-february-2010-misako",
      "title": "P365/10 - Day051 (20th February 2010) - Misako",
      "content"	 : "I took this photo today to be yesterday photo. It’s my new cat, because, sometime ago he was a girl, now… it’s a guy :P He called Misa, and now we call him Misako. Misa is a small name for him. It’s growing fast and he every day more beauty.Yesterday I didn’t had time to take the day photo because I get home very late and I had no head to photography. But well, the day ran well. A big work day!Regards,Daniel Bento",
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      "author": "danifbento",
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      "title": "P365/10 - Day050 (19th February 2010) - A little more Moon",
      "content"	 : "Today was time to give a try on another Moon shoot! I have to improve my performance in this type of photography and we only can do that with a lot of practice. Hope you like it.I didn’t do very much today. Even in the work, not only because of me but because some problems. But, I’m in happy mood, I finished reading the book and I’m ready to start another.I’m studding every day and I’m happy with that, besides that, it’s time to start some projects that I mentioned here before.Finally I’m planning to get a new tripod. I want a good one! I’m looking for a Manfrotto’s tripod. It’s stable and it’s what I need for the various proposals which I will submit it. Maybe in the next week I will have a three day weekend, it’s the right opportunity to start over again with astronomical observation.Well, we will see ;)Regards,Daniel Bento",
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      "title": "P365/10 - Day049 (18th February 2010) - Belas",
      "content"	 : "If it I didn’t had those terrible lights on my horizon, maybe my sky would be better…No description for yesterday.",
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      "author": "danifbento",
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      "slug": "p36510-day048-17th-february-2010-moon",
      "title": "P365/10 - Day048 (17th February 2010) - Moon",
      "content"	 : "I was seeing Moon set when I went home and I had to shoot it! I love our moon! It’s a simple photo, but one of my best moon pictures ;)The day was relatively good. I do most of things that I wanted to do at work and, when I came back to home, I was pleasured with this today’s picture.It’s good to know that our opinions are read, in this specific case, my email about Tagus Park. Who follow me on Twitter, knows what I’m talking about. In a short message, I went to a photo shoot on Tagus Park and the security guard wanted me to delete all my data, I sent an email to the Tagus Park direction, and I receive a positive answer today.And, it’s real, yesterday I started to study! I want to do things right… no time for excuses now! :DRegards,Daniel BentoPS: I have to do my tomorrow lunch ;)",
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      "author": "danifbento",
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      "title": "P365/10 - Day047 (16th February 2010) - Hand",
      "content"	 : "Talk to the Hand! :) This is a picture of my left hand. I like it, mostly because the details of the skin. I’m on the mood to put a face on this picture… and… talk to the hand! Eheh.Another day, more activity. Today was Carnaval, it’s a big party in many places. In Portugal, some people take the day off to enjoy, some others work.It was a good day, even with the lack of trains to the city. When I went to the work, during the morning, I had time to read a lot of pages of the “Tiger’s Child”, written by Torey Hayden (“A Criança que não chorava”, Portuguese title). I’m liking very much this book like the last I read “One Child” (“A Criança que não falava”, Portuguese title). I’m using all this little times to do something useful.My work day ran very well, I’m learning to work with OutSystems framework very fast. Sometimes I break my mind with something, but in a geral way, I’m working well.During coming back travel, I read a lot more and I’m planning to start study Waves and Optics for school.Well, this is it, for today.Regards,Daniel Bento",
      "url": " /p36510-day047-16th-february-2010-hand/",
      "author": "danifbento",
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      "title": "P365/10 - Day046 (15th February 2010) - Cookies",
      "content"	 : "I need cookies! Everyone need cookies to survive! How can you work until late hours without this precious food? This is a quite simple photography, taken on my secretary :)My day today was very calm. No much worries. Hum, except some minutes ago, for the first time I punish my kitty. I put her bed on the kitchen and he’s there now for a while,until he calm down. Not a very special reason, but he is a little hiper active today. Can be the cookies? I don’t know :) But for sure he learn something… I cannot hear nothing, he understood that what he done was wrong.Well, besides that. My days have been passed very calm, I’m working on a full time job and that is great. I’m trying my best to keep myself busy, because that’s what I like.I will change my Internet/TV/Phone provider at my parents home. Meo service is giving a better price for the service and I don’t have to pay three accounts. One it’s enough. In the other hand, I have to disassemble my AMD 2600+. I need to see if it was the processor that died in the other day, I cannot loose that machine. But if it died, I need to buy a Socket A (462) processor for my Abit AN7. That motherboard is damn good to be without working.",
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      "author": "danifbento",
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      "title": "P365/10 - Day045 (14th February 2010) - Valentine&apos;s Day",
      "content"	 : "Happy Valentine’s Day!No much to do today ;)",
      "url": " /p36510-day045-14th-february-2010-valentines-day/",
      "author": "danifbento",
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      "title": "P365/10 - Day044 (13th February 2010) - Carpet",
      "content"	 : "CarpetCheating this photos… Sorry!",
      "url": " /p36510-day044-13th-february-2010-carpet/",
      "author": "danifbento",
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      "title": "P365/10 - Day043 (12th February 2010) - Bed",
      "content"	 : "Bed ClothesCheating this photos… Sorry!",
      "url": " /p36510-day043-12th-february-2010-bed/",
      "author": "danifbento",
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      "title": "P365/10 - Day042 (11th February 2010) - Shower Water II",
      "content"	 : "Shower Water IICheating this photos… Sorry!",
      "url": " /p36510-day042-11th-february-2010-shower-water-ii/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "P365/10"
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      "slug": "p36510-day041-10th-february-2010-shower-water",
      "title": "P365/10 - Day041 (10th February 2010) - Shower Water",
      "content"	 : "Shower WaterCheating this photos… Sorry!",
      "url": " /p36510-day041-10th-february-2010-shower-water/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "P365/10"
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      "title": "P365/10 - Day040 (09th February 2010) - Cat Toy",
      "content"	 : "A small gift to my kitty!Cheating this photos… Sorry!",
      "url": " /p36510-day040-09th-february-2010-cat-toy/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "P365/10"
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      "title": "P365/10 - Day039 (08th February 2010) - DVD",
      "content"	 : "Who wants to see a movie?Cheating this photos… Sorry!",
      "url": " /p36510-day039-08th-february-2010-dvd/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "P365/10"
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      "title": "P365/10 - Day038 (07th February 2010) - Energy",
      "content"	 : "A little energy to this day…Cheating this photos… Sorry!",
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      "author": "danifbento",
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      "title": "P365/10 - Day037 (06th February 2010) - Smell",
      "content"	 : "Who Doesn’t like a good smell?Cheating this photos… Sorry!",
      "url": " /p36510-day037-06th-february-2010-smell/",
      "author": "danifbento",
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      "title": "P365/10 - Day036 (05th February 2010) - Lock",
      "content"	 : "Don’t let anyone lock your life! :)Cheating this photos… Sorry!",
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      "author": "danifbento",
      "categories": "P365/10"
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      "title": "P365/10 - Day035 (04th February 2010) - Gift",
      "content"	 : "I receive this toy one time I went to a Chinese restaurant…Cheating this photos… Sorry!",
      "url": " /p36510-day035-04th-february-2010-gift/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "P365/10"
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      "slug": "sassoeiros12-primeira-fase",
      "title": "Sassoeiros12 - Primeira Fase",
      "content"	 : "Durante a minha estadia como freelancer na InforOption, desenvolvi um projecto (logo no começo), onde pela primeira vez, tentei aplicar a tecnologia AJAX. O design deste site foi fornecido pela equipa dos Sassoeiros, ficando eu, apenas responsável pela elaboração física do projecto… ou seja, pô-lo a andar.De acordo com os requisitos iniciais, a ideia seria ter a página de apresentação, um agregador de notícias e um forum simples onde os escoteiros pudessem comunicar entre si.O projecto foi desenvolvido durante o mês de Julho de 2009As técnologias usadas foram:      PHP/MySQL        AJAX        xHTML        CSS  ",
      "url": " /sassoeiros12-primeira-fase/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "Sassoeiros12"
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      "title": "P365/10 - Day034 (03rd February 2010)",
      "content"	 : "My kitchen view!Cheating this photos… Sorry!",
      "url": " /p36510-day034-03rd-february-2010/",
      "author": "danifbento",
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      "title": "P365/10 - Day033 (02nd February 2010)",
      "content"	 : "My kitchen view!No description about this day… I’m sorry for lately photos!",
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      "author": "danifbento",
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      "title": "P365/10 - Day032 (01st February 2010)",
      "content"	 : "A set of new experiments on astrophotography… lets try to learn a lot! It’s the west side of my house",
      "url": " /p36510-day032-01st-february-2010/",
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      "title": "P365/10 - Day031 (31st January 2010)",
      "content"	 : "This photo means the new path that I will take for this next month! ;)No description",
      "url": " /p36510-day031-31st-january-2010/",
      "author": "danifbento",
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      "slug": "cosplay-fupo-2008",
      "title": "Cosplay FUPO 2008 ",
      "content"	 : "This was my first event. Without any experience on this type of things, I was nervous because I had some difficult to interact with people. It’s hard when we aren’t self-confidante and have to tell people to make this or that and at the same time, trying to make them comfortable.But it was a funny day ;) With a lot of rain!Taken @ 24/05/2008",
      "url": " /cosplay-fupo-2008/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "People"
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      "slug": "ana-and-carla-the-first-time-i-shoot-someone",
      "title": "Ana and Carla - The first time I shoot someone",
      "content"	 : "This a small set of pictures I take for a first photo shooting. Before this I have done little things but I never spent so many hours with only two persons.The quality of photography on this set shows that I really needed to get better on this type of situation. I wasn’t very comfortable because I didn’t know for sure what to do and how to interact with the models. Lucky, they are my friends.Taken @ 28/09/2008",
      "url": " /ana-and-carla-the-first-time-i-shoot-someone/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "People"
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      "slug": "p36510-day030-30th-january-2010",
      "title": "P365/10 - Day030 (30th January 2010)",
      "content"	 : "Another experimental photos of some batteries which I use in my draw table. Most of them are without charge at now… because I spent most of it on my movie camera, making some experimental movies on the car.Today is Saturday and I didn’t spent many time working. It’s important to control our time, because we need to rest and, of course, watch some TV and see the world news.I’m trying to get some ideas about how I will organize my galleries on my website. I want to make something cool, but easy to maintain. I don’t know if I will have to recheck all the posts again…For now it’s everything…Regards,Daniel Bento",
      "url": " /p36510-day030-30th-january-2010/",
      "author": "danifbento",
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      "title": "P365/10 - Day029 (29th January 2010)",
      "content"	 : "A photo from my old headphones… I need a new set. These ones are very good and they still work, but I have to change the cable’s jack. Another exploration of reflections, but I detected a bug… there are more than headphones reflection :(In this past day I was looking for a new pair of headphones… there are so many different sets, so many sizes, and so many good ones… That I’m with difficult to choose a pair. Besides that, I want a pair which I can use on the street or at home when I’m working on the pc.By the way, I read some stuff about iPad yesterday… and I’m losing my idea of buying it. Ok, it’s very pretty and beauty, but Kindle is better for reading e-books… for the use I want, the iPad would loose his potential very fast.It’s a really a weird thing to think LOL…. let’s see.Regards,Daniel Bento",
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      "slug": "p36510-day028-28th-january-2010",
      "title": "P365/10 - Day028 (28th January 2010)",
      "content"	 : "How the time pass… I decided to take a photo of my equipment. :)No description about yesterday, ;)Regards,Daniel Bento",
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      "slug": "p36510-day027-27th-january-2010",
      "title": "P365/10 - Day027 (27th January 2010)",
      "content"	 : "My school theme is almost in the end. I have to think yet what will be the next theme… I have only 4 days to think. This photo is school related directly. It’s the university’s Pin. They gave me one when I entered to the school, at now it walks with me on the baggage.Without entering with many details, most of my day was past studding and working.I subscribe myself as a photographer assistant in a photo house and, subscribe to a explanation center to help younger people in school (like math, physics and so on)… I hope to help many kids :)Let’s see what the future has to me.Regards,Daniel Bento",
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      "title": "P365/10 - Day026 (26th January 2010)",
      "content"	 : "Another simple composition. An idea come from my kitty! It’s awesome. He was playing with the dvd’s polystyrene. I look at him and remembered of made a fast stand for the pens. Ok, the stand isn’t very efficient but I liked it for the composition, light effects and reflex.Another work day. Nothing special to say today, I want to go watch TV ;)Regards,Daniel Bento",
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      "author": "danifbento",
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      "title": "P365/10 - Day025 (25th January 2010)",
      "content"	 : "I wrote this paper in the begging of the month when I was studding for Numerical Analysis. I was looking to it today, when I came with this photo idea. It’s a simple photo but was a challenge to take it because of the position. I had to took it with the left hand, in the vertical and that is not a good standing for a photo, mainly when I’m trying to catch my right hand on the paper…Another productive day. This blog is winning a new design, I hope to get it finished. It’s interesting not only because it’s a new image, but because I’m learning a lot of new things about Wordpress and how it works.But, I can forget that I have an exam of Thermodynamics to do, yet. I need to start study and prepare myself to it, I think I will do the same thing I did in the other day. Went to the coffee for study.Regards,Daniel Bento",
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      "title": "P365/10 - Day024 (24th January 2010)",
      "content"	 : "I had the idea of capture this image when I was looking to a old store catalog. I tried to represent “a cut” on credit lines. Nowadays it’s pretty easy to get credit and get an extra few bucks. But, for many reasons which I believe that most of us know, many people get involved with a lot of problems. It’s a decision, but how much we pay for that easy credit we saw in the other day on the TV “Call to the number XXX XXX XXX and get 5000+ Euros and pay on the next year”… In the end, we will pay the twice we ask…For great problems we have great solutions and, even without a problem… I came with a solution. :) Just kidding. Today was a good work day. During the morning I didn’t do anything special and after the lunch, I came to Monte Abraão.During the afternoon I used most of the time to develop my Wordpress theme. It needs a lot of retouches yet. Most of the pages aren’t created yet, but it’s nice to see the website working on a real environment… go off Photoshop.I have to get used to some proprieties of Wordpress and how some other things work. But it have been fun doing this!Regards,Daniel Bento",
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      "title": "P365/10 - Day023 (23th January 2010)",
      "content"	 : "Another day late photography. I was out of creativity and imagination and I’m without of it yet! This is a simple shot of my webcam. Nothing special.What to say more about yesterday? It was weekend and I took my day off to rest. Result: Most of my time was used to watch TV or taking a walk at Cartaxo.Ah, I saw a super weird movie :) It was a about a plain crash and a Yeti… the brilliant part was when they catch a rabbit to eat, but in the fire it was a chicken! Why you cannot use rabbits in a movie to eat, but you can use chickens? :SRegards,Daniel",
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      "title": "P365/10 - Day022 (22th January 2010)",
      "content"	 : "Ok, this is something like… my life backups. It’s all there. In the top of bed closet of the office at Casais da Lapa. I have this projection lights on the top and it makes a nice effect hover the CD cases.This was a another after-idea photography. I came yesterday to my parents home and it was difficult to have a little time to post.I had my numerical analysis appointment yesterday and it went not very well, but not very bad also. And I discovered more informations about that terrible report that I have done! Some people only delivered it yesterday! It is very bad for the people who had to deliver on the 4th January because the teacher say so.Oh well… I will have a bad note on this work!Regards,Daniel Bento",
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      "title": "P365/10 - Day021 (21th January 2010)",
      "content"	 : "The pen train! I always like train rails and their perspectives. Sometimes, in our school train, we have to push hard by ourself and sometimes, try more hard than we can do. In the other way, like a train, when we start rolling it’s difficult to stop. We always want more and more. Like a photographer I feel the same, I want to up a little more each photo I take.Red and Green Pen are useful pens, but for someone that only likes do write in black/blue… having this pens are a waste. But, most of my non black/blue pens comes in packs with the black/blue ones and I buy them because they are cheaper!Ok, it’s nonsense to talk about pens! And more pens…  but it’s funny ahah. Sometimes it feels good to talk about nonsense thoughts.The begin of my day was a little stupid… the social services are to slow… they talk so much and do so little. But after all, the situation makes me think about actual statistics of unemployment. Most of the people there don’t want to work, it’s true! I found people saying “I had a job, but I quit and came here because… I don’t want to work” or “I want to win very much but I don’t want to work hard or learn a job”… People have their life of course, each one choose their path… I prefer to believe in that… But  it’s a killing situation for many people on our economical state.Do something is better than do nothing, but try is a much better position than a passive one.Regards,Daniel Bento",
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      "title": "P365/10 - Day020 (20th January 2010)",
      "content"	 : "This is only a normal USB pen drive with 1GB storage… but is incredible how many times it has saved my life. Lost works, stuff to print, a rescue memory to push a little more when I’m doing backups… and it’s a simple usb pen drive :) In fact, I have to renew my external storage set… I have only 2 pens (256MB :O and 1GB) drives. A 8GB pen is enough for now!I like to do this project, but in some way I’m founding my pictures the worst of the world! I see every day a lot of works with so much creativity, so much talent and technique… my pictures are so simple… so easy to shot!In these last pictures I have been trying to compose a little more than make some point and shot photography… but I’m disappointed with my quality of work!In my photography history, the best exciting photos I shotted was with my Sony DSC-P43! Yes, that one… not because the quality, but because the challenge itself. Now I have this super hyper camera and I have difficulty to go outside, to the middle street and shot.Well, but we are always learning!Regards,Daniel Bento",
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      "title": "P365/10 - Day019 (19th January 2010)",
      "content"	 : "Well, another simple photography. With this photo I trying to represent the long path we have to take to realize our dreams and to see our wishes done. The metal represents the infinite loop around the world and the connections we made across “the paper”, our friends. Each paper represents a day life or a night dream… a untouchable reality of ours and only ours.I don’t have a long story to tell today. Besides study or read articles, my day was a little depressive… we all have that days :)It’s incredible how can a day be so stupid… ahah. Ah, good thing, I learn a lot of hash tables today. Ok, it’s not for school but I want to code something in C with hash tables. Just fun :)I’m thinking where I will fit here a page with links and stuff like that. I’m sure that my friends and followers are mad with me because I don’t link to them :D I’m sorry!!Next theme for this blog will come soon, made by me this time! :)Regards,Daniel Bento",
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      "title": "P365/10 - Day018 (18th January 2010)",
      "content"	 : "Well, the jack of my headphones . At the moment I don’t use this pair because of the… Mr Jack. The cable is doing bad contact and it’s uncomfortable to list music in this state. This photo was on my desk… to be different :) For curiosity, the contact point between the jacks is in the 2/3 point to the right and 1/3 point to the bottom.One more day eating books. Before start studding, I went to my daily coffee. It’s very important for me to have this daily coffee… it’s a moment of equilibrium between me and the society. After print some stuff… in Spanish… It was time to push hard and read more.Luckily, a college friend, sent me more appointments and all things turn by itself more clear. It is hard to study something without the knowledge of knowing what we have to study. In some part it’s my fault, in other hand, it’s not.Tomorrow will be another day and, I have to push harder. It’s important to me.Regards,Daniel Bento",
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      "title": "P365/10 - Day017 (17th January 2010)",
      "content"	 : "My paper rainbow! I was trying to shoot one with movement, but I come with this idea and I think it results better. I personally like the reflection, my dinner table and my office desk are made of glass… it’s interesting to take shoots there. But sadly, I focused on the reflection…I had a long day today. I pass most of my time working. After woke up during the morning, I uploaded my 16th photo because yesterday I wasn’t at home.After read the news, read some articles and prepare some stuff I went to my lunch. After that, I decided to go work outside home, I have more concentration seeing other people around me, even if they are screaming. I went to the shopping because they have free WiFi and I need to make research on the web.Basically, I only stop when my battery reached the end (the only power supply there was in use by another guy). But I have the work almost finish. It’s about nanotechnology.Besides this, I went to the book store see if it has something interesting to buy… but nothing special for now. It’s exams time, many books were sold.After back to home, I started to work on my new theme for the overdestiny.com website. It’s being funny to work on it. It’s a surprise :) I’m sure I will be quick to put in on the air, but I have to think on my exams too!I hope you like my 17th picture.Regards,Daniel Bento",
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      "title": "P365/10 - Day016 (16th January 2010)",
      "content"	 : "A day late. Yesterday I have been out and no opportunity to get a picture. It will be a double post day… behh… I don’t have nothing much to describe about yesterday :)",
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      "title": "P365/10 - Day015 (15th January 2010)",
      "content"	 : "My calculator! I love it! And… damn. I take the photo some minutes before the midnight but only update this blog some time later :P EhehI no much to say about today. It wasn’t a productive day… I hope a better day tomorrow for my productivity.Regards,Daniel Bento",
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      "title": "P365/10 - Day014 (14th January 2010)",
      "content"	 : "Some marker pens. This is a result of some experiments with those markers. I need a better light system, but the idea was show something in movement. I couldn’t move the 4 markers at the same time to get this effect, so I rotate the camera :) Without tripod and adjusting by eye. It looks cool :PAnother study day. Numerical Methods to solve Differential Equations of Second Order. Besides that, I was reading some stuff about security.During the afternoon I went to an interview for a development charge and went to the association to talk a little about random stuff. It was a good afternoon. I talked about some personal stuff, about computers, about math, about design and about games. Ahah, it’s very rare to play a game on a pc… I’m a console player… a playstation player :)My dinner today was a big plate of pasta. I was the cooker or… the semi cooker :).For now, it’s my 14th photography!Regards,Daniel Bento",
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      "title": "P365/10 - Day013 (13th January 2010)",
      "content"	 : "Yes it’s real… it’s an hard drive. 160 GB storage :) It’s my portable hard disk (2.5”). It’s a piece of gold for people who want their information always with backup and fast access. This is one of my 3 external drives (2 x 3.5” e 1 x 2.5”) in a total of 500 + 80 + 160 = 740 GB. Not to much, but the needed for now.Something more about the picture. I give it this “nice detail” giving it many black and noise. It makes me look to some type of retro hardware. One day we will look to hour things in this way? Like trash, useless and so one? It’s easy to see that technological world is in constant evolution but it’s kinda sad see somethings disappear. It was funny if we had a giant museum of technology, a place to remember all that old things we always liked… like the game consoles, giant 13” CRT monitors, Pentium 133 with a button that says “TURBO MODE” and we remember the television show “Kit” (that serie with a black car, Kit and Michael, in Portugal the series have the name “O Justiceiro”).It’s amazing but hard to believe that on day, this pc is no longer a pc, but trash, my CDs are all out of date, my phones… and everything.At home, I always made a challenge to me… even if it is old, it have to work and do something. It was because of this reason that I install Minix in 25Mhz machine… running at “full … … .. ack ack… …power” :)For now, it’s my 13th photographyRegardsDaniel Bento",
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      "title": "P365/10 - Day012 (12th January 2010)",
      "content"	 : "Ok, back to the real day. This is my draw table, a awesome tool for who likes to draw, paint and do another cool stuff. Unfortunately, I’m using it in rare times. Mostly because I have it here and I’m here very during very small times. I will bring it with me tomorrow for Monte Abraao.I forgot to mention in the last post, I painted a t-shirt too. Abstract, I let it dry until tomorrow. Some of my ideas are paintings, not computer painting, but “real painting”. I like abstract, maybe I will try that first… :)I love my kitty, or my cat… it have almost 5 months and she sleep with me. It’s here, in my legs making “rum rum” :) It’s my first domestic animal, it’s very funny. I lived alone, now I lived with Misa… it’s a wonderful presence. It makes me think, why people abandon their animals… They are so… kind… Eheh :DRegards,Daniel Bento",
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      "title": "P365/10 - Day011 (11th January 2010)",
      "content"	 : "Actually, I’m cheating! This was my idea for 11th photography but, I only arrive at this home very late yesterday. I only realize the idea today. Again, this is another messy office of mine. I’m building plans for this one because many things will go out and I want to give a more futuristic look :)Yesterday was a design productive day, I was drawing my blog new redesign, this time, made by me :). It’s not the best, but it’s funny. It will be a surprise eheh.Besides that, I’m keep studding for my exams. I will have one in 22 of this month. And another, 6 February, I think.I receive some good news which I will tell you later and I really enjoying having so many ideas. It’s possible that in next few weeks I show new stuff. And it was real, I started to clean my office, eheheh.Regards,Daniel Bento",
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      "title": "P365/10 - Day010 (10th January 2010)",
      "content"	 : "Another stupid photo. My messy office. It’s completely disorganized and messy. Everything is everywhere. I need to clean up these stuff. But oh well, I need some storage things, like block cases, shelfs and others. The only stuff I have now it’s only this secretary and it’s really cool, from IKEA.Today I made some experiments with ice. I shoot some funny pictures from a ice block (the blocks we put on the drink), nothing special. I’m really interested in experiment more things with ice… but it melts very fast when I put only small particles. Maybe it’s because the glass table. I will post them later.Most of my time is used to read, and today was no exception. I was reading some nice things about web development, design and other stuff.For a 10th picture, I have to mention that it’s very nice to do this project. It’s good to have habits, I know that I have one thing to do with no excuse. Even if it’s rain, snow, sunny or whatever. I’m thinking in start another photo challenges, more information will come son ;)Yesterday, on the beach I saw many photographers. I have a bad habit, I have some problems in go to the street and simple shoot everything. But yesterday was really cool, I saw very opportunities to start talking with someone. I was caring my Canon 400D with a bag on the shoulders. My set was very simple, only the camera with the super simple 18-55mm. I saw young people with new lens with stabilizer, others with telezoom lens (mostly because the beach was full of surfers) and people with 2 cameras with scary lens! Some respect…. eheheh :DSome day, maybe I will get some funny/interesting pictures! Until there I will practice very much, try and try ;)Regards,Daniel Bento",
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      "title": "P365/10 - Day009 (9th January 2010)",
      "content"	 : "Hahah… this photo is so stupid… it’s me! In the bar on the beach. I stopped there a little to take some notes and take a coffee… the coffee… ;) I returned to shoot with my old compact Sony 4Mpix… it’s cool you know? Return to our bases. The most things I know today about photography and editing I learned with this camera!It’s a good day. I woke up, went to the coffee for my first day walk. After that I returned home, I did some work and decided to go to the beach. First, I was thinking in go to MacDonalds here, on Monte Abraao, but when I arrive there it had so many people that I kept going to the beach and I didn’t stop.After do some photos I realize that was a bad timing to go… it’s was very sunny and it’s no good for results. But well, I was at the beach not only to take photos but to rest a little. After a while, I started my walk until I found the bar on this photo. The most of bars were full, but in this epoch of the year it’s quite… most of the people there are friends of surfers or they want to rest a little. The beach is a freedom place. It’s amazing to see the kids playing around with the sand… running and running without stop. I think it’s more beautiful to see a beach on the Winter than on Summer.After resting a little and seeing the surfers with the binoculars (yes, I remembered to bring them with me… I’m always forgetting), I restart my walk to catch some more photos.As you can see on the previous posts, I couldn’t do anything special… I’m missing a tripod… For somethings is easy to use the camera with the hand, but for most of the things I wanted to do today like long exposures… I needed a tripod.Even with this end, it was a good day… I didn’t see the time lapse… and when I look to the clock I decided to return. After that hour, I couldn’t to anything in those conditions.This was my 9th photo…Regards,Daniel Bento",
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      "author": "danifbento",
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      "title": "Carcavelos Beach - A small walk",
      "content"	 : "Today, as Saturday and as Weekend I went to the beach try to make some photos… the result is nothing in special… I have to try harder and the hour that I went is no good… (14h o’clock). The results are relative simple, nothing complicated or amazing… it was simply another try.It’s hard to make this sort of photography without a tripod. I have a mini tripod but is for small weights like my compact camera. It’s difficult to prepare anything with this type of equipment. But ok, I give it a try and I’m putting here some results of my photo walk…",
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      "author": "danifbento",
      "categories": "Walks"
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      "title": "P365/10 - Day008 (8th January 2010)",
      "content"	 : "My 8th photo of this set. It’s my incredible notebook! Pencil and… write! Everyone use this one a time in their life. It’s easy to use and very portable. I put there notes about photography, work, myself, to do lists and draws… ok… everything that go trough my mind.Today didn’t do nothing in special. I have to study and prepare work. Besides that, I seeing what I can do to some photos which I took in the other day. I downloaded again Photomatix HDR and it brings a Lightroom Plugin. I don’t know if I will use it many times.I have been without any creative today. No worries, sometimes we have to give a rest to our brain. Maybe it was because of the movie yesterday. I was watching it and, it simply crashed sometimes and I had to reboot the DVD player. It was a stupid movie anyway :)Along this, I’m thinking to return writing about movies and music to the blog. Like I have done before. Maybe a start with “Avatar”… who knows.Ah, for god sake…. what the hell is Twightlight? I watch the movie in the other day and it’s very bad… a child movie for sure. When people told me about the saga and when I saw in the library store things like “the next harry potter”… I really thought that the result was better… but I prefer the Harry Potter… even with it child characters and stories! :)Regards,Daniel Bento",
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      "author": "danifbento",
      "categories": "P365/10"
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      "id": "280",
      "slug": "p36510-day007-7th-january-2010",
      "title": "P365/10 - Day007 (7th January 2010)",
      "content"	 : "Well, a memory to the best way of making backups :) Wire! When I was making my backups, even with a theory max speed of 6.7 MB/s (Wireless), i only had 1.5MB/s, router fault. My lucky was to have extra network cables. If not, I have done backups until today!I’m talking about Wireless because on thing, my router is running fine until now. Maybe, in reality, was the outdated firmware the guilty of all my downs. In the other way, today was a productive day in photography. I have put some of the last photos online which it’s really cool. Finally I’m working better with the LightRoom and the Flickr Module. In the morning I was always deleting photos from the photo stream :S. Another thing, we you want to put Line Breaks on your photo’s caption in LightRoom, you have to do Ctrl+Enter, I found it today! Eheh.I have to make a wordpress theme for this blog. I’m currently using Pyrmont v2 theme. But I want to give my contribution for my own site… but ok, I’m always thinking in new ideas, new things and I start, and restart.Regards,Daniel Bento :)",
      "url": " /p36510-day007-7th-january-2010/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "P365/10"
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      "title": "Water Vulcain at Nation Park / Lisbon",
      "content"	 : "This is a small set of photos which I took on the New Year’s Eve. I went to a small walk on Parque das Nações, in Lisbon, to see the New Year’s Fireworks. Until there, I was playing a little with the camera and this set was one of the results.The photos are sequential, order by the time which they were token. In my option, the last ones are the best of the set :). I had no tripod and I used the stuff around me to simulate one. I thought that the results would be bad, but no at all. Let’s see.",
      "url": " /water-vulcain-at-parque-das-nacoes-lisbon/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "Light"
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      "title": "Animals - Misa #003",
      "content"	 : "During this days, I have done some captures of my kitty, Misa. I put in the flickr page and here some of theme. The others are more like jokes, like playing with the papers, eating my laptop and so on ;)            My kitty, a Siamese with almost 5 months it’s growing up fast. She likes to play with everything she saw. She likes to kiss me when I’m waking up ;) And of course, she loves cats fight… my hands :      It was the best thing I have done in this past time… bring this wonderful kitty! Let’s see some more pictures…      ",
      "url": " /animals-misa-003/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "Animals"
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      "slug": "p36510-day006-6th-january-2010",
      "title": "P365/10 - Day006 (6th January 2010)",
      "content"	 : "A pencil sharpener! An important tool for everyone, everyday! Be wrong it’s human nature, delete things, remove things, erase things it’s common and… nothing better that a good sharped pencil to start hover again… Our projects, our photography ideas, our design, our texts… our math, physics and so on…. they will run better if it a pencil sharpener in their side!Ok, today I have done a double post here. I have been busy installing software on this machine and, I’m start liking Windows 7… for now, it’s much better than Windows Vista (ughhh). I installed Linux too and for the first time I will give a try on Ubuntu. I’m not a user friendly guy, but ok, I have to confess, the installation it’s pretty easy comparing with other distributions which I use like Arch Linux. But… ahhhhh… where is Xorg.conf?? I have another laptop here with an ATI graphics cards and it works well with my custom Xorg.conf! In the first time I create the xorg.conf on this Ubuntu installation (because my graphic card and the 1440x900 monitor resolution) I totally confuse myself with the Xserver!I have done an update to my Belkin router. It’s a F5D7230-4 6000 series model and it was with the v8.01.07 firmware. It was giving me problems with the wireless… sometimes it didn’t work well and it give me a awful delay on all connections. I only have the opportunity to verify this problem on this Windows machine because the other one (with Linux) is wired. Now I have the last firmware v8.01.21 and until now, no problems.For a day of installation, it’s was a day of trying new versions of software, like Adobe Lightroom 3 Beta (this photo was processed in this version). The installation it’s pretty fast and the cold boot too, much different from the last version (LT 2). I like the new interface to import data, it doesn’t have the three confusing menus “Import from…” and now it has only a very friendly “Import…”. It is faster but it’s still a beta version and for that it’s reasonable to have some buggy things. In the first time I try to Develop a photo it’s simply give me an error without explanation. I reboot the program and it’s gone. Another thing, it’s a little confusing to have the Library and only have the changes on Develop or, for now, I couldn’t find anything to apply… only the option Export and “Put in Catalog”. I have try the Flickr Upload on Adobe LT and it works good. All things on the right place.A plugin to update to a blog should be really nice too…Regards,Daniel Bento",
      "url": " /p36510-day006-6th-january-2010/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "P365/10"
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      "slug": "p36510-day005-5th-january-2010",
      "title": "P365/10 - Day005 (5th January 2010)",
      "content"	 : "Yesterday I been backing up all my laptop data and, because of that I only have done an update to the Flickr gallery. Do backups it’s a tedious job… we cannot leave anything behindAfter using Windows Vista on my parents laptop I decided to give a look on Windows 7. I only installed it today morning. I only stopped making backups at midnight and after that I decided to watch a little TV to rest.Today I will continue my battle, installing software… Again and again. And in the end of the day, I will submit the 6th photo of the p365 project ;)Regards,Daniel Bento",
      "url": " /p36510-day005-5th-january-2010/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "P365/10"
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      "slug": "p36510-day004-4th-january-2010",
      "title": "P365/10 - Day004 (4th January 2010)",
      "content"	 : "My fourth picture. It’s more books… and yes… a messy. I don’t have any shelfs to put things in order. My office will stay empty for a while and for that I have all the stuff in the floor. This is a mini library with some interesting stuff and some school books.In this mini library I have books Physics, Mathematics, Network, Internet, Programming, Psychology and some others… I like so much stuff. I want to put there some more books about biology, neurology, electronics and, of course… some photography books :) Actually, it’s kinda sad “to be a photographer” and don’t any photography book. I will have that day!Today, I’m resting a little. A took the day off to do another things like cleaning and play with the kitty. I had started to program too, an C application to generate sparse matrix. It’s funny. I want to go outside and take some shoots, but my imagination is empty… and I want to do different stuff. Builds, grass, water, gardens we see a lot… I want to create! :) That’s my thought for 2010! Create and Innovate!Regards,Daniel Bento",
      "url": " /p36510-day004-4th-january-2010/",
      "author": "danifbento",
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      "slug": "p36510-day003-3rd-january-2010",
      "title": "P365/10 - Day003 (3rd January 2010)",
      "content"	 : "Hello! Let’s post one more picture! The picture of the day! I woke up and pass my all day working on these numerical works! Ok, the funniest thing it’s that I’m learning a lot, much more now that in the classes! This is a picture of the book that I’m currently using, “Calculo Cientifico com Matlab e Octave”, I don’t like it very much but… for now, I don’t have another.Gah, it’s real! It was my worst report I ever made for school! It’s incomplete, another things I didn’t know what to do and so on… It’s horrible when it is no information about the works and in one day they tell you to do it for two days after. Basically, we all had the information “you have to build a work for the evaluation”… and I asked myself… a work about what? In the beginning it has been rumors of a simulation program… I start an idea to resolve three body problem and simulate orbital positions. After that, another rumor says that after all, we need to do 3 works! We ask to the teacher… and… no great full answer… as result… I’m a worker student, I miss some information and puff… I lost the opportunity.It’s was a painful work… a disappointing one!Regards,Daniel",
      "url": " /p36510-day003-3rd-january-2010/",
      "author": "danifbento",
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      "slug": "p36510-day-002-2-january-2010",
      "title": "P365/10 - Day 002 (2nd January 2010)",
      "content"	 : "This month I adopted a new theme “Work and Studies”. After thinking a little and after the first photo be the fireworks with hope of a better year, I believe that will be also nice to show a little about work and studies,  it’s a little different theme.This month is the evaluation exam’s period. I will have some to do and some works to give. Today I was working on Numerical Analysis (I will blog later about some algorithms). To be frank, it hasn’t been so good because I didn’t know that the finish day is Monday until two days ago.Currently I’m working with Octave, the OpenSource version of Matlab. I’m using Matlab for some more detailed information and help. For an unknown reason (or not…) I prefer to work on Linux version of Octave, but currently I have no time and I’m currently using the Windows Version. The Matlab software has a good editor, debugger… a thing that lacks on Octave and make me slow down a little because using an external editor, keep files in the place, no dev help.I’m having a little problems with Non-Linear Differencial Equations because… oh damn… the plots are always giving me something “apparently” equal… and that is boring!Ok, that was my today photo… wait for the next one! Maybe a graph :PSee ya!Daniel Bento",
      "url": " /p36510-day-002-2-january-2010/",
      "author": "danifbento",
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      "slug": "p36510-day-001-1st-january-2010",
      "title": "P365/10 - Day 001 (1st January 2010)",
      "content"	 : "I introduce my P365/10 Project with a photo taken some minutes after the midnight. Ok, to be true I wanted to put the very first photography of the year, taken at 00:01 (Machine Clock) but the result was so bad that I have shame to put it here :PIt was raining and because of that, it’s possible to see marks of the water on the lens. After seeing the results of this night shoot I found myself disappointed because the celebration of the New Year in 2009 was much intense and the photographic results much better, even without much experience with a DSLR camera. With the lack of fire, most photos only have small portions of light and no smoke. In the last year I found wonderful pictures with smoke and strong lightness. For a fireworks like this, is more comfortable to shoot with a tripod and try to take only good pictures of a frame. It’s difficult to catch interesting pictures in movement. Ok, but at the moment I don’t have a tripod… my last one broke.During the night, until the midnight I was looking for some other photos and I took some good results of a water Vulcan. Using trash bin and other supports like this, I took some small panoramas of the Tagus River.After the fireworks, my cards was full and because drunk people I prefer to go home in that moment.Well, wait for tomorrow photo ;)I’m thinking yet if I will do a month theme or not.",
      "url": " /p36510-day-001-1st-january-2010/",
      "author": "danifbento",
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      "slug": "the-p36510-project",
      "title": "The P365/10 project!",
      "content"	 : "Well, in this new year (2010) I will start my first 365 photo project. It will be call P365/10.The objective of this project is to post a photography everyday of the year… improving our skills and showing our creativity!I hope that 1st January 2010 rocks with a good photo post! :DAnd, hey! I want to follow your Project365 too! Give me the links!Regards,Daniel Bento",
      "url": " /the-p36510-project/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "P365/10"
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      "title": "HDR - Centro Cultural de Belém",
      "content"	 : "Bem, esta foi mais uma imagem que consegui aproveitar da minha saída no outro dia até aos Jerónimos. Não está particularmente interessante, mas vale sempre a pena praticar. Durante o pós processamento da fotografia em HDR, obtive alguns resultados melhores, mas eram estranhos… that feeling… preferi não usar!",
      "url": " /hdr-centro-cultural-de-belem/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "HDR"
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      "slug": "animals-misa-002",
      "title": "Animals - Misa #002",
      "content"	 : "Aqui está a minha gatinha novamente :P Cada vez mais bonitinha e mais fotogénica :)Está a ficar cada vez mais brincalhonha e carinhosa ao mesmo tempo. Adora devorar sacos e dormir debaixo dos lençois quando saio de casa…",
      "url": " /animals-misa-002/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "Animals"
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      "slug": "primeira-fase-concluida",
      "title": "ClimaPlus - Primeira Fase Concluída",
      "content"	 : "Durante o mês de Dezembro (2009) estive a desenvolver um site para a empresa ClimaPlus (ClimaPlus - Aquecimento e Ar Condicionado). A ideia era simples, conseguir mostrar algumas das coisas que a empresa tem para oferecer sem que, para isso, chegasse muito texto ao utilizador. Deste modo, este foi minimizado, de modo a, ter só o necessário e providenciar o necessário para os contactos e outras utilidades.A ClimaPlus, sendo uma empresa comercial, é a primeira na minha lista de projectos do género. A ideia foi seguir uma linha simples, menus directos e sem grandes confusões, dado que, os artigos que estão expostos no site são talvez, os mais importantes. Deste modo, a ClimaPlus oferece um leque maior de opções e serviços, sendo este website uma abordagem ao que o mercado web pode dar.Apesar do projecto ter corrido bem de alguma forma, reparei que ainda tenho algumas lacunas a corrigir. Seja em termos de design ou de abordagem da programação.Algo que com a prática se vai preenchendo :)",
      "url": " /primeira-fase-concluida/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "ClimaPlus"
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      "slug": "gerar-conjuntos-de-numeros-aleatorios",
      "title": "Gerar Conjuntos de Números Aleatórios",
      "content"	 : "Olá, desta vez escrevo aqui sobre um tema um pouco diferente, Programação.Ontem, a propósito de um exercício para um amigo meu, aproveitei para fazer umas experiências em C, dado que há algum tempo que não programo nesta linguagem.O problema é o seguinte:  Desenvolver uma aplicação que dado um número n, devolva um conjunto de cardinalidade n (#n) em que os elementos são números de 1 até n, sem repetição.Exemplo:input&amp;gt; 10output&amp;gt; 2 9 10 3 8 1 6 7 5 4Existe várias abordagens para este problema, umas mais complexas e, mais eficientes. Outras mais simples e menos eficientes e, até outras, em que o custo de eficiência é justificável.Para o desenvolvimento em C, optei por duas vertentes. Usar um algoritmo “lento”, mas simples de entender e, um algoritmo mais “complexo”, mas bem mais rápido a fazer o processo.Começaremos pelo primeiro:Abordagem Simples - Ciclos + ComparaçõesIdeia:      Supondo um número n        Gera-se um array C        _Para cada posição de n: _                  Gerar número aleatório a                    Verificar se o número existe em C                    Existe? Repete o passo;                    Senão? Adiciona o valor a a C            A implementação deste algoritmo em C é extremamente simples:​​ #include #include #include #include int main(int argc, char **argv){int i;int n = 0;int j;int a;int numbersLength = 0;int *numbers;short int repete;/* Converte o numero introduzido em string num numero inteiro */n = (int) strtol(argv[1], NULL,10);/* Aloca o espaco para os n numeros que vao ser posicionados */numbers = (int *) calloc(n,sizeof(int))srand(time(NULL));​ for (i=0;i&amp;lt;n;i++){repete = 0;a = rand()%n+1;/_ Verifica a existencia de uma repeticao _/for (j=0; j &amp;lt; numbersLength; j++){if (a == numbers[j]){repete = 1;break;}}if (repete == 0){numbers[i] = a;numbersLength++;}else {i–;}}return 0;}Compilado com: gcc -Wall -pedantic -ansi -o output input.cOra bem, mas depois de ver esta abordagem. Decidi que seria interessante pegar numa nova… mais complexa, mas mais rápida.Abordagem Complexa - ListasIdeia:      Gerar uma lista com n elementos, cada um correspondente a um número x no intervalo [0,n] inteiros        Gerar um array C **com **n elementos que, vão suportar a nova ordenação        Para cada posição de C gerar um número aleatório a **no **intervalo [0,n]                  Obter o valor correspondente ao nodo a na lista e colocar na posição em C                    Eliminar o nodo correspondente a a **e diminuir o **valor de n em um            A implementação, é agora, um pouco mais complexa, dado que estamos a trabalhar com listas… ainda assim torna-se simples de entender:​​ #include #include #include #include typedef struct node{int value;struct node *next_node;} Node;struct node * putNode(struct node *curnode,int value){struct node *newnode;newnode = (struct node *) calloc(1,sizeof(struct node));newnode-&amp;gt;value = value;curnode-&amp;gt;next_node = newnode;return newnode;}void deleteNode(struct node *topnode,int value){struct node *curnode = topnode,*nextnode;int deleted = 0;if (curnode == NULL) return;if (curnode-&amp;gt;next_node == NULL &amp;amp;&amp;amp; curnode-&amp;gt;value == value) {curnode = NULL;return;}while(deleted != 1 || curnode != NULL){nextnode = curnode-&amp;gt;next_node;if (nextnode == NULL) return;if (nextnode-&amp;gt;value == value){curnode-&amp;gt;next_node = nextnode-&amp;gt;next_node;free(nextnode);deleted = 1;}curnode = curnode-&amp;gt;next_node;}}struct node * getNode(struct node *topnode,int pos){struct node *curnode = topnode;int j;for (j=0;j&amp;lt;pos;j++){if (curnode-&amp;gt;next_node != NULL)curnode = curnode-&amp;gt;next_node;elsecurnode = topnode;}return curnode;}int main(int argc, char **argv){int n;int i;int *numbers;int a,total;struct node *topnode,*curnode;n = (int) strtol(argv[1],NULL,10);numbers = (int *) calloc(n,sizeof(int));topnode = (struct node *) calloc(1,sizeof(struct node));topnode-&amp;gt;value = 1;curnode = topnode;for (i = 2; i &amp;lt;= n; i++){curnode = putNode(curnode,i);}curnode = topnode;srand(time(NULL));total = n;for (i=0;i&amp;lt;n;i++){a = rand()%total;total--;curnode = getNode(topnode,a);numbers[i] = curnode-&amp;gt;value;deleteNode(topnode,curnode-&amp;gt;value);}return 0;}​Apesar desta última também não ser a melhor abordagem. Dado que para o arranque do programa é necessário alocar memória para o dobro de números que se querem introduzir. É possível melhorar através de várias técnicas que proponho:      Usar as propriedades das listas para “marcar” um caminho aleatório, de modo a que seja possível seguir o caminho aleatório na lista e ter-se-á os números        Criar uma segunda lista que irá crescendo à medida que a primeira decresce        Experimentar também noutras linguagens  Para todo o caso, a diferença é notável, principalmente quando se aumenta n para valores grandes, exemplo:  Para 1000 números:omega% time ./randomSet_Simple 1000./randomSet_Simple 1000  0.02s **user 0.00s system 95% cpu 0.024 totalomega% time ./randomSet_Stack 1000./randomSet_Stack 1000  0.01s** user 0.00s system 100% cpu 0.007 totalPara 10000 números:omega% time ./randomSet_Simple 10000./randomSet_Simple 10000  3.97s user 0.00s system 99% cpu 3.974 totalomega% time ./randomSet_Stack 10000./randomSet_Stack 10000  0.67s user 0.00s system 99% cpu 0.670 totalPara 30000 números:omega% time ./randomSet_Simple 30000./randomSet_Simple 30000  30.62s user 0.00s system 99% cpu 30.647 totalomega% time ./randomSet_Stack 30000./randomSet_Stack 30000  6.04s user 0.00s system 99% cpu 6.043 totalÉ interessante ver estes números e de facto, tenho curisosidade para compreender mais métodos de interpretar esta simples ideia.",
      "url": " /gerar-conjuntos-de-numeros-aleatorios/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "C/C++/C#"
    }
    
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    "294": {
      "id": "294",
      "slug": "hdr-torre-do-relogio-queluz",
      "title": "HDR - Torre do Relógio, Queluz",
      "content"	 : "Ontem, dia 23, foi um dia um pouco triste para mim, sem grande motivação… felizmente, fui incentivado a ir tirar umas fotos. Para dizer verdade, não gostei da maioria dos resultados, mas esta, até me agradou. Como tal, decidi partilhá-la aqui. Usei a técnica que tenho usado nas anteriores, 3 exposições em intervalos de 2EV (-2.0, 0, 2.0 ) respectivamente. Não sei porquê, tenho tendência a fazer as fotografias parecer sombrias. Na realidade, hei-de experimentar a ideia para fazer um trabalho de fotomanipulação…E pronto… é este o resultado de um dia de pouca criatividade…",
      "url": " /hdr-torre-do-relogio-queluz/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "HDR"
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      "slug": "hdr-jeronimos",
      "title": "Fotografia - HDR Jerónimos",
      "content"	 : "Conjunto de fotos tiradas junto aos Mosteiro dos Jerónimos e junto ao Padrão dos Descobrimentos. Foi uma bela tarde, um passeio pequeno mas que valeu alguns bons resultados enquanto pratico este tipo de fotografia.",
      "url": " /hdr-jeronimos/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "Fotografia"
    }
    
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    "296": {
      "id": "296",
      "slug": "animals-misa-001",
      "title": "Fotografia - Misa #001",
      "content"	 : "Foto tirada à minha gata, durante uma pequena sessão fotográfica em casa, enquanto brincavamos com a bolinha dela. Esta gata tem pouco mais de um mês e tem sido uma alegria aqui por casa… desde morder tudo… incluindo eu… até dormir até não poder mais em frente ao aquecedor!",
      "url": " /animals-misa-001/",
      "author": "danifbento",
      "categories": "Fotografia"
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